Gênero, sexualidade e interseccionalidade: desigualdades, trabalho e violência - Sociologia | Tuco-Tuco
Aula de Sociologia (Estratificação Social e Desigualdades: classe, mobilidade, raça, gênero e políticas públicas): Gênero, sexualidade e interseccionalidade: desigualdades, trabalho e violência. Gênero como construção social; divisão sexual do trabalho; trabalho doméstico e cuidado; desigualdade salarial e teto de vidro; violência de gênero. Interseccionalidade (gênero, raça e classe). Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Gênero, sexualidade e interseccionalidade: desigualdades, trabalho e violência
Introdução: gênero como categoria sociológica
Quando falamos em diferenças entre homens e mulheres, é comum que se recorra a explicações biológicas: hormônios, cromossomos, diferenças físicas justificariam comportamentos, papéis sociais e desigualdades. A Sociologia, no entanto, nos ensina a desconfiar dessas explicações naturalizantes. Embora existam diferenças biológicas entre os sexos, a maior parte do que associamos ao “masculino” e ao “feminino” é socialmente construída – e é isso que chamamos de gênero.
Gênero é um conceito que se refere à construção social das diferenças entre os sexos. Não se trata de negar a biologia, mas de mostrar que as características, comportamentos, papéis e expectativas atribuídos a homens e mulheres variam enormemente entre culturas e ao longo da história, o que indica que não são determinados pela natureza, mas sim por processos sociais. Como afirma a historiadora Joan Scott, “o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos”.
Compreender gênero é fundamental para analisar as desigualdades que estruturam a sociedade: as mulheres ganham menos que os homens, mesmo quando têm a mesma escolaridade; são minoria nos cargos de chefia; realizam a maior parte do trabalho doméstico não remunerado; são as principais vítimas de violência doméstica e sexual. Essas desigualdades não são fruto de escolhas individuais, mas de um sistema de poder que organiza a vida social em torno de hierarquias de gênero.
Nesta aula, vamos explorar o conceito de gênero, a divisão sexual do trabalho, as desigualdades no mercado de trabalho, a violência de gênero, e a articulação entre gênero, raça e classe – a interseccionalidade.
Gênero: construção social e performance
2.1 Diferença entre sexo e gênero
Uma distinção fundamental na teoria feminista e sociológica é entre sexo e gênero:
Sexo refere-se às características biológicas (cromossômicas, hormonais, anatômicas) que distinguem corpos masculinos e femininos (e também intersexo).
Gênero refere-se às construções sociais, culturais e psicológicas que, a partir dessas diferenças biológicas, definem o que é “ser homem” e “ser mulher” em cada sociedade: comportamentos, papéis, valores, expectativas, formas de se vestir, de falar, de sentir.
Enquanto o sexo é (geralmente) binário e relativamente fixo, o gênero é variável e passível de transformação. Em diferentes épocas e lugares, o que significa ser homem ou mulher pode ser muito diferente. Por exemplo, o uso de saias já foi comum para homens em muitas culturas; a ideia de que homens não choram é uma construção cultural recente e não universal.
2.2 A socialização de gênero
Como aprendemos a ser homens e mulheres? Por meio da socialização de gênero, um processo que começa ao nascer (ou antes, com a descoberta do sexo do bebê) e se estende por toda a vida. A família, a escola, a mídia, os grupos de pares, a religião – todos esses agentes transmitem, explícita ou implicitamente, o que é esperado de meninos e meninas.
Exemplos de socialização de gênero:
Bebês: meninas ganham roupas cor-de-rosa, meninos azuis; brinquedos: bonecas para meninas, carrinhos e armas para meninos.
Na infância: meninas são incentivadas à delicadeza, à obediência, ao cuidado; meninos à atividade, à coragem, à competitividade.
Na escola: professores podem elogiar meninas pela capricho e meninos pela inteligência; livros didáticos frequentemente reproduzem estereótipos (mulheres em atividades domésticas, homens em profissões de prestígio).
Na mídia: novelas, filmes, propagandas, músicas, videoclipes – todos veiculam imagens do que é ser “feminino” e “masculino”.
Na adolescência: a sexualidade é fortemente regulada: meninos são incentivados à iniciação sexual precoce ( “garanhões”), meninas são cobradas pela “pureza” e vigiadas em seus comportamentos.
Essa socialização produz sujeitos generificados, que internalizam as normas de gênero a ponto de considerá-las “naturais”. O sociólogo Pierre Bourdieu chama isso de habitus: disposições incorporadas que orientam nossas práticas sem que precisemos pensar sobre elas.
2.3 Gênero como performance (Judith Butler)
A filósofa Judith Butler radicaliza a crítica à naturalização do gênero ao propor que o gênero não é uma essência ou uma identidade fixa, mas sim uma performance, uma atuação reiterada de gestos, comportamentos, vestimentas que criam a ilusão de um “eu” generificado. Não há um “ser” homem ou mulher por trás da performance; a performance é que produz a identidade.
Butler também questiona a heterossexualidade como norma (heteronormatividade), mostrando que ela é uma construção social que naturaliza a atração entre sexos opostos e marginaliza outras formas de desejo.
2.4 Masculinidades
Os estudos de gênero não se limitam às mulheres. A masculinidade também é uma construção social. Há múltiplas formas de ser homem (masculinidades), hierarquizadas entre si. A masculinidade hegemônica é o modelo dominante, associado à força, à competitividade, à heterossexualidade, à racionalidade, à provedoria. Esse modelo oprime não apenas as mulheres, mas também homens que não se encaixam nele (homens homossexuais, afeminados, sensíveis, etc.).
Sexualidade: construção social e diversidade
3.1 Sexualidade como construção social
Assim como o gênero, a sexualidade é socialmente construída. As formas de vivenciar o desejo, as práticas sexuais, as identidades sexuais, o que é considerado “normal” ou “pervertido” – tudo isso varia no tempo e no espaço. A história mostra que a homossexualidade, por exemplo, já foi aceita em certas culturas (Grécia antiga) e condenada em outras; a própria categoria “homossexual” é recente (século XIX).
A sociologia da sexualidade investiga como as sociedades regulam os corpos e os prazeres, estabelecendo normas, tabus e hierarquias. A heteronormatividade é o regime que toma a heterossexualidade como norma natural e universal, marginalizando outras formas de expressão sexual.
3.2 Identidades sexuais e de gênero
É importante distinguir:
Orientação sexual: padrão de atração afetivo-sexual por pessoas do mesmo gênero (homossexualidade), de gênero diferente (heterossexualidade), de ambos (bissexualidade), ou ausência de atração (assexualidade).
Identidade de gênero: a percepção íntima que uma pessoa tem de si mesma como homem, mulher, uma combinação de ambos ou nenhum. Pode coincidir com o sexo atribuído ao nascer (cisgênero) ou não (transgênero).
Expressão de gênero: a forma como a pessoa manifesta seu gênero por meio de roupas, comportamentos, linguagem, etc.
A diversidade sexual e de gênero inclui lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queer, intersexo, assexuais e outras identidades (daí a sigla LGBTQIA+).
3.3 Homofobia e transfobia
A homofobia é a discriminação, o preconceito ou a violência contra pessoas homossexuais ou bissexuais. A transfobia é a discriminação contra pessoas trans (travestis, transexuais). Ambas são formas de violência que têm efeitos devastadores na vida das pessoas: exclusão do mercado de trabalho, dificuldade de acesso a serviços de saúde, violência física e psicológica, assassinatos. O Brasil é um dos países que mais mata pessoas trans no mundo.
Divisão sexual do trabalho e desigualdades no mercado de trabalho
4.1 O que é divisão sexual do trabalho?
Divisão sexual do trabalho é a distribuição desigual de tarefas, funções e ocupações com base no gênero. Ela se manifesta em dois níveis:
Na esfera doméstica: as mulheres são historicamente responsabilizadas pelo trabalho de cuidado (cuidar dos filhos, idosos, doentes), pelas tarefas domésticas (limpeza, cozinha, lavar roupa), pelo apoio emocional. Esse trabalho é essencial para a reprodução social, mas é invisível, não remunerado e desvalorizado.
Na esfera produtiva (mercado de trabalho): há uma segregação ocupacional: as mulheres estão concentradas em certas áreas (educação, saúde, serviços domésticos, comércio) e sub-representadas em outras (engenharia, tecnologia, cargos de chefia). As ocupações femininas são, em geral, pior remuneradas e têm menor prestígio.
4.2 Trabalho doméstico e de cuidado
O trabalho doméstico e de cuidado é realizado majoritariamente por mulheres. Segundo o IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam apenas 11 horas. Essa dupla jornada (trabalho remunerado + trabalho doméstico) é uma das principais fontes de desigualdade de gênero, pois reduz o tempo disponível das mulheres para estudo, lazer, descanso e participação política.
Além disso, o trabalho doméstico remunerado (empregadas domésticas, diaristas) é uma das ocupações mais precarizadas e mal remuneradas, exercida majoritariamente por mulheres negras. A PEC das Domésticas (2013) estendeu direitos trabalhistas a essa categoria, mas a informalidade ainda é alta.
4.3 Desigualdade salarial e teto de vidro
Mesmo quando têm a mesma escolaridade e ocupam a mesma função, as mulheres ganham menos que os homens. O diferencial salarial de gênero persiste em praticamente todos os países. No Brasil, segundo o IBGE, as mulheres ganham cerca de 20% menos que os homens, em média. Entre mulheres negras, a diferença é ainda maior.
O teto de vidro (glass ceiling) é uma metáfora para as barreiras invisíveis que impedem as mulheres de alcançar os cargos mais altos nas organizações. Mesmo em setores majoritariamente femininos, os cargos de chefia são ocupados por homens. Fatores como a dupla jornada, o preconceito, a falta de redes de contato e a cultura organizacional machista contribuem para esse fenômeno.
4.4 Assédio e discriminação no trabalho
O assédio sexual e moral no ambiente de trabalho é uma realidade para muitas mulheres. O assédio sexual é crime (art. 216-A do Código Penal) e consiste em constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual. O assédio moral é a exposição a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas. Ambos têm efeitos devastadores na saúde mental e na carreira das vítimas.
Violência de gênero
5.1 Tipos de violência
A violência de gênero é aquela cometida contra alguém em razão de seu gênero. Embora atinja também homens, as principais vítimas são mulheres e pessoas LGBTQIA+. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) define cinco formas de violência doméstica e familiar contra a mulher:
Violência física: qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal (espancamento, empurrões, queimaduras, etc.).
Violência psicológica: qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima, humilhação, manipulação, isolamento (ameaças, humilhações, vigilância constante).
Violência sexual: qualquer conduta que constranja a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, ou que limite ou anule o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos (estupro, obrigar a ver pornografia, impedir o uso de métodos contraceptivos).
Violência patrimonial: qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens e valores.
Violência moral: qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
5.2 Feminicídio
O feminicídio é o assassinato de mulheres em razão do gênero, ou seja, por serem mulheres. A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) incluiu essa qualificadora no Código Penal, reconhecendo que os assassinatos de mulheres têm causas e dinâmicas específicas (violência doméstica, menosprezo à condição feminina) e merecem tratamento penal mais severo.
O Brasil tem altas taxas de feminicídio. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é assassinada a cada duas horas no país, e a maioria dos casos ocorre dentro de casa, cometidos por parceiros ou ex-parceiros.
5.3 Ciclo da violência doméstica
A violência doméstica costuma seguir um ciclo com três fases:
Acumulação de tensão: pequenos conflitos, insultos, humilhações, ciúmes. A mulher tenta apaziguar, evitar a “explosão”.
Ato de violência: a tensão explode em agressão física, psicológica ou sexual.
Lua de mel: o agressor se arrepende, pede desculpas, promete mudar, faz juras de amor. A mulher acredita e volta para ele. Com o tempo, a fase de lua de mel encurta e a violência se intensifica.
Esse ciclo dificulta a denúncia e a saída da relação violenta, especialmente quando há dependência econômica, emocional ou medo.
5.4 Redes de apoio e políticas de enfrentamento
A Lei Maria da Penha criou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica: medidas protetivas de urgência, delegacias especializadas (Deam), casas-abrigo, juizados de violência doméstica. No entanto, a implementação ainda é desigual e insuficiente. O Estado precisa garantir o funcionamento adequado desses serviços, além de investir em educação, campanhas de conscientização e atendimento aos agressores.
Interseccionalidade: quando as opressões se cruzam
6.1 O conceito de interseccionalidade
Interseccionalidade é um conceito cunhado pela jurista e professora de direito negra norte-americana Kimberlé Crenshaw para dar conta da forma como diferentes sistemas de opressão (racismo, sexismo, classismo, LGBTfobia) se interrelacionam, produzindo experiências específicas e múltiplas discriminações.
Uma mulher negra, por exemplo, não sofre apenas a opressão de gênero ou apenas a opressão racial; ela sofre as duas simultaneamente, de forma que sua experiência é qualitativamente diferente da de uma mulher branca ou de um homem negro. A interseccionalidade permite analisar como as desigualdades se acumulam e se combinam.
6.2 Exemplos de interseccionalidade
Mercado de trabalho: uma mulher negra ganha menos que uma mulher branca, que ganha menos que um homem negro, que ganha menos que um homem branco. A combinação de racismo e sexismo produz um gradiente de desigualdade.
Violência: mulheres negras são mais vítimas de violência doméstica, têm menos acesso a serviços de proteção, e são assassinadas em maior proporção do que mulheres brancas. O feminicídio de mulheres negras é mais invisibilizado.
Saúde: mulheres negras têm pior acesso a serviços de saúde, maior mortalidade materna, menor acesso a tratamentos de reprodução assistida.
Representação política: a sub-representação é ainda mais acentuada para mulheres negras, que são quase invisíveis nos espaços de poder.
6.3 Interseccionalidade e feminismo
O conceito de interseccionalidade também é uma crítica ao feminismo hegemônico, que frequentemente universalizou a experiência da mulher branca de classe média, ignorando as especificidades das mulheres negras, indígenas, pobres, lésbicas, trans. O feminismo negro e o feminismo decolonial têm sido fundamentais para trazer à tona essas vozes e construir um movimento mais inclusivo.
Movimentos feministas e LGBTQIA+
7.1 Ondas do feminismo
O movimento feminista é geralmente periodizado em “ondas”:
Primeira onda (século XIX e início do XX): foco no sufrágio universal (direito ao voto) e na igualdade de direitos civis. Sufragistas.
Segunda onda (décadas de 1960-70): “o pessoal é político”. Ampliação do debate para questões como sexualidade, trabalho doméstico, violência, direitos reprodutivos. Autoras como Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo), Betty Friedan (A Mística Feminina).
Terceira onda (décadas de 1990-2000): ênfase na diversidade, nas diferenças entre mulheres, na interseccionalidade. Crítica ao feminismo branco e heteronormativo. Incorporação das pautas de mulheres negras, lésbicas, trans.
Quarta onda (atual): uso das redes sociais para mobilização ( #MeToo, #NiUnaMenos ), combate à cultura do estupro, empoderamento feminino, visibilidade trans, descriminalização do aborto.
7.2 Movimento LGBTQIA+
O movimento LGBTQIA+ luta por direitos civis, combate à discriminação, visibilidade e reconhecimento. Conquistas importantes no Brasil incluem:
Reconhecimento da união estável homoafetiva pelo STF (2011).
Criminalização da homofobia e transfobia pelo STF (2019), que decidiu que a omissão do poder público em criminalizar configura crime de racismo (ADPF 403). A criminalização efetiva foi implementada com a Lei 14.532/2023.
Direito à retificação de nome e gênero no registro civil sem necessidade de cirurgia ou autorização judicial: decisão do STF em 2018 (ADI 4275), regulamentada pelo CNJ em 2019 (Resolução 175).
Apesar desses avanços, a violência contra a população LGBTQIA+ persiste em níveis alarmantes. O Brasil lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans no mundo.
Como o ENEM aborda o tema
As questões sobre gênero e sexualidade no ENEM geralmente envolvem:
Interpretação de gráficos e tabelas sobre desigualdade salarial, divisão do trabalho doméstico, violência contra a mulher, etc.
Análise de textos e charges que abordam estereótipos de gênero, machismo, homofobia, feminismo.
Contextualização histórica: luta pelo voto feminino, conquistas legais (Lei Maria da Penha), movimento feminista.
Debates contemporâneos: cotas de gênero na política, assédio sexual, direitos LGBT, legalização do aborto.
Interseccionalidade: questões que mostram como gênero, raça e classe se combinam para produzir desigualdades específicas.
Dicas para acertar:
Lembre-se de que gênero é construção social, não biologia.
Distinga sexo, gênero, orientação sexual e identidade de gênero.
Conheça os principais indicadores de desigualdade de gênero no Brasil.
Entenda o conceito de interseccionalidade e como ele se aplica.
Relacione a questão de gênero a outros temas: trabalho, violência, política, saúde.
Desconfie de alternativas que naturalizam as diferenças ou que atribuem as desigualdades a “escolhas individuais”.
Conclusão: gênero como questão de justiça social
As desigualdades de gênero não são um “tema menor” na Sociologia; elas são estruturais e estruturam toda a vida social. Afetam o trabalho, a família, a política, a violência, a saúde, a cultura. Combatê-las exige transformações profundas: na divisão do trabalho, nas instituições, nas mentalidades, nas leis.
A perspectiva de gênero, articulada à interseccionalidade, permite enxergar como diferentes formas de opressão se entrelaçam e produzem experiências específicas. Não se trata de competição entre vítimas, mas de compreender a complexidade do mundo social para construir alianças e lutas comuns.
A Sociologia, ao desnaturalizar as hierarquias de gênero e expor os mecanismos de sua reprodução, oferece ferramentas indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa, onde todas as pessoas possam viver livremente, sem serem limitadas por expectativas de gênero ou por violências.
Nas próximas aulas, vamos estudar o Estado, a cidadania, os movimentos sociais e as transformações políticas contemporâneas.
Exercícios:
Contexto: A neozelandesa Laurel Hubbard fez história nos Jogos Olimpicos. Apesar de ter ficado de fora da disputa por medalhas, a levantadora de peso deixou sua marca na edição de Tóquio por ser a primeira mulher abertamente transgênero a participar de uma competição olímpica. No início da carreira, na década de 1990, a neozelandesa participava de disputas na categoria masculina. Em 2001, aos 23 anos, ela se afastou da atividade. “A pressão de tentar me encaixar em um mundo que talvez não tenha sido feito para pessoas como eu se tornou um fardo muito grande para suportar.” Em 2012, Laurel começou sua transição de gênero por meio de terapias hormonais e, em 2013, declarou abertamente ser uma mulher trans. Para o Comitê Olímpico Internacional, a participação de mulheres trans nos Jogos é permitida caso o nível de testosterona, hormônio que aumenta a massa muscular, esteja abaixo de 10 nanomols por litro por pelo menos 12 meses.
Disponivel em: https://revistagalileu.globo.com Acesso em: 18 nov. 2021 (adaptado).
No texto, os limites do potencial inclusivo do esporte são dados pela
Se um texto mostra que mulheres negras recebem menores salários e sofrem maior precariedade que homens brancos e mulheres brancas, a melhor leitura é:
Contexto: TEXTO I
Zapeei os canais, como há dezenas de anos faço, e pá: parei num que exibia um episódio daquela velha família do futuro, Os Jetsons.
Nesse episódio em particular, a Jane Jetson, esposa do George, tratava de dirigir aquele veículo voador deles. Meu queixo foi caindo à medida que as piadinhas machistas sobre mulheres dirigirem foram se acumulando.
Impressionante! Que futuro careta aqueles roteiristas imaginavam! Seriam incapazes de projetar algo melhor, e não apenas em termos de tecnologias, robôs e carros voadores? Será que nossa máxima visão de futuro só atinge as coisas, e jamais as pessoas? Como a Jane, uma mulher de 33 anos no desenho, poderia ser o que foram as minhas bisavós?
O futuro, naquele desenho, se esqueceu de ser melhor nas relações entre as pessoas. Aliás… tão parecido com a vida.
Fiquei de cara, como dizemos aqui, ou como dizíamos na minha adolescência, pobre adolescência, aprendendo, sem querer e sem muita defesa, um futuro tão besta quanto o passado.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: www.rascunho.com.br. Acesso em: 21 out. 2021 (adaptado).
TEXTO II
Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um do outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo. Até pelo menos a segunda metade do século 19, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de quê? De visibilidade, diria Hannah Arendt. De visibilidade pública. Do que as mulheres estiveram privadas até o século 20 foi de presença pública manifesta não em imagem, mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social.
KHEL, M. R. Disponível em: https://alias.estadao.com.br. Acesso em: 19 out. 2021 (adaptado).
A representação da mulher apresentada no Texto I pode ser explicada pelo Texto II no que diz respeito à(às)
Contexto: Negar o pedido por dinheiro indispensável para necessidades pessoais ou comprar bens usando o nome da pessoa sem o consentimento dela. Ameaçar o corte de recursos dependendo de atitudes pessoais, esconder documentos ou trocar senhas do banco sem avisar. Ou, ainda, proibir a pessoa de trabalhar ou destruir seus pertences. As histórias são comuns, mas às vezes não são reconhecidas como abuso. Mas é uma das cinco formas de conduta contra a mulher previstas na Lei Maria da Penha.
LEWGOY. J. **Conduta quase invisível destrói a vida de mulheres**. Disponível em: https://valorinveste.globo.com. Acesso em: 23 out. 2021 (adaptado).
O texto apresenta tipos de conduta sujeitos a punição, conforme previsto na Lei Maria da Penha, porque consistem em formas de
Contexto: Nas reportagens publicadas sobre a inauguração de Museu de Arte de São Paulo, em 1947, quando ele ainda ocupava um edifício na rua Sete de Abril, Lina Bo Bardi não foi mencionada nenhuma vez. A arquiteta era responsável pelo projeto do museu que mudaria para sempre a posição de São Paulo no circuito mundial das artes. Mas não houve nenhum registro disso. O louvor se concentrou em seu marido e parceiro profissional, o respeitado crítico de arte Pietro Maria Bardi. Passados 75 anos, a mulher então ignorada recebeu um Leão de Ouro póstumo, a maior homenagem da Bienal de Arquitetura de Veneza, e tem agora sua história contada em duas biografias de peso, que procuram destrinchar uma carreira marcada pela ousadia e pela contradição.
PORTO, W. L**ina Bo Bardi tem sua arquitetura contraditória destrinchada em biografias**. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 10 nov. 2021 (adaptado).
As transformações pelas quais passaram as sociedades ocidentais e que possibilitaram o reconhecimento recente do trabalho da arquiteta mencionada no texto foram resultado das mobilizações sociais pela
Contexto: Elas foram as pioneiras dos direitos das mulheres no Afeganistão. Defensoras ferrenhas da lei, buscaram justiça para os mais marginalizados. Mas, agora, mais de 220 juízas afegãs estão escondidas por medo de retaliação sob o regime do Talibã. Uma delas condenou centenas de homens por violência contra as mulheres, incluindo estupro, assassinato e tortura. Mas poucos dias depois que o Talibã assumiu o controle de sua cidade e milhares de criminosos condenados foram libertados da prisão, as ameaças de morte começaram. O país sempre foi considerado um dos lugares mais difíceis e perigosos do mundo para as mulheres. De acordo com estudos de organizações não governamentais, cerca de 87% das mulheres e meninas serão vítimas de abuso durante a vida.
Disponível em: https://g1.globo.com. Acesso em: 12 out. 2021 (adaptado).
O texto evidencia situação representativa de
[ENEM 2022] Contexto: A conquista da medalha de prata por Rayssa Leal, no _skate street_ nos Jogos Olímpicos, é exemplo da representatividade feminina no esporte, avalia a âncora do jornal da rede de televisão da CNN. A apresentadora, que também anda de skate, celebrou a vitória da brasileira, que entrou para a história como a atleta mais nova a subir num pódio defendendo o Brasil. “Essa representatividade do esporte nos Jogos faz pensarmos que não temos que ficar nos encaixando em nenhum lugar. Posso gostar de passar notícia e, mesmo assim, gostar de skate, subir montanha, mergulhar, andar de bike, fazer yoga”. Temos que parar de ficar enquadrando as pessoas dentro das regras. A gente vive num padrão no qual a menina ganha boneca, mas por que também não fazer um esporte de aventura? Por que o homem pode se machucar, cair de joelhos, e a menina tem que estar sempre lindinha dentro de um padrão? Acabamos limitando os talentos das pessoas”, afirmou a jornalista, sobre a prática do skate por mulheres.
**Disponível em: www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 31 out. 2021 (adaptado).**
O discurso da jornalista traz questionamentos sobre a relação da conquista da skatista com a
Em uma empresa, mulheres são maioria na base, mas raras em cargos de direção, apesar de qualificadas. Isso sugere:
Uma análise sociológica da violência de gênero tende a enfatizar:
Uma campanha escolar que questiona “brinquedos de menino” e “brinquedos de menina” parte da ideia de que gênero:
Quando uma mulher reduz jornada remunerada para cuidar de familiares e isso limita sua progressão na carreira, o caso evidencia:
A Sociologia distingue os conceitos de "sexo" e "gênero" para desnaturalizar as desigualdades sociais. Segundo essa perspectiva, é correto afirmar que:
A filósofa Judith Butler radicalizou a crítica à naturalização das identidades sexuais ao formular o conceito de gênero como "performance". Para a autora, o gênero opera sociologicamente como:
Os estudos de gênero apontam que a construção social afeta intensamente também os homens, fenômeno analisado sob o conceito de "masculinidade hegemônica". Esse conceito revela que o modelo dominante de masculinidade na sociedade ocidental:
Estatísticas do mercado de trabalho revelam que mulheres, mesmo quando possuem escolaridade e especialização superiores às dos homens, ainda são franca minoria em diretorias corporativas de alto escalão. O conceito sociológico que nomeia essa barreira estrutural invisível é:
A "divisão sexual do trabalho" fundamenta grande parte das desigualdades de gênero nas sociedades capitalistas. Segundo a análise crítica desse fenômeno, a principal consequência imposta às mulheres pela atual estruturação da esfera doméstica é:
Dados consolidados sobre rendimentos indicam que uma mulher negra recebe uma remuneração média consideravelmente inferior à de uma mulher branca, que, por sua vez, ganha menos do que um homem negro. O marco teórico que elucida como diferentes eixos de opressão operam de modo integrado na sociedade é denominado:
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) representou um marco histórico no combate à violência de gênero no Brasil, rompendo com a visão restrita do senso comum. A lei inovou ao tipificar legalmente que a violência doméstica se manifesta pelas vias:
Muitas vezes o senso comum questiona o motivo pelo qual mulheres inseridas em relacionamentos abusivos demoram a denunciar seus agressores. Na sociologia e psicologia do gênero, o fenômeno que aprisiona a vítima por meio da alternância meticulosa de humilhação e recompensa afetiva é conhecido como o "ciclo da violência", composto pelas fases de:
Os historiadores e sociólogos costumam dividir a trajetória do movimento feminista em diferentes "ondas". Ao analisarmos a pauta política da chamada "Primeira Onda" do feminismo (entre o final do século XIX e início do século XX), destacam-se reivindicações voltadas essencialmente para:
Logo nos primeiros anos de vida, as meninas rotineiramente recebem bonecas, fogõezinhos e itens associados ao cuidado doméstico, enquanto os meninos ganham carrinhos e super-heróis que reforçam a coragem, a exploração e a ciência. Para a Sociologia, esse mecanismo de introjeção precoce de expectativas e normas é denominado: