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Cultura, etnocentrismo e relativismo: como interpretar diferenças e conflitos culturais - Sociologia | Tuco-Tuco

Aula de Sociologia (Cultura, Socialização e Identidade: normas, valores, mídia e diversidade): Cultura, etnocentrismo e relativismo: como interpretar diferenças e conflitos culturais. Conceitos de cultura, subcultura e contracultura. Etnocentrismo, relativismo cultural, difusão cultural, aculturação e hibridização. Cultura como poder simbólico. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.

Cultura, etnocentrismo e relativismo: como interpretar diferenças e conflitos culturais Introdução: a centralidade da cultura na vida social Quando pensamos em cultura, é comum associarmos o termo a manifestações artísticas, como música, teatro, dança, ou a conhecimentos valorizados socialmente, como “ter cultura” ou ser “culto”. Na Sociologia, no entanto, o conceito de cultura é muito mais amplo e fundamental. Cultura é o conjunto de valores, normas, crenças, símbolos, práticas e significados que são compartilhados por um grupo social e transmitidos de geração em geração. Ela é a lente através da qual enxergamos o mundo, o filtro que interpreta a realidade e orienta nossas ações. Sem cultura, não haveria sociedade. Os seres humanos não nascem prontos para viver em coletividade; eles precisam aprender, por meio da socialização, as regras, os códigos e os significados que tornam a vida em comum possível. A cultura é, portanto, uma dimensão constitutiva da existência humana, tão importante quanto a economia ou a política. Nesta aula, vamos explorar o conceito sociológico de cultura, suas manifestações e variações, e duas posturas opostas diante da diversidade cultural: o etnocentrismo (a tendência a julgar outras culturas pelos padrões da própria) e o relativismo cultural (a tentativa de compreender cada cultura em seus próprios termos). Veremos também como as culturas se transformam por meio da difusão, da aculturação e da hibridização, e como a cultura é um campo de disputa por poder e legitimidade. O conceito sociológico de cultura 2.1 Cultura como sistema simbólico Para a Sociologia, cultura não é algo que se “tem” ou “não se tem”, mas algo que se compartilha e que dá sentido à existência. O antropólogo Clifford Geertz definiu cultura como “sistemas entrelaçados de signos interpretáveis” – ou seja, uma teia de significados que os próprios seres humanos teceram e na qual estão suspensos. Esses significados não são aleatórios; eles organizam a experiência, classificam o mundo, estabelecem o que é certo e errado, belo e feio, puro e impuro, sagrado e profano. Os elementos que compõem a cultura incluem: Valores: ideias abstratas sobre o que é desejável, bom, importante (ex.: liberdade, igualdade, honra, sucesso, solidariedade). Normas: regras de conduta que especificam como as pessoas devem se comportar em situações concretas. As normas derivam dos valores e podem ser formais (leis) ou informais (costumes). Crenças: convicções sobre a natureza da realidade, o mundo, o sobrenatural, o ser humano (ex.: crenças religiosas, científicas, políticas). Símbolos: objetos, palavras, gestos, imagens que representam algo e carregam significado compartilhado (ex.: bandeiras, crucifixos, logotipos, sinais de trânsito). Rituais: práticas repetitivas e padronizadas que expressam e reforçam valores e crenças (ex.: casamentos, funerais, formaturas, rituais religiosos). Linguagem: sistema de símbolos que permite a comunicação e a transmissão da cultura. A linguagem não apenas descreve o mundo, mas também o constrói (a hipótese Sapir-Whorf sugere que a língua influencia a percepção da realidade). 2.2 Cultura é aprendida, não inata Ao contrário dos instintos animais, que são programados biologicamente, a cultura é aprendida. Nascemos com a capacidade de aprender qualquer cultura, mas a cultura específica que internalizamos depende do ambiente em que fomos socializados. Uma criança brasileira criada no Japão aprenderá a língua, os costumes e os valores japoneses; o mesmo vale para uma criança japonesa criada no Brasil. Esse processo de aprendizagem é a socialização, que estudamos em aulas anteriores. Por meio da socialização, interiorizamos a cultura do nosso grupo, e ela se torna parte de nossa personalidade, a ponto de nos parecer “natural”. É por isso que tendemos a achar que nossa maneira de fazer as coisas é a “certa” ou a “normal” – porque fomos educados assim desde pequenos. 2.3 Cultura é diversa e mutável Se a cultura é aprendida, e diferentes grupos humanos vivem em condições históricas, geográficas e sociais distintas, é natural que existam muitas culturas. A diversidade cultural é uma característica fundamental da humanidade. O que é considerado certo em uma cultura pode ser errado em outra; o que é belo aqui pode ser feio ali; o que é sagrado para uns pode ser profano para outros. Além disso, as culturas não são estáticas. Elas se transformam ao longo do tempo, por meio de invenções internas, contatos com outros grupos, mudanças nas condições materiais de existência. A cultura de um povo hoje não é a mesma de cem anos atrás, assim como a cultura brasileira atual é diferente daquela dos anos 1950. Subcultura e contracultura 3.1 Subcultura Dentro de uma mesma sociedade, existem grupos que compartilham valores, normas e estilos de vida específicos, que os distinguem da cultura dominante sem necessariamente se opor a ela. Esses grupos formam subculturas. Exemplos: Subculturas juvenis: punks, góticos, skatistas, otakus, etc., cada uma com seu estilo musical, vestuário, gírias e valores. Subculturas religiosas: certas denominações religiosas desenvolvem práticas e modos de vida próprios, como os menonitas ou os hassídicos. Subculturas profissionais: médicos, advogados, militares, artistas têm códigos de conduta, linguagens e valores específicos de sua profissão. Subculturas regionais: dentro de um país, diferentes regiões podem ter tradições, sotaques, comidas e festas que as distinguem. As subculturas não são isoladas; elas dialogam com a cultura mais ampla, incorporando elementos dela e também influenciando-a. 3.2 Contracultura Contracultura é um tipo de subcultura que se caracteriza por uma oposição consciente e explícita a valores e normas da cultura dominante. Os movimentos de contracultura questionam a ordem estabelecida, propõem estilos de vida alternativos e frequentemente desafiam instituições como a família, a escola, o Estado e o mercado. Exemplos históricos: O movimento hippie nos anos 1960, que rejeitava o consumismo, a guerra (especialmente a do Vietnã), a autoridade e pregava o amor livre, a paz e a vida comunitária. O movimento punk nos anos 1970, que expressava niilismo, rebeldia contra o sistema e uma estética agressiva (roupas rasgadas, alfinetes, música barulhenta). O movimento beatnik nos anos 1950, que antecedeu os hippies e valorizava a poesia, o jazz, a experimentação com drogas e a rejeição ao american way of life. A contracultura não precisa ser necessariamente revolucionária ou duradoura; muitas vezes, seus elementos são absorvidos pela cultura dominante e se transformam em moda ou estilo comercial (por exemplo, o visual punk foi incorporado pela indústria da moda). Etnocentrismo: a dificuldade de ver o outro 4.1 Definição e características Etnocentrismo é a tendência de tomar a própria cultura como centro de tudo, como padrão de referência para julgar outras culturas. O etnocentrismo leva a considerar os valores, costumes e crenças do próprio grupo como “naturais”, “normais” ou “superiores”, e os dos outros como “estranhos”, “atrasados”, “bárbaros” ou “inferiores”. O etnocentrismo é um fenômeno universal: em todas as sociedades, as pessoas tendem a ver sua própria maneira de viver como a melhor ou a mais correta. Isso faz parte do processo de socialização: aprendemos que nossa cultura é “a nossa” e, portanto, nos identificamos com ela. O problema surge quando essa identificação se transforma em preconceito, discriminação e intolerância contra outros grupos. 4.2 Exemplos históricos e contemporâneos Colonização europeia: os europeus justificaram a dominação de povos na América, África e Ásia com argumentos etnocêntricos: os nativos seriam “selvagens”, “pagãos”, “atrasados” e precisariam ser “civilizados” pelos colonizadores. A religião, a língua, os costumes europeus foram impostos como superiores. Preconceito linguístico: a variedade linguística de prestígio (a “norma culta”) é considerada a “certa”, e as variantes populares ou regionais são estigmatizadas como “erradas” ou “feias”. Xenofobia: aversão a estrangeiros, muitas vezes baseada na ideia de que “nosso” jeito é melhor e o “deles” é ameaçador. Racismo cultural: a crença de que certas culturas são superiores a outras, justificando hierarquias e discriminações. 4.3 Consequências do etnocentrismo O etnocentrismo pode levar a: Incompreensão e conflitos entre grupos. Imposição cultural (como no colonialismo). Preconceito e discriminação. Etnocídio (destruição da cultura de um povo) e, em casos extremos, genocídio (extermínio físico). Dificuldade de diálogo e cooperação entre diferentes culturas. Relativismo cultural: compreender antes de julgar 5.1 Definição e princípios Relativismo cultural é a postura intelectual que procura compreender cada cultura em seus próprios termos, sem julgá-la pelos padrões de outra. O relativismo não significa que “tudo é relativo” ou que “tudo vale” (como às vezes é caricaturado), mas sim que, para entender uma prática cultural, é necessário situá-la no contexto em que ela surge, conhecer seus significados para os nativos e evitar a imposição de valores externos. O relativismo cultural é uma ferramenta metodológica fundamental para a antropologia e a sociologia. Quando estudamos uma cultura diferente, precisamos suspender nossos próprios preconceitos e tentar ver o mundo do ponto de vista dos seus membros. Só assim podemos compreender o sentido de suas práticas, por mais estranhas que nos pareçam à primeira vista. 5.2 Relativismo não é indiferentismo moral É importante esclarecer que o relativismo cultural não implica aceitar acriticamente qualquer prática, especialmente aquelas que violam direitos humanos fundamentais. O relativismo metodológico (usado na pesquisa) não impede o julgamento ético ou político. Podemos compreender as razões que levam uma cultura a praticar a mutilação genital feminina, por exemplo, e ao mesmo tempo defender que essa prática deve ser abolida por causar sofrimento e violar a integridade das mulheres. O que o relativismo nos ensina é a não demonizar a cultura do outro sem antes tentar entendê-la, e a evitar a arrogância de achar que nossa cultura tem todas as respostas. 5.3 Exemplos de aplicação do relativismo cultural Poligamia: em sociedades onde a poligamia é praticada, ela pode ter funções sociais específicas (como garantir a sobrevivência de viúvas e crianças, ou estabelecer alianças entre grupos). Compreender isso não significa defender a poligamia, mas sim evitar julgamentos simplistas como “isso é errado porque na minha religião só se pode ter uma esposa”. Rituais de passagem: muitas culturas têm rituais que envolvem dor física ou mutilações (tatuagens, escarificações, circuncisão). Para os nativos, esses rituais são formas de marcar a transição para a vida adulta, de fortalecer a identidade grupal e de conectar-se com o sagrado. Antes de condená-los, é preciso entender seu significado. Alimentação: o que é considerado comida em uma cultura pode ser tabu em outra (como a carne de porco para muçulmanos e judeus, ou a carne de vaca para os hindus). O relativismo cultural nos ajuda a entender que essas restrições não são “superstições”, mas fazem parte de sistemas religiosos e cosmológicos complexos. Difusão cultural, aculturação e hibridização 6.1 Difusão cultural Difusão cultural é o processo pelo qual elementos culturais (ideias, tecnologias, estilos, valores) se espalham de uma sociedade para outra. A difusão pode ocorrer por meio de migrações, comércio, guerras, conquistas, mídia, turismo, internet, etc. Exemplos: A difusão do budismo da Índia para a China, Japão e outros países asiáticos. A difusão do futebol, inventado na Inglaterra, para o mundo inteiro. A difusão de alimentos como o tomate (originário da América) para a culinária italiana. A difusão de palavras estrangeiras em outros idiomas (anglicismos, galicismos). 6.2 Aculturação Aculturação refere-se às mudanças culturais que resultam do contato contínuo e direto entre dois ou mais grupos culturais distintos. Diferentemente da difusão, que pode ser pontual, a aculturação implica um processo mais profundo de transformação, frequentemente marcado por relações de poder desiguais. Exemplos: A aculturação dos povos indígenas nas Américas, que foram forçados a abandonar suas línguas, religiões e costumes e a adotar os dos colonizadores europeus. A aculturação de imigrantes em um novo país, que aprendem a nova língua, incorporam novos hábitos, mas também mantêm elementos de sua cultura de origem. A aculturação pode ser mais ou menos voluntária, mais ou menos violenta. Em muitos casos, ela é imposta pela cultura dominante, que desvaloriza e suprime as culturas subordinadas. Em outros casos, há uma troca mais equilibrada. 6.3 Hibridização cultural Hibridização cultural é o processo de mistura e recombinação de elementos de diferentes culturas, gerando novas formas culturais híbridas. A hibridização não é simples justaposição, mas sim a criação de algo novo a partir de elementos pré-existentes. Exemplos: A música: o rock é uma mistura de ritmos afro-americanos (blues, rhythm and blues) com música country e folk europeia. A bossa nova é uma fusão de samba e jazz. O reggaeton combina ritmos caribenhos com hip-hop e música latina. A culinária: a cozinha fusion combina ingredientes e técnicas de diferentes tradições (como a culinária nipo-peruana ou a franco-vietnamita). A religião: religiões sincréticas como o candomblé e a santeria combinam elementos de religiões africanas com o catolicismo. A moda: estilos de vestuário que misturam referências de diferentes culturas e épocas. A hibridização é uma característica marcante da globalização, que intensifica os contatos culturais e acelera os processos de mistura. Ela pode ser vista como enriquecedora, mas também pode gerar tensões, especialmente quando há apropriação cultural sem reconhecimento das fontes. Cultura e poder: hegemonia e disputas simbólicas 7.1 Cultura como campo de disputa A cultura não é um espaço harmonioso e consensual. Ela é também um campo de disputa onde diferentes grupos lutam para impor seus valores, suas visões de mundo e seus interesses. Nem todas as culturas têm o mesmo poder; algumas são dominantes, outras são subordinadas; algumas são valorizadas, outras são estigmatizadas. O conceito de hegemonia cultural, desenvolvido pelo filósofo italiano Antonio Gramsci, ajuda a entender essa dinâmica. Hegemonia é a capacidade de uma classe ou grupo de exercer a liderança intelectual e moral sobre a sociedade, fazendo com que seus valores e ideias sejam aceitos como “naturais” e “universais”, mesmo por aqueles que são desfavorecidos por eles. A hegemonia não se impõe apenas pela força, mas principalmente pela produção de consenso, pela difusão de uma cultura que parece ser a de todos. 7.2 Exemplos de disputas culturais Currículo escolar: o que se ensina nas escolas – quais histórias são contadas, quais autores são lidos, quais valores são transmitidos – é objeto de disputa. Grupos subordinados (negros, indígenas, mulheres, LGBTs) lutam para que suas contribuições e perspectivas sejam incluídas no currículo, contestando a visão eurocêntrica, androcêntrica e heteronormativa tradicional. Representação na mídia: quem aparece na televisão, no cinema, na publicidade? Como são representados os diferentes grupos sociais? As minorias frequentemente são estereotipadas, invisibilizadas ou representadas de forma negativa. Movimentos sociais lutam por representações mais justas e diversas. Patrimônio cultural: o que é considerado patrimônio histórico e cultural de uma nação? Geralmente, são os monumentos, as obras de arte e as tradições das elites. As culturas populares, indígenas, afro-brasileiras são muitas vezes ignoradas ou folclorizadas. Língua: qual variedade linguística é considerada “correta” e tem prestígio? A norma culta, associada às classes altas e à escolarização, é imposta como padrão, enquanto as variantes populares e regionais são desvalorizadas. 7.3 Identidade e reconhecimento A cultura também é fundamental para a construção das identidades. As pessoas se identificam com certos grupos culturais e, por meio deles, constroem um sentido de pertencimento e de autoestima. Quando uma cultura é desvalorizada ou atacada, a identidade dos seus membros é afetada. Daí a importância das lutas por reconhecimento: os grupos subordinados demandam que sua cultura seja respeitada, valorizada e tenha espaço na sociedade. Movimentos como o movimento negro, o movimento indígena, o movimento feminista, o movimento LGBTQIA+ são, entre outras coisas, movimentos culturais: eles reivindicam o direito de existir e de ser reconhecidos em sua diferença, combatem estereótipos e constroem novas narrativas sobre si mesmos. Como o ENEM aborda o tema da cultura As questões sobre cultura no ENEM geralmente envolvem: Interpretação de textos e imagens que retratam práticas culturais de diferentes grupos, exigindo que o aluno identifique conceitos como etnocentrismo, relativismo, diversidade cultural, hibridização. Análise de situações de conflito cultural: por exemplo, a resistência de comunidades tradicionais à imposição de valores externos, ou a reação de grupos conservadores a mudanças nos costumes. Discussão sobre identidade e diferença: questões sobre reconhecimento, multiculturalismo, políticas de ação afirmativa (como cotas), direito à terra de comunidades quilombolas e indígenas. Debates sobre cultura de massa e indústria cultural: a produção cultural em larga escala, a padronização de gostos, a relação entre cultura e consumo. Análise de charges e tirinhas que ironizam atitudes etnocêntricas ou preconceituosas. Dicas para acertar: Identifique se o texto ou a imagem está expressando uma visão etnocêntrica (julgamento do outro pelos próprios padrões) ou uma tentativa de compreensão relativizadora. Reconheça que a diversidade cultural é um fato social, e que o respeito a essa diversidade é um valor democrático. Desconfie de alternativas que generalizam (“todas as culturas são iguais”) ou que negam a possibilidade de crítica (como se o relativismo impedisse qualquer julgamento). Relacione o fenômeno cultural a relações de poder: quem define o que é “cultura legítima”? Quem tem voz? Quem é silenciado? Conclusão: a cultura como dimensão essencial da vida social A cultura é o tecido que dá sentido à existência humana. Por meio dela, aprendemos quem somos, o que devemos valorizar, como nos comportar e como interpretar o mundo. A diversidade cultural é uma riqueza da humanidade, mas também uma fonte de tensões e conflitos, especialmente quando grupos tentam impor sua cultura a outros ou quando culturas são hierarquizadas. O etnocentrismo é uma tendência culturalmente construída, mas que precisa ser criticada e superada se quisermos construir sociedades mais justas e democráticas. O relativismo cultural nos oferece uma ferramenta para compreender o outro sem julgamentos apressados, sem cair na armadilha de achar que nossa cultura é a medida de todas as coisas. Nas próximas aulas, continuaremos a explorar temas culturais, como a socialização, o controle social, a indústria cultural e as transformações trazidas pelas mídias digitais. O objetivo é que você desenvolva um olhar sociológico capaz de analisar criticamente as práticas culturais em que estamos imersos e as relações de poder que as atravessam. Exercícios: Em muitos países, incluindo o Brasil, a variedade linguística de determinado estrato social é designada como a "norma culta", sendo ensinada como a única forma correta nas escolas, enquanto sotaques regionais e vocabulários populares são estigmatizados como erros. Ao entender a cultura como um "campo de poder", a Sociologia explica que essa imposição revela que: O sol começa a descer por trás da vegetação da Ilha da Restinga, na outra margem do rio Paraíba, colorindo o céu de amarelo, laranja e lilás. Então se ouvem as primeiras notas do Bolero, do compositor francês Maurice Ravel, executadas pelo saxofonista Jurandy. É assim o pôr do sol da praia do Jacaré, em Cabedelo (Grande João Pessoa). Depois do Bolero, Jurandy toca Asa branca, de Luiz Gonzaga, e Meu sublime torrão, de Genival Macedo, espécie de hino não oficial da Paraíba. PINHEIRO, A. Sol se põe embaiado pelo Bolero de Ravel. Disponível em: http://tools.folha.com.br. Acesso em: 16 set. 20212 (adaptado). A interpretação musical de Jurandy do Sax, codinome de José Jurandy Félix, apresenta caracterizado pela O mais antigo grupo de rap indígena do país, Brô MCs, surgiu em 2009, na aldeia Jaguapiru, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Os integrantes conheceram o rap pelo rádio, ouvindo um programa que apresentava cantores e grupos brasileiros desse gênero musical. O Brô MCs conseguiu influenciar outros a fazerem rap e a lutarem pelas causas indígenas. Um dos nomes do movimento, Kunumi MC, é um jovem de 16 anos, da aldeia Krukutu, em São Paulo. O adolescente enxerga o rap como uma cultura da defesa e começou a fazer rimas quando percebeu que a poesia, pela qual sempre se interessou, podia virar música. Nas letras que cria, inspiradas tanto pelo rap quanto pelos ritmos indígenas, tenta incluir sempre assuntos aos quais acha importante dar voz, principalmente, a questão da demarcação de terras. Disponível em: www.correiobraziliense.com.br. Acesso em: 13 nov. 2021 (adaptado). O movimento rap dos povos originários do Brasil revela o(a) Contexto: Marabaixo é uma expressão artistico-cultural formada nas tradições e na identificação cultural entre as comunidades negras do Amapá. O nome remonta às mortes de escravizados em navios negreiros que eram jogados na água. Em sua homenagem, hinos de lamento eram cantados mar abaixo, mar acima. Posteriormente, o Marabaixo se integrou à vivência das comunidades negras em um ciclo de danças, cantorias com tambores e festas religiosas, recebendo, em 2018, o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br. Acesso em: 15 nov. 2021 (adaptado). A manifestação do Marabaixo se constituiu em expressão de arte e cultura, exercendo função de Contexto: A Cavalgada de Sant’Ana é uma expressão da devoção dos vaqueiros à padroeira de Caicó (RN). Nas décadas de 1950 a 1970, esse evento, então denominado Cavalaria, era celebrado pelas pessoas que residiam na zona rural do município de Caicó. Essas pessoas usavam os animais (jegues, mulas e cavalos) como único meio de transporte, sobretudo para se dirigirem à cidade nos dias de feiras, trazendo seus produtos para comercializarem. Estando em Caicó no período da Festa de Sant’Ana, esses agricultores se organizavam em cavalgada até o pátio da Catedral de Sant’Ana para louvar a santa e receber bênção para seus animais. Por volta da década de 1970, com a chegada do automóvel à zona rural do município, essa expressão cultural foi extinta. O meio de transporte utilizando os animais passou a ser substituído por carros, sobretudo caminhonetes e caminhões, que transportavam os camponeses para a cidade em dias de feiras e festas. Desde 2002, um grupo de caicoenses retomou essa expressão cultural e, em conjunto com a associação dos vaqueiros, realiza no primeiro domingo da Festa a Cavalgada de Sant’Ana. O evento, além de contar com a participação dos cavaleiros que residem nas zonas rurais, atrai também pessoas que residem em Caicó, cidades vizinhas e amantes das vaquejadas. FESTA DE SANT’ANA. Disponivel em: http://portal.iphan.gov.br Acesso em: 12 out. 2021 (adaptado). As mudanças culturais mencionadas no texto caracterizam-se pela presenca de Superar a história da escravidão como principal marca da trajetória do negro no país tem sido uma tônica daqueles que se dedicam a pesquisar as heranças de origem afro à cultura brasileira. A esse esforço de reconstrução da própria história do país, alia-se agora a criação da plataforma digital Ancestralidades. “A história do negro no Brasil vai continuar sendo contada, e cada passo que a gente dá para trás é um passo que a gente avança”, diz Márcio Black, idealizador da plataforma, sobre o estudo de figuras ainda encobertas pela perspectiva histórica imposta pelos colonizadores da América. FIORATI, G. Projeto joga luz sobre negros e revê perspectiva histórica Disponivel em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 10 nov. 2021 (adaptado) Em relação ao conhecimento sobre a formação cultural brasileira, iniciativas como a descrita no texto favorecem o(a) [ENEM 2022] Contexto: **As línguas silenciadas do Brasil** Para aprender a língua de seu povo, o professor Txaywa Pataxó, de 29 anos, precisou estudar os fatores que, por diversas vezes, quase provocaram a extinção da língua patxôhã. Mergulhou na história do Brasil e descobriu fatos violentos que dispersaram os pataxós, forçados a abandonar a própria língua para escapar da perseguição. “Os pataxós se espalharam, principalmente, depois do Fogo de 1951. Queimaram tudo e expulsaram a gente das nossas terras. Isso constrange o nosso povo até hoje”, conta Txaywa, estudante da Universidade Federal de Minas Gerais e professor na aldeia Barra Velha, região de Porto Seguro (BA). Mais de quatro décadas depois, membros da etnia retornaram ao antigo local e iniciaram um movimento de recuperação da língua patxôhã. Os filhos de Sameary Pataxó já são fluentes — e ela, que se mudou quando já era adulta para a aldeia, tenta aprender um pouco com eles. “É a nossa identidade. Você diz quem você é por meio da sua língua”, afirma a professora de ensino fundamental sobre a importância de restaurar a língua dos pataxós. O patxôhã está entre as línguas indígenas faladas no Brasil: o IBGE estimou 274 línguas no último censo. A publicação Povos indígenas no Brasil 2011/2016, do Instituto Socioambiental, calcula 160. Antes da chegada dos portugueses, elas totalizavam mais de mil. **Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 11 jun. 2019 (adaptado).** O movimento de recuperação da língua patxôhã assume um caráter identitário peculiar na medida em que [ENEM 2022] Contexto: O Recife fervilhava no começo da década de 1990, e os artistas trabalhavam para resgatar o prestígio da cultura pernambucana. Era preciso se inspirar, literalmente, nas raízes sobre as quais a cidade se construiu. Foi aí que, em 1992, com a publicação de um manifesto escrito pelo músico e jornalista Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, nasceu o manguebeat. O nome vem de “mangue”, vegetação típica da região, e “beat”, para representar as batidas e as influências musicais que o movimento abraçaria a partir dali. Era a hora e a vez de os caranguejos – aos quais os músicos recifenses gostavam de se comparar – mostrarem as caras: o maracatu e suas alfaias se misturaram com as batidas do hip-hop, as guitarras do rock, elementos eletrônicos e o sotaque recifense de Chico Science. A busca pelo novo rendeu uma perspectiva diferente do Brasil ao olhar para o Recife. A cidade deixou de ser o lugar apenas do frevo e do carnaval, transformando-se na ebulição musical que continua a acontecer mesmo após os 25 anos do lançamento do primeiro disco da Nação Zumbi, Da lama ao caos. FORCIONI, G. et al. O mangue está de volta. **Revista Esquinas**, n. 87, set 2019 (adaptado). Chico Science foi fundamental para a renovação da música pernambucana, fato que se deu pela [ENEM 2022] Contexto: O povo Kambeba é o povo da águas. Os mais velhos costumam contar que o povo nasceu de uma gota-d’água que caiu do céu em uma grande chuva. Nessa gota estavam duas gotículas: o homem e a mulher. “Por essa narrativa e cosmologia indígena de que nós somos o povo das águas é que o rio nos tem fundamental importância”, diz Márcia Wayna Kambeba, mestre em Geografia e escritora. Todos os dias, ela ia com o pai observar o rio. Ia em silêncio e, antes que tomasse para si a palavra, era interrompida. “Ouço o rio”, o pai dizia. Depois de cerca de duas horas a ouvir as águas do Solimões, ela mergulhava. “Confie no rio e aprenda com ele”. “Fui entender mais tarde, com meus estudos e vivências, que meu pai estava me apresentando à sabedoria milenar do rio”. **Rios amazônicos influenciam no agro e em reservatórios do Sudeste. Disponível em:  www.uol.com.br. Acesso em: 14 out. 2021.** Pelo descrito no texto, o povo Kambeba tem o rio como um(a) [ENEM 2022] Contexto: Hoje sou um ser inanimado, mas já tive vida pulsante em seivas vegetais, ful um ser vivo; é bem verdade que do reino vegetal, mas isso não me tirou a percepção de vida vivida como tamborete. Guardo apreço pelos meus criadores, as mãos que me fizeram, me venderam, 6 pelas mulheres que me usaram para suas vendas e de tantas outras maneiras. Essas pessoas, sim, tiveram suas subjetividades, singularidades e pluralidades, que estão incorporadas a mim. É preciso considerar que a nossa história, de móveis de museus, está para além da mera vinculação aos estilos e à patrimonialização que recebemos como bem material vinculado ao patrimônio imaterial. A nossa história está ligada aos dons individuais das pessoas e suas práticas sociais. Alguns indivíduos consagravam-se por terem determinados requisitos, tais como o conhecimento de modelos clássicos ou destreza nos desenhos. **FREITAS, J. M.; OLIVEIRA, L. R. Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Blográfica, n. 14, maio-ago. 2020 (Adaptado).** Ao descrever-se como patrimônio museológico, o objeto abordado no texto associa a sua história às [ENEM 2022] Contexto: Em Vitória (ES), no bairro Goiabeiras, encontramos as paneleiras, mulheres que são conhecidas pelos saberes/fazeres das tradicionais panelas de barro, ícones da culinária capixaba. A tradição passada de mãe para filha é de origem indígena e sofreu influência de outras etnias, como a afro e a luso. Dessa mistura, acredita-se que a fabricação das panelas de barro já tenha 400 anos. A fabricação das panelas de barro se dá em várias etapas, desde a obtenção de matéria-prima à confecção das panelas. As matérias-primas tradicionalmente utilizadas são provenientes do meio natural, como: argila, retirada do barreiro no Vale do Mulembá; madeira, atualmente proveniente das sobras da construção civil; e tinta, extraída da casca do manguezal, o popular mangue-vermelho. **TRISTÃO, M. A educação ambiental e o pós-colonialismo. Revista de Educação, n. 53, ago. 2014.** Uma característica de práticas tradicionais como a exemplificada no texto é vinculação entre os recursos do mundo natural e a Em Sociologia, cultura pode ser entendida como: Uma postura etnocêntrica ocorre quando alguém: O relativismo cultural, em uma questão interpretativa, indica: Quando elementos culturais de diferentes origens se combinam criando novas formas (ex.: culinária fusion), isso exemplifica: A ideia de que cultura envolve disputas de poder sugere que: Segundo a perspectiva da antropologia interpretativa de Clifford Geertz, a cultura não se resume à erudição ou às artes. Ela é definida como uma "teia de significados". Na prática, essa definição indica que a cultura atua como: O relativismo cultural é um princípio metodológico essencial para as ciências sociais. No entanto, ele é frequentemente confundido no senso comum com a ideia de que "tudo é permitido". Segundo a abordagem sociológica ensinada na aula, a correta aplicação do relativismo cultural exige: Durante a colonização europeia, a dominação de povos africanos e nativos americanos foi historicamente justificada pelo argumento de que eles eram "selvagens" e precisavam ser "civilizados". Sociologicamente, essa justificativa repousa na naturalização de um modelo cultural, fenômeno definido como: O filósofo Antonio Gramsci desenvolveu o conceito de "hegemonia cultural" para explicar como a dominação se mantém nas sociedades capitalistas. Segundo essa teoria, o poder de uma classe sobre as demais é mais sólido e profundo quando: Uma criança nascida no Japão é adotada nos primeiros dias de vida por uma família brasileira e criada no Brasil, sem contato com a cultura de seus ancestrais orientais. Na fase adulta, ela fala o português, torce pelo carnaval e adere aos valores da sociedade brasileira. Esse exemplo demonstra um princípio sociológico fundamental de que: Fenômenos como o surgimento da Bossa Nova (fusão de samba e jazz), a culinária com influências cruzadas e as religiões sincréticas (como a Umbanda) são focos de análise da Sociologia contemporânea. O processo em que elementos de origens culturais diversas se misturam para gerar uma forma completamente inédita é chamado de: Movimentos de contestação, como o movimento negro e as frentes LGBTQIA+, lutam não apenas por reivindicações econômicas, mas também por representação plural nas novelas, inclusão de suas narrativas nos livros de História e eliminação de caricaturas. Segundo a sociologia da cultura abordada na aula, essas demandas constituem as chamadas: O intenso contato de grupos imigrantes com a sociedade do novo país de residência resulta frequentemente em um processo onde os recém-chegados aprendem o idioma, aderem a novos hábitos locais e adaptam suas condutas, embora ainda possam preservar elementos de sua cultura natal. Esse processo de transformação mais longo e estrutural originado pelo contato direto e contínuo é conceituado como: Em uma sociedade, diversos grupos desenvolvem estilos de vida e valores próprios. A Sociologia diferencia os conceitos de "subcultura" e "contracultura". Um grupo é classificado sociologicamente como um movimento de contracultura quando: