Aula de Química (Ligações Químicas e Forças Intermoleculares): Ligações Covalentes. Estudo das ligações covalentes, compartilhamento de elétrons e tipos de ligações simples, duplas e triplas. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Ligações Covalentes
A Essência do Compartilhamento Eletrônico
A ligação covalente representa o mecanismo de estabilização mais comum entre átomos não metálicos. Diferentemente da ligação iônica, onde ocorre uma transferência eletrônica completa, na ligação covalente os átomos compartilham pares de elétrons de modo a atingir uma configuração eletrônica mais estável, geralmente a do octeto completo. Esse modelo, introduzido por Gilbert N. Lewis, é a base para a compreensão da estrutura, das propriedades e da reatividade da vasta maioria dos compostos orgânicos e de muitas substâncias inorgânicas.
A formação de uma ligação covalente pode ser visualizada como o resultado da interpenetração de orbitais atômicos, criando uma região de alta densidade eletrônica entre os núcleos. Essa nuvem eletrônica compartilhada exerce uma força atrativa sobre ambos os núcleos, mantendo-os unidos a uma distância de equilíbrio característica, o comprimento de ligação. A energia liberada durante a formação dessa ligação é denominada energia de ligação.
A Estrutura de Lewis e a Regra do Octeto
A Estrutura de Lewis é uma representação bidimensional que utiliza pontos ou traços para indicar os elétrons de valência de uma molécula ou íon poliatômico. Nela, os pares de elétrons compartilhados são representados por um traço ($-$), enquanto os pares não compartilhados (pares isolados ou livres) são representados por pares de pontos ($:$).
Para escrever uma estrutura de Lewis plausível, segue-se um roteiro básico:
Determinar o número total de elétrons de valência de todos os átomos da molécula ou íon.
Dispor os átomos com o elemento menos eletronegativo (exceto o hidrogênio) ocupando a posição central.
Ligar os átomos periféricos ao átomo central por ligações simples (um par de elétrons cada).
Distribuir os elétrons restantes como pares isolados, primeiramente nos átomos periféricos para completar seus octetos e, depois, no átomo central.
Se o átomo central não atingir o octeto, formar ligações múltiplas (duplas ou triplas) utilizando pares isolados dos átomos periféricos.
A Regra do Octeto, embora fundamental, possui exceções importantes já discutidas anteriormente: octeto incompleto (ex: $BeCl2$, $BF3$), octeto expandido (ex: $PCl5$, $SF6$) e moléculas com elétrons desemparelhados (radicais livres como $NO$ e $NO2$).
Classificação das Ligações Covalentes
Quanto ao Número de Pares Compartilhados
A quantidade de pares eletrônicos envolvidos em uma ligação covalente determina sua multiplicidade e, consequentemente, sua força e comprimento.
Ligação Simples ($\sigma$): Compartilhamento de um único par de elétrons. A densidade eletrônica concentra-se ao longo do eixo internuclear, formando uma ligação sigma ($\sigma$). É a ligação mais comum e permite a rotação livre dos átomos em torno do eixo. Exemplos: $H-H$ (gás hidrogênio), $H3C-CH3$ (etano), $Cl-Cl$ (gás cloro). A energia de ligação é a menor entre as ligações múltiplas.
Ligação Dupla ($\sigma + \pi$): Compartilhamento de dois pares de elétrons. É constituída por uma ligação $\sigma$ e uma ligação pi ($\pi$). A ligação $\pi$ origina-se da sobreposição lateral de orbitais $p$ paralelos, criando duas regiões de densidade eletrônica acima e abaixo do eixo internuclear. A presença da ligação $\pi$ restringe a rotação em torno da ligação e torna a molécula mais reativa do que uma ligação simples correspondente. Exemplos: $O=O$ (gás oxigênio), $H2C=CH2$ (eteno).
Ligação Tripla ($\sigma + 2\pi$): Compartilhamento de três pares de elétrons. É composta por uma ligação $\sigma$ e duas ligações $\pi$ perpendiculares entre si. É a ligação covalente mais curta e mais forte entre dois átomos. Exemplos: $N \equiv N$ (gás nitrogênio), $HC \equiv CH$ (etino).
Ligação Covalente Coordenada (ou "Dativa"): Ocorre quando o par de elétrons compartilhado é fornecido integralmente por um dos átomos da ligação. O átomo doador deve possuir um par de elétrons isolado e o átomo receptor deve ser capaz de acomodar esse par em sua camada de valência. Embora a IUPAC recomende tratar todas as ligações covalentes como indistinguíveis uma vez formadas, o conceito de ligação coordenada ainda é amplamente utilizado para explicar a formação de espécies como o íon amônio ($NH4^+$), o íon hidrônio ($H3O^+$) e moléculas como o dióxido de enxofre ($SO2$) e o ozônio ($O3$).
Quanto à Polaridade
A polaridade de uma ligação covalente surge da diferença de eletronegatividade ($\Delta\chi$) entre os átomos participantes.
Ligação Covalente Apolar: Ocorre entre átomos idênticos ($\Delta\chi = 0$). O par eletrônico é igualmente atraído por ambos os núcleos, resultando em uma distribuição eletrônica simétrica. Exemplos: $H2$, $Cl2$, $O2$, $N2$.
Ligação Covalente Polar: Ocorre entre átomos diferentes com $\Delta\chi \neq 0$. O átomo mais eletronegativo atrai o par eletrônico com maior intensidade, adquirindo uma densidade de carga parcial negativa ($\delta^-$), enquanto o átomo menos eletronegativo adquire uma densidade de carga parcial positiva ($\delta^+$). Cria-se um dipolo elétrico na ligação. Exemplos: $H-Cl$ ($\delta^+H-Cl^{\delta^-}$), $H2O$ ($\delta^-O-H^{\delta^+}$).
A diferença de eletronegatividade ($\Delta\chi$) permite estimar o caráter iônico percentual de uma ligação. A escala de Pauling sugere que para $\Delta\chi \approx 1,7$, a ligação apresenta cerca de $50\%$ de caráter iônico. Acima desse valor, o caráter iônico torna-se predominante, com a notável exceção do $HF$, que, apesar de $\Delta\chi \approx 1,9$, forma uma molécula covalente polar gasosa.
Quanto ao Número de Elétrons Compartilhados por Átomo
Este critério relaciona-se com a contagem formal de elétrons ao redor de cada átomo após o compartilhamento.
Ligação Covalente Normal: Cada átomo contribui com um elétron para o par compartilhado. É o caso mais geral.
Ligação Covalente Coordenada: Um átomo contribui com o par eletrônico completo.
Parâmetros Moleculares: Comprimento e Energia de Ligação
A força de uma ligação covalente é quantificada pela sua energia de ligação ($D$), que é a energia necessária para quebrar um mol de ligações em moléculas gasosas, produzindo átomos isolados no estado gasoso. Quanto maior a energia de ligação, mais forte e mais estável é a ligação.
O comprimento de ligação é a distância média entre os núcleos de dois átomos ligados, correspondente ao mínimo de energia potencial do sistema. Ligações múltiplas são mais curtas e mais fortes do que ligações simples entre os mesmos átomos.
| Ligação | Comprimento (pm) | Energia de Ligação (kJ/mol) |
| :--- | :---: | :---: |
| $C-C$ | 154 | 348 |
| $C=C$ | 134 | 614 |
| $C \equiv C$ | 120 | 839 |
| $N-N$ | 145 | 163 |
| $N=N$ | 125 | 418 |
| $N \equiv N$ | 110 | 941 |
A tabela acima evidencia que, ao passar de uma ligação simples para uma tripla entre os mesmos átomos, o comprimento diminui significativamente e a energia de ligação aumenta substancialmente.
Ressonância: Quando uma Única Estrutura de Lewis Não Basta
Para muitas moléculas e íons poliatômicos, uma única estrutura de Lewis é insuficiente para descrever adequadamente a distribuição eletrônica observada experimentalmente. Nesses casos, dizemos que a espécie é um híbrido de ressonância de duas ou mais estruturas de Lewis canônicas, chamadas formas de ressonância.
As formas de ressonância diferem apenas na posição dos elétrons (especificamente, elétrons $\pi$ e pares isolados); a posição dos núcleos atômicos permanece inalterada. A estrutura real não é uma mistura das formas em equilíbrio, nem oscila entre elas. Ela é um híbrido único, com uma distribuição eletrônica que é uma média ponderada das formas canônicas. A ressonância confere uma estabilidade adicional à molécula, denominada energia de ressonância.
Exemplo Clássico: O Íon Carbonato ($CO3^{2-}$)
Experimentalmente, verifica-se que as três ligações carbono-oxigênio no íon carbonato são idênticas em comprimento e força, com um comprimento intermediário entre uma ligação simples $C-O$ e uma ligação dupla $C=O$. A estrutura de Lewis é representada por três formas de ressonância equivalentes, onde a ligação dupla se desloca entre os três átomos de oxigênio. O híbrido de ressonância apresenta três ligações com ordem de ligação \frac{1}{3}$.
Outros exemplos importantes incluem o íon nitrato ($NO3^-$), o benzeno ($C6H6$), o ozônio ($O3$) e o dióxido de enxofre ($SO2$).
Teoria da Ligação de Valência (TLV) e Hibridização
A Teoria da Ligação de Valência (TLV) fornece um modelo quântico para a formação da ligação covalente, explicando a geometria molecular por meio do conceito de hibridização de orbitais atômicos.
Segundo a TLV, uma ligação covalente se forma pela sobreposição de orbitais atômicos semi-preenchidos de dois átomos, com emparelhamento dos spins eletrônicos. Para explicar geometrias moleculares que não correspondem à orientação dos orbitais atômicos puros ($s$, $p$, $d$), Linus Pauling propôs que esses orbitais se combinam para formar um novo conjunto de orbitais híbridos, equivalentes em energia e com orientações espaciais bem definidas.
Os principais tipos de hibridização do átomo de carbono e de outros elementos do segundo período são:
Hibridização $sp$: Um orbital $s$ e um orbital $p$ combinam-se para formar dois orbitais híbridos $sp$ lineares, com ângulo de 80^\circ$ entre si. Os dois orbitais $p$ restantes permanecem não hibridizados e perpendiculares ao eixo. Esta hibridização está associada a geometria linear e à formação de ligações triplas ou duas duplas. Exemplo: $BeCl2$, $HC \equiv CH$.
Hibridização $sp^2$: Um orbital $s$ e dois orbitais $p$ combinam-se para formar três orbitais híbridos $sp^2$, dispostos em um plano com ângulos de 20^\circ$. Um orbital $p$ permanece não hibridizado e perpendicular ao plano. Esta hibridização está associada a geometria trigonal plana e à formação de ligações duplas. Exemplo: $BF3$, $H2C=CH2$.
Hibridização $sp^3$: Um orbital $s$ e três orbitais $p$ combinam-se para formar quatro orbitais híbridos $sp^3$, orientados para os vértices de um tetraedro regular, com ângulos de 09,5^\circ$. Esta hibridização está associada a geometria tetraédrica e à formação de ligações simples. Exemplo: $CH4$, $NH3$, $H2O$.
A Teoria da Repulsão dos Pares de Elétrons da Camada de Valência (VSEPR), que será estudada em detalhe mais adiante, complementa a TLV ao prever a geometria molecular com base na repulsão entre os pares eletrônicos (ligantes e não ligantes) ao redor do átomo central.
Propriedades das Substâncias Covalentes
As propriedades físicas das substâncias covalentes são extremamente variadas e dependem do tipo de estrutura que formam.
Substâncias Moleculares
A grande maioria das substâncias covalentes é formada por moléculas discretas. As interações entre essas moléculas são forças intermoleculares (dipolo-dipolo, ligações de hidrogênio, forças de London), que são muito mais fracas do que as ligações covalentes intramoleculares. Consequentemente:
Pontos de fusão e ebulição baixos: É necessário pouca energia para vencer as forças intermoleculares e separar as moléculas. Muitas são gases ou líquidos voláteis à temperatura ambiente.
Não conduzem eletricidade: As moléculas são eletricamente neutras e não possuem íons ou elétrons livres para transportar corrente elétrica, tanto no estado sólido quanto no líquido.
Solubilidade variável: Depende da polaridade. Substâncias polares tendem a dissolver-se em solventes polares (ex: água), enquanto substâncias apolares dissolvem-se em solventes apolares (ex: hexano). O princípio é "semelhante dissolve semelhante".
Sólidos de Rede Covalente (Cristais Covalentes)
Em algumas substâncias, os átomos se unem por ligações covalentes formando uma macromolécula tridimensional contínua, sem a existência de moléculas individuais. Esses sólidos de rede covalente possuem propriedades drasticamente diferentes das substâncias moleculares:
Pontos de fusão e ebulição extremamente altos: Para fundir o material, é necessário romper as fortes ligações covalentes da rede, o que demanda enorme quantidade de energia.
Extremamente duros: A estrutura rígida e tridimensional confere grande resistência mecânica.
Não conduzem eletricidade (com exceções): Em geral, são isolantes, pois todos os elétrons de valência estão firmemente presos em ligações covalentes localizadas. Uma exceção notável é o grafite, que conduz eletricidade devido à presença de elétrons $\pi$ deslocalizados ao longo de suas camadas.
Exemplos Clássicos:
Diamante ($C$): Cada átomo de carbono está ligado tetraedricamente a outros quatro átomos de carbono por ligações $sp^3$, formando uma rede tridimensional rígida. É o material natural mais duro conhecido.
Grafite ($C$): Os átomos de carbono estão organizados em camadas planares hexagonais (hibridização $sp^2$). As ligações dentro das camadas são fortes, mas as interações entre as camadas são fracas (forças de London), permitindo que deslizem umas sobre as outras, o que confere maciez e propriedade lubrificante.
Dióxido de Silício ($SiO2$): A sílica, principal componente da areia e do quartzo, é uma rede tridimensional onde cada átomo de silício está ligado a quatro átomos de oxigênio, e cada oxigênio a dois átomos de silício.
Conclusão
A ligação covalente, por meio do compartilhamento de pares eletrônicos, é o pilar da arquitetura molecular. A compreensão de seus diferentes tipos (simples, múltipla, coordenada), de sua polaridade intrínseca e das teorias que explicam a geometria molecular (Lewis, TLV, VSEPR) é essencial para prever e interpretar as propriedades físicas e a reatividade química de uma vasta gama de substâncias, desde os gases da atmosfera até os complexos biopolímeros que constituem a vida. A versatilidade do átomo de carbono em formar ligações covalentes está na base da existência da Química Orgânica e de toda a sua diversidade.
Exercícios:
Complete a frase: A presença da ligação pi, originada pela sobreposição lateral de orbitais p paralelos, restringe a rotação em torno do eixo internuclear e torna a molécula quimicamente mais _________
Complete a frase: A transição de uma ligação covalente simples para uma ligação tripla entre os mesmos átomos aumenta a energia necessária para a ruptura da conexão e reduz drasticamente o _________
Complete a frase: No íon carbonato, a estrutura real é um híbrido de ressonância no qual as três ligações carbono-oxigênio são termodinamicamente idênticas, possuindo uma ordem de ligação fracionária igual a _________
Complete a frase: A ligação covalente em que o par de elétrons do eixo compartilhado é fornecido integralmente por apenas um dos átomos, como ocorre na formação do íon amônio, é classicamente chamada de ligação _________
Complete a frase: Em uma ligação covalente polar, a diferença de eletronegatividade faz com que o átomo menos eletronegativo atraia o par eletrônico com menor intensidade, adquirindo permanentemente uma densidade de carga parcial _________
Complete a frase: O compartilhamento primário de um único par de elétrons, no qual a densidade eletrônica se concentra diretamente no eixo internuclear com forte simetria cilíndrica, caracteriza uma ligação do tipo _________
Complete a frase: A deslocalização dos elétrons pi em espécies híbridas confere ao sistema poliatômico uma profunda minimização das repulsões, gerando uma estabilidade termodinâmica excedente quantificada como energia de _________
Complete a frase: Embora a diferença de eletronegatividade teórica de 1,7 costume ser o limite para prever retículos iônicos, o fluoreto de hidrogênio (HF) apresenta $\Delta\chi \approx 1,9$ e subsiste molecularmente sob a forma _________
Complete a frase: A geometria espacial de uma ligação tripla abriga uma firme ligação sigma em seu eixo nuclear interno e obriga a alocação externa das duas ligações pi resultantes, que se dispõem entre si de maneira _________
Complete a frase: Para explicar a geometria das moléculas e superar as limitações direcionais dos orbitais puros do estado fundamental, a Teoria da Ligação de Valência consagrou o conceito quântico da _________
A molécula de nitrogênio (N₂) é muito estável devido à presença de uma ligação tripla entre os dois átomos de nitrogênio. Essa ligação é formada por:
Na molécula de metano (CH₄), o carbono compartilha um par de elétrons com cada um dos quatro átomos de hidrogênio. O número total de pares de elétrons compartilhados na molécula é: