Elementos de Transição e Terras Raras – Química | Tuco-Tuco
Características dos elementos de transição e das terras raras na tabela periódica.
Elementos de Transição e Terras Raras
Introdução aos Elementos de Transição
Os elementos de transição constituem um conjunto fascinante de metais que ocupam a região central da Tabela Periódica, especificamente os grupos $3$ a 2$. Sua química é rica e diversa, caracterizada por propriedades que os distinguem nitidamente dos elementos representativos (blocos $s$ e $p$). A compreensão de seu comportamento eletrônico, de suas tendências periódicas e de suas aplicações é essencial para dominar a química inorgânica descritiva e para enfrentar questões de alto nível em exames como o ENEM e vestibulares tradicionais.
O termo "elementos de transição" pode ser empregado em dois sentidos. O sentido mais restrito, e mais relevante para a química do ensino médio e superior básico, refere-se aos elementos do bloco $d$, que possuem um subnível $d$ incompleto em seu estado fundamental ou em algum de seus estados de oxidação comuns. O sentido mais amplo inclui também os elementos do bloco $f$, os chamados elementos de transição interna, que compreendem os lantanídeos e actinídeos. Nesta aula, abordaremos detalhadamente os metais de transição do bloco $d$ e dedicaremos uma seção especial aos lantanídeos, frequentemente referidos como "terras raras".
Configuração Eletrônica e a Origem do Bloco $d$
A característica definidora dos metais de transição do bloco $d$ é o preenchimento progressivo do subnível $(n-1)d$ ao longo de cada período. De forma geral, a configuração eletrônica da camada de valência pode ser expressa como:
$ns^2 (n-1)d^{1 \text{ a } 10}$
onde $n$ é o número quântico principal do período (ex: $n=4$ para a primeira série de transição, de $Sc$ a $Zn$).
Exceções Importantes à Regra de Aufbau:
A estabilidade conferida por subníveis semipreenchidos ($d^5$) e totalmente preenchidos ($d^{10}$) leva a configurações anômalas energeticamente mais favoráveis. Os casos mais notáveis e frequentemente cobrados são:
Cromo ($Cr$, $Z=24$): Configuração esperada: $[Ar] 4s^2 3d^4$. Configuração real: $[Ar] 4s^1 3d^5$. A promoção de um elétron do orbital $4s$ para o $3d$ atinge o estado de semipreenchimento em ambos os subníveis.
Cobre ($Cu$, $Z=29$): Configuração esperada: $[Ar] 4s^2 3d^9$. Configuração real: $[Ar] 4s^1 3d^{10}$. O subnível $d$ completamente preenchido confere uma estabilidade extra.
Molibdênio ($Mo$, $Z=42$): Análogo ao cromo: $[Kr] 5s^1 4d^5$.
Prata ($Ag$, $Z=47$): Análogo ao cobre: $[Kr] 5s^1 4d^{10}$.
Ouro ($Au$, $Z=79$): Análogo à prata: $[Xe] 6s^1 4f^{14} 5d^{10}$.
Formação de Íons: Ao formarem cátions, os metais de transição perdem primeiro os elétrons do subnível $ns$, de maior energia, antes de perderem elétrons do subnível $(n-1)d$. Por exemplo, o átomo de ferro ($Fe$, $[Ar] 4s^2 3d^6$) forma o íon $Fe^{2+}$ pela perda dos dois elétrons $4s$: $[Ar] 3d^6$. O íon $Fe^{3+}$ é formado pela perda adicional de um elétron $3d$: $[Ar] 3d^5$. Esta regra é fundamental para escrever corretamente as configurações eletrônicas dos íons de transição.
Propriedades Gerais dos Elementos de Transição do Bloco $d$
Estados de Oxidação Múltiplos e Variáveis
Diferentemente dos metais alcalinos e alcalino-terrosos, que exibem essencialmente um único estado de oxidação, os metais de transição caracterizam-se por apresentar múltiplos estados de oxidação. Isso ocorre porque a pequena diferença de energia entre os orbitais $(n-1)d$ e $ns$ permite que um número variável de elétrons participe das ligações químicas.
Tendência ao Longo da Série: Nos primeiros elementos da série (ex: $Sc$, $Ti$, $V$), o estado de oxidação máximo corresponde à soma de todos os elétrons $s$ e $d$ (ex: $Sc$: $+3$; $Ti$: $+4$; $V$: $+5$; $Cr$: $+6$; $Mn$: $+7$). Após o manganês, a energia necessária para envolver todos os elétrons $d$ torna-se proibitiva, e os estados de oxidação mais baixos (especialmente $+2$ e $+3$) tornam-se mais comuns e estáveis.
Exemplo do Ferro ($Fe$): Forma compostos no estado $+2$ (ferrosos, ex: $FeO$, $FeSO4$) e $+3$ (férricos, ex: $Fe2O3$, $FeCl3$). O estado $+6$ é raro e instável (íon ferrato, $FeO4^{2-}$).
Exemplo do Manganês ($Mn$): Exibe uma notável variedade de estados de oxidação: $+2$ ($Mn^{2+}$, rosa-claro), $+3$ ($Mn^{3+}$, instável em água), $+4$ ($MnO2$, insolúvel marrom), $+6$ ($MnO4^{2-}$, manganato, verde) e $+7$ ($MnO4^-$, permanganato, violeta intenso). A variação de cor com o estado de oxidação é uma característica marcante.
Formação de Compostos Coloridos
A vasta maioria dos compostos de metais de transição do bloco $d$ são intensamente coloridos, em contraste com a coloração branca ou incolor da maioria dos compostos de metais representativos. A cor é uma consequência direta da presença de elétrons em orbitais $d$ parcialmente preenchidos.
Explicação pela Teoria do Campo Cristalino (TCC):
Em um íon metálico livre (gasoso), os cinco orbitais $d$ ($d{xy}$, $d{xz}$, $d{yz}$, $d{x^2-y^2}$, $d{z^2}$) possuem a mesma energia (são degenerados). Quando o íon é circundado por ligantes (moléculas ou íons que doam pares de elétrons), como em um complexo de coordenação, os orbitais $d$ sofrem um desdobramento de campo cristalino: suas energias se separam em dois ou mais níveis. A diferença de energia entre esses níveis desdobrados é denotada por $\Delta$ (parâmetro de desdobramento do campo cristalino).
Quando a luz visível incide sobre o composto, um elétron pode absorver um fóton cuja energia ($h\nu$) corresponda exatamente a $\Delta$, sendo promovido de um orbital $d$ de menor energia para um de maior energia. Essa transição eletrônica é denominada transição $d-d$. A cor que observamos é a cor complementar à luz que foi absorvida. Por exemplo, se um composto absorve luz na região do violeta/azul, ele nos parecerá amarelo/laranja.
Fatores que Afetam $\Delta$ e a Cor:
Natureza do Ligante: A série espectroquímica ordena os ligantes de acordo com sua capacidade de causar um grande desdobramento ($\Delta$). Ligantes de campo forte (ex: $CN^-$, $CO$, $en$) produzem $\Delta$ grande; ligantes de campo fraco (ex: $I^-$, $Br^-$, $Cl^-$, $F^-$) produzem $\Delta$ pequeno.
Estado de Oxidação do Metal: Um estado de oxidação mais alto atrai os ligantes mais fortemente, aumentando $\Delta$.
Natureza do Metal: Metais das séries $4d$ e $5d$ geralmente produzem desdobramentos maiores do que os da série $3d$.
Exceção à Cor: Íons com subnível $d$ vazio ($d^0$, ex: $Sc^{3+}$, $Ti^{4+}$) ou totalmente preenchido ($d^{10}$, ex: $Cu^+$, $Zn^{2+}$, $Ag^+$, $Cd^{2+}$) não apresentam transições $d-d$ e, portanto, seus compostos são tipicamente incolores ou brancos (a menos que a cor provenha do ânion ou de transições de transferência de carga).
Propriedades Magnéticas
A presença de elétrons desemparelhados nos orbitais $d$ confere aos metais de transição e seus compostos propriedades magnéticas interessantes.
Paramagnetismo: Substâncias que possuem um ou mais elétrons desemparelhados são paramagnéticas. Elas são fracamente atraídas por um campo magnético externo. A magnitude do paramagnetismo depende do número de elétrons desemparelhados. Muitos compostos de metais de transição são paramagnéticos. Exemplos: $Fe^{2+}$ ($d^6$, alto spin: $4$ e$^-$ desemparelhados), $Mn^{2+}$ ($d^5$, alto spin: $5$ e$^-$ desemparelhados), $Cu^{2+}$ ($d^9$: $ e$^-$ desemparelhado).
Diamagnetismo: Substâncias que possuem todos os seus elétrons emparelhados são diamagnéticas. São muito fracamente repelidas por um campo magnético. Exemplos: $Zn^{2+}$ ($d^{10}$), $Sc^{3+}$ ($d^0$), $Cu^+$ ($d^{10}$).
Ferromagnetismo e Ferrimagnetismo: São formas de magnetismo cooperativo de longo alcance, onde os momentos magnéticos de átomos vizinhos se alinham paralelamente (ferromagnetismo, ex: $Fe$, $Co$, $Ni$ metálicos) ou antiparalelamente com magnitudes desiguais (ferrimagnetismo, ex: magnetita, $Fe3O4$). Estes materiais são fortemente atraídos por ímãs e podem se tornar ímãs permanentes.
Formação de Complexos de Coordenação
Os íons de metais de transição, por serem ácidos de Lewis (aceptores de pares de elétrons), possuem uma tendência acentuada a formar íons complexos (ou compostos de coordenação) com ligantes (bases de Lewis, doadores de pares de elétrons), como água ($H2O$), amônia ($NH3$), íon cianeto ($CN^-$), íons haletos ($Cl^-$, etc.) e moléculas orgânicas.
O número de ligantes diretamente ligados ao íon metálico central é o número de coordenação ($NC$). Os números de coordenação mais comuns são $4$ (geometria tetraédrica ou quadrática plana) e $6$ (geometria octaédrica), embora $2$ (linear) e $5$ (bipiramidal trigonal ou piramidal quadrada) também ocorram.
Exemplos de Complexos Importantes:
$[Cu(H2O)6]^{2+}$: íon hexaaquacobre(II), de cor azul, responsável pela cor de soluções de sais de cobre(II) em água.
$[Fe(CN)6]^{4-}$: íon hexacianoferrato(II) (ferrocianeto), de cor amarela.
$[Ag(NH3)2]^+$: íon diamina prata(I), incolor, formado na dissolução do cloreto de prata em amônia.
$[Ni(CO)4]$: tetracarbonilníquel(0), líquido incolor e volátil, usado no refino do níquel (Processo Mond).
A estabilidade dos complexos é governada por constantes de formação ($Kf$). A química de coordenação é um vasto campo de estudo com implicações em catálise, bioquímica (hemoglobina, clorofila, vitamina B12) e química medicinal (cisplatina, um fármaco anticâncer).
Atividade Catalítica
Os metais de transição e seus compostos estão entre os catalisadores mais importantes da indústria química e da natureza. Sua capacidade de ativar moléculas pequenas ($H2$, $O2$, $N2$, $CO$, alcenos) decorre da disponibilidade de orbitais $d$ para formar ligações e da facilidade de variar seu estado de oxidação.
Exemplos de Catálise Heterogênea:
Ferro ($Fe$): Catalisador na Síntese de Haber-Bosch para produção de amônia ($N2 + 3H2 \rightarrow 2NH3$).
Níquel ($Ni$), Paládio ($Pd$), Platina ($Pt$): Catalisadores em reações de hidrogenação de alcenos e gorduras insaturadas.
Vanádio ($V2O5$): Catalisador na oxidação de $SO2$ a $SO3$ no Processo de Contato para produção de ácido sulfúrico.
Ródio ($Rh$), Platina ($Pt$), Paládio ($Pd$): Componentes de conversores catalíticos automotivos, que promovem a oxidação de $CO$ e hidrocarbonetos não queimados a $CO2$ e $H2O$, e a redução de $NOx$ a $N2$.
Exemplos de Catálise Homogênea:
Íons $Co^{2+}$ e $Mn^{2+}$ atuam como catalisadores em reações de decomposição de peróxidos e em processos de oxidação.
Complexos de metais de transição (ex: de $Rh$, $Ru$, $Pd$) são utilizados em uma ampla gama de reações de síntese orgânica fina (hidroformilação, acoplamento cruzado Suzuki-Miyaura, metátese de olefinas).
Tendências Periódicas nos Metais de Transição
As propriedades dos metais de transição variam de forma menos drástica ao longo de um período do que nos elementos representativos, mas algumas tendências são claras.
Raio Atômico e Iônico
Ao longo de uma série de transição (ex: $Sc \rightarrow Zn$), o raio atômico inicialmente diminui lentamente, atinge um mínimo e depois pode aumentar ligeiramente no final da série. A diminuição inicial deve-se ao aumento da carga nuclear efetiva, que atrai os elétrons. No entanto, à medida que o subnível $d$ se preenche, o aumento das repulsões elétron-elétron entre os elétrons $d$ contrabalança parcialmente o efeito da carga nuclear, tornando a variação menos pronunciada do que nos blocos $s$ e $p$.
O raio atômico aumenta significativamente ao se passar de uma série $3d$ para a $4d$, devido à adição de uma nova camada eletrônica. No entanto, a contração lantanídica (discutida adiante) faz com que os raios dos elementos da série $5d$ sejam muito semelhantes aos da série $4d$, levando a propriedades químicas extremamente parecidas entre os pares $Zr/Hf$, $Nb/Ta$, $Mo/W$, que são notoriamente difíceis de separar.
Energia de Ionização e Eletronegatividade
Ambas as propriedades tendem a aumentar gradualmente ao longo de uma série de transição, à medida que a carga nuclear efetiva aumenta. Os valores para os elementos do grupo 2$ ($Zn$, $Cd$, $Hg$) são consideravelmente mais altos, refletindo a estabilidade da configuração $d^{10}$ completa. A eletronegatividade dos metais de transição é geralmente intermediária (valores de Pauling entre ,0$ e $2,5$), o que explica seu caráter de ligação que varia do iônico ao covalente.
Pontos de Fusão e Densidade
Os metais de transição são caracterizados por pontos de fusão e densidades geralmente altos, muito superiores aos dos metais alcalinos e alcalino-terrosos. O tungstênio ($W$) detém o recorde de mais alto ponto de fusão entre os metais ($3422 \text{ °C}$), sendo usado em filamentos de lâmpadas incandescentes e eletrodos de solda. A alta densidade e dureza decorrem da forte ligação metálica, na qual tanto os elétrons $s$ quanto os elétrons $d$ desemparelhados participam do "mar de elétrons" e da coesão do retículo cristalino.
Os Elementos de Transição Interna: Terras Raras (Lantanídeos)
Os lantanídeos são os 4$ elementos que se seguem ao lantânio ($La$, $Z=57$) na Tabela Periódica, do cério ($Ce$, $Z=58$) ao lutécio ($Lu$, $Z=71$). Juntamente com o escândio ($Sc$) e o ítrio ($Y$), que possuem propriedades químicas semelhantes, são frequentemente agrupados sob a designação de Terras Raras. O nome "raras" é historicamente enganoso; com exceção do promécio ($Pm$), que é radioativo e não ocorre naturalmente na crosta terrestre, os lantanídeos são relativamente abundantes. O termo reflete a dificuldade inicial de separá-los uns dos outros, devido à sua notável similaridade química, e não à sua escassez.
A Configuração Eletrônica e a Contração Lantanídica
A característica definidora dos lantanídeos é o preenchimento progressivo do subnível $4f$, que é uma camada interna, profundamente blindada pelos elétrons das camadas $5s$ e $5p$. A configuração geral da camada de valência é $[Xe] 4f^n 5d^{0 \text{ ou } 1} 6s^2$, onde $n$ varia de $ a 4$.
Uma consequência crucial do preenchimento dos orbitais $4f$ é a Contração Lantanídica. À medida que o número atômico aumenta ao longo da série dos lantanídeos, cada próton adicional no núcleo é pobremente blindado por um elétron adicionado ao orbital $4f$, que é difuso e pouco penetrante. Isso resulta em um aumento contínuo e significativo da carga nuclear efetiva sentida pelos elétrons mais externos ($5s$, $5p$, $6s$). Consequentemente, o raio atômico e iônico ($Ln^{3+}$) diminui de forma constante, embora pequena, do $La$ ao $Lu$.
Importância da Contração Lantanídica:
Explica a grande similaridade química entre os lantanídeos, pois o raio iônico, o principal fator determinante das propriedades, varia muito pouco.
É a razão pela qual os metais de transição da série $5d$ (ex: $Hf$, $Ta$, $W$) possuem raios atômicos quase idênticos aos de seus análogos da série $4d$ ($Zr$, $Nb$, $Mo$), em vez de serem significativamente maiores, como seria esperado pela adição de uma nova camada eletrônica. Isso torna a separação de pares como $Zr/Hf$ extremamente difícil.
Propriedades Químicas e Estados de Oxidação
O estado de oxidação mais comum e estável para todos os lantanídeos é $+3$ ($Ln^{3+}$), no qual a configuração eletrônica é $[Xe] 4f^n$. Alguns elementos também apresentam estados $+2$ e $+4$ estáveis, que estão relacionados à obtenção de configurações $f$ vazia ($f^0$), semipreenchida ($f^7$) ou totalmente preenchida ($f^{14}$):
$Ce^{4+}$ ($f^0$), $Tb^{4+}$ ($f^7$): Estados de oxidação $+4$ estáveis.
$Eu^{2+}$ ($f^7$), $Yb^{2+}$ ($f^{14}$): Estados de oxidação $+2$ estáveis.
Os lantanídeos são metais reativos, eletropositivos, que reagem lentamente com água fria e rapidamente com água quente ou ácidos diluídos, liberando hidrogênio e formando o íon $Ln^{3+}$. Seus hidróxidos, $Ln(OH)3$, são bases fortes, com força básica decrescendo ligeiramente do $La$ ao $Lu$ devido à contração lantanídica.
Propriedades Ópticas e Magnéticas: Cor e Luminescência
Os íons $Ln^{3+}$ são geralmente incolores ou fracamente coloridos. Isso contrasta fortemente com os metais de transição do bloco $d$. A razão é que as transições eletrônicas responsáveis pela cor nos lantanídeos são transições $f-f$. Os orbitais $4f$ estão profundamente enterrados dentro do átomo, fortemente blindados das interações com os ligantes pelos elétrons $5s$ e $5p$. Como resultado, o desdobramento do campo cristalino é minúsculo, e as bandas de absorção são extremamente estreitas e de baixa intensidade, produzindo cores pálidas. As cores mais notáveis são as do $Pr^{3+}$ (verde) e $Nd^{3+}$ (lilás).
Muitos íons lantanídeos exibem luminescência (fluorescência ou fosforescência). A blindagem eficiente dos orbitais $4f$ permite que estados excitados tenham longos tempos de vida. Essa propriedade é explorada em aplicações tecnológicas como:
Fósforos em telas de TV, monitores e lâmpadas fluorescentes: O európio ($Eu^{3+}$) emite luz vermelha; o térbio ($Tb^{3+}$) emite luz verde.
Lasers de estado sólido: O neodímio ($Nd^{3+}$) é o meio ativo em lasers de $Nd:YAG$ (granada de ítrio-alumínio dopada com neodímio), amplamente utilizados em medicina, indústria e pesquisa.
Propriedades Magnéticas
Os lantanídeos exibem um magnetismo notável, devido ao grande número de elétrons desemparelhados nos orbitais $4f$. Ao contrário dos metais $d$, onde o momento magnético é frequentemente "apagado" pelo campo cristalino, nos lantanídeos os elétrons $4f$ são bem isolados das influências externas. Elementos como gadolínio ($Gd^{3+}$, $f^7$) possuem um momento magnético muito alto, sendo usados em agentes de contraste para ressonância magnética (MRI). O neodímio ($Nd$) e o samário ($Sm$) são componentes essenciais dos ímãs de terras raras (ex: $Nd2Fe{14}B$), os ímãs permanentes mais poderosos conhecidos, fundamentais para motores elétricos de alta eficiência, turbinas eólicas, discos rígidos de computadores e fones de ouvido.
Aplicações Tecnológicas das Terras Raras
A importância tecnológica e econômica das terras raras é imensa e crescente. Elas são consideradas "vitaminas da indústria" ou "elementos críticos", pois, embora usadas em pequenas quantidades, são insubstituíveis para o desempenho de muitos dispositivos de alta tecnologia.
| Elemento | Principais Aplicações Tecnológicas |
| :--- | :--- |
| Lantânio ($La$) | Ligas de níquel-hidreto metálico ($NiMH$) em baterias recarregáveis (ex: Toyota Prius), lentes de câmeras e telescópios de alta qualidade (vidro com alto índice de refração). |
| Cério ($Ce$) | Catalisadores em conversores catalíticos automotivos (armazena e libera oxigênio), agente de polimento de vidros e lentes, componente de ligas de isqueiro ("pedra de isqueiro"). |
| Neodímio ($Nd$) | Componente fundamental dos ímãs de neodímio-ferro-boro ($NdFeB$). Esses ímãs são cruciais para motores de veículos elétricos e híbridos, geradores de turbinas eólicas, discos rígidos, fones de ouvido e alto-falantes. Também usado em lasers de $Nd:YAG$. |
| Európio ($Eu$) | Ativador do fósforo vermelho em tubos de raios catódicos (CRT) e lâmpadas fluorescentes. Agente luminescente em cédulas de Euro para medidas antifalsificação. |
| Gadolínio ($Gd$) | Agente de contraste em exames de Ressonância Magnética (MRI). Devido ao seu alto momento magnético, encurta o tempo de relaxação dos prótons da água nos tecidos, melhorando o contraste da imagem. |
| Térbio ($Tb$) | Ativador do fósforo verde em lâmpadas fluorescentes e telas. Componente de ligas magnetostritivas (Terfenol-D) usadas em sonares e atuadores de precisão. |
| Disprósio ($Dy$) | Adicionado aos ímãs de $NdFeB$ para aumentar sua temperatura de operação, evitando a perda de magnetismo em altas temperaturas (essencial para motores de veículos elétricos e turbinas eólicas). |
| Ítrio ($Y$) | Hospedeiro para íons de európio e térbio em fósforos vermelhos e verdes. Componente de granada de ítrio-alumínio ($YAG$) em lasers. Estabilizante de zircônia em cerâmicas avançadas (ex: sensores de oxigênio). |
A Química dos Actinídeos (Breve Panorama)
Os actinídeos são os elementos do bloco $f$ que se seguem ao actínio ($Ac$, $Z=89$), do tório ($Th$, $Z=90$) ao laurêncio ($Lr$, $Z=103$). Correspondem ao preenchimento do subnível $5f$. Diferentemente dos lantanídeos, que são majoritariamente estáveis e de baixa toxicidade (com exceções), os actinídeos são todos radioativos. Apenas o tório ($Th$) e o urânio ($U$) ocorrem na natureza em quantidades significativas; os elementos transurânicos ($Np$, $Pu$, etc.) são produzidos artificialmente em reatores nucleares.
A química dos actinídeos é mais complexa que a dos lantanídeos. Os orbitais $5f$ são menos blindados e mais estendidos radialmente do que os orbitais $4f$, podendo participar de forma mais efetiva em ligações químicas. Consequentemente, os actinídeos exibem uma maior variedade de estados de oxidação (ex: $U$ pode ser $+3$, $+4$, $+5$, $+6$; $Pu$ pode ser $+3$, $+4$, $+5$, $+6$, $+7$). O estado de oxidação dominante para os actinídeos mais pesados, no entanto, tende a ser $+3$, de forma análoga aos lantanídeos.
A principal aplicação dos actinídeos é na geração de energia nuclear, onde o isótopo físsil $^{235}U$ é o combustível primário, e o $^{239}Pu$ é gerado e também fissionado em reatores.
Resumo e Pontos Essenciais para o Estudo
Configuração Eletrônica: Domine as exceções de $Cr$ ($4s^1 3d^5$) e $Cu$ ($4s^1 3d^{10}$). Lembre-se da ordem de remoção de elétrons na formação de cátions ($s$ antes de $d$).
Propriedades dos Metais $d$: Estados de oxidação múltiplos, compostos coloridos (transições $d-d$), paramagnetismo (elétrons desemparelhados), formação de complexos de coordenação e alta atividade catalítica.
Exceções à Cor: Compostos de íons $d^0$ ($Sc^{3+}$, $Ti^{4+}$) e $d^{10}$ ($Zn^{2+}$, $Cu^+$, $Ag^+$) são incolores ou brancos.
Lantanídeos (Terras Raras): Configuração $4f^n 6s^2$, estado de oxidação predominante $+3$, contração lantanídica (explica a similaridade química e a dificuldade de separação), cores pálidas (transições $f-f$ blindadas), propriedades luminescentes e magnéticas notáveis.
Aplicações de Destaque: $Fe$ na síntese de $NH3$, $V2O5$ na produção de $H2SO4$, $Pt$/$Pd$/$Rh$ em catalisadores automotivos, $Nd$ em ímãs permanentes, $Eu$ e $Tb$ em fósforos, $Gd$ em contrastes para MRI.
O estudo dos elementos de transição e das terras raras revela um mundo de cores, magnetismo e reatividade sutil, governado pela ocupação dos orbitais $d$ e $f$. A compreensão de suas propriedades periódicas e de suas configurações eletrônicas características fornece as chaves para desvendar a química inorgânica descritiva e para apreciar o papel indispensável desses metais na tecnologia que molda o mundo contemporâneo.