1. Início
  2. Explorar
  3. Português
  4. Classes Gramaticais
  5. Vozes Verbais: Ativa, Passiva e Reflexiva

Vozes Verbais: Ativa, Passiva e Reflexiva - Português | Tuco-Tuco

Aula de Português (Classes Gramaticais): Vozes Verbais: Ativa, Passiva e Reflexiva. Como identificar e converter vozes verbais, com foco na passiva analítica e sintética. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.

Introdução: A Relação entre o Sujeito e a Ação Em Língua Portuguesa, chamamos de Vozes Verbais a forma como o verbo se flexiona para indicar qual é a relação de atuação entre ele e o sujeito da oração. Em outras palavras, as vozes verbais nos mostram se o sujeito gramatical é quem pratica a ação (agente), se é quem sofre a ação (paciente) ou se ele faz as duas coisas ao mesmo tempo. Dominar as vozes verbais é essencial não apenas para questões de gramática (principalmente conversão de vozes), mas também para a construção de textos mais impessoais e objetivos na sua redação. Voz Ativa Ocorre quando o sujeito da oração é o agente da ação verbal, ou seja, é ele quem executa o que o verbo indica. Estrutura básica: Sujeito Agente + Verbo + Complemento (Objeto). Exemplo: "O governo (sujeito agente) construiu (verbo) a nova ponte (objeto direto)." Voz Passiva Ocorre quando o sujeito gramatical da oração é o paciente, ou seja, ele sofre ou recebe a ação executada por outro elemento (o agente da passiva). Atenção Máxima: Somente verbos que possuem Objeto Direto (Verbos Transitivos Diretos - VTD, ou Bitransitivos - VTDI) podem ser passados para a voz passiva! Verbos intransitivos ou transitivos indiretos não aceitam voz passiva. A voz passiva se divide em duas formas estruturais muito cobradas em provas: 2.1 Voz Passiva Analítica É a forma mais "extensa". É construída com a ajuda de um verbo auxiliar. Estrutura: Sujeito Paciente + Verbo Auxiliar (ser, estar, ficar) + Verbo Principal no Particípio (-ado, -ido) + Agente da Passiva (geralmente precedido pela preposição "por" ou "de"). Exemplo: "A nova ponte (sujeito paciente) foi construída (locução verbal) pelo governo (agente da passiva)." 2.2 Voz Passiva Sintética (ou Pronominal) É a forma mais "curta". Não utiliza locução verbal, mas sim o pronome "SE" atuando como Partícula Apassivadora (PA). Estrutura: Verbo Transitivo Direto (VTD) na 3ª pessoa + pronome SE + Sujeito Paciente. Exemplo: "Construiu-se (VTD + SE) a nova ponte (sujeito paciente)." A Regra de Ouro da Sintética: O verbo DEVE concordar com o sujeito paciente. Se o sujeito estiver no plural, o verbo vai para o plural: "Construíram-se as novas pontes." (As novas pontes foram construídas). A Regra de Ouro: Como converter as Vozes Verbais? A transposição da voz ativa para a voz passiva analítica (e vice-versa) é o exercício matemático da gramática. Ocorre um cruzamento em "X" dos termos da oração. Passo a passo da conversão (Ativa -> Passiva Analítica): O Objeto Direto da voz ativa vira o Sujeito Paciente da voz passiva. O Sujeito Agente da voz ativa vira o Agente da Passiva. O Verbo Principal da voz ativa se transforma em uma Locução Verbal (Verbo Auxiliar "SER" + Particípio do verbo principal). Cuidado Extremo: O verbo auxiliar da voz passiva DEVE ficar no mesmo tempo e modo do verbo principal da voz ativa! Exemplos Práticos de Conversão mantendo o Tempo Verbal: Presente: O vento derruba a árvore. -> A árvore é derrubada pelo vento. Pretérito Perfeito: O vento derrubou a árvore. -> A árvore foi derrubada pelo vento. Pretérito Imperfeito: O vento derrubava a árvore. -> A árvore era derrubada pelo vento. Futuro do Presente: O vento derrubará a árvore. -> A árvore será derrubada pelo vento. Futuro do Pretérito: O vento derrubaria a árvore. -> A árvore seria derrubada pelo vento. Forma Reflexiva e Recíproca (Voz Ativa com pronome reflexivo) Na verdade, a chamada "voz reflexiva" não é uma terceira voz verbal, mas sim um caso especial da voz ativa. Ocorre quando o sujeito, simultaneamente, pratica e sofre a ação. Para isso, utiliza-se um pronome oblíquo átono (me, te, se, nos, vos). Forma Reflexiva: O sujeito age sobre si mesmo. Exemplo: "A menina cortou-se com a faca." (Cortou a si mesma). Forma Recíproca: O sujeito é plural (mais de um indivíduo) e a ação ocorre mutuamente entre eles. Exemplo: "Os lutadores cumprimentaram-se antes do combate." (Cumprimentaram um ao outro). Importante: Na Gramática Normativa, existem apenas duas vozes verbais: Ativa (sujeito é agente) e Passiva (sujeito é paciente). As formas reflexiva e recíproca são construções da voz ativa com pronome reflexivo. Como isso cai nos vestibulares (FUVEST e ENEM)? A Armadilha do Tempo Verbal (Ambas): A questão te dá uma frase na voz ativa, por exemplo, no "Futuro do Pretérito" (Ex: "Os cientistas descobririam a cura"), e pede a alternativa com a transposição correta. Nas alternativas erradas, eles mudam o tempo verbal (ex: "A cura foi descoberta"). A certa deve manter o tempo: "A cura seria descoberta pelos cientistas". A Pegadinha da Concordância na Passiva Sintética (FUVEST/UNESP): Vão colocar frases como "Concerta-se sapatos" e perguntar se está correto. Como "sapatos" é o sujeito paciente plural (Sapatos são consertados), o correto é "Consertam-se sapatos". Impossibilidade de Passiva: A prova pedirá para você assinalar a única frase que NÃO pode ser passada para a voz passiva. Basta procurar a alternativa que tem um Verbo Intransitivo (ex: "Ele dormiu cedo") ou um Verbo Transitivo Indireto (ex: "Eles precisam de ajuda"). Como não têm Objeto Direto, não podem virar voz passiva! Ocultação do Agente na Redação: No ENEM, ao descrever um problema histórico onde você não quer ou não pode culpar um indivíduo específico, usar a voz passiva sintética é uma excelente estratégia de impessoalidade (Ex: "Nota-se, historicamente, a negligência com os povos indígenas..."). Exercícios: Na oração "Consertam-se relógios antigos", qual é a classificação correta da voz verbal e a função sintática do termo "relógios antigos"? Ao transpor a frase "O vento derrubara a velha árvore" para a voz passiva analítica, qual forma verbal deve ser utilizada? Qual das seguintes orações NÃO admite a transposição para a voz passiva? Analise a frase: "Os dois rivais agrediram-se durante a partida". Esta oração é um exemplo de: Na frase "O gado foi vendido pelo fazendeiro", o termo "pelo fazendeiro" exerce a função sintática de: Como ficaria a conversão da frase "Ninguém viu o suspeito" para a voz passiva analítica? Na frase "O menino feriu-se com a faca", o pronome "se" classifica-se como: Qual é a regra de concordância verbal na voz passiva sintética em orações como "Vende-se casa" vs "Vendem-se casas"? A frase "O gato caiu do telhado" está na voz ativa. Contudo, semanticamente, o sujeito é agente? A transposição de uma oração para a voz passiva exige que o verbo principal seja transitivo direto ou bitransitivo, uma vez que o objeto direto da voz ativa desempenha a função sintática de sujeito paciente na estrutura passiva. Na oração "Necessita-se de novos investimentos estruturais", ocorre a voz passiva sintética, motivo pelo qual a norma-padrão exigiria a flexão do verbo para o plural, concordando com o sujeito "novos investimentos estruturais". [UNESP-2025] Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960- ). 1 Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro. — Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro. A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz. — Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país. 5 O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política. — Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido. Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro: — Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre. Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto: 10 — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos. Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...] Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas: — Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada. Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo [1], apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro. 15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda [2], ele falou-me desse desterro com nostalgia: — Foi a melhor época da minha vida. Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 1975 [3]. A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal [4], em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril [5] e regressou a Angola. Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos: 20 — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém. (Rita Chaves (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.) [1] cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade. [2] Luanda: capital de Angola. [3] Angola tornou-se um país independente em 1975. [4] Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa. [5] Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África. “Fui sonhado por ti” (4º parágrafo). Transposto para a voz ativa, o trecho assume a seguinte redação: Considere a frase: "Trabalhou-se muito naquela obra". Por que esta frase NÃO está na voz passiva sintética? Ao transpor a oração "Os peritos analisariam todas as evidências" para a voz passiva analítica, a locução verbal resultante deve ser "seriam analisadas", preservando o tempo verbal do futuro do pretérito do verbo principal original. A gramática normativa reconhece essencialmente a voz ativa e a voz passiva, de modo que as chamadas formas reflexiva e recíproca constituem, na realidade, manifestações da voz ativa em que o sujeito age e sofre os efeitos da ação, simultaneamente ou de forma mútua, com o auxílio de pronomes oblíquos. Na voz passiva analítica, a presença do agente da passiva é obrigatória do ponto de vista sintático, uma vez que a estrutura frasal ficaria semanticamente incompleta se omitisse o elemento responsável pela execução da ação verbal. A construção "Venderam-se as casas antigas" obedece à norma-padrão da Língua Portuguesa, pois o pronome "se" atua como partícula apassivadora, fazendo com que o termo "as casas antigas" desempenhe a função de sujeito paciente, impondo o plural ao verbo transitivo direto. A conversão da frase "A forte chuva derrubava o muro de arrimo" para a voz passiva analítica gera a estrutura "O muro de arrimo foi derrubado pela forte chuva", mantendo rigorosamente o aspecto cronológico da narrativa. A oração "Eles cumprimentaram-se calorosamente" exemplifica a forma reflexiva pura, em que a ação praticada pelo sujeito recai individualmente sobre si mesmo, demonstrando o uso autônomo do pronome oblíquo. A utilização da voz passiva sintética constitui um recurso estilístico e gramatical valioso na redação de textos dissertativo-argumentativos, pois permite a ocultação do agente responsável por determinada ação, conferindo maior impessoalidade à construção textual. Caso o autor deseje transformar a oração na voz passiva sintética "Alugaram-se dois imóveis na avenida principal" para a voz passiva analítica, a estrutura gramatical exigida resultará em "Dois imóveis foram alugados por eles na avenida principal".