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Verbos: Estrutura e Conjugação – Português | Tuco-Tuco

Análise dos verbos, tempos verbais, modos e aspectos verbais.

Verbos: Estrutura e Conjugação O verbo é a classe gramatical que expressa ação, estado, processo, fenômeno da natureza, mudança de estado ou desejo, situando esses acontecimentos no tempo. Trata-se da classe mais complexa e rica em flexões da Língua Portuguesa, variando em pessoa, número, tempo, modo e voz. Dominar a estrutura e a conjugação dos verbos é indispensável para a correta concordância verbal, para a adequada expressão das relações temporais e modais, e para a análise sintática dos períodos. Este estudo constitui um dos pilares das provas de concursos e vestibulares, uma vez que perpassa a morfologia, a sintaxe e a semântica. Estrutura dos Verbos Os verbos são compostos por morfemas que se articulam de forma hierárquica: radical, vogal temática, desinências modo-temporais e desinências número-pessoais. A segmentação correta desses elementos é a base para a identificação de conjugações, tempos e modos. Radical O radical é o morfema que concentra o significado lexical do verbo. É a parte invariável (ou relativamente invariável) comum a todas as formas do paradigma. Exemplos: em "cantar", o radical é "cant-"; em "vender", "vend-"; em "partir", "part-". Muitos verbos apresentam alomorfia (variação) do radical em certos tempos, como "querer" (quer- / quis-), "fazer" (faç- / fiz- / far-), "dizer" (diz- / dig- / diss- / dir-). O reconhecimento dos alomorfes é essencial para a análise dos chamados verbos irregulares. Vogal Temática A vogal temática é o morfema que, junto ao radical, forma o tema verbal. Sua função é indicar a conjugação a que pertence o verbo. Em português, três são as vogais temáticas verbais: -a- para a 1ª conjugação: cant-a-r, am-a-r, deix-a-r. -e- para a 2ª conjugação: vend-e-r, com-e-r, cab-e-r. -i- para a 3ª conjugação: part-i-r, dorm-i-r, assist-i-r. Em certos tempos, a vogal temática é omitida: na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo (ex.: cant-o, vend-o, part-o) e em todo o presente do subjuntivo (ex.: cant-e-mos, vend-a-mos). Em outros paradigmas, como o pretérito imperfeito e o futuro do presente, a vogal temática permanece visível (cant-á-va-mos, cant-a-re-mos). Alguns verbos da 3ª conjugação apresentam alomorfia da vogal temática, alternando -i- e -e- em diferentes formas, como "sentir" (sint-o, sent-e, sent-i-mos) e "preferir" — em que "prefir-o" é alomorfia do radical (prefer- > prefir-), enquanto "prefer-e" exibe a vogal temática alternante. Desinências As desinências verbais indicam as flexões de modo, tempo, pessoa e número. São acrescentadas ao tema e podem ser classificadas em dois tipos: Desinências modo-temporais (DMT): situam-se imediatamente após a vogal temática e especificam o modo e o tempo. Exemplos: -va- (pretérito imperfeito do indicativo: cantá-va-mos), -sse- (pretérito imperfeito do subjuntivo: cantá-sse-mos), -r- (futuro do subjuntivo: canta-r-mos), -re- e -ra- (futuro do presente: cantare-mos, cantará-s). Desinências número-pessoais (DNP): indicam a pessoa e o número. Exemplos: -o (1ª singular: cant-o), -s (2ª singular: canta-s), -mos (1ª plural: canta-mos), -m (3ª plural: canta-m). Em certas formas, a DMT e a DNP podem estar amalgamadas, como no pretérito perfeito do indicativo, em que o "u" de "cantou" é analisado como DNP de 3ª pessoa do singular amalgamada com a noção temporal. Conjugações Verbais Os verbos portugueses agrupam-se em três conjugações, conforme a terminação do infinitivo impessoal: 1ª conjugação: verbos terminados em -ar. Exemplos: falar, amar, estudar, deixar, começar. 2ª conjugação: verbos terminados em -er. Exemplos: viver, comer, correr, chover, caber. 3ª conjugação: verbos terminados em -ir. Exemplos: partir, assistir, dormir, sentir, ir. Há o verbo "pôr" e seus derivados (antepor, compor, supor etc.), que, embora terminem em -or, são classificados como pertencentes à 2ª conjugação, pois historicamente derivam de "poer" (do latim ponere), que se enquadrava na 2ª conjugação. Modos Verbais Os modos verbais indicam a atitude do falante em relação ao fato expresso pelo verbo. Indicativo: expressa fatos certos, reais ou tidos como reais. É o modo da certeza. Exemplos: "Eu estudo todos os dias." "Ela viajou no mês passado." "Nós estudaremos para a prova." Subjuntivo: expressa fatos duvidosos, hipotéticos, possíveis, desejados ou dependentes de condição. É o modo da incerteza. Exemplos: "Espero que você estude." "Se ele estudasse, passaria." "Quando vier, avise-me." Imperativo: expressa ordem, pedido, conselho, súplica ou convite. Exemplos: "Estude para a prova!" "Não fale tão alto." "Sente-se, por favor." O modo indicativo é o mais rico em tempos, contendo presente, pretéritos (perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito) e futuros (do presente e do pretérito). O subjuntivo possui presente, pretérito imperfeito e futuro. O imperativo divide-se em afirmativo e negativo, este último derivado do presente do subjuntivo. Tempos Verbais Os tempos verbais situam a ação ou o estado em uma linha temporal, tomando como referência o momento da fala (presente), um momento anterior (passado) ou um momento posterior (futuro). Os tempos podem ser simples (formas únicas) ou compostos (formados por verbos auxiliares + particípio). Presente do Indicativo Expressa uma ação que ocorre no momento da fala, uma verdade universal, uma ação habitual ou um futuro próximo. Exemplos: "Eu estudo." "O sol nasce a leste." "Ela sempre caminha pela manhã." "Amanhã viajo para o Rio." A conjugação do presente do indicativo serve de base para a formação do presente do subjuntivo e do imperativo (negativo e, em parte, afirmativo). Pretérito Perfeito do Indicativo Indica uma ação concluída em um momento anterior ao da fala. Exemplos: "Ontem eu estudei a matéria toda." "Eles terminaram o trabalho." A conjugação apresenta desinências próprias: -ei, -aste, -ou, -amos, -astes, -aram para a 1ª conjugação; -i, -este, -eu, -emos, -estes, -eram para a 2ª; -i, -iste, -iu, -imos, -istes, -iram para a 3ª. Pretérito Imperfeito do Indicativo Expressa uma ação habitual, contínua ou em andamento no passado, ou uma ação que serviu de cenário para outra. Exemplos: "Quando criança, eu brincava na rua." "Enquanto ela lia, o telefone tocou." "Era uma noite fria." Forma-se com a desinência -va- (1ª conjugação) e -ia- (2ª e 3ª conjugações), seguida das DNP. Pretérito Mais-que-perfeito do Indicativo Indica uma ação passada anterior a outra também passada. Na linguagem moderna, é mais frequentemente substituído pela forma composta (verbo auxiliar "ter" ou "haver" no imperfeito + particípio). Exemplo simples: "Ele já terminara (tinha terminado) o trabalho quando o chefe chegou." Forma-se com a desinência -ra- (cantá-ra-mos, vendê-ra-mos, partí-ra-mos). Futuro do Presente do Indicativo Expressa uma ação que ocorrerá após o momento da fala. Exemplos: "Amanhã farei a prova." "Ela voltará em breve." Forma-se com as desinências -re- (canta-re-mos) e -ra- (canta-rá-s, canta-rá, canta-rão). Emprega-se também o futuro composto (terei feito). Futuro do Pretérito do Indicativo Indica um fato futuro em relação a um momento passado, ou expressa incerteza, hipótese, polidez. Exemplos: "Ele disse que chegaria cedo." "Seria possível atender-me?" "Eu preferiria não opinar." Forma-se com a desinência -ria- (cantá-ria-mos, vendê-ria-mos, partí-ria-mos). Presente do Subjuntivo Indica possibilidade, desejo, dúvida ou hipótese no presente ou no futuro. É frequentemente introduzido pelas conjunções "que", "talvez", "embora". Exemplos: "Talvez ele venha." "Espero que você estude." "Embora seja difícil, tentarei." A formação do presente do subjuntivo para a 1ª conjugação emprega a vogal temática -e- (que cante, que cantemos). Para 2ª e 3ª conjugações, emprega -a- (que venda, que parta). Pretérito Imperfeito do Subjuntivo Expressa uma condição ou hipótese passada que não se realizou, ou uma ação irreal no passado. É muito usado em orações condicionais. Exemplos: "Se eu estudasse mais, passaria." "Embora chovesse, saímos." Forma-se com a desinência -sse- (canta-sse, vende-sse, parti-sse), seguida das DNP. Futuro do Subjuntivo Indica um fato eventual ou hipotético no futuro. Exemplos: "Quando eu quiser, farei." "Se você vier, traga o livro." "Assim que terminarmos, avisarei." Forma-se com a desinência -r- (canta-r, vende-r, parti-r). É importante não confundir com o infinitivo pessoal, que também termina em -r. Infinitivo O infinitivo é a forma nominal do verbo, exprimindo a ação em si, sem situá-la no tempo. Pode ser impessoal (não flexionado) ou pessoal (flexionado em pessoa e número). Exemplos: "Ler é um prazer." (impessoal). "É necessário lerem o edital." (pessoal). O infinitivo pessoal tem suas desinências (-es, -mos, -des, -em) e é empregado em orações com sujeito próprio ou quando há referência a um sujeito plural distinto da oração principal, entre outros contextos. Gerúndio O gerúndio indica uma ação em desenvolvimento. Exemplos: "Estou estudando." "Chegando ao local, avise-me." Pode constituir locuções verbais (verbos auxiliares + gerúndio) e orações reduzidas. Particípio O particípio indica o resultado de uma ação concluída. Forma regular: -ado (1ª conj.), -ido (2ª e 3ª conj.). Verbos abundantes possuem dois particípios: um regular (com auxiliares "ter" e "haver") e um irregular (com "ser" e "estar"): aceitar (aceitado / aceito), limpar (limpado / limpo), pagar (pagado / pago), prender (prendido / preso). Verbos Regulares, Irregulares e Anômalos Regulares: mantêm o radical invariável e seguem o paradigma de sua conjugação. Exemplos: cantar, vender, partir. Irregulares: apresentam alterações no radical ou nas desinências em relação ao paradigma. Exemplos: fazer (faço, fiz), querer (quero, quis), dar (dou, dei), trazer (trago, trouxe). As irregularidades devem ser memorizadas por meio da análise dos tempos primitivos (presente do indicativo, pretérito perfeito do indicativo e infinitivo impessoal, dos quais derivam os demais tempos). Anômalos: são aqueles cujas irregularidades são extremas, a ponto de o radical variar completamente. Os principais são "ser" e "ir". Exemplos: ser (sou, eras, fui); ir (vou, vais, foi, irei). A conjugação desses verbos deve ser estudada isoladamente. Verbos Defectivos e Abundantes Defectivos: são verbos que não possuem conjugação completa, faltando-lhes certas formas por razões eufônicas ou de uso. Exemplos: "falir" (não se conjuga na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo: "eu falo" tem sentido de "falar"), "precaver" (considerado defectivo no presente do indicativo e subjuntivo, conjugando-se apenas nas formas arrizotônicas). Quanto ao verbo "adequar", tradicionalmente considerado defectivo nas formas rizotônicas, cumpre notar que o VOLP e dicionários modernos (como Houaiss) já registram a conjugação completa regular ("eu adéquo", "que eles adequem"), embora alguns certames de caráter mais conservador ainda possam cobrá-lo como defectivo. Abundantes: são verbos que possuem mais de uma forma para o mesmo tempo, especialmente no particípio. Exemplos: aceitar (aceitado/aceito), limpar (limpado/limpo), matar (matado/morto), prender (prendido/preso), soltar (soltado/solto). A escolha entre o particípio regular e o irregular depende do verbo auxiliar: com "ter" e "haver", prefere-se o regular; com "ser" e "estar", o irregular. Exemplos: "Ele tinha aceitado a proposta." "A proposta foi aceita por ele." Vozes Verbais As vozes indicam a relação entre o sujeito e a ação verbal. Ativa: o sujeito pratica a ação. Exemplo: "O professor explicou a matéria." Passiva: o sujeito sofre a ação. Pode ser analítica (verbo auxiliar "ser" + particípio do verbo principal) ou sintética (verbo principal na 3ª pessoa + pronome apassivador "se"). Exemplos: "A matéria foi explicada pelo professor." (analítica); "Explicam-se matérias complexas." (sintética). Reflexiva: o sujeito pratica e recebe a ação. Exemplo: "Ela se penteou." "Os dois se cumprimentaram." (reflexiva recíproca). A transposição da voz ativa para a passiva é um procedimento que exige atenção à correspondência dos termos: o objeto direto da ativa torna-se sujeito da passiva; o sujeito da ativa torna-se agente da passiva; o verbo na passiva é conjugado com o auxiliar "ser" (ou, em certos contextos, "estar", "ficar") no mesmo tempo e modo do verbo principal da ativa. Locuções Verbais As locuções verbais são formadas por um verbo auxiliar (flexionado) seguido de um verbo principal no infinitivo, gerúndio ou particípio. Expressam nuances de tempo, aspecto, modalidade ou voz. Exemplos: "Estou lendo" (aspecto durativo), "Vou sair" (futuridade), "Tenho estudado" (ação continuada), "Fui avisado" (voz passiva), "Devo viajar amanhã" (modalidade de obrigação ou probabilidade). Os auxiliares mais comuns são "ter", "haver", "ser", "estar", "ir", "vir", "ficar", "dever", "poder", "querer". A conjugação das locuções verbais segue as regras de colocação pronominal já estudadas (próclise, mesóclise, ênclise), com a particularidade de que o pronome pode ligar-se ao auxiliar ou ao verbo principal, conforme o caso. Aplicações Práticas O conhecimento aprofundado da estrutura e da conjugação dos verbos permite: Identificar corretamente o tempo e o modo verbal em frases, condição para a análise sintática e para a interpretação textual; Realizar a concordância verbal, que depende do reconhecimento do sujeito e da pessoa/número do verbo; Construir corretamente as formas do imperativo, do subjuntivo e dos tempos compostos; Analisar irregularidades verbais e aplicá-las adequadamente na escrita formal; Interpretar com precisão o valor semântico dos tempos e modos, como a diferença entre o pretérito imperfeito e o perfeito, ou entre o futuro do presente e o futuro do pretérito. O estudo dos verbos é, sem dúvida, um dos mais extensos e desafiadores da gramática, mas é também o que proporciona maior segurança e precisão na comunicação escrita, sendo constantemente exigido em provas discursivas e objetivas.