Variações Linguísticas: Do Norma ao Uso Social - Português | Tuco-Tuco
Aula de Português (Linguística): Variações Linguísticas: Do Norma ao Uso Social. Exploração das variantes diatópicas, diastráticas, diacrônicas e diafásicas, com foco em adequação e preconceito linguístico. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Variações Linguísticas: Da Norma ao Uso Social
A Língua como Fenômeno Social e Histórico
A compreensão da língua como um sistema vivo e dinâmico é o ponto de partida para qualquer análise linguística séria. Durante séculos, a gramática normativa foi tratada como o único parâmetro legítimo para avaliar a correção de um enunciado. No entanto, a Linguística moderna, especialmente a partir dos trabalhos de Ferdinand de Saussure e, posteriormente, da Sociolinguística de William Labov, demonstrou que a língua não é um bloco monolítico definido exclusivamente por regras prescritivas. Ela é, antes de tudo, um sistema de comunicação intrinsecamente ligado à vida social, à história e à subjetividade dos falantes.
1.1 A Distinção entre Língua, Norma e Fala
Para compreender as variações linguísticas, é necessário distinguir três conceitos fundamentais. Partindo da dicotomia original de Saussure (Língua e Fala), o linguista Eugenio Coseriu acrescentou um nível intermediário, formando a tricotomia Língua, Norma e Fala
Língua: É o sistema abstrato de signos e regras compartilhado por uma comunidade linguística. Trata-se de um conjunto virtual de possibilidades expressivas que existe como potencial coletivo. A língua, nesse sentido, não pertence a nenhum falante individual, mas a todos que dela participam. Ela é o que permite que os falantes se compreendam, a despeito das diferenças individuais de pronúncia, vocabulário ou construção sintática.
Norma: A norma é o conjunto de usos linguísticos que uma determinada comunidade elege como padrão em um dado momento histórico. Diferentemente da língua — que é abstrata e coletiva —, a norma é uma seleção histórica e social. Existem dois tipos principais de norma que precisam ser diferenciados:
Norma Culta (ou Norma de Prestígio): É a variedade linguística associada aos falantes de maior escolaridade, utilizada em contextos formais, na literatura canônica, nos documentos oficiais e nos meios de comunicação de referência. É a norma que a gramática tradicional busca codificar e preservar.
Norma Popular: É o conjunto de variedades linguísticas utilizadas por falantes com menor acesso à educação formal. Apresenta padrões próprios de concordância, regência e fonologia, que, embora diferentes da norma culta, são igualmente regulares e dotados de lógica interna. A simplificação da concordância nominal em "as casa" (em vez de "as casas") não é um "erro", mas a aplicação de uma regra diferente daquela prescrita pela gramática normativa.
Fala: É a realização concreta, individual e momentânea da língua. Cada ato de fala é único e irrepetível, carregando as marcas do falante — sua origem geográfica, sua classe social, seu estado emocional, sua intenção comunicativa e sua história pessoal. A fala é o domínio onde a variação linguística se manifesta de forma mais visível e onde a língua se transforma continuamente.
1.2 O Conceito de Adequação Linguística
A grande contribuição da Linguística do século XX foi substituir o conceito de "erro" pelo conceito de "adequação". Nessa perspectiva, não existem formas linguísticas intrinsecamente erradas; existem formas mais ou menos adequadas a uma determinada situação comunicativa.
A adequação linguística é a capacidade do falante de selecionar, entre as múltiplas variedades que domina, aquela que melhor se ajusta ao contexto em que se encontra. Um mesmo indivíduo pode usar a expressão "Vossa Excelência" ao dirigir-se a um juiz, "você" ao conversar com um colega de trabalho e "cê" ao falar com um amigo íntimo. Essas três formas não são etapas evolutivas com valor decrescente, mas sim recursos expressivos diferentes, cada um apropriado a um contexto específico.
A falta de adequação ocorre quando o falante utiliza uma variedade em um contexto em que ela é socialmente desprestigiada ou quando, por desconhecimento da norma culta, não consegue acessar os registros formais exigidos por determinadas situações — como uma entrevista de emprego, uma prova discursiva ou uma apresentação acadêmica.
1.3 A Sociolinguística e a Variação como Regra
A Sociolinguística, campo consolidado por William Labov na década de 1960, demonstrou que a variação não é uma exceção ou uma patologia da língua, mas sim a sua condição natural. Toda língua viva varia. A variação é inerente ao sistema linguístico, e não um desvio dele.
Os estudos sociolinguísticos mostraram que as variantes linguísticas (as diferentes formas de dizer a mesma coisa) não ocorrem de maneira aleatória. Elas são sistematicamente condicionadas por fatores sociais (classe, idade, gênero, escolaridade), geográficos (região) e situacionais (formalidade do contexto). A escolha entre "tu" e "você", entre "mandioca" e "aipim", entre "está" e "tá" não é arbitrária: cada variante carrega consigo um conjunto de significados sociais que os falantes dominam e manipulam, ainda que de forma inconsciente.
Os Quatro Eixos da Variação Linguística
A variação linguística pode ser analisada a partir de quatro eixos principais, cada um correspondendo a uma dimensão da experiência humana: o espaço, o tempo, a estrutura social e a situação comunicativa. Esses quatro eixos são frequentemente cobrados em exames de alta complexidade e exigem do estudante a capacidade de identificar e diferenciar cada tipo de variação.
2.1 Variação Diatópica (Geográfica ou Regional)
A variação diatópica é aquela que ocorre de acordo com o espaço geográfico. É a dimensão horizontal da variação. As diferenças regionais podem manifestar-se em todos os níveis da língua: fonológico, morfológico, sintático e, principalmente, lexical.
Exemplos de Variação Diatópica no Léxico
A variação lexical regional é uma das mais visíveis e facilmente identificáveis. Um mesmo objeto pode receber nomes diferentes dependendo da região do país:
Mandioca, aipim, macaxeira: Esses três termos designam a mesma raiz (Manihot esculenta) em diferentes regiões do Brasil. No Sudeste e Centro-Oeste, predomina "mandioca"; no Sul e em partes do Sudeste, "aipim"; no Norte e Nordeste, "macaxeira".
Semáforo, sinaleiro, sinal, farol: O equipamento de controle de tráfego recebe nomes diferentes conforme a região.
Abóbora, jerimum, moranga: Diferentes denominações para variedades da mesma cucurbitácea.
Pão francês, cacetinho, pão de sal, média, filão: O pão consumido no café da manhã brasileiro possui dezenas de denominações regionais.
Exemplos de Variação Diatópica na Fonologia
As diferenças de pronúncia entre regiões são também marcantes:
O /r/ retroflexo do interior paulista e de regiões de Minas Gerais: O chamado "r caipira", produzido com a ponta da língua curvada para trás, é uma marca identitária forte do falar do interior do Sudeste e Centro-Oeste. Contrasta com o /r/ gutural carioca (aspirado, como em "pohta" para "porta") e com o /r/ vibrante múltiplo de algumas regiões do Sul.
As vogais médias pretônicas: No Nordeste, palavras como "menino" e "boneca" são frequentemente pronunciadas com as vogais abertas ("m[é]nino", "b[ó]neca"), enquanto no Sudeste essas vogais tendem a ser fechadas ("m[e]nino", "b[o]neca").
A palatalização do /s/ e /z/: No Rio de Janeiro e em algumas regiões do Norte, o /s/ e o /z/ em final de sílaba são pronunciados como "x" e "j" ("mejmo" para "mesmo", "poj" para "pós"). Em São Paulo e no Sul, predomina a pronúncia alveolar ("mesmo", "pós").
A ditongação de vogais tônicas: No Nordeste, é comum a ditongação em palavras como "três" (pronunciada "trêis") e "fez" (pronunciada "feiz").
Os Atlas Linguísticos
O estudo científico da variação diatópica é realizado por meio de atlas linguísticos, que mapeiam a distribuição geográfica de variantes. No Brasil, o Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) é a grande obra de referência, documentando a diversidade do português brasileiro em todas as regiões.
2.2 Variação Diacrônica (Histórica)
A variação diacrônica é a variação ao longo do tempo. Toda língua se transforma continuamente, e essas transformações acumulam-se ao longo das gerações, de modo que o português falado hoje é significativamente diferente do português falado no século XVI, e este, por sua vez, já era diferente do latim vulgar que lhe deu origem.
Exemplos Clássicos de Mudança Diacrônica
Vossa Mercê > Vosmecê > Você > Cê: Essa cadeia de transformações ilustra o processo de gramaticalização, em que uma forma de tratamento respeitosa ("Vossa Mercê", usada para dirigir-se a nobres) vai se desgastando foneticamente até tornar-se o pronome pessoal "você" e, em contextos informais, a forma reduzida "cê". Cada etapa coexiste com as demais em diferentes registros até hoje.
Ortografia: As reformas ortográficas são exemplos institucionais da variação diacrônica. Palavras como "pharmacia" passaram a "farmácia"; "theatro" passou a "teatro"; "escripto" passou a "escrito". O Acordo Ortográfico de 1990, implementado no Brasil a partir de 2009, eliminou o trema ("linguiça", e não mais "lingüiça") e alterou regras de acentuação ("ideia", sem acento; "voo", sem acento; "enjoo", sem acento).
Sintaxe: O uso do pronome "vós" e das formas verbais correspondentes ("vós sabeis", "vós tendes") desapareceu quase completamente do português brasileiro falado, sendo substituído por "vocês" com verbo na terceira pessoa do plural ("vocês sabem"). O pronome "tu", que no português europeu é de uso corrente, no Brasil é restrito a algumas regiões (Sul, partes do Norte e Nordeste) e, mesmo nessas regiões, frequentemente combina-se com o verbo na terceira pessoa ("tu sabe", em vez de "tu sabes").
Semântica: Muitas palavras mudam de significado ao longo do tempo. A palavra "formidável", que hoje significa "excelente", "admirável", originalmente significava "terrível", "assustador" (do latim formidabilis, "que causa medo"). "Sobremesa" designava originalmente a toalha que se colocava sobre a mesa para protegê-la; hoje designa a refeição que se segue ao prato principal.
A Gramática Histórica
A disciplina que estuda sistematicamente a variação diacrônica é a Gramática Histórica. Ela investiga as leis fonéticas que explicam as transformações sonoras do latim ao português (metaplasmos), a evolução das formas gramaticais e as mudanças de significado ao longo dos séculos. Para exames como o vestibular da Fuvest e o ENEM, o domínio básico da variação diacrônica é importante para a leitura de textos de época e para a compreensão de arcaísmos.
2.3 Variação Diastrática (Social)
A variação diastrática é aquela que se relaciona com a estratificação social. É a dimensão vertical da variação. Os fatores sociais que condicionam a variação diastrática incluem a classe socioeconômica, o grau de escolaridade, a idade, o gênero e a profissão do falante.
Fatores Condicionantes da Variação Diastrática
Classe socioeconômica e escolaridade: O acesso à educação formal é o principal fator de diferenciação diastrática. Falantes com maior escolaridade tendem a dominar a norma culta e a utilizá-la em contextos formais, enquanto falantes com menor escolaridade tendem a utilizar variedades com padrões gramaticais distintos. A ausência de concordância nominal ("os menino", "as casa") e verbal ("nós vai", "eles chegou") é frequentemente associada a falantes com menor grau de escolarização, embora seja importante destacar que essas construções são regulares do ponto de vista linguístico e não configuram deficiência cognitiva ou comunicativa.
Idade (Variação Etária): Cada geração desenvolve formas próprias de expressão. Os jovens são frequentemente os principais agentes de inovação linguística, criando novas gírias e expressões que, com o tempo, podem incorporar-se à língua geral ou cair em desuso. A gíria "irado", popular entre os jovens das décadas de 1980 e 1990, hoje convive com formas como "top", "massa", "da hora", cada uma associada a diferentes faixas etárias e grupos sociais.
Gênero (Variação de Gênero): Estudos sociolinguísticos demonstram que homens e mulheres tendem a apresentar padrões de variação distintos. Em muitas comunidades, as mulheres tendem a utilizar formas mais próximas da norma de prestígio, enquanto os homens tendem a utilizar mais formas estigmatizadas. Essas diferenças não são biológicas, mas sim relacionadas aos papéis sociais e às expectativas culturais associadas a cada gênero.
Grupo profissional (Jargão): Cada área profissional desenvolve um vocabulário técnico especializado que facilita a comunicação entre seus membros, mas pode ser ininteligível para pessoas de fora da área. O jargão médico ("prurido", "dispneia", "edema"), o jargão jurídico ("exordial", "preambular", "data venia") e o jargão da informática ("bug", "deploy", "refatorar") são exemplos de variação diastrática por grupo profissional.
Gírias de Grupo
As gírias são formas lexicais efêmeras associadas a grupos sociais específicos. Diferentemente do jargão técnico, as gírias têm função mais expressiva e identitária do que técnica. Elas servem para reforçar os laços de pertencimento ao grupo e para marcar a diferença em relação a outros grupos. A gíria dos skatistas ("mandar uma manobra", "dropar"), dos gamers ("noob", "farmar", "rushar") e dos músicos ("groove", "levada", "riff") são exemplos contemporâneos.
2.4 Variação Diafásica (Situacional ou Registro)
A variação diafásica é a variação que depende do contexto comunicativo. É a capacidade do falante de alternar entre diferentes registros conforme a situação: a identidade do interlocutor, o ambiente em que ocorre a comunicação, o assunto tratado e o grau de formalidade esperado.
Os Registros Formal e Informal
Registro Formal (Culto): É o registro apropriado para situações em que há assimetria de poder ou distanciamento entre os interlocutores, ou em que o assunto exige precisão e impessoalidade. Caracteriza-se pelo uso da norma culta, com obediência às regras de concordância, regência e colocação pronominal prescritas pela gramática tradicional. O vocabulário tende a ser mais preciso e erudito. Exemplos: uma audiência judicial, uma defesa de tese acadêmica, uma carta oficial, um parecer técnico.
Registro Informal (Coloquial): É o registro apropriado para situações de intimidade, espontaneidade e simetria entre os interlocutores. Caracteriza-se por maior liberdade sintática, uso de gírias e expressões idiomáticas, frases mais curtas e elípticas. Exemplos: uma conversa entre amigos, uma mensagem de texto para um familiar, uma interação casual nas redes sociais.
É importante compreender que não há registro intrinsecamente superior ao outro. Um falante competente é aquele que domina múltiplos registros e sabe selecionar o mais adequado a cada situação. Um juiz que usa o registro informal em uma sentença comete uma inadequação tão grave quanto um amigo que usa o registro ultraformal em uma conversa de bar.
A Escala de Formalidade
Entre os extremos do formal e do informal, existe uma escala contínua de registros intermediários. O falante ajusta constantemente seu registro de acordo com:
O interlocutor: Fala-se de forma diferente com um superior hierárquico, um colega e um subordinado.
O ambiente: O mesmo assunto será tratado de forma diferente em um consultório médico e em uma roda de amigos.
O canal: A comunicação escrita tende a ser mais formal que a comunicação oral; a comunicação por e-mail tende a ser mais formal que a comunicação por aplicativos de mensagens.
O assunto: Temas técnicos ou solenes exigem registros mais formais, enquanto temas cotidianos permitem maior informalidade.
Norma Culta, Norma Popular e o Conceito de "Erro"
3.1 A Norma Culta como Variedade de Prestígio
A norma culta é a variedade linguística historicamente associada às classes dominantes e às instituições de poder. Seu prestígio não deriva de propriedades intrínsecas da língua, mas sim do prestígio social de seus falantes. Em outras palavras, a norma culta não é "melhor" ou "mais lógica" do que as outras variedades; ela é a variedade que, por razões históricas e sociais, foi alçada à condição de padrão.
Do ponto de vista estritamente linguístico, todas as variedades são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer conteúdo. Não há língua ou variedade linguística "primitiva" ou "inferior". A diferença entre a norma culta e a norma popular não é de natureza linguística, mas de valor social.
No entanto, em uma sociedade estratificada como a brasileira, o domínio da norma culta é um requisito para o acesso a determinadas posições sociais e profissionais. Por essa razão, o ensino da norma culta é uma obrigação da escola, não porque ela seja "superior", mas porque ela é a variedade de prestígio cujo domínio é necessário para o pleno exercício da cidadania.
3.2 A Norma Popular e sua Lógica Interna
A norma popular, frequentemente estigmatizada como "português errado", possui sua própria lógica e suas próprias regras, tão sistemáticas quanto as da norma culta, embora diferentes delas.
A Simplificação da Concordância
Na variedade popular do português brasileiro, o plural tende a ser marcado apenas no primeiro elemento do sintagma nominal (o artigo ou o determinante), e não em todos os seus componentes. Assim, em vez de "as casas bonitas", produz-se "as casa bonita". Do ponto de vista da gramática normativa, essa é uma construção "errada". Do ponto de vista linguístico, no entanto, trata-se de uma estratégia de economia em que a informação de plural, já contida no artigo "as", não precisa ser redundantemente repetida nos demais elementos.
A Reorganização do Sistema Pronominal
No português popular brasileiro, o sistema pronominal passou por uma reorganização significativa. O pronome "tu", onde ainda é usado, frequentemente combina-se com formas verbais de terceira pessoa ("tu vai", "tu sabe"). O pronome "nós" tem sido progressivamente substituído por "a gente" com verbo na terceira pessoa do singular ("a gente vai", em vez de "nós vamos"). Essas mudanças não são aleatórias: elas seguem uma lógica de simplificação do paradigma flexional, reduzindo o número de formas verbais diferentes que o falante precisa dominar.
3.3 O "Erro" como Construção Social
A Linguística moderna demonstrou que o "erro gramatical" não é um fenômeno linguístico, mas sim um fenômeno social. O que se chama de "erro" é, na realidade, o uso de uma variedade diferente daquela que a gramática normativa codificou como padrão. A frase "nós vai ao mercado" é perfeitamente compreensível e comunica tão eficazmente quanto "nós vamos ao mercado". A diferença entre elas não está na eficácia comunicativa, mas no valor social atribuído a cada forma.
Isso não significa, evidentemente, que a norma culta não deva ser ensinada. Pelo contrário: cabe à escola proporcionar ao aluno o acesso à variedade de prestígio, não para que ele abandone sua variedade de origem, mas para que ele se torne um falante "poliglota" dentro de sua própria língua, capaz de transitar entre diferentes registros e variedades conforme as exigências de cada situação.
Preconceito Linguístico: Origem, Manifestações e Consequências
4.1 O Conceito de Preconceito Linguístico
O preconceito linguístico, conceito amplamente difundido no Brasil pelo linguista Marcos Bagno, é a discriminação baseada na forma de falar de uma pessoa. Trata-se de uma manifestação de preconceito social que se disfarça de "defesa da língua" ou de "zelo pela correção gramatical". Na realidade, o que se rejeita não é a "língua errada", mas sim o falante — sua origem social, sua escolaridade, sua região, sua identidade.
O preconceito linguístico é uma das formas mais perversas de exclusão social, porque opera de maneira sutil e é frequentemente legitimado pelo discurso da "boa linguagem". Quando se ridiculariza alguém por dizer "pobrema" em vez de "problema", "mortandela" em vez de "mortadela", ou "nós vai" em vez de "nós vamos", o que está em jogo não é o respeito à língua, mas sim a desvalorização do falante.
4.2 Os Mitos do Preconceito Linguístico
Marcos Bagno identifica e desmonta uma série de mitos que sustentam o preconceito linguístico no Brasil. Entre os principais, destacam-se:
"O português é uma língua difícil": Nenhuma língua é intrinsecamente mais difícil do que outra. A percepção de dificuldade está relacionada ao método de ensino e à distância entre a variedade de prestígio (ensinada na escola) e a variedade de origem do aluno.
"Brasileiro não sabe português": Esse mito pressupõe que apenas a variedade culta é "português", ignorando que todo falante nativo domina perfeitamente a variedade linguística de sua comunidade. O falante que diz "as casa" não está falando uma língua diferente; está falando português com regras diferentes, mas igualmente estruturadas.
"Só em Portugal se fala bem português": Essa crença, de fundo colonialista, ignora que o português brasileiro e o português europeu são duas variedades igualmente legítimas da mesma língua, cada uma com sua história e suas características próprias.
"O lugar onde se comete mais erros é na boca do povo": Esse mito estigmatiza a fala popular como fonte de "erros" e ignora que a variação linguística é um fenômeno universal que atinge todos os estratos sociais. O falante culto também "comete erros" quando, por descuido ou ignorância, deixa de adequar seu registro à situação.
4.3 Manifestações do Preconceito Linguístico
O preconceito linguístico manifesta-se de formas variadas, que vão desde a ridicularização aberta até formas mais sutis de discriminação.
Ridicularização de sotaques regionais: O sotaque nordestino, por exemplo, é frequentemente alvo de piadas e estereótipos nos meios de comunicação do Sudeste, associando-se a características como ignorância ou ingenuidade. O mesmo ocorre com o sotaque caipira do interior paulista e com o sotaque de regiões periféricas em geral.
Correção pública e humilhação: Corrigir a fala de alguém em público, especialmente em contextos formais ou hierárquicos, é uma forma de exercer poder e de constranger o interlocutor. Essa prática é comum em ambientes corporativos e acadêmicos e pode ter efeitos devastadores sobre a autoestima linguística do indivíduo.
Discriminação em processos seletivos: Embora dificilmente explicitada, a discriminação linguística opera em entrevistas de emprego e em outros processos seletivos, nos quais a forma de falar do candidato é associada, consciente ou inconscientemente, à sua competência profissional.
Piadas e "memes" linguísticos: A internet amplificou a circulação de conteúdos que ridicularizam variedades linguísticas estigmatizadas, frequentemente sob o disfarce de humor. Essas "piadas" reforçam estereótipos e perpetuam o preconceito.
4.4 Consequências do Preconceito Linguístico
As consequências do preconceito linguístico são graves e duradouras. Elas incluem:
Exclusão social e educacional: Alunos cuja variedade linguística de origem é estigmatizada frequentemente sentem-se deslocados e incompetentes no ambiente escolar, o que contribui para o fracasso escolar e para a evasão.
Insegurança linguística: O falante que é constantemente corrigido e ridicularizado desenvolve uma relação de medo e insegurança com a própria língua, o que prejudica sua capacidade de expressão e sua participação em debates públicos.
Reforço das desigualdades sociais: Ao naturalizar a hierarquia entre variedades linguísticas, o preconceito linguístico contribui para a manutenção das desigualdades sociais, uma vez que o domínio da norma culta é um fator de distinção e de acesso a posições privilegiadas.
4.5 O Combate ao Preconceito Linguístico
O combate ao preconceito linguístico é um imperativo ético e pedagógico. Ele passa por várias frentes:
Educação linguística crítica: A escola deve ensinar a norma culta, mas sem desvalorizar as variedades de origem dos alunos. O ensino de língua deve incluir a reflexão sobre a variação linguística, sobre o conceito de adequação e sobre a legitimidade de todas as variedades.
Valorização da diversidade linguística: A diversidade linguística brasileira deve ser apresentada como um patrimônio cultural, e não como um desvio a ser corrigido. Os sotaques, os regionalismos e as variedades populares são parte da riqueza da língua portuguesa.
Letramento e acesso à norma culta: O acesso à norma culta é um direito do cidadão. A escola deve proporcionar aos alunos as ferramentas para dominar a variedade de prestígio, capacitando-os a transitar com desenvoltura entre diferentes registros e contextos.
Quadros Comparativos e Relações entre os Eixos de Variação
5.1 Síntese dos Quatro Eixos de Variação
| Eixo de Variação | Fator Determinante | Exemplo Representativo |
| :--- | :--- | :--- |
| Diatópica | Espaço geográfico | Mandioca (Sudeste) / Aipim (Sul) / Macaxeira (Nordeste) |
| Diacrônica | Tempo histórico | Pharmacia (séc. XIX) / Farmácia (atual) |
| Diastrática | Estrato social, idade, profissão | Jargão médico, gíria juvenil, concordância variável |
| Diafásica | Situação comunicativa | Registro formal ("Vossa Senhoria") / Registro informal ("cê") |
5.2 Norma Culta vs. Norma Popular
| Característica | Norma Culta | Norma Popular |
| :--- | :--- | :--- |
| Associação social | Classes de maior escolaridade e renda | Classes de menor escolaridade e renda |
| Contexto de uso típico | Situações formais, documentos, literatura | Situações informais, oralidade, cotidiano |
| Concordância nominal | Marcação completa ("as casas bonitas") | Marcação apenas no primeiro elemento ("as casa bonita") |
| Concordância verbal | Padrão prescrito pela gramática normativa ("nós vamos") | Padrões variáveis ("nós vai", "a gente vai") |
| Valor social | Prestígio | Estigmatização |
A Variação Linguística em Provas e Exames
A abordagem da variação linguística em exames como o ENEM e os vestibulares da Fuvest, Unicamp e UERJ reflete a consolidação dos princípios da Sociolinguística no ensino de língua portuguesa. As questões frequentemente exigem do candidato a capacidade de reconhecer que:
Não existem formas linguísticas intrinsecamente certas ou erradas, mas sim formas mais ou menos adequadas a um dado contexto.
O preconceito linguístico é uma forma de exclusão social e deve ser combatido.
A variedade de prestígio (norma culta) é apenas uma entre muitas variedades possíveis da língua, embora seja a requerida em contextos formais.
A adequação linguística é a chave para a comunicação eficiente: o falante competente é aquele que domina múltiplas variedades e sabe selecionar a mais apropriada a cada situação.
O estudo das variações linguísticas, portanto, não é apenas um conteúdo programático: é uma ferramenta para a formação de cidadãos críticos, capazes de compreender a língua como um fenômeno social, histórico e político.
Exercícios:
Um falante que utiliza 'tu' com o verbo na terceira pessoa ('tu vai') no Rio Grande do Sul e 'você' em São Paulo está exercendo qual tipo de variação?
Um advogado, ao escrever uma petição, utiliza a expressão 'Data Vênia' e uma estrutura sintática complexa. Caso ele use a mesma linguagem em um churrasco de família, haveria uma inadequação:
O trecho 'Farmácia' escrito como 'Pharmacia' em rótulos antigos representa qual tipo de variação linguística?
A tendência de falantes pronunciarem 'adivogado' ou 'papeu' (em vez de 'papel') está relacionada a qual pilar sociocognitivo da variação linguística?
Mantida
Em uma redação que exige a norma padrão, qual das frases abaixo está gramaticalmente correta quanto ao uso do verbo haver?
A frase 'As casa são bonita' é um exemplo de qual variante, frequentemente estigmatizada, mas que possui lógica interna própria?
Qual é a principal função da Norma Padrão ou Linguagem Formal na sociedade moderna?
Sobre as variações regionais (diatópicas), qual afirmação é verdadeira a respeito dos termos 'mandioca', 'aipim' e 'macaxeira'?
A expressão 'Que mico!' exemplifica uma gíria que pode cair em desuso com o tempo. Esse processo de desaparecimento de gírias faz parte de qual variação?
A linguística atual avalia o uso da língua com base na adequação, ou seja, analisa se a forma de falar ou escrever combina com a situação e com as pessoas envolvidas na comunicação, deixando de lado a ideia de que existe apenas o certo e o errado absolutos.
A variação diatópica, ou geográfica, trata apenas das palavras diferentes usadas em cada região do país, não incluindo as diferenças na pronúncia ou no sotaque das pessoas.
Os termos técnicos usados por médicos no hospital e as gírias usadas por grupos de jovens na escola são exemplos claros de variação diastrática.
O preconceito linguístico acontece quando as pessoas julgam e diminuem as formas de falar de grupos sociais mais pobres ou de regiões afastadas, usando a norma-padrão para tentar provar superioridade.
A variação diacrônica é o estudo de como as pessoas mudam o tom de voz e as palavras dependendo da situação, por exemplo, falando sério no trabalho e descontraído em casa.
A capacidade de uma pessoa conversar usando gírias com amigos e, logo depois, usar palavras muito formais ao apresentar um trabalho na faculdade é um exemplo de variação diafásica.
A norma-padrão da língua portuguesa é uma cópia exata do jeito natural e diário que as pessoas mais ricas e estudadas do Brasil falam.
A mudança histórica de 'Vossa Mercê' para o uso de 'Cê' fez com que a palavra 'Cê' passasse a ser exigida como a forma correta em documentos oficiais e provas acadêmicas.
Na vida real, os vários tipos de variação da língua se misturam. Quando alguém fala, é possível notar ao mesmo tempo de qual região a pessoa é, a sua idade e o nível de formalidade da conversa.
A adequação linguística ensina que as escolas devem proibir o ensino das regras da gramática, deixando que os alunos usem apenas as gírias de seus bairros em qualquer situação para evitar preconceitos.
Segundo a perspectiva sociolinguística, como a frase 'Nós vai na feira' pode ser analisada?
Sobre o uso dos 'porquês', em qual situação deve-se utilizar a forma 'por que' (separado e sem acento)?
A transformação de 'Vossa Mercê' em 'Você' ao longo da história da língua portuguesa exemplifica qual tipo de fenômeno linguístico?
O uso de termos como 'crush', 'flopar' e 'trollar' em contextos informais, especialmente na internet, caracteriza PRINCIPALMENTE uma variação linguística do tipo:
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão , leia os excertos abaixo, retirados de Mas em que mundo tu vive, de José Falero.
Eu também poderia contar aqui sobre como os colegas me chamavam, na época em que trabalhei num certo supermercado: macaco branco, babuíno malpassado. Ou, então, poderia falar sobre como o pessoal da Bela Vista, onde trabalhei como porteiro, corria a guardar o celular tão logo botava os olhos em mim.
Aqui na Lomba do Pinheiro existe uma lenda conhecida como C98, ou Circular Pinheiro. Esse ônibus – que dá mil e uma voltas no bairro pra depois ir morrer de cansado lá no alto do Campus do Vale –, nossa mãe!, o bicho passa quando bem entende. A coisa é tanta que as pessoas nunca sabem dizer com certeza se a linha ainda tá funcionando.
– Vem cá, e o C98, que nunca mais vi, hein? Será que ainda existe aquilo?
– Ué, e já existiu mesmo alguma vez? Ouvi falar desse troço aqui e ali, mas ver, ver, que é bom, nunca nem vi.
Pois o troço existe mesmo. E no ano passado, quando comecei a estudar no Colégio de Aplicação, me dei conta de que o C98 era a linha que melhor me servia na ida da Pinheiro pro campus.
A partir das leitura dos excertos e da leitura integral da obra Mas em que mundo tu vive, considere as seguintes afirmações.
I - A obra contém textos divididos em quatro seções: "Assalariados", "Em construção", "Branco é a vó" e "Entre as tripas e a razão". Nesse conjunto de crônicas, o autor se compromete em denunciar questões como as desigualdades econômica e social e o racismo estrutural.
II - O projeto literário de Falero revela-se no desejo de assumir-se como voz oriunda da periferia. Tal intenção é reiterada em diferentes passagens de suas crônicas, ainda que não seja enunciada de forma literal, transparecendo tanto na escolha temática quanto na elaboração estilística de seus textos.
III- O autor das crônicas constrói sua escrita de modo a recriar o ritmo da fala, sobretudo aquela própria da periferia de Porto Alegre, seu lugar de origem. Suas crônicas apresentam, frequentemente, gírias e formas de expressão que rompem com a norma culta padrão.
Quais estão corretas?
[UNICAMP - 2025 - Vestibular] A imagem a seguir apresenta a transcrição de um diálogo em um vídeo publicado no Instagram. (A imagem mostra uma conversa entre uma médica e uma paciente, onde a médica reformula sua fala em um tom mais coloquial.) (Adaptado de https://www.instagram.com/dhar.mann. Acesso em 12/04/2024.) No diálogo, a principal característica da reformulação da fala da médica é a inserção de [IMAGEM NECESSÁRIA: Transcrição do diálogo entre a médica e a paciente, mostrando a fala original técnica e a reformulação com linguagem mais coloquial]
[UNICAMP - 2026 - Vestibular] A rua é nóix! Sempre com letra minúscula, porque não é o Nós da totalidade, uma vez que não sabemos exatamente quem ou quantos somos, quem faz parte ou não, quem está dentro ou fora. Mas, se pegar para um, vai pegar pra geral. O nóix é sempre mais que um. Mesmo sozinho, na missão, existe algo para além da presença física do eu e do outro. Assumindo nossas ancestralidades, convivemos com os espíritos daqueles que já se foram. O nóix opera pela lógica dos bondes de galera, do lado A ou lado B. Quem é amigo fecha com a gente, quem é alemão rala. Porque o fechamento é o fundamento ético das ruas. Recebe-se quem chega de boa, na paz, mas, se vacila, vai. Com i e x, o nóix demarca um sotaque, um registro local, um lugar, o Pretuguês de Lélia Gonzalez. Desobedecendo à instituída norma culta, o nóix - escrito ou falado - revela sua potência operando à margem da obediência à linguagem fonética dominante. O nóix é a potência da contaminação diferencial das diversidades de um povo em tempos e espaços múltiplos, que se repete numa atmosfera espectral que ultrapassa a lógica temporal predominante.
(Adaptado de MORAES, M. J. D. A rua é nóix, Revista Cult, ed. 271, jul. de 2021.)
Sobre a diferença que o texto estabelece entre Nós e nóix, podemos afirmar que está relacionada a uma distinção
[UNICAMP - 2026 - Vestibular] "É advogado com d mudo, estúpida!"
Mirian Goldenberg
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice
" Fiz um vídeo para o Instagram sobre a minha coluna intitulada No dia 1º de abril, quase caí no golpe do 'falso advogado'. No vídeo, confessei que quase morri de vergonha por quase ter caído em um golpe no Dia da Mentira.
Fiquei triste quando li alguns dos comentários sobre o vídeo: "AdEvogado?; "Não é adevogado que fala"; "A desinformada que fala adevogado aprendeu o que é golpe de verdade kkkk"; "Adevogado? Pode isso? Uma 'intelequitual' brasileira da linha de frente falando assim?"; "Um currículo e tanto e falando adevogado?; "Chamou de adevogado. Então não foi difícil entender por que caiu em golpe... Eu teria é vergonha de falar adevogado"; "A palavra 'advogado' se pronuncia 'advogado', com o 'd' mudo. A pronúncia adevogado é um erro de ortoépia"; "É advogado com 'd' mudo, estúpida!".
Perguntei ao meu marido, que editou o vídeo, por que ele não me falou nada. Ele respondeu: "Porque eu acho bonitinho. Você é filha de advogado e tem dois irmãos advogados. Desde menina aprendeu a falar assim. Não é fácil falar 'advogado' com o 'd' mudo. Eu falo advogado com 'i': adivogado. Será que alguém consegue falar advogado com o 'd' mudo?"
Da próxima vez que fizer uma denúncia importante, vou tentar falar advogado com o "d" mudo. Será que vou conseguir? "
(Adaptado de GOLDENBERG, M. É advogado com d mudo, estúpida! Folha de São Paulo, 16/04/2025, B6. Acesso em 29/07/2025.)
Considerando que consoantes mudas não são seguidas de uma vogal, e levando em conta as duas pronúncias para advogado mencionadas no texto, as críticas reproduzidas no segundo parágrafo revelam
[UNICAMP - 2026 - Vestibular] Leia os textos para responder a questão:
A rua é nóix! Sempre com letra minúscula, porque não é o Nós da totalidade, uma vez que não sabemos exatamente quem ou quantos somos, quem faz parte ou não, quem está dentro ou fora. Mas, se pegar para um, vai pegar pra geral. O nóix é sempre mais que um. Mesmo sozinho, na missão, existe algo para além da presença física do eu e do outro. Assumindo nossas ancestralidades, convivemos com os espíritos daqueles que já se foram. O nóix opera pela lógica dos bondes de galera, do lado A ou lado B. Quem é amigo fecha com a gente, quem é alemão rala. Porque o fechamento é o fundamento ético das ruas. Recebe-se quem chega de boa, na paz, mas, se vacila, vai. Com i e x, o nóix demarca um sotaque, um registro local, um lugar, o Pretuguês de Lélia Gonzalez. Desobedecendo à instituída norma culta, o nóix - escrito ou falado - revela sua potência operando à margem da obediência à linguagem fonética dominante. O nóix é a potência da contaminação diferencial das diversidades de um povo em tempos e espaços múltiplos, que se repete numa atmosfera espectral que ultrapassa a lógica temporal predominante.
(Adaptado de MORAES, M. J. D. A rua é nóix, Revista Cult, ed. 271, jul. de 2021.)
A partir das análises de Lélia Gonzalez - intelectual, professora universitária, mulher, negra e feminista - conseguimos compreender quão extensa é a introdução de palavras e termos de origens africanas na nossa língua. O Pretuguês é, então, parte da africanização da língua portuguesa brasileira. As pessoas negras escravizadas resistiam de inúmeras formas, lutando, fugindo, se organizando, mas também através da fala, no jeito de agir e na forma de viver que se enraizou na maneira de ser de todo o Brasil. E isso vem da ancestralidade, é o passar do conhecimento através do tempo e das relações de respeito pelo que veio antes, através do cântico antigo, da reza falada, da contação de história que os entrelaços linguísticos vão formando. Muitos vocábulos estão tão acomodados no nosso idioma que sequer paramos para pensar sua origem e seu significado. Mas são de origem africana, como dengo, quitanda, cafuné, muvuca, caçula e axé.
(Adaptado de texto publicado no perfil de Instagram de Mari Canuto em 28/09/2022. Disponível em https://www.instagram.com/mari_canuto/reel/CjD8ALkPw9o/. Acesso em 30/07/2025.)
Considerando esse texto, a menção ao "Pretuguês de Lélia Gonzalez" no artigo de Marcelo José Derzi Moraes, apresentado na questão anterior, ocorre pelo fato de nóix ser
[UNESP - 2024] Para responder , leia o conto indígena “Mboi-tatá ou Fogo-fátuo”, história contada por Yaguareçá Sukuyê e escrita por Yaguarê Yamã.
Fogo-fátuo é o nome pelo qual se conhece o Mboi-tatá, que em nhengatu significa “cobra de fogo”. Ele é um ser visajento[1], brilhante, que para os Maraguá, e especialmente para os habitantes do rio Urariá, se apresenta como uma luz que pinga, como se fosse uma vela.
Certa vez, um rapaz de uma aldeia saiu para ir a uma festa na aldeia vizinha. Muito interessado nas moças, ele demorou muito e acabou voltando depois da meia-noite. Como não havia levado lamparina para alumiar o caminho, foi andando aos tropeções pelo cacoal[2] de uns dois quilômetros que separava as duas aldeias. Sempre é perigoso andar por dentro do cacoal, pois a luz do luar não atravessa as árvores, e muitas vezes há cobras venenosas, como a surukuku, a mais temida da região.
O rapaz vinha o tempo todo olhando para trás, torcendo para que viesse alguém com uma lamparina. Mas não vinha ninguém, e ele continuava andando, sempre com muito medo de ser picado por alguma cobra. De repente ele avistou uma luz muito ao longe e resolveu esperar, achando que fosse alguém da aldeia que vinha na sua direção. Quando a luz se aproximou, ele chamou:
— Olá, amigo, quem é você?
Só que ninguém respondeu. O rapaz recomeçou a andar, bem devagarinho, e meio cismado tornou a falar:
— Olá, amigo, está indo para a aldeia?
Mais uma vez, ninguém respondeu.
Muito desconfiado, o rapaz acelerou o passo. A luz se tornou mais forte e, pingando como uma vela, foi se aproximando mais depressa. O rapaz não quis ver mais nada. Saiu correndo, tropeçando no meio da escuridão, caindo e se levantando, com a luz misteriosa sempre atrás dele, tentando alcançá-lo.
Cansado de tanto correr, quase entregando os pontos, ele acabou deixando a escuridão do cacoal e avistou a aldeia logo à sua frente. Não deu nem para chegar em casa. Passou como um relâmpago pelo meio dos cachorros que latiam e se jogou contra a porta do primeiro tapiry[3] que encontrou. Com o tranco, arrebentou a esteira de japá[4] e caiu para dentro. O dono da casa acordou assustado, ouviu a história do rapaz e os dois saíram juntos para o terreiro. A luz estranha tinha sido atacada pelos cachorros, e eles ainda a viram se afastando e voltando a entrar no cacoal.
No dia seguinte a aldeia toda ficou sabendo do caso, e nunca mais ninguém teve coragem de passar por aquele cacoal à noite.
(Yaguarê Yamã. Murũgawa: mitos, contos e fábulas do povo Maraguá, 2007.)
[1] ser visajento (ou visagento): ser sobrenatural.
[2] cacoal: aglomerado de cacaueiros.
[3] tapiry: choupana que serve de abrigo.
[4] japá: esteira de palha para cobrir ou servir de porta.
Observa-se o emprego de uma expressão própria da linguagem coloquial no seguinte trecho do conto "Mboi-tata ou Fogo-fátuo":
[UNESP - 2024] Para responder à questão, leia o epílogo do livro O fim da Terra e do Céu, do físico brasileiro Marcelo Gleiser.
A sabedoria dos céus
Cada vez que tocamos algo na Natureza,
causamos reverberações no resto do Universo.
John Muir (1838-1914)
Existe magia nos céus. E essa magia nos compele a olhar para cima, a explicar, de alguma forma, nosso lugar no vasto Universo em que vivemos. Afinal, nós somos poeira das estrelas, nossa química deriva de explosões estelares que ocorreram antes ainda da formação do sistema solar. Se durante a história da humanidade nossas explicações vieram originalmente das várias religiões, hoje elas provêm da ciência. Mas, conforme procurei argumentar neste livro, não existe uma ruptura abrupta entre o discurso religioso e o discurso científico. O fascínio e o medo dos céus, que são parte integral de muitas religiões, influenciaram e influenciam o desenvolvimento das teorias científicas que criamos para explicar os movimentos celestes. O que antes era inesperado, assustador, tantas vezes interpretado como uma mensagem dos deuses ou mesmo como um prenúncio do Fim, é hoje incorporado nas nossas teorias cósmicas, que visam descrever os diversos fenômenos celestes como sendo consequência de relações de causa e efeito entre objetos materiais. A magia, mesmo que agora faça parte do discurso científico, persiste.
É difícil aceitar a ideia de que nós somos relativamente insignificantes dentro do contexto cósmico, de que nossa existência individual ou mesmo como espécie tem tão pouca influência no desenrolar das criações e destruições que se propagam pelo Universo. Como podemos reconciliar nossa capacidade de refletir sobre o mundo e sobre nós mesmos com o fato de que nossas vidas são tão curtas, de que por mais que amemos e aprendamos, teremos sempre muito mais o que amar e aprender? Não existe uma única resposta para essa pergunta. Cada pessoa tenta, consciente ou inconscientemente, responder a ela de alguma forma. Talvez a resposta esteja na própria pergunta, no fato de que nossa existência é limitada. Sem limites não existem desejos. E sem desejo não existe criação. Seria frustrante passar toda uma vida nos preocupando com o que não teremos chance de fazer após morrermos. Mais do que frustrante, seria um desperdício.
Nós vimos como processos regenerativos ocorrem a partir de eventos destrutivos: asteroides caem sobre a Terra, extinguindo várias espécies mas permitindo que outras evoluam; estrelas são criadas a partir dos restos de outras, em um ciclo de renovação que se perpetua de galáxia em galáxia; até mesmo o nosso Universo tem uma história, cujo começo ainda não conhecemos e cujo fim talvez jamais vamos conhecer. Esses processos de regeneração não são uma exclusividade celeste, mas ocorrem à nossa volta todos os dias. Cada árvore que tomba dá origem a muitas outras; cada vida humana semeia muitas outras. Nós somos seres complicados, imaturos, capazes das mais belas criações e dos crimes mais horrendos. Talvez, ao aprendermos mais sobre o mundo à nossa volta, sobre os vários ciclos de criação e destruição que acontecem continuamente nos céus e na Terra, sejamos capazes de crescer um pouco mais, de enxergar além das nossas diferenças, e de trabalhar juntos para a preservação do nosso planeta e da nossa espécie.
O primeiro passo é simples: é só olhar para os lados, com respeito, curiosidade, humildade e admiração. E não temos sequer um minuto a perder.
(O fim da Terra e do Céu, 2011.)
Pode ser considerado mais impessoal e objetivo o seguinte enunciado do texto: