Uso de Conectivos e Elementos de Coesão na Escrita da Redação – Português | Tuco-Tuco
Uso de conectivos e elementos que garantem a ligação entre as partes do texto.
Uso de Conectivos e Elementos de Coesão na Escrita da Redação
A coesão textual é um dos pilares que sustentam a clareza e a elegância de uma redação. No Exame Nacional do Ensino Médio, a Competência 4 avalia exatamente a capacidade do candidato de "demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação". Isso inclui, sobretudo, o uso adequado e variado de conectivos e de outros elementos que garantem a ligação entre as frases, os períodos e os parágrafos. Um texto sem coesão é um amontoado de ideias soltas, por mais brilhantes que sejam; um texto coeso conduz o leitor com fluidez, tornando o percurso argumentativo claro e persuasivo.
Coesão e coerência: conceitos interdependentes
Antes de mergulhar nos mecanismos coesivos, é indispensável distinguir coesão de coerência, duas categorias que caminham juntas, mas não se confundem.
Coesão: é a ligação formal entre as partes do texto, realizada por meio de conectivos, pronomes, repetições, sinônimos e outros recursos linguísticos. A coesão opera na superfície textual e pode ser observada diretamente.
Coerência: é a unidade de sentido, a lógica interna que faz o texto ter significado para o leitor. A coerência depende da compatibilidade entre as ideias, do respeito ao tema, da progressão lógica e do conhecimento de mundo partilhado.
Um texto pode ser coeso sem ser plenamente coerente — quando, por exemplo, os conectivos estão presentes, mas as ideias não se sustentam —, e pode ser coerente sem exibir marcas explícitas de coesão, embora isso seja raro em textos formais. Para a redação do ENEM e dos vestibulares, o ideal é que ambos os aspectos estejam em harmonia: um texto com ideias consistentes e articulado por mecanismos linguísticos precisos.
Mecanismos de coesão textual
A linguística textual classifica os mecanismos coesivos em três grandes grupos: coesão referencial, coesão lexical e coesão sequencial. Cada grupo será detalhado a seguir.
2.1 Coesão referencial
A coesão referencial consiste em retomar ou antecipar elementos do texto, evitando repetições desnecessárias e criando cadeias de referência que amarram as ideias. Os principais recursos de coesão referencial são:
Anáfora: retomada de um termo ou ideia já mencionada. Exemplo: "O governo anunciou novas medidas econômicas. Elas foram recebidas com ceticismo pelo mercado." O pronome "elas" retoma "medidas econômicas".
Catáfora: antecipação de um termo que ainda será apresentado. Exemplo: "Isto preocupa os especialistas: o aumento acelerado do desmatamento na Amazônia." O pronome "isto" antecipa "o aumento acelerado do desmatamento".
Elipse: omissão de um termo que pode ser recuperado pelo contexto. Exemplo: "Maria prefere cinema; Pedro, teatro." O verbo "preferir" é omitido na segunda oração.
Repetição de palavra ou expressão com função enfática: quando usada de forma intencional e estratégica, a repetição pode reforçar um conceito-chave. Exemplo: "A justiça tarda, mas a justiça chega."
Na redação, o uso adequado de pronomes, artigos definidos e indefinidos, advérbios pronominais (aqui, ali, lá) e numerais contribui para a coesão referencial. O artigo definido, por exemplo, retoma algo já conhecido ("o problema"), enquanto o indefinido introduz um elemento novo ("um problema").
2.2 Coesão lexical
A coesão lexical se estabelece por meio de relações de sentido entre as palavras, formando redes semânticas que garantem a unidade temática do texto. Os principais mecanismos são:
Sinonímia: substituição de uma palavra por outra de sentido equivalente. Exemplo: "A violência urbana cresceu. O fenômeno preocupa autoridades e cidadãos." A palavra "fenômeno" retoma "violência".
Hiperonímia e hiponímia: uso de um termo mais geral (hiperônimo) para retomar um mais específico (hipônimo), ou vice-versa. Exemplo: "O cachorro estava abandonado. O animal aparentava fome e sede." (hiperônimo "animal" substitui "cachorro").
Nominalização: transformação de um verbo ou adjetivo em substantivo para retomar uma ideia. Exemplo: "A cidade cresceu desordenadamente. Esse crescimento trouxe inúmeros problemas."
Repetição lexical estratégica: a reiteração de uma palavra-chave, desde que não excessiva, mantém o foco no tema e reforça a argumentação.
A coesão lexical é especialmente importante na redação dissertativa, pois demonstra domínio vocabular e capacidade de variar a expressão sem perder a precisão.
2.3 Coesão sequencial
A coesão sequencial é a responsável por articular as ideias no eixo da progressão, estabelecendo relações lógicas, temporais e argumentativas entre as orações e os parágrafos. Seu principal instrumento são os conectivos — conjunções, preposições, advérbios e locuções —, que atuam como sinalizadores do percurso argumentativo.
2.3.1 Conectivos e suas relações lógicas
Apresenta-se, a seguir, um quadro das principais relações lógicas e dos conectivos correspondentes, com exemplos de uso na redação.
Adição: e, também, além disso, ademais, outrossim, bem como, não só... mas também. Exemplo: "A prática de exercícios melhora a saúde física. Além disso, contribui para o bem-estar mental."
Oposição (adversidade): mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante. Exemplo: "O projeto era ambicioso, mas a execução foi falha."
Concessão: embora, conquanto, ainda que, mesmo que, posto que, apesar de que. Exemplo: "Embora a lei exista, sua aplicação é precária."
Causa: porque, visto que, já que, uma vez que, como (anteposto), pois (anteposto ao verbo). Exemplo: "A poluição aumentou porque a fiscalização foi insuficiente."
Consequência: de modo que, de sorte que, de forma que, tão... que, tanto... que. Exemplo: "O desmatamento foi intenso, de modo que a biodiversidade local colapsou."
Finalidade: para que, a fim de que, com o intuito de, com o propósito de. Exemplo: "É preciso investir em educação a fim de que as desigualdades sejam reduzidas."
Condição: se, caso, desde que, contanto que, a menos que. Exemplo: "Se houver vontade política, a situação pode mudar."
Tempo: quando, enquanto, assim que, logo que, depois que, antes que. Exemplo: "Quando a pandemia começou, as escolas não estavam preparadas para o ensino remoto."
Comparação: como, assim como, tal qual, mais... do que, menos... do que. Exemplo: "A crise atual, assim como a de 2008, expôs fragilidades estruturais."
Conformidade: conforme, segundo, de acordo com, consoante. Exemplo: "Segundo a Constituição, todos são iguais perante a lei."
Proporção: à medida que, à proporção que, quanto mais... mais, quanto menos... menos. Exemplo: "À medida que a tecnologia avança, novos dilemas éticos surgem."
Conclusão: portanto, logo, por conseguinte, assim, desse modo, em suma, por isso. Exemplo: "Os argumentos são sólidos; portanto, a tese se sustenta."
Explicação: pois (anteposto ao verbo), porque, que, porquanto. Exemplo: "A medida é necessária, pois a situação atual é insustentável."
2.3.2 Conectivos interparágrafos: a arte da transição
Na redação dissertativa, a transição entre os parágrafos não pode ser abrupta. Conectivos e expressões de articulação devem sinalizar a relação entre as ideias, indicando se o parágrafo seguinte acrescenta, contrasta, conclui ou aprofunda o anterior.
Sugestões de expressões para iniciar parágrafos:
Desenvolvimento 1: Em primeiro lugar, Antes de tudo, Inicialmente, Sob esse viés, Primeiramente.
Desenvolvimento 2 (adição): Além disso, Ademais, Outrossim, Somado a isso, Paralelamente.
Desenvolvimento 2 (oposição ou contraste): Por outro lado, Em contrapartida, No entanto, Todavia, Sob outra perspectiva.
Conclusão: Portanto, Logo, Dessa forma, Em suma, Diante do exposto, Depreende-se, portanto, que.
A escolha do conectivo deve refletir a real relação lógica entre os parágrafos. Usar "ademais" quando o parágrafo seguinte apresenta uma ideia oposta à anterior é um erro que compromete a coerência e, por conseguinte, a avaliação da Competência 4.
2.3.3 Conectivos intraparágrafos: coesão interna
Dentro de cada parágrafo, os conectivos também são indispensáveis para ligar as frases e guiar o raciocínio. Alguns cuidados são importantes:
Evitar a repetição excessiva do mesmo conectivo. Se o parágrafo tem três frases ligadas por "e", é sinal de que o repertório coesivo precisa ser ampliado.
Utilizar o conectivo adequado à relação que se deseja expressar. "Portanto" não substitui "além disso", e "embora" não substitui "mas".
Empregar conectivos que tornem explícita a progressão argumentativa, como "nesse sentido", "sob essa ótica", "em decorrência disso".
Exemplo de parágrafo com coesão intraparágrafo bem trabalhada:
"A falta de infraestrutura nas escolas públicas compromete a qualidade do ensino. De fato, dados do Censo Escolar revelam que milhares de instituições não possuem bibliotecas ou laboratórios de informática. Além disso, a ausência de saneamento básico em muitas unidades afeta diretamente a saúde dos alunos, o que contribui para os altos índices de evasão escolar. Nesse sentido, investir na melhoria das condições físicas das escolas é uma medida urgente e inadiável."
Outros elementos de coesão
Além dos conectivos, outros recursos linguísticos são fundamentais para a coesão textual:
Pronomes relativos (que, o qual, cujo, onde, quem): são essenciais para evitar a repetição de termos e para encadear informações. Exemplo: "O livro que li trata da história do Brasil."
Advérbios pronominais (aqui, ali, lá, aí): situam o leitor no espaço textual e podem retomar lugares mencionados. Exemplo: "A cidade sofre com enchentes. Lá, a população vive em constante estado de alerta."
Expressões de retomada e de introdução: "esse cenário", "diante desse quadro", "tal problemática", "essa realidade" são expressões que retomam ideias anteriores e preparam o terreno para a continuidade do texto.
Paralelismo sintático: a repetição de uma mesma estrutura sintática em frases ou orações coordenadas confere ritmo e coesão ao texto. Exemplo: "É preciso investir em educação, em saúde e em segurança."
Erros comuns no uso de conectivos e de elementos de coesão
A prática de correção de redações revela desvios recorrentes que prejudicam a coesão e, consequentemente, a nota na Competência 4.
Repetição viciosa de conectivos: uso excessivo de "e", "mas" e "que" ao longo do texto, sem variação.
Uso inadequado do conectivo: empregar "portanto" para adicionar uma ideia, ou "embora" para simplesmente contrastar, quando o correto seria "mas".
Ausência de conectivos interparágrafos: os parágrafos são justapostos sem nenhuma expressão de transição, como se fossem blocos independentes.
Excesso de conectivos: poluir o texto com conectivos desnecessários, que tornam a leitura artificial e pesada.
Uso incorreto do pronome relativo "onde": "onde" só deve ser usado para lugar físico. Construções como "a sociedade onde vivemos" são consideradas inadequadas pela norma culta; o correto é "a sociedade na qual vivemos" ou "em que vivemos".
Falta de retomada lexical: o autor repete a mesma palavra inúmeras vezes, sem lançar mão de sinônimos, hiperônimos ou nominalizações, o que empobrece o texto.
Ambiguidade referencial: o pronome ou a expressão de retomada pode se referir a mais de um antecedente, gerando confusão. Exemplo: 'O aluno encontrou o professor em sua sala.' (Não fica claro de quem é a sala: do aluno ou do professor?).
Dicas para construir um texto coeso na redação do ENEM
Elabore um banco mental de conectivos: tenha à disposição sinônimos e variações para as principais relações lógicas, de modo a não repetir sempre os mesmos termos.
Revise o texto especificamente em busca de falhas de coesão: após escrever, leia a redação prestando atenção exclusivamente aos conectivos e às retomadas. Verifique se as transições entre parágrafos estão claras.
Teste a fluidez: leia o texto em voz alta. Se a leitura tropeçar em algum ponto, é provável que haja um problema de coesão.
Pratique a nominalização e a substituição lexical: ao planejar o texto, pense em como retomar as ideias principais sem repetir as mesmas palavras.
Estude os conectivos em contexto: mais do que decorar listas, observe como os bons autores utilizam conectivos em artigos de opinião e editoriais, e incorpore esses usos ao seu repertório.
Síntese dos pontos fundamentais
A coesão textual é a ligação formal entre as partes do texto, avaliada pela Competência 4 do ENEM, e distingue-se da coerência (unidade de sentido).
Os mecanismos coesivos dividem-se em coesão referencial (anáfora, catáfora, elipse), coesão lexical (sinonímia, hiperonímia, nominalização) e coesão sequencial (conectivos e expressões de transição).
Os conectivos explicitam relações lógicas como adição, oposição, causa, consequência, finalidade, condição, concessão, tempo, entre outras, e devem ser usados com precisão e variedade.
A transição entre parágrafos requer conectivos adequados que sinalizem a relação entre as ideias (continuação, contraste, conclusão).
Outros elementos de coesão incluem pronomes relativos, advérbios pronominais, expressões de retomada e paralelismo sintático.
Erros comuns, como repetição viciosa, uso inadequado de conectivos, ausência de transições e ambiguidade referencial, devem ser evitados por meio de planejamento, revisão e prática constante.
O domínio dos mecanismos coesivos é indispensável para produzir textos claros, fluidos e bem avaliados nas provas de redação.