Terceira Geração Modernista e Literatura Contemporânea - Português | Tuco-Tuco
Aula de Português (Literatura): Terceira Geração Modernista e Literatura Contemporânea. A Geração de 45 (Clarice Lispector, Guimarães Rosa) e as tendências contemporâneas. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
A Terceira Geração Modernista e a Literatura Contemporânea (1945–Atualidade)
O Marco de 1945 e a Nova Consciência Estética
O ano de 1945, fim da Segunda Guerra Mundial e início da redemocratização no Brasil após o Estado Novo, representa um divisor de águas na literatura brasileira. A terceira geração modernista, também chamada de Pós-Modernismo ou Geração de 45, emerge em um mundo profundamente transformado, no qual as certezas ideológicas que haviam sustentado a geração de 1930 entram em crise. O horror do Holocausto, a bomba atômica e a polarização da Guerra Fria minam a crença no progresso linear e na racionalidade do projeto moderno.
No plano literário, a terceira geração opera um duplo movimento: de um lado, retoma o rigor formal que a iconoclastia dos anos 1920 havia abandonado; de outro, mergulha na subjetividade, na introspecção e na experimentação linguística, produzindo obras de alta densidade estética e filosófica. O romance regionalista e engajado de 1930 dá lugar a narrativas que investigam a alma humana, a linguagem e a própria natureza da realidade.
1.1 Contexto Histórico
Pós-Guerra e Guerra Fria: A reconstrução da Europa, o Plano Marshall, o equilíbrio do terror nuclear e a divisão do mundo em dois blocos ideológicos (capitalista e socialista) marcam o período. No Brasil, a adesão à democracia é interrompida pelo golpe militar de 1964, que instaura uma ditadura de duas décadas, com censura, repressão e exílio de intelectuais e artistas.
Desenvolvimentismo e Modernização: Os anos 1950 e 1960 são décadas de industrialização acelerada, construção de Brasília (1960) e expansão da classe média urbana. Nascem a televisão e a cultura de massa, que transformam o ambiente cultural.
Contracultura e Anos 1960-70: O movimento hippie, a revolução sexual, o feminismo, a luta pelos direitos civis nos EUA e a resistência à ditadura no Brasil influenciam profundamente a produção artística, estimulando a experimentação formal e o engajamento político de novas maneiras.
Características da Terceira Geração Modernista
A geração que se inicia em 1945 não é homogênea, mas alguns traços a singularizam em relação às fases anteriores:
Pesquisa formal e rigor construtivo: Ao contrário do verso livre "anárquico" da primeira geração, poetas como João Cabral de Melo Neto e os concretistas defendem uma poesia pensada como construção, como artefato verbal planejado racionalmente. A métrica e a rima podem ser usadas, mas sem nostalgia passadista — são recursos expressivos a serviço de uma nova funcionalidade poética.
Introspecção e subjetividade profundas: A prosa de Clarice Lispector e a poesia de Carlos Drummond de Andrade (em sua fase metafísica) investigam os abismos do "eu", a angústia existencial, a náusea diante do cotidiano, a busca de uma autenticidade que escapa às convenções sociais e linguísticas.
Universalismo e cosmopolitismo: O regionalismo da geração de 1930 não é abandonado, mas transcendido. Em Guimarães Rosa, o sertão de Minas Gerais torna-se o "Sertão-Mundo", palco de questões metafísicas universais — o bem e o mal, Deus e o Diabo, a travessia existencial.
Experimentação linguística radical: Guimarães Rosa cria uma língua própria, fundindo arcaísmos, neologismos e a fala sertaneja. Os concretistas exploram o poema como objeto visual e sonoro, rompendo a sintaxe linear. Clarice Lispector implode a lógica narrativa tradicional para seguir o fluxo da consciência.
Literatura como investigação: Mais do que retratar ou denunciar, a literatura passa a ser uma forma de indagação sobre a linguagem, a identidade e os limites do humano.
2.1 Quadro Comparativo das Três Gerações Modernistas
| Característica | 1ª Geração (1922-1930) | 2ª Geração (1930-1945) | 3ª Geração (1945 em diante) |
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| Objetivo principal | Ruptura, choque, destruição do academicismo | Consolidação, engajamento social, neorrealismo | Pesquisa estética, rigor formal, introspecção |
| Foco temático | Nacionalismo crítico, piada, coloquialismo | Regionalismo, denúncia social, seca, miséria | Universalismo, subjetividade, metafísica, linguagem |
| Linguagem | Coloquial, livre, "língua brasileira" | Mais contida, misto de coloquial e culto | Experimental, neológica, poesia construída |
| Poesia | Verso livre, poema-piada | Verso livre + retorno ao soneto (Vinícius) | Rigor formal, antilirismo, concretismo |
| Prosa | Experimental, fragmentária (Oswald) | Romance de 30, neorrealista | Romance introspectivo, fluxo de consciência, metaficção |
A Poesia da Geração de 45: O Engenheiro e o Concreto
3.1 João Cabral de Melo Neto: O Engenheiro do Verso
João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é a figura central da poesia da terceira geração e um dos poetas mais originais da língua portuguesa. Sua poética é marcada pela rejeição do lirismo confessional e sentimental, o que ele chamava de "perfumaria poética". Para Cabral, o poema é um objeto construído, uma "máquina" que deve funcionar com precisão.
Antilirismo e objetividade: Em poemas como Psicologia da Composição, Cabral compara o fazer poético ao ato de catar feijão — separar o grão do lixo, a palavra exata da palavra vã. A poesia não é expressão de emoção, mas trabalho intelectual, exercício de lucidez.
Vocabulário mineral e concreto: Pedra, faca, osso, areia, metal, vento, água são termos recorrentes em sua obra. O poeta evita os adjetivos ornamentais e as metáforas fáceis, preferindo a precisão quase cirúrgica dos substantivos e a frieza cortante da linguagem.
Temas recorrentes: O Nordeste — suas secas, sua miséria, seus retirantes — é tratado com rigor construtivo, e não com pieguice. A consciência da morte e do nada, a metalinguagem (o poema que fala do poema) e a crítica social também comparecem.
Morte e Vida Severina (1956): Sua obra mais popular é um "auto de natal pernambucano" em versos. Severino, um retirante, percorre o sertão e a zona da mata em busca de vida, encontrando apenas morte por onde passa. No final, o nascimento de uma criança é celebrado como a "explosão da vida", num contraponto tenso entre o desespero e a renovação. A obra funde o rigor técnico (redondilhas maiores, paralelismo, repetições) com a temática social, provando que o engajamento não é incompatível com a exigência formal.
Outras obras importantes: O Engenheiro (1945), Psicologia da Composição (1947), O Cão sem Plumas (1950), A Educação pela Pedra (1966), na qual a poesia se torna ainda mais concisa e substantiva.
3.2 O Concretismo e a Poesia Visual
O Concretismo surge em São Paulo, na década de 1950, como a mais radical renovação da poesia brasileira pós-1945. Liderado por Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, o movimento propôs o fim do verso tradicional e a criação da palavra-objeto. Sua poética é definida pelo conceito verbivocovisual: a integração do significado (verbo), do som (voz) e da forma gráfica (visual).
Características: Abolição do verso, exploração da dimensão espacial da página, jogos de palavras, uso de cores, fontes e diagramação, influência da publicidade, do design gráfico e das vanguardas europeias (Cubismo, Futurismo, Dadaísmo).
Principais representantes: Os irmãos Campos e Décio Pignatari são os teóricos e principais poetas do movimento. Outros nomes: Ferreira Gullar (antes de romper com o concretismo e fundar o Neoconcretismo), José Lino Grünewald e Ronaldo Azeredo.
Poemas emblemáticos: O Organismo (Décio Pignatari), Beba Coca-Cola (Décio Pignatari), Lixo (Augusto de Campos), Galáxias (Haroldo de Campos, prosa poética experimental).
Neoconcretismo: Em 1959, Ferreira Gullar, Lygia Clark e Hélio Oiticica rompem com os concretistas paulistas e fundam o Neoconcretismo, que valoriza a subjetividade, a participação do leitor e a experiência sensorial, afastando-se do racionalismo matemático do Concretismo.
3.3 Outras Vozes Poéticas da Geração de 45
Ledo Ivo (1924-2012): Poeta alagoano, sua obra oscila entre o rigor formal da geração de 45 e um lirismo mais solto e imagético. Cântico (1949), Acontecimento do Soneto (1948).
Geir Campos (1924-1999): Seguidor do rigor formal, cultivou o soneto e a métrica regular com temática amorosa e social.
Ferreira Gullar (1930-2016): Inicialmente ligado ao Concretismo e depois ao Neoconcretismo, Gullar tornou-se um dos poetas mais populares do Brasil com o Poema Sujo (1976), escrito durante o exílio, um longo fluxo de memórias em versos marcado pela angústia da distância e da opressão política.
Mário Quintana (1906-1994): Embora esteticamente independente, sua poesia delicada, irônica e cotidiana o consagrou como um dos poetas mais lidos do Brasil. A Rua dos Cataventos (1940), Apontamentos de História Sobrenatural (1976).
A Prosa da Terceira Geração: O Mergulho na Alma e na Palavra
4.1 Guimarães Rosa e a Revolução Linguística
João Guimarães Rosa (1908-1967) operou uma das mais profundas revoluções linguísticas da literatura mundial. Sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas (1956), é um romance-monólogo de aproximadamente 600 páginas em que o jagunço Riobaldo, já velho, narra suas memórias a um interlocutor nunca nomeado. A travessia pelo sertão é, ao mesmo tempo, uma viagem pelas paisagens reais de Minas Gerais e uma jornada interior pelos abismos da alma humana.
A linguagem rosiana: Guimarães Rosa recria a fala sertaneja sem caricatura, fundindo arcaísmos medievais, termos indígenas, neologismos de sua criação e uma sintaxe inventiva que quebra as expectativas do leitor. Palavras como "nonada", "desfeliz", "sozinhos de nada", "travessia" são exemplos da potência poética de sua prosa.
O sertão como palco metafísico: "O sertão está em toda parte" é a chave para entender que o regional, em Rosa, é apenas a superfície de um drama universal. O conflito entre o Bem e o Mal — a existência ou não do Diabo —, a coragem, o medo, o amor e a traição são tratados com a mesma profundidade que nos grandes textos filosóficos e teológicos.
O pacto fáustico: Riobaldo acredita ter feito um pacto com o Diabo para vencer o jagunço Hermógenes. A dúvida sobre a validade desse pacto percorre toda a narrativa e torna-se a grande questão existencial do romance: o Diabo existe? A resposta rosiana é famosa: "O diabo não há!... Existe é homem humano. Travessia."
Outras obras de Guimarães Rosa: Sagarana (1946), volume de contos que já anunciava o gênio linguístico do autor; Corpo de Baile (1956), ciclo de novelas poéticas ambientadas no sertão; Primeiras Estórias (1962), contos curtos que transitam entre o real e o fantástico, com a infância e a loucura como temas centrais; Tutameia – Terceiras Estórias (1967), livro de miniaturas narrativas, aforismos e reflexões metalinguísticas.
4.2 Clarice Lispector e a Prosa de Introspecção
Clarice Lispector (1920-1977) é uma autora que, como Guimarães Rosa, reinventou a prosa brasileira, mas por um caminho diverso: o mergulho no fluxo da consciência e o desvelamento das camadas mais profundas da subjetividade. Sua obra não se baseia em enredos lineares; os "acontecimentos" são, frequentemente, insignificantes do ponto de vista externo — uma visão, um cheiro, o encontro com um objeto —, mas desencadeiam crises existenciais, epifanias e transformações interiores.
Fluxo de consciência: A narrativa acompanha o pensamento caótico e fragmentado das personagens, rompendo com a cronologia e com a lógica convencional. A linguagem busca capturar o inefável, o que está antes das palavras.
Epifania: Conceito central na obra de Clarice. Trata-se do momento súbito de revelação, de "choque" existencial, em que a personagem, confrontada com algo trivial (uma barata, um cego mascando chiclete, um ovo, uma rosa), experimenta um vislumbre aterrorizante e fascinante da realidade última das coisas — o "nada", o "it".
Principais obras:
Perto do Coração Selvagem (1943): Romance de estreia, influenciado por James Joyce e Virginia Woolf, que narra a formação de Joana, uma mulher que vive fora das convenções, em contato com uma interioridade selvagem.
A Paixão Segundo G.H. (1964): Um dos marcos da prosa de introspecção no Brasil. A protagonista, identificada apenas como G.H., após demitir a empregada e tentar limpar o quarto de despejo, depara-se com uma barata. A experiência desencadeia um processo de desagregação da identidade, um mergulho no "inumano", na matéria bruta, que resulta em uma espécie de epifania negativa.
Água Viva (1973): Texto fluido, híbrido entre romance e poesia em prosa, no qual uma pintora escreve a um interlocutor ausente, buscando capturar o instante presente, a pulsação da vida.
A Hora da Estrela (1977): Sua última obra publicada em vida. O narrador Rodrigo S.M. conta a história de Macabéa, uma nordestina miserável e anônima no Rio de Janeiro, e reflete sobre a ética de narrar a vida de uma pessoa que "não tem consciência de si". O livro é um poderoso comentário sobre a exclusão social e a responsabilidade do artista.
Estilo clariceano: A linguagem de Clarice é ao mesmo tempo coloquial e altamente poética. Ela explora o paradoxo, a metáfora insólita, a digressão, e cria uma prosa que parece tatear o indizível.
4.3 Outros Prosadores da Geração de 45 e do Pós-Guerra
Lygia Fagundes Telles (1918-2022): Autora de uma vasta obra de contos e romances, Lygia consolidou o realismo psicológico em ambiente urbano. Suas personagens, geralmente da classe média, vivem em estado de tensão, crise e ambiguidade moral. Ciranda de Pedra (1954), As Meninas (1973) — este um retrato multifacetado da juventude sob a ditadura — e Seminário dos Ratos (1977) são obras-primas.
Adonias Filho (1915-1990): Baiano, autor de uma prosa densa e simbólica, que transforma a região cacaueira do sul da Bahia em cenário trágico. Os Servos da Morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), Corpo Vivo (1962).
José J. Veiga (1915-1999): Mestre do fantástico e da alegoria, seus romances e contos — A Hora dos Ruminantes (1966), Sombras de Reis Barbudos (1972) — utilizam o absurdo e o insólito para criticar o autoritarismo e a opressão.
Dalton Trevisan (1925-2024): O "Vampiro de Curitiba" é um contista exímio, que retrata o submundo urbano com uma linguagem seca, cortante, povoada de personagens marginais, perversões e violências domésticas.
Tendências da Literatura Contemporânea (1960–Atualidade)
A partir dos anos 1960, o quadro literário brasileiro se diversifica de modo acentuado. A distinção rígida entre gerações se dilui, e múltiplas tendências coexistem. O que chamamos de "literatura contemporânea" é um mosaico de vozes, linguagens e suportes.
5.1 Poesia Marginal (Geração Mimeógrafo) e a Resistência à Ditadura
Na década de 1970, em pleno regime militar, surgiu a chamada Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo. Recusando os circuitos editoriais tradicionais, poetas como Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Chacal, Cacaso, Torquato Neto e Waly Salomão produziam e distribuíam seus livros de forma independente, em mimeógrafos, vendendo-os em portas de teatros e bares. A linguagem é coloquial, irônica, rápida, muitas vezes debochada, e a atitude é de resistência tanto estética quanto política.
Paulo Leminski (1944-1989): Curitibano, sua poesia funde o rigor formal (Leminski era um estudioso da língua e das formas poéticas) com a espontaneidade marginal. Poemas curtos, aforísticos, com humor e erotismo, marcam sua obra. Catatau (1975, prosa experimental), Caprichos e Relaxos (1983).
Ana Cristina Cesar (1952-1983): Sua poesia, marcada pelo tom íntimo e confessional, mistura cartas, diários e versos, borrando as fronteiras entre vida e literatura, num gesto que a crítica chama de "autoficção". A Teus Pés (1982).
Chacal (1951-): Um dos fundadores do movimento marginal carioca, sua poesia é performática, colada à oralidade e à contracultura.
5.2 A Literatura Engajada Pós-1964
A ditadura militar estimulou uma literatura de resistência que, sem cair no panfletarismo, tematizou a violência de Estado, a tortura, o exílio e a censura.
Antonio Callado (1917-1997): Quarup (1967), Bar Don Juan (1971), Reflexos do Baile (1976) são romances que narram a desilusão da esquerda e a brutalidade da repressão.
Rubem Fonseca (1925-2020): Com uma prosa crua, violenta e urbana, Fonseca retratou o lado sombrio das grandes cidades, a criminalidade, a brutalidade policial e a fratura social. Feliz Ano Novo (1975) foi censurado pelo regime.
Ignácio de Loyola Brandão (1936-): Zero (1975), romance de linguagem experimental e fragmentária, é um retrato alucinado da opressão na América Latina.
5.3 Literatura de Memória e Testemunho
Nas últimas décadas, ganhou força uma literatura voltada ao resgate da memória de experiências traumáticas — a ditadura, o exílio, o Holocausto e a pobreza extrema.
Carolina Maria de Jesus (1914-1977): Quarto de Despejo (1960) é um marco. Catadora de papel, negra e favelada, Carolina narrou em diário sua luta diária pela sobrevivência na extinta favela do Canindé, em São Paulo. Sua escrita, crua e direta, trouxe para a literatura a voz autêntica da periferia, sem a mediação de um intelectual de classe média. O livro foi um sucesso estrondoso e revelou um Brasil miserável e invisível.
Conceição Evaristo (1946-): Escritora negra mineira, cunhou o termo "escrevivência" para descrever sua escrita, que nasce da experiência de mulheres negras, de suas dores, lutas e resistências, mesclando ficção e memória. Ponciá Vicêncio (2003), Olhos d'Água (2014) e Becos da Memória (2006) são obras fundamentais da literatura brasileira contemporânea.
5.4 Literatura Indígena e de Outras Minorias
Nas últimas décadas, tem crescido a produção literária de autores indígenas, quilombolas, LGBTQIA+ e de outras vozes historicamente silenciadas, que reivindicam o direito de narrar suas próprias histórias.
Ailton Krenak (1953-): Líder indígena e escritor, seus livros como Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019) e A Vida Não É Útil (2020) questionam o modelo civilizatório ocidental e oferecem uma visão de mundo baseada na relação ancestral com a terra.
Davi Kopenawa (1956-): Xamã yanomami, coautor com Bruce Albert de A Queda do Céu (2015), obra monumental que mescla cosmologia, autobiografia e denúncia do genocídio indígena.
Eliane Potiguara (1950-): Poeta e ativista, fundadora da primeira organização de mulheres indígenas do Brasil, sua poesia é um canto de resistência e ancestralidade.
5.5 Tendências Formais Contemporâneas
Autoficção e hibridismo de gêneros: A literatura contemporânea frequentemente dissolve as fronteiras entre romance, biografia, ensaio e diário. Autores como Silviano Santiago (Em Liberdade, 1981), Caio Fernando Abreu (Morangos Mofados, 1982) e Michel Laub (Diário da Queda, 2011) são exemplos dessa tendência.
Minicontos e narrativas fragmentárias: A brevidade e a fragmentação — influenciadas, em parte, pelas mídias digitais — marcam muitas obras recentes. João Gilberto Noll, Veronica Stigger e Marcelino Freire exploram a narrativa curta e de impacto.
Literatura digital e novas mídias: A internet criou novos suportes e novas formas de circulação da literatura — blogs, e-zines, redes sociais — que modificam a relação entre autor e leitor e desafiam a noção tradicional de obra literária.
A Permanência do Modernismo e os Rumos da Literatura Brasileira
A terceira geração modernista e a literatura contemporânea que a ela se segue demonstram que o Modernismo brasileiro não foi um episódio datado, mas um processo contínuo de abertura e renovação. O que começou com o grito iconoclasta de 1922 — a conquista da liberdade formal, a incorporação da "língua brasileira", a investigação da identidade nacional — foi aprofundado e transformado pelas gerações seguintes.
A prosa de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, a poesia construída de João Cabral, a experimentação concretista, a voz marginal da poesia dos anos 1970 e as escrevivências contemporâneas de Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus são capítulos de uma mesma história: a história de uma literatura que, partindo da busca por um "Brasil profundo", chegou à expressão mais universal da condição humana.
O desafio que a literatura brasileira enfrenta no século XXI é o de continuar se reinventando, acolhendo as vozes que ainda não foram ouvidas e respondendo, com sua potência criativa, aos dilemas de um país que, em muitos aspectos, ainda está por ser descoberto — e inventado — pela palavra.
Exercícios:
O que diferencia a técnica do 'fluxo de consciência' na narrativa literária?
Contexto: Ainda daquela vez pude constatar a bizarrice dos costumes que constituíam as leis mais ou menos constantes do seu mundo: ao me aproximar, verifiquei que o Sr. Timóteo, gordo e suado, trajava um vestido de franjas e lantejoulas que pertencera a sua mãe. O corpete descia-lhe excessivamente justo na cintura, e aqui e ali rebentava através da costura um pouco da carne aprisionada, esgarçando a fazenda e tornando o prazer de vestir-se daquele modo uma autêntica espécie de suplício. Movia-se ele com lentidão, meneando todas as suas franjas e abanando-se vigorosamente com um desses leques de madeira de sândalo, o que o envolvia numa enjoativa onda de perfume. Não sei direito o que colocara sobre a cabeça, assemelhava-se mais a um turbante ou a um chapéu sem abas de onde saiam vigorosas mechas de cabelos alourados. Como era costume seu também, trazia o rosto pintado — e para isto, bem como para suas vestimentas, apoderara-se de todo o guarda-roupa deixado por sua mãe, também em sua época famosa pela extravagância com que se vestia — o que sem dúvida fazia sobressair-lhe o nariz enorme, tão característico da família Meneses.
CARDOSO, L. Crónica da casa assassinada. São Paulo: Circulo do Livro, s.d.
Pela voz de uma empregada da casa, a descrição de um dos membros da família exemplifica a renovação da ficção urbana nos anos 1950, aqui observada na
Contexto: **Dão Lalalão**
Do povoado do Ão, ou dos sítios perto, alguém precisava urgente de querer vir por escutar a novela do rádio. Ouvia-a, aprendia-a, guardava na ideia, e, retornado ao Ão, no dia seguinte, a repetia a outros.
Assim estavam jantando, vinham os do povoado receber a nova parte da novela do rádio. Ouvir já tinham ouvido tudo, de uma vez, fugia da regra: falhara ali no Ão, na véspera, o caminhão de um comprador de galinhas e ovos, seo Abrãozinho Buristém, que carregava um rádio pequeno, de pilhas, armara um fio no arame da cerca… Mas queriam escutar outra vez, por confirmação. — “A estória é estável de boa, mal que acompridada: taca e não rende…” — explicava o Zuz ao Dalberto.
Soropita começou a recontar o capitulo da novela. Sem trabalho, se recordava das palavras, até com clareza — disso se admirava. Contava com prazer de demorar, encher a sala com o poder de outros altos personagens. Tomar a atenção de todos, pudesse contar aquilo noite adiante. Era preciso trazer luz, nem uns enxergavam mais os outros; quando alguém ria, ria de muito longe. O capitulo da novela estava terminando.
ROSA, J. G. **Noites do sertão (Corpo de baile)**. São Paulo: Global, 2021.
Nesse trecho do conto, o gosto dos moradores do povoado por ouvir a novela de rádio recontada por Soropita deve-se ao(à)
Contexto: **Migalhas**
Entre a toalha branca e um bule de café
seria inapropriado dizer
eu não te amo mais.
Era necessário algo mais solene,
um jardim japonês para as perdas pensadas,
um noturno de tempestade para arrebentar de dor,
uma praia de pedras para chorar em silêncio,
uma cama alta para o incenso da despedida,
uma janela dando para o abismo.
No entanto você abaixa os olhos
e recolhe lentamente as migalhas de pão
sobre a mesa posta para dois.
MARQUES, A. M. **A vida submarina**. São Paulo: Cia. das Letras, 2021.
Nesse poema, a representação do sentimento amoroso recupera a tradição lírica, mas se ajusta à visão contemporânea ao
[ENEM 2022] Contexto: Mas seu olhar verde, inconfundível, impressionante, iluminava com sua luz misteriosa as sombrias arcadas superciliares, que pareciam queimadas por ela, dizia logo a sua origem cruzada e decantada através das misérias e dos orgulhos de homens de aventura, contadores de histórias fantásticas, e de mulheres caladas e sofredoras que acompanhavam os maridos e amantes através das matas intermináveis, expostas às febres, às feras, às cobras do sertão indecifrável, ameaçador e sem fim, que elas percorriam com a ambição única de um “pouso” onde pudessem viver, por alguns dias, a vida ilusória de família e de lar, sempre no encalço dos homens, enfebrados pela procura do ouro e do diamante.
PENNA, C. **Fronteira**. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d.
Ao descrever os olhos de Maria Santa, o narrador estabelece correlações que refletem a
O 'Poema-Processo' (1967) radicalizou a proposta concretista ao:
A Geração de 45 é frequentemente descrita como possuindo um caráter 'neoparnasiano'. Qual característica justifica tecnicamente essa classificação na poesia do período?
No contexto da prosa de Guimarães Rosa, o conceito de 'Regionalismo Universal' implica que:
A 'epifania' é um recurso central na narrativa de Clarice Lispector. Como esse fenômeno se manifesta em suas personagens?
João Cabral de Melo Neto é apelidado de 'poeta engenheiro'. Qual o principal motivo para essa denominação dentro de sua estética?
O Concretismo, surgido na década de 1950, propôs uma ruptura radical com a lírica tradicional. Qual o pilar fundamental desse movimento?
A obra 'Morte e Vida Severina', de João Cabral de Melo Neto, é classificada como um 'auto'. Qual característica justifica esse gênero literário?
Na prosa de Lygia Fagundes Telles, observa-se uma transição frequente entre quais estilos predominantes da terceira geração?
Qual contexto histórico mundial influenciou a atmosfera mais tensa e existencialista da literatura de 1945?
O uso de 'neologismos' em Guimarães Rosa não é um mero exercício decorativo. Qual a função estrutural dessas criações em sua obra?
O conceito de 'Escrevivência', cunhado por Conceição Evaristo na literatura contemporânea, foca em:
A Geração de 45 manifestou uma 'oposição à liberdade formal'. Como isso pode ser interpretado historicamente?
O 'Antissentimentalismo' de João Cabral de Melo Neto reflete-se na sua preferência gramatical por:
Qual a principal temática explorada por Ariano Suassuna em obras como 'O Auto da Compadecida'?
O 'Realismo Fantástico' ou Murilo Rubião apresenta narrativas onde:
João Guimarães Rosa utilizava com frequência a técnica da 'sintaxe invertida'. Qual o efeito estético dessa escolha?
Carolina Maria de Jesus, em 'Quarto de Despejo', utiliza uma linguagem que mistura o registro culto com o popular. Qual o impacto disso na literatura brasileira?
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão, leia os excertos abaixo, retirados de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.
Ela e Sally vinham mais atrás. Então ocorreu o momento mais requintado de toda a sua vida, ao passarem por uma floreira de pedra. Sally parou; colheu uma flor; beijou-a nos lábios. Foi como se o mundo virasse de ponta-cabeça! Os outros haviam sumido; estava sozinha com Sally. E sentiu ter recebido um presente, embrulhado, com a recomendação de que o guardasse, sem olhá-lo – um diamante, algo extremamente precioso que, enquanto caminhavam (de um lado para outro, de um lado para outro), ela então desembrulhava, ou era traspassada pela radiância, pela revelação, pelo sentimento religioso! – até que se viram diante do velho Joseph e de Peter.
Havia muito de Dalloway, daquela mentalidade da classe governante do Império Britânico, de seu espírito cívico, de seu reformismo tarifário, que se arraigara nela, como costuma ocorrer. Com o dobro da inteligência do marido, era obrigada a ver as coisas pelos olhos de Dalloway - uma das tragédias da vida matrimonial. Mesmo com opiniões próprias, sempre citava Richard - como se a gente não pudesse saber o que pensava Richard pela leitura matinal do Morning Post!
A partir da leitura dos excertos e da leitura integral da obra Mrs. Dalloway, assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações.
( ) O primeiro excerto exemplifica um instante epifânico de Clarissa Dalloway ao rememorar o beijo que trocou com Sally no passado, na mocidade.
( ) Sally Selton, em idade avançada, mantém o espírito livre e rebelde de outrora, negando-se às obrigações socialmente impostas às mulheres: matrimônio e maternidade.
( ) Peter Walsh, ao se casar com Elisabeth Dalloway, no presente da narrativa, sofre as perturbações do estresse pós-traumático em decorrência da luta na Primeira Guerra Mundial.
( ) O segundo excerto revela que, mesmo Mrs. Dalloway tendo consciência de sua superioridade intelectual sobre o marido, a esposa era obrigada a conformar-se ao pensamento machista do matrimônio.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão, leia o trecho abaixo, retirado de Niketche: uma história da poligamia, de Paulina Chiziane.
Vou ao espelho tentar descobrir o que há de errado em mim. Vejo olheiras negras no meu rosto, meu Deus, grandes olheiras! Tendo andado a chorar muito por esses dias, choro até demais. Olho bem para a minha imagem. Com esta máscara de tristeza, pareço um fantasma, essa aí não sou eu. Titubeio uma canção antiga daquelas que arrastam as lágrimas à superfície. Nessa coisa de cantar, tenho as minhas raízes. Sou de um povo cantador. Nessa terra canta-se na alegria e na dor. Canto e choro. Delicio-me com as lágrimas que correm com sabor a sal, com o maior prazer do mundo, Ah, mas como me liberta esse choro!
Paro de chorar e volto ao espelho. Os olhos que se refletem brilham como diamantes. É o rosto de uma mulher feliz. Os lábios que se refletem traduzem uma mensagem de felicidade, não, não podem ser os meus, eu não sorrio, eu choro. Meu Deus, o meu espelho foi invadido por uma intrusa, que se ri da minha desgraça.
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre esse excerto, considerando, também, a leitura integral da obra Niketche: uma história de poligamia.
( ) O protagonismo do enredo está sob a responsabilidade do personagem Antônio Tomás (Tony), marido de Rosa Maria (Rami) e pai de Bentinho, filho caçula do casal.
( ) A narrativa evidencia a relevância de refletir sobre a condição feminina em um contexto poligâmico, além de expor os conflitos e os dilemas decorrentes dessa conjuntura.
( ) A rua em que Rami e Tony residem é permeada por mulheres traídas, solitárias e abandonadas por seus maridos, as quais invejam a dedicação, a felicidade e a fidelidade do marido da narradora.
( ) A narradora, quando se vê diante do espelho, toma consciência de sua ancestralidade e do quanto é oprimida por uma sociedade patriarcal, sentindo compaixão de si própria.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Assinale a alternativa que se refere corretamente à obra Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas.
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Luis Fernando Verissimo criou diversos personagens que se tornaram símbolos de sua obra, como Ed Mort, Analista de Bagé e Velhinha de Taubaté. Sobre esses personagens, assinale a alternativa correta.
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão, leia o trecho abaixo, retirado de O avesso da pele, de JefersonTenório.
(…) Ao caminhar por Porto Alegre, você se sentia sem lugar. Porque, toda vez que você saía para caminhar, tinha a impressão de estar invadindo um espaço. Bastava dar uma olhada em volta para perceber que você não podia pertencer àquilo, mas acontece que você insistiu. Permaneceu. Porto Alegre era um lugar que você construiu fora de si. Você nunca esteve dentro dela. E agora caminho por essas mesmas ruas, tenho Ogum em minhas mãos, e ainda me sinto perdido, mas a palavra continua não sendo essa. Vou em frente, na direção do Guaíba. Tenho Ogum em minhas mãos porque agora é a minha vez.
A partir do excerto acima e da leitura integral da obra O avesso da pele, considere as seguintes afirmações.
I - O trecho, presente no capítulo “A barca”, ilustra o final do enredo da obra, momento em que o narrador relembra a morte de seu pai.
II - O trecho pode ser caracterizado como a representação da tomada de consciência do narrador, amparado por Ogum, na luta contra a violência endereçada às pessoas pretas.
III- O trecho, presente no capítulo “O avesso”, recupera memórias do narrador quando estava no Departamento Médico-Legal de Porto Alegre, identificando o corpo de seu pai.
Quais estão corretas?
[UNICAMP - 2026 - Vestibular] No conto "Réplica", que integra a coletânea No seu pescoço, de Chimamanda Adichie, a protagonista vive
(ADICHIE, C. N. No seu pescoço. Tradução: Júlia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.)
[UNESP 2026 — Vestibular] Poucos poemas causaram tanta polêmica na história da literatura brasileira quanto “No meio do caminho”, publicado originalmente em 1928 na Revista de Antropofagia. São características desse poema de Drummond, que o afastam da estética parnasiana, ainda em voga no Brasil no início do século XX:
[FUVEST — Concurso] “Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom – enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum – se esvaziavam, numa ligeireza, vagarosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma ideia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume – quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: – ‘Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!’” João Guimarães Rosa. Campo Geral. Conforme sugere o trecho, o sofrimento perturba a noção que Miguilim tinha do tempo, porque
[FUVEST - 2025] Em Dois irmãos, de Milton Hatoum, os gêmeos Yaqub e Omar representam duas personalidades antagônicas que se enfrentam ao longo da narrativa. A rivalidade entre eles tem como resultado:
[FUVEST - 2025] A partir da leitura de Dois irmãos, com o foco na questão da paternidade de Nael, narrador do romance, pode-se afirmar:
[FUVEST - 2025] A respeito dos contos “Nós matamos o Cão Tinhoso!”, “Dina”, “Papá, cobra e eu” e “Nhinguitimo”, de Nós matamos o Cão Tinhoso!, é possível afirmar:
[FUVEST - 2025] “Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom – enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum – se esvaziavam, numa ligeireza, vagarosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma ideia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume – quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: – ‘Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!’”
João Guimarães Rosa. Campo Geral.
Conforme sugere o trecho, o sofrimento perturba a noção que Miguilim tinha do tempo, porque
[FUVEST - 2026] As plantas viam o jardineiro como as plantas vêem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora.
Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava. Seguiam-no com o seu olhar sem julgamento, alheias a que, todas as manhãs, Celestino acordava por elas. Vigiavam os seus passos, pressentiam a sua presença, alegravam-se de o ver, conheciam as suas rotinas. Sem que por um instante lhe sentissem a falta, ou se afligissem com as suas ausências ocasionais.
Djaimilia Pereira de Almeida, A visão das plantas.
Considerando o trecho citado (de A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida), depreende-se que o "olhar sem julgamento"
[FUVEST - 2026] Quando no dia seguinte, também no final da tarde, Fio Jasmim se dirigiu para a pequena joalheria, ele pensou em ser mais cuidadoso ao pronunciar qualquer nome de mulher perto de Dolores dos Santos. Quando contou o incidente para os companheiros maquinistas, os mais velhos riram dele e perguntaram qual o motivo de ele estar tão preocupado com a pequena distração cometida. Nem ele sabia bem o porquê. Entretanto, não gostava de pronunciar o nome da esposa para outras mulheres. A de casa é santa, pensava ele. Se ele tivesse dito pelo menos Juventina, seria mais fácil explicar. Assustado com o próprio pensamento, Fio Jasmim não entendia o que estava se passando com ele. Estaria por acaso pensando em alguma conquista? Ouvira dizer que ela era uma mulher namoradeira, mas que não parava com homem algum, tinha um gênio indomável. Todas essas considerações não lhe importavam, não estava interessado na mulher. Mas e se ela estivesse interessada nele...
(Conceição Evaristo. Canção para ninar menino grande.)
No romance de Conceição Evaristo, Fio Jasmim, por meio de suas viagens, é o elo que agrega as várias personagens femininas que se relacionam com ele. De acordo com essa consideração, Fio Jasmim