Realismo e Naturalismo: A Lente da Verdade - Português | Tuco-Tuco
Aula de Português (Literatura): Realismo e Naturalismo: A Lente da Verdade. A análise da sociedade e do psiquismo humano em Machado de Assis e o determinismo biológico no Naturalismo. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Realismo e Naturalismo: A Lente da Verdade
A Ruptura com o Romantismo e o Novo Paradigma Científico
A segunda metade do século XIX assistiu a uma transformação profunda na sensibilidade artística e literária. O Romantismo, com sua ênfase na subjetividade, na idealização e no escapismo, começou a ser percebido como inadequado para representar uma realidade cada vez mais complexa, urbana e industrial. O Realismo e o Naturalismo emergem como as estéticas da modernidade madura, comprometidas com a observação objetiva, a análise crítica e a dissecação dos mecanismos que regem a vida social e a psique humana.
A data simbólica de início do Realismo no Brasil é 1881, ano da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Na França, o marco é 1857, com Madame Bovary, de Gustave Flaubert. O Realismo encerra o ciclo romântico e abre um período de questionamento radical das instituições e dos valores burgueses — o casamento, a religião, a política, a moral — que serão expostos em suas contradições e hipocrisias.
1.1 O Cenário Histórico e Intelectual
O Realismo e o Naturalismo são filhos do século XIX científico. A crença no progresso material e no conhecimento positivo molda a visão de mundo dos escritores, que se veem não mais como gênios inspirados, mas como analistas sociais, anatomistas da alma humana.
Positivismo (Auguste Comte): A doutrina positivista afirmava que a humanidade havia atingido o estágio científico, no qual o conhecimento baseia-se em fatos observáveis e em leis invariáveis. A literatura realista reivindica para si esse método: observar, descrever, classificar e analisar a realidade com a mesma imparcialidade que um cientista.
Determinismo (Hippolyte Taine): Taine formulou a tese de que o comportamento humano é determinado por três fatores: a raça (hereditariedade), o meio (ambiente social e físico) e o momento (contexto histórico). Essa teoria será central para o Naturalismo, que vê o homem como um produto de forças biológicas e sociais que o transcendem e o condicionam.
Evolucionismo (Charles Darwin): A teoria da seleção natural e da sobrevivência do mais apto, exposta em A Origem das Espécies (1859), impactou fortemente a literatura. O Naturalismo, em particular, aplicará ao mundo social a luta pela existência, e o homem será visto como um animal cujos instintos primários — fome, sexo, agressividade — determinam seu destino.
Socialismo Científico (Karl Marx): Embora sua influência direta sobre o Realismo e o Naturalismo do século XIX seja limitada (a recepção de Marx na literatura se ampliará no século XX), a crítica das desigualdades sociais e a percepção da luta de classes integram o pano de fundo do período.
O Realismo: A Dissecação da Burguesia
O Realismo concentra sua atenção na sociedade burguesa contemporânea. Seu objetivo é expor a hipocrisia das instituições, desmascarar os interesses econômicos que se escondem por trás dos discursos nobres e revelar a verdadeira natureza das relações humanas — frequentemente egoísta, interesseira e mesquinha.
2.1 Características do Romance Realista
Objetivismo e Impessoalidade: O narrador realista busca apagar sua presença, narrando em terceira pessoa e abstendo-se de julgamentos explícitos. A realidade deve falar por si mesma. O foco não está no que o autor sente, mas no que as personagens fazem e dizem, e nas consequências de suas ações.
Verossimilhança e Contemporaneidade: As tramas se passam no presente ou no passado recente, em cenários urbanos reconhecíveis, com personagens que poderiam ser encontrados nas ruas, nos salões e nas repartições públicas. A fuga romântica para o passado medieval, para o oriente exótico ou para a natureza edênica é substituída pela imersão no aqui e agora.
Análise Psicológica: O Realismo aprofunda a caracterização das personagens, revelando suas motivações íntimas, suas ambições, suas fraquezas e seus conflitos. A psicologia, ainda não institucionalizada como ciência, é praticada intuitivamente pelos romancistas, que descem às profundezas da alma humana.
Crítica das Instituições: O casamento é tematizado como contrato econômico; a religião, como fachada de respeitabilidade; a política, como jogo de interesses; a filantropia, como máscara da vaidade. Nada escapa ao olhar desencantado do realista.
Ironia e Ceticismo: A ironia é a arma retórica principal do Realismo. O narrador, aparentemente neutro, insinua, sugere e contradiz, levando o leitor a questionar as aparências e a desconfiar das palavras.
2.2 Machado de Assis: O Gênio do Realismo Psicológico
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o ponto mais alto do Realismo brasileiro e um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos. Sua obra pode ser dividida em uma fase inicial, ainda marcada por traços românticos (Ressurreição, Helena, A Mão e a Luva, Iaiá Garcia), e uma fase madura, realista, inaugurada com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). É nessa segunda fase que Machado produz suas obras-primas.
A Fase Madura de Machado de Assis
A maturidade machadiana é marcada por um mergulho na psique humana que ultrapassa os limites do Realismo convencional, configurando o que a crítica chama de Realismo Psicológico. Machado não se limita a descrever a sociedade carioca; ele a interpreta a partir de seus móveis profundos: a vaidade, o egoísmo, o desejo de poder, o medo da opinião alheia.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): Romance narrado em primeira pessoa pelo defunto Brás Cubas, que só começa a escrever depois de morto. Esse recurso — o “defunto autor” — libera o narrador de qualquer constrangimento social e permite-lhe olhar a vida com um ceticismo radical e uma ironia corrosiva. Brás Cubas é um representante da elite brasileira: rico, ocioso, culto, mas incapaz de qualquer realização que transcenda o próprio interesse. O livro é uma demolição das ilusões românticas, da retórica humanitária e da crença no progresso moral. A famosa dedicatória — “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver” — dá o tom do romance: não há consolo, não há redenção, apenas a matéria que se decompõe.
Quincas Borba (1891): A história de Rubião, um modesto professor que herda a fortuna do filósofo Quincas Borba e muda-se para o Rio de Janeiro, onde é lentamente tragado pela cobiça e pela loucura. O romance expõe a ingenuidade do homem simples diante da sofisticação predatória da elite. A filosofia do “Humanitismo”, de Quincas Borba, é uma paródia do positivismo e do darwinismo social: “Ao vencedor, as batatas”.
Dom Casmurro (1899): A obra mais lida e discutida de Machado. Bento Santiago, o narrador, relata sua vida, do encontro com a amada de infância, Capitu, ao casamento e à suspeita de adultério que o consome. O gênio de Machado está em que o leitor jamais tem acesso à verdade objetiva: toda a história é filtrada pela memória e pelo ciúme de Bentinho. A ambiguidade é constitutiva da narrativa: Capitu traiu ou não traiu? A pergunta, insolúvel, é menos importante do que o funcionamento do mecanismo do ciúme e da construção retrospectiva de uma certeza que justifique o desfecho trágico.
Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908): As últimas obras de Machado de Assis aprofundam o tom de melancolia e de distanciamento irônico. Em Esaú e Jacó, os gêmeos Pedro e Paulo, que disputam o amor da mesma mulher, alegorizam as divisões políticas do Brasil no período da transição do Império para a República. Memorial de Aires, narrado pelo Conselheiro Aires (já presente em Esaú e Jacó), é um diário de velhice, com reflexões serenas sobre a vida, a memória e a morte.
As Inovações Técnicas de Machado
Metalinguagem e Digressão: O narrador machadiano conversa com o leitor, comenta o próprio texto, questiona a forma literária. O romance não é uma janela transparente para o mundo, mas uma construção verbal que exibe suas costuras.
Fragmentação e Não Linearidade: A narrativa não segue a ordem cronológica linear; avança e recua conforme a memória e o capricho do narrador.
Pessimismo e Ceticismo Radical: Machado não acredita na perfectibilidade humana. O progresso é uma ilusão; o egoísmo é a lei universal; a bondade é um disfarce ou uma forma mais sutil de interesse próprio.
Ironia Corrosiva: A arma principal de Machado. A ironia não é apenas um recurso retórico, mas uma visão de mundo. Ela opera pelo desmascaramento, pelo contraste entre o que as personagens dizem e o que realmente fazem, entre as aparências e as motivações reais.
O Naturalismo: O Homem como Animal e o Romance de Tese
O Naturalismo é um desdobramento radical do Realismo. Se o Realismo é a análise das superfícies sociais e das psicologias individuais, o Naturalismo é a descrição dos instintos, dos determinismos biológicos e dos processos de degradação. O homem é visto como um organismo entre organismos, submetido às leis da hereditariedade e do meio.
3.1 Características do Romance Naturalista
Determinismo Biológico e Social: As personagens não são livres; são o resultado inevitável de sua carga genética (raça) e do ambiente em que vivem (meio). O romancista naturalista se coloca como um cientista que observa e registra os efeitos dessas forças.
Zoomorfização e Animalização do Homem: As personagens são frequentemente descritas com traços e comportamentos animais. O sexo, a fome e a violência são pulsões instintivas que se manifestam sem o controle da razão ou da moral.
Foco no Coletivo e no Marginalizado: O Naturalismo desce aos porões da sociedade: cortiços, minas, hospitais, zonas de prostituição. O proletário, o viciado, a prostituta, o homossexual e o criminoso são elevados à condição de personagens centrais.
Patologia e Descrição Fisiológica: O corpo humano, com suas doenças, secreções e deformidades, é descrito em detalhe. A morte não é uma transição espiritual, mas um processo biológico.
Romance de Tese: O romance naturalista é construído para demonstrar uma tese científica ou social. O enredo e as personagens são organizados de modo a provar a validade do determinismo.
3.2 Aluísio de Azevedo e O Cortiço
Aluísio de Azevedo (1857-1913) é o principal representante do Naturalismo no Brasil. Sua vasta obra inclui romances românticos (como A Lágrima de um Homem), mas são os romances naturalistas que lhe garantem lugar na história literária: O Mulato (1881), Casa de Pensão (1884) e, sobretudo, O Cortiço (1890).
O Cortiço (1890): A Obra-Prima Naturalista Brasileira
O Cortiço é, ao mesmo tempo, a realização mais acabada do Naturalismo no Brasil e um dos mais vigorosos romances da língua portuguesa. A trama se desenrola no Rio de Janeiro, nos arredores de um cortiço, habitação coletiva precária onde se aglomera uma população de imigrantes, trabalhadores braçais e marginalizados.
O cortiço como personagem coletiva: O verdadeiro protagonista do romance não é nenhum indivíduo, mas o próprio cortiço e a coletividade que o habita. O cortiço é um organismo vivo que cresce, pulsa e metaboliza as vidas que o constituem. A narrativa se desloca de uma personagem a outra, compondo um grande painel social.
O meio como força modeladora: O português Jerônimo, inicialmente um trabalhador honesto e disciplinado, é lentamente “abrasileirado” pelo calor, pela música, pela comida e, sobretudo, pela sensualidade da mulata Rita Baiana. O meio tropical dissolve sua moralidade europeia e desperta seus instintos adormecidos. A transformação de Jerônimo é a demonstração prática da tese determinista.
A exploração econômica: A ascensão de João Romão, dono do cortiço, é construída sobre a exploração brutal de todos que o cercam — especialmente de Bertoleza, a escrava fugida que é sua amante e força de trabalho, e que, no final, será sacrificada com frieza. O romance expõe a engrenagem do capitalismo predatório no Brasil: a riqueza acumula-se com o suor e o sangue dos mais fracos.
O incêndio final: O desfecho do romance é simbólico: um incêndio destrói parte do cortiço, e a comunidade se dispersa. O fogo é ao mesmo tempo catarse e aniquilação, e o leitor fica com a sensação de que a vida no cortiço é um ciclo permanente de nascimento, degradação e morte.
3.3 Outros Naturalistas Brasileiros
Raul Pompeia (1863-1895): O Ateneu (1888) é uma obra singular. Narra a vida do menino Sérgio em um internato de elite, que funciona como um microcosmo da sociedade brasileira. O colégio, sob a direção do ambíguo Aristarco, é um laboratório onde os meninos se enfrentam numa luta darwiniana pela sobrevivência. A linguagem impressionista de Pompeia, com imagens vívidas e descrições carregadas de subjetividade, afasta-se dos cânones naturalistas e confere à obra um status de exceção.
Adolfo Caminha (1867-1897): Bom Crioulo (1895) é um dos primeiros romances brasileiros a abordar abertamente a homossexualidade. Amaro, o “Bom Crioulo”, um marinheiro negro, apaixona-se pelo grumete branco Aleixo. O romance é construído sob a ótica do determinismo: a homossexualidade é tratada como um “desvio” dos instintos produzido pelo confinamento no navio e na prisão. Embora o viés patologizante limite a obra, sua coragem temática é inegável.
Júlio Ribeiro (1845-1890): A Carne (1888), romance que explorou o desejo feminino de forma explícita, causando escândalo na época.
O Realismo em Portugal: Eça de Queirós
O Realismo português, liderado por Eça de Queirós (1845-1900), é contemporâneo e dialoga intensamente com o brasileiro. Eça promoveu uma verdadeira revolução na prosa de língua portuguesa, substituindo a idealização romântica pela sátira social e pela análise crítica.
O Crime do Padre Amaro (1875): O romance escandalizou Portugal ao retratar a hipocrisia do clero. O padre Amaro seduz a jovem Amélia, causando sua gravidez e morte. A Igreja, longe de ser a guardiã da moral, é mostrada como uma instituição corrupta, cujos membros vivem em concubinato e manipulam a fé dos fiéis.
O Primo Basílio (1878): A história de Luísa, uma dona de casa entediada que se envolve com o primo Basílio durante a ausência do marido. Eça analisa o adultério não como paixão romântica, mas como fruto do ócio e da imaginação alimentada pela literatura sentimental. A empregada Juliana, que descobre a traição e chantageia Luísa, é uma das personagens mais odiosas e, ao mesmo tempo, mais complexas da literatura queirosiana.
Os Maias (1888): Epopeia da decadência da aristocracia portuguesa. A saga da família Maia, ao longo de três gerações, culmina na relação incestuosa involuntária entre Carlos da Maia e Maria Eduarda. O incesto funciona como metáfora da esterilidade de uma classe social que se esgota em seu próprio narcisismo.
A Cidade e as Serras (1901, póstumo): Obra de maturidade, na qual o protagonista Jacinto, um dândi parisiense entediado, redescobre a felicidade ao transferir-se para o campo português, em Tormes. A obra atenua o pessimismo do Eça anterior e aponta para uma reconciliação com a vida simples e a natureza.
Romantismo, Realismo e Naturalismo: Três Visões do Homem
| Aspecto | Romantismo | Realismo | Naturalismo |
| :--- | :--- | :--- | :--- |
| Visão do homem | Ser idealizado, dotado de livre-arbítrio e grandes paixões | Indivíduo complexo, movido por interesses sociais e vaidades | Organismo condicionado por instintos, hereditariedade e meio |
| Foco social | Heróis singulares, damas angelicais ou fatais | Burguesia e aristocracia urbanas | Proletariado, marginalizados, coletividades |
| Amor e relações | Amor idealizado, redentor ou trágico | Contrato social e econômico; adultério como crítica | Impulso biológico, sexualidade como instinto animal |
| Método narrativo | Emoção, subjetividade, identificação | Observação, ironia, análise psicológica | Descrição científica, determinismo, tese |
| Exemplo brasileiro | José de Alencar, Álvares de Azevedo | Machado de Assis | Aluísio de Azevedo |
| Exemplo português | Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco | Eça de Queirós | Eça de Queirós (alguns romances) |
A Importância do Realismo e do Naturalismo
O Realismo e o Naturalismo representam uma mudança de paradigma na literatura de língua portuguesa. Pela primeira vez, a ficção se propõe a analisar a sociedade de modo sistemático, crítico e desmistificador. A literatura deixa de ser o lugar da evasão para tornar-se o lugar do confronto com a realidade em suas dimensões mais incômodas: a hipocrisia, a desigualdade, a exploração, a animalidade humana.
Machado de Assis e Eça de Queirós, cada um a seu modo, elevaram o português a um novo patamar de expressividade, sutileza e potência analítica. O Cortiço de Aluísio de Azevedo e O Ateneu de Raul Pompeia demonstraram que o Brasil urbano e popular podia ser matéria de grande ficção. O legado desses autores está longe de ser um capítulo encerrado: suas perguntas sobre a natureza da moral, do desejo e da vida em sociedade continuam a interpelar os leitores do século XXI.
Exercícios:
O narrador de 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' define-se como um:
O Naturalismo trata o ser humano como um 'caso patológico' a ser estudado. Isso se reflete na:
No Naturalismo, a ideia de que o comportamento humano é determinado pelo ambiente é chamada de:
Qual característica é marca registrada da prosa de Machado de Assis?
A frase 'Ele tinha um faro de cão caçador para encontrar dinheiro' é um exemplo de:
O Realismo e o Naturalismo quebraram totalmente com o Romantismo, substituindo os sonhos e os sentimentos exagerados por uma visão científica e objetiva da sociedade.
O Positivismo ensinava que a única forma de conhecimento verdadeiro era aquela baseada nas emoções e na religião, deixando de lado os fatos científicos.
A teoria do Determinismo diz que o comportamento de uma pessoa é definido por três coisas: a sua genética (raça), o ambiente onde vive (meio) e o momento histórico.
Machado de Assis criou o Realismo Psicológico no Brasil porque, além de descrever a sociedade, ele focava em mostrar as intenções egoístas e a falsidade escondida na mente das pessoas.
Ao final do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, o personagem morre triste porque não teve filhos e não conseguiu deixar sua riqueza para ninguém.
O Naturalismo é uma forma mais exagerada do Realismo, que foca nos grupos mais pobres e trata o ser humano como um animal movido apenas pelos seus instintos biológicos.
A zoomorfização no Naturalismo acontece quando os autores descrevem animais de estimação como se fossem heróis corajosos e cheios de sentimentos humanos complexos.
No Realismo, as personagens são descritas como heróis perfeitos e sem defeitos, que lutam para provar que o casamento é sempre sagrado e livre de interesses financeiros.
Em Dom Casmurro, a dúvida sobre a traição de Capitu existe porque a história é contada inteiramente pelo ponto de vista de Bentinho, que é um narrador ciumento e amargurado.
Os autores naturalistas acreditavam no livre-arbítrio, defendendo que qualquer pessoa pode vencer a má influência do ambiente apenas usando a sua força de vontade.
Qual característica do Realismo o diferencia fundamentalmente do Romantismo no que tange à representação da subjetividade?
No contexto do Naturalismo, como o conceito de 'determinismo' influencia a construção dos personagens?
O que caracteriza a 'zoomorfização' presente em obras naturalistas como 'O Cortiço'?
Por que Machado de Assis é frequentemente associado ao uso da metalinguagem e da digressão em suas obras realistas?
O que define a obra 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' como o marco inicial do Realismo no Brasil?
A corrente filosófica do Positivismo influenciou o Realismo e o Naturalismo ao defender que:
Em 'O Cortiço', o ambiente físico desempenha um papel que o diferencia de meros cenários românticos. Qual é esse papel?
A obra 'O Ateneu', de Raul Pompeia, é classificada por alguns como realista-naturalista. Qual elemento de sua narrativa justifica essa classificação?
No Realismo, o casamento é frequentemente retratado como uma instituição fracassada. Qual o motivo dessa visão?
Qual é a principal diferença entre a abordagem social do Realismo e a abordagem determinista-biológica do Naturalismo?
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão, leia o excerto abaixo, retirado de Quincas Borba, de Machado de Assis.
Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro – questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.
A partir da leitura do excerto e da leitura integral da obra Quincas Borba, assinale a alternativa correta.
[INSPER - 2026 - Vestibular] Na segunda metade do século XIX, a concepção espiritualista de mundo vai cedendo lugar a uma concepção científica e materialista. Tal visão de mundo decorre do enorme valor que se atribuiu à ciência. O espírito científico era considerado como critério supremo na compreensão e análise do mundo. Para ter uma ideia da atmosfera dominante, atente para as palavras de um conhecido filósofo da época: "Pouco importa que os fatos sejam físicos ou morais; eles sempre têm as suas causas. Tanto existem causas para a ambição, a coragem, a veracidade, como para a digestão, o movimento muscular e o calor animal. O vício e a virtude são produtos químicos como o açúcar e o ácido sulfúrico."
(Carlos Emílio Faraco e Francisco Marto Moura. Literatura Brasileira, 1995. Adaptado.)
O texto descreve uma visão de mundo que fundamenta a estética
[UNESP - 2025] Para responder à questão, leia um trecho do livro Incerteza, um ensaio, do jornalista Eugênio Bucci.
Pensemos agora em Capitu, de Machado de Assis. Ela costuma ser lembrada por estar associada à infidelidade. De minha parte, não creio que repouse nisso o charme daquela jovem dama com “olhos de ressaca”. Em hipótese nenhuma eu a escalaria para o mesmo time de Madame Bovary, de Flaubert, Anna Kariênina, de Tolstói, ou Luísa, de O primo Basílio, de Eça de Queiroz. Capitu, mais do que a probabilidade do adultério incerto, representa a incerteza.
O tema de Machado em Dom Casmurro é menos a traição conjugal e mais a impossibilidade de saber, o tempo todo. Daí que seu tema é também a modernidade. Dom Casmurro vem ao leitor como advertência permanente: é preciso conviver com ela, Capitu, do mesmo modo que é preciso conviver com o que não é certo e sabido, nem será. O que o Princípio da Incerteza, de Heisenberg, avisou na Física Quântica, Machado já avisava na literatura fazia tempo. [...]
O amor cortês do século XII, aquele que idealizava a mulher amada, teve desdobramentos poéticos na forma narrativa dos contos de fada e, em boa medida, no amor romântico, que viria mais tarde. O que me interessa destacar é a fantasia do “final feliz”, que tem forte apelo especialmente nos namoros de príncipes e moças de nobreza incerta. Em que consistia o arremate “E foram felizes para sempre”? Eu diria, modestamente, que consistia na morte: na morte da incerteza.
Aquele “final feliz” matava a imprevisibilidade, qualquer que ela fosse, e dava curso a uma utopia, em que é preciso encerrar a história para que o amor possa, enfim, principiar. Sim, nesse modelo de ficção, o amor só se faz depois do
final. O “felizes para sempre” tem o sabor de um epitáfio. O moderno, que duvida da felicidade e do “para sempre”, vai se levantar contra esse tipo de final tolo para amar o incerto e o indefinido, ainda que não o confesse.
(Incerteza, um ensaio, 2023. Adaptado.)
Depreende-se da argumentação do autor que a personagem Capitu constitui uma espécie de contraponto
[UNESP - 2025] Para responder à questão, leia um trecho do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo.
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. [...]
Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se¹ discussões e rezingas²; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. [...]
O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar³ da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos coradouros⁴ a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro.
(O cortiço, 2016.)
1 ensarilhar-se: emaranhar-se.
2 rezinga: discussão acalorada.
3 trapejar: estalar.
4 coradouro: local ao ar livre, batido pelo sol, onde se estende a roupa.
Vincula-se de modo mais direto à estética naturalista a seguinte descrição:
[UNESP - 2024] Trata-se de uma das obras mais importantes de toda a literatura brasileira. O impacto dessa obra — curioso amálgama de ensaio científico, relato literário e panfleto, denúncia do “crime” da repressão ao messianismo sertanejo — cobriu seu autor de glória. Paralelamente houve a retratação do cientificismo de seu autor: do seu determinismo geográfico e racial, convencido da inferioridade das “raças fracas”, mas rendido à descoberta de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”.
(José Guilherme Merquior. Breve história da literatura brasileira, 2014. Adaptado.)
Tal comentário aplica-se à obra