Aula de Português (Interpretação de Textos): Leitura e Contexto. Análise do contexto e como ele influencia a interpretação de um texto. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Leitura e Contexto
A leitura proficiente não se limita à decodificação de palavras e frases. Ler é um processo ativo de construção de sentidos que articula o texto, o leitor e as circunstâncias que envolvem a comunicação. O contexto — em suas múltiplas dimensões — desempenha um papel determinante nesse processo, pois é ele que permite selecionar entre sentidos possíveis, preencher lacunas, identificar ironias, reconhecer intenções e ancorar o texto em uma realidade compartilhada entre autor e leitor.
Compreender o funcionamento do contexto é, portanto, uma competência central para a interpretação de textos em provas de concursos e vestibulares, em que as questões frequentemente exigem que o candidato vá além do explícito e mobilize informações situacionais, culturais e intertextuais.
O que é contexto
Contexto é o conjunto de circunstâncias — linguísticas, situacionais e culturais — que envolvem a produção e a recepção de um texto e que contribuem para a construção do seu sentido. Trata-se de um conceito amplo, que não se confunde com o entorno físico imediato: ele abrange desde as palavras que antecedem e sucedem um vocábulo até as grandes formações ideológicas de uma época.
A Teoria da Enunciação, desenvolvida por Émile Benveniste, já destacava que o sentido de um enunciado é indissociável da situação de enunciação — quem fala, para quem, quando, onde e com que propósito. A Análise do Discurso, por sua vez, enfatiza que o contexto inclui as condições históricas e institucionais que tornam possível a emergência de certos discursos e não de outros.
Para fins didáticos, costuma-se dividir o contexto em três grandes dimensões:
Contexto linguístico (cotexto): as palavras, frases e parágrafos que circundam um item no interior do texto.
Contexto situacional: os dados concretos da situação comunicativa — emissor, receptor, tempo, lugar, veículo, objetivo.
Contexto sociocultural e histórico: os valores, crenças, conhecimentos partilhados, referências históricas e culturais que autor e leitor mobilizam.
Contexto linguístico (cotexto)
O cotexto é o entorno verbal imediato de uma palavra ou expressão. É ele que, na maioria dos casos, resolve ambiguidades lexicais e seleciona a acepção adequada de um termo polissêmico.
Exemplo: a palavra "banco" pode significar uma instituição financeira, um assento de praça ou um conjunto de dados em informática. Se a frase for "Sentei-me no banco da praça", o cotexto ("da praça", "sentei-me") seleciona a acepção de assento. Se for "Fui ao banco sacar dinheiro", o cotexto ativa a instituição financeira. Sem o cotexto adequado, a ambiguidade persiste.
O cotexto também é responsável por estabelecer cadeias referenciais, por meio das quais um termo retoma outro ou antecipa informação nova (anáfora e catáfora). A coesão textual, estudada em outra aula, é o principal mecanismo de construção do cotexto.
Contexto situacional
O contexto situacional diz respeito às circunstâncias concretas em que um texto é produzido e recebido. Compreender o "aqui" e o "agora" da comunicação é muitas vezes decisivo para a interpretação correta.
Elementos do contexto situacional incluem:
Emissor: quem produziu o texto, com que autoridade, com que intenção.
Receptor: a quem o texto se dirige (público-alvo real ou presumido).
Tempo: a data de produção e, se for o caso, a data de publicação.
Lugar: o local de onde se fala e o local a que o texto se destina.
Veículo/canal: jornal impresso, rede social, livro didático, rádio, televisão, outdoor, etc.
Objetivo comunicativo: informar, persuadir, divertir, instruir, comover.
Exemplo: a manchete "Governo anuncia pacote de medidas" terá diferentes implicações conforme o jornal que a publica (um jornal de oposição ou um porta-voz do governo), o momento histórico (crise econômica ou período de bonança) e o público a que se destina (leitores especializados ou população em geral). O leitor crítico considera esses fatores para avaliar a credibilidade, a parcialidade e o real significado da notícia.
Contexto sociocultural e histórico
O contexto sociocultural abrange os saberes, valores, normas, crenças e referências históricas que fazem parte do repertório de uma comunidade. O sentido de muitos textos depende crucialmente desses conhecimentos compartilhados.
Uma alusão a "Dom Quixote", por exemplo, só será compreendida por um leitor que conheça a obra de Cervantes e a figura do cavaleiro sonhador. Um texto que mencione "o impeachment de 1992" pressupõe que o leitor saiba que se trata do afastamento do presidente Fernando Collor de Mello. Referências a "mito de Sísifo", "calcanhar de Aquiles", "jardim do Éden" ou "1984 de Orwell" são outros exemplos de elementos cujo sentido depende inteiramente do repertório cultural.
Além das referências pontuais, o contexto sociocultural inclui as formações discursivas e ideológicas de uma época. Um texto produzido durante o regime militar no Brasil (1964-1985), por exemplo, pode conter metáforas e ironias que só fazem pleno sentido quando se conhece o cenário de censura e repressão daquele período. Da mesma forma, um artigo de opinião atual sobre cotas raciais só pode ser adequadamente interpretado se o leitor tiver familiaridade com o debate público sobre ações afirmativas e desigualdade racial no Brasil.
Como o contexto afeta a interpretação
A influência do contexto sobre a interpretação pode ser ilustrada por meio de alguns fenômenos linguísticos e comunicativos recorrentes.
5.1 Resolução de ambiguidades
Conforme visto na aula sobre ambiguidade, o contexto é a principal ferramenta para selecionar a interpretação pretendida quando há mais de uma leitura possível. Uma frase como "Ela viu o homem com o binóculo" só se desambigua com informações contextuais — sejam elas linguísticas (cotexto) ou situacionais.
5.2 Interpretação de dêiticos
Dêiticos são palavras que ancoram o enunciado na situação de enunciação e cujo sentido só se completa com o conhecimento do contexto. Pronomes pessoais ("eu", "você"), demonstrativos ("este", "esse", "aquele"), advérbios de lugar ("aqui", "ali", "lá"), advérbios de tempo ("agora", "ontem", "amanhã") são dêiticos. A frase "Eu estarei aqui amanhã" só é plenamente compreensível se soubermos quem fala, onde está e em que dia.
5.3 Compreensão de atos de fala indiretos
Muitas vezes, o sentido literal de um enunciado é diferente da intenção comunicativa do falante. Um pedido como "Você pode fechar a janela?" tem a forma de uma pergunta sobre a capacidade, mas a força ilocucionária de um pedido. O contexto situacional e as normas de polidez permitem ao interlocutor interpretar corretamente a intenção.
5.4 Ironia e figuras de linguagem
A ironia é um caso emblemático de dependência contextual. Sem pistas contextuais — tom de voz, expressão facial, conhecimento partilhado, discrepância entre o dito e a realidade —, a ironia pode ser tomada como uma afirmação literal. O mesmo vale para metáforas, hipérboles e eufemismos, cuja força expressiva se ancora no reconhecimento do desvio em relação ao sentido literal.
Exemplos práticos de análise contextual
Exemplo 1: Texto publicitário
Imagine um anúncio com a seguinte frase: "Seja a mudança que você quer ver no mundo." Sem contexto, é uma frase bonita e genérica. Mas, se for uma campanha de uma ONG ambiental, o contexto informa que "mudança" se refere a atitudes sustentáveis; se for um banco de investimentos, pode estar associada a um produto financeiro. O mesmo texto produz sentidos diversos conforme o emissor e o veículo.
Exemplo 2: Texto literário
No poema "No meio do caminho", de Carlos Drummond de Andrade, a repetição da palavra "pedra" pode ser interpretada de maneiras distintas. No contexto da obra drummondiana e do Modernismo brasileiro, a pedra é lida como símbolo do obstáculo cotidiano, da aridez existencial e da resistência da matéria. Um leitor desprovido desse contexto pode achar o poema apenas enfadonho ou enigmático.
Exemplo 3: Texto jornalístico
A manchete "Senado aprova reforma administrativa" não revela, por si só, se a reforma é positiva ou negativa. A interpretação dependerá do contexto: o jornal é favorável ou contrário ao governo? A reforma foi amplamente debatida ou aprovada de surpresa? Quais foram os votos? O leitor que dispõe dessas informações faz uma leitura crítica; o que lê apenas a manchete fica na superfície do acontecimento.
Estratégias para mobilizar o contexto na leitura
Levantamento de conhecimentos prévios: antes de ler um texto mais complexo, ative o que você já sabe sobre o tema, o autor, o gênero e a época.
Leitura dos paratextos: título, subtítulo, epígrafe, notas de rodapé, informações sobre o autor e data de publicação são pistas contextuais valiosas.
Atenção aos dêiticos e índices de subjetividade: identifique marcas de pessoa, tempo e lugar para reconstruir a cena enunciativa.
Consideração do suporte e do veículo: um mesmo texto no Twitter, em um livro didático ou em um artigo acadêmico tem pesos e intenções diferentes.
Confronto com outros textos: a leitura comparativa de textos sobre o mesmo tema, publicados em veículos distintos ou em épocas diferentes, revela como o contexto molda o discurso.
Diálogo com o professor e com os colegas: a troca de interpretações enriquece a percepção de nuances contextuais que passam despercebidas na leitura individual.
Síntese dos pontos fundamentais
O contexto é o conjunto de circunstâncias linguísticas, situacionais e socioculturais que envolvem a produção e a recepção de um texto e que condicionam a construção do sentido.
O cotexto (contexto linguístico) resolve ambiguidades, estabelece cadeias referenciais e orienta a seleção de acepções.
O contexto situacional leva em conta emissor, receptor, tempo, lugar, veículo e objetivo comunicativo.
O contexto sociocultural mobiliza conhecimentos de mundo, referências históricas, valores e formações discursivas compartilhadas.
A interpretação de dêiticos, atos de fala indiretos, ironia e figuras de linguagem depende crucialmente do contexto.
Uma leitura proficiente é aquela que integra o texto ao seu contexto, indo além do explícito e captando as intenções e os implícitos do discurso.
Exercícios:
O contexto na interpretação de textos serve para:
[ENEM 2022] Contexto: **Papos**
— Me disseram…
— Disseram-me.
— Hein?
— O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.
— Eu falo como quero. E te digo mais… Ou é “digo-te”?
— O quê?
— Digo-te que você…
— O “te” e o “você” não combinam.
— Lhe digo?
— Também não. O que você ia me dizer?
— Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. \[…\]
— Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu…
— O quê?
— O mato.
— Que mato?
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem? Pois esqueça-o e para-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
— Se você prefere falar errado…
— Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?
VERISSIMO, L. F. **Comédias para se ler na escola**.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (adaptado).
Nesse texto, o uso da norma-padrão defendido por um dos personagens torna-se inadequado em razão do(a)
[ENEM 2022] Contexto: **O complexo de falar difícil**
O que importa realmente é que o(a) detentor(a) do notável saber jurídico saiba quando e como deve fazer uso desse português versão 2.0, até porque não tem necessidade de alguém entrar numa padaria de manhã com aquela cara de sono falando o seguinte: “Por obséquio, Vossa Senhoria teria a hipotética possibilidade de estabelecer com minha pessoa uma relação de compra e venda, mediante as imposições dos códigos Civil e do Consumidor, para que seja possível a obtenção de 10 pãezinhos em temperatura estável para que a relação pecuniária no valor de R$ 5,00, seja plenamente legitima e capaz de saciar minha fome matinal?”
O problema é que temos uma cultura de valorizar quem demonstra ser inteligente ao invés de valorizar quem é. Pela nossa lógica, todo mundo que fala difícil tende a ser mais inteligente do que quem valoriza o simples, e 99,9% das pessoas que estivessem na padaria iriam ficar boquiabertas se alguém fizesse uso das palavras que eu disse acima em plenas 7 da manhã em vez de dizer: “Bom dia! O senhor poderia me vender cinco reais de pão francês?”.
Agora entramos na parte interessante: o que realmente é falar difícil? Simplesmente fazer uso de palavras que a maioria não faz ideia do que seja é um ato de falar difícil? Eu penso que não, mas é assim que muita gente age. Falar difícil é fazer uso do simples, mas com coerência e coesão, deixar tudo amarradinho gramaticamente falando. Falar difícil pode fazer alguém parecer inteligente, mas não por muito tempo. É claro que em alguns momentos na verdade vários não temos como fugir do português rebuscado, do juridiquês propriamente dito, como no caso de documentos jurídicos entre outros.
**ARAÚJO, H. Disponível em: https://diariojurista.com.br. Acesso em: 20 nov. 2021 (adaptado).**
Nesse artigo de opinião, ao fazer uso de uma fala rebuscada no exemplo da compra do pão, o autor evidencia a importância de(a)
Segundo o conteúdo apresentado, qual das alternativas a seguir exemplifica especificamente o 'contexto extralinguístico' de um texto?
De acordo com as dicas da aula, qual é o procedimento recomendado ao se deparar com uma questão de interpretação em provas de vestibular?
Segundo a aula, o que é FUNDAMENTAL para interpretar corretamente personagens e ações em um trecho como: 'Ela olhou pela janela e viu que ele havia chegado'?
Em relação à realização de inferências e eliminação de alternativas em questões objetivas, qual é a afirmação correta segundo a aula?
Considere a frase: 'O candidato está com a faca e o queijo na mão'. Sem o contexto cultural brasileiro, um estrangeiro poderia ter dificuldade de interpretação devido a:
O contexto linguístico engloba a escolha do registro, seja ele formal ou informal, e as variações de época que influenciam diretamente a construção do sentido do texto.
O cotexto é definido como o conjunto de circunstâncias históricas, sociais e culturais externas ao texto que determinam a intenção final do autor.
A interpretação de termos polissêmicos depende fundamentalmente da análise do cotexto para identificar qual sentido específico está sendo aplicado naquela ocorrência.
O contexto extralinguístico permite ao leitor captar ironias e significados implícitos que não foram registrados literalmente na superfície textual.
Realizar inferências durante a leitura consiste em produzir informações novas e subjetivas que não possuem qualquer fundamento ou pista nos dados do texto.
A identificação do gênero textual é essencial para a leitura, pois cada gênero (como poema, crônica ou edital) exige estratégias de interpretação específicas.
O título de um texto deve ser considerado um elemento meramente ilustrativo, sendo recomendável ignorá-lo para evitar o vício da percepção inicial.
Em questões de interpretação de textos, o candidato deve obrigatoriamente realizar a leitura integral do texto antes de ler o enunciado da questão.
As palavras-chave funcionam como sinalizadores que mantêm a unidade temática e ajudam o leitor a identificar rapidamente o assunto central do texto.
O contexto de produção de um texto é uma informação secundária que não interfere na compreensão de metáforas ou na identificação de sátiras.
A função da linguagem centrada no receptor, que busca influenciar seu comportamento ou persuadi-lo, é a:
Em um texto, quando um pronome retoma um termo que já foi mencionado anteriormente para evitar repetições, ocorre um mecanismo linguístico conhecido como:
O contexto extralinguístico é essencial para a compreensão de enunciados ambíguos. Qual das alternativas define corretamente esse tipo de contexto?
Ao ler uma charge que critica um evento político atual, o leitor precisa realizar uma 'leitura das entrelinhas'. Esse processo é tecnicamente chamado de:
Um texto que apresenta uma estrutura centrada no 'eu', com relatos pessoais e opiniões subjetivas, utiliza predominantemente a:
A intertextualidade ocorre quando um texto faz referência a outro texto preexistente. Qual das situações abaixo exemplifica esse conceito?
A 'competência comunicativa' de um indivíduo é demonstrada quando ele:
Qual é a distinção fundamental entre os processos de compreensão e de interpretação de um texto, conforme comumente abordado em exames e manuais didáticos?
Qual é a importância dos conectivos (como conjunções e certos advérbios) e outros elementos de coesão na interpretação de textos segundo as técnicas de leitura contextual?
[UNICAMP - 2024 - Vestibular] No início da novela Casa Velha, de Machado de Assis, o cônego da Capela Imperial, um personagem da história, assumindo a voz narrativa dela, conta a seus interlocutores:
“– Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839.”
(MACHADO DE ASSIS. Casa Velha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 11.)
De acordo com o texto, o acontecimento desagradável que vitimou o religioso faz com que ele possa ser considerado, ao final da narrativa, como
[UNICAMP - 2024 - Vestibular] Leia as duas citações a seguir, extraídas do início e do final de O Ateneu:
“Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma (...)”.
“Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo — o funeral para sempre das horas.”
(POMPEIA, Raul. O Atheneu (Chronica de saudades). Rio de Janeiro: Tipografia de Gazeta de Notícias, p 3-4 e 368, 1888.)
Com base nessas duas citações, é possível afirmar que, ao fim da narrativa de Sérgio sobre sua vida no colégio, o narrador
[UNESP 2026 — Vestibular] Analise o excerto do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, publicado originalmente em 1904.
— Mas o que é que há? perguntou Aires.
— A república está proclamada.
— Já há governo?
— Penso que já; mas diga-me V. Ex.º: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu socorro. Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. — “Confeitaria do Império”, a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex.º crê que, se ficar “Império”, venham quebrar-me as vidraças?
— Isso não sei.
— Realmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo.
— Mas pode por “Confeitaria da República”...
— Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
(Machado de Assis. Obra completa, 1986.)
O excerto mostra um diálogo do proprietário de uma confeita-ria com outro personagem, o Conselhoiro Aires. No diálogo, o dono da confeitaria expressa
[INSPER - 2026 - Vestibular] Leia o texto "Mapa", do escritor português Manuel Jorge Marmelo, para responderà questão.
A minha geografia infantil não teria chegado a ser uma geografia sequer — se não fossem as viagens para fora do Porto. Na cidade, não havia nada disso, nada de montes e vales, quase nada de rios, nenhuma planície. O Porto que eu então conhecia, aquele em que me movia à vontade, era casas e ruas. As ruas no meio e as casas à volta. Não era, portanto, uma geografia. Era um pequeno mapa, mais pequeno que o mapa da minha cidade, que nem é grande. Nas viagens, porém, o mundo ganhava enfim os seus espaços. O ¹comboio e o automóvel seguiam entre montes, acompanhavam os contornos do mundo, avançavam pelas margens de rios, atravessavam pontes. Eram ainda ruas e estradas, mas o horizonte mudava constantemente. Depois, quando comecei a viajar até mais longe, o mundo voltou a perder a sua geografia, voltou a ser um mapa. Um mapa quase do tamanho do mundo. Que nem é uma coisa grande.
(Ana Paula Tavares et al. Verbetes para um dicionário afetivo, 2021. Adaptado.)
¹ comboio: trem.
Segundo o autor, sua percepção de geografia foi desenvolvida a partir da
[INSPER - 2026 - Vestibular] Leia o poema "Poética", de Manuel Bandeira, publicado em 1930 no livro Libertinagem, para responder à questão.
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
[expediente protocolo e manifestações de apreço
[ao sr. diretor
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no
[dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de
[si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do
[amante exemplar com cem modelos de cartas e as
[diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(Manuel Bandeira. Libertinagem & Estrela da manhã, 2008.)
Para o eu lírico, o fazer poético deve ser uma atividade
[UNESP-2025] Para responder à questão, leia o trecho de uma crônica de José de Alencar, publicada originalmente em 03.09.1854.
Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se
de amores por um moço de talento, um tanto volúvel como de ordinário o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam
admirando o belo em todas as formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância, no que lhes acho toda a razão; e por isso a fada de meu conto, temendo a rivalidade dos anjinhos cá deste mundo, onde os há tão belos, tomou as formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e entregou-se ao seu amante de corpo e alma.
Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos, e vos contarei as horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete, mudas e sem palavras. Só vos direi, e isto mesmo é confidência, que, depois de muito sonho e de muita inspiração, a pena se lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fada que era, bordando as flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos que todos os perfumes do Oriente. As folhas se animavam ao seu contato, a poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam chispas brilhantes de graça e espírito.
Por fim, a desoras¹, quando já não havia mais papel, quando a luz a morrer apenas empalidecia as sombras da noite, a pena trêmula e vacilante caía sobre a mesa sem forças e sem vida, e soltava uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida pelo vento. Era o último beijo da fada que se despedia, o último canto do cisne moribundo.
Assim se passou muito tempo; mas já não há amores que durem sempre, principalmente em dias como os nossos, nos quais o símbolo da constância é uma borboleta. Acabou o poema fantástico no fim de dois anos; e um dia o herói do meu conto, chamado a estudos mais graves, lembrou-se de um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro.
(José de Alencar. Crônicas escolhidas, 1995.)
¹desoras: altas horas da noite.
O cronista dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho:
[UNESP-2025]Para responder à questão, leia o trecho de uma crônica de José de Alencar, publicada originalmente em 03.09.1854.
Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se
de amores por um moço de talento, um tanto volúvel como de ordinário o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam
admirando o belo em todas as formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância, no que lhes acho toda a razão; e por isso a fada de meu conto, temendo a rivalidade dos anjinhos cá deste mundo, onde os há tão belos, tomou as formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e entregou-se ao seu amante de corpo e alma.
Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos, e vos contarei as horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete, mudas e sem palavras. Só vos direi, e isto mesmo é confidência, que, depois de muito sonho e de muita inspiração, a pena se lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fada que era, bordando as flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos que todos os perfumes do Oriente. As folhas se animavam ao seu contato, a poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam chispas brilhantes de graça e espírito.
Por fim, a desoras¹, quando já não havia mais papel, quando a luz a morrer apenas empalidecia as sombras da noite, a pena trêmula e vacilante caía sobre a mesa sem forças e sem vida, e soltava uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida pelo vento. Era o último beijo da fada que se despedia, o último canto do cisne moribundo.
Assim se passou muito tempo; mas já não há amores que durem sempre, principalmente em dias como os nossos, nos quais o símbolo da constância é uma borboleta. Acabou o poema fantástico no fim de dois anos; e um dia o herói do meu conto, chamado a estudos mais graves, lembrou-se de um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro.
(José de Alencar. Crônicas escolhidas, 1995.)
¹desoras: altas horas da noite.
A onisciência do narrador (ou seja, um conhecimento preciso e acabado dos eventos narrados) mostra-se prejudicada no seguinte trecho:
[UNESP - 2024] A linguagem neutra é uma proposta de reflexão sobre representatividade e objetiva tornar a língua portuguesa inclusiva para pessoas transexuais, travestis, não-binárias, intersexo ou que não se sintam abrangidas pelo uso do masculino genérico. Apesar de amplas discussões sobre o tema nas redes sociais e entre linguistas na academia, a linguagem neutra ou linguagem inclusiva não é uma nova norma, mas uma tentativa de alguns falantes para que o português possa abranger uma parcela invisibilizada da população.
(Kaynã de Oliveira. www.jornal.usp.br, 18.02.2021.)
À luz dos Direitos Humanos, a temática da linguagem neutra possui como motivação