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Introdução às Classes Gramaticais – Português | Tuco-Tuco

Apresentação das classes gramaticais e sua importância na língua portuguesa.

Introdução às Classes Gramaticais As classes gramaticais, também denominadas classes de palavras, representam a categorização fundamental do léxico da Língua Portuguesa. Trata-se do agrupamento de vocábulos a partir de critérios morfológicos, sintáticos e semânticos, permitindo reconhecer padrões de flexão, de função na oração e de significação básica. O domínio dessa classificação é requisito indispensável para a análise morfossintática, para a compreensão da estrutura das frases e para a aplicação correta das normas de concordância, regência e colocação pronominal — competências amplamente exigidas em concursos públicos e vestibulares. A tradição gramatical brasileira, em consonância com a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), estabelece dez classes de palavras, subdivididas em dois grandes grupos conforme admitam ou não flexão: as classes variáveis e as classes invariáveis. Critérios de Classificação A classificação de uma palavra em determinada classe gramatical leva em consideração três critérios complementares: Critério morfológico: diz respeito à forma da palavra, ou seja, à possibilidade de sofrer flexões de gênero, número, pessoa, tempo, modo etc. As classes variáveis são aquelas cujas formas se alteram para expressar essas categorias gramaticais; as invariáveis são aquelas cuja forma permanece a mesma independentemente do contexto. Critério sintático: refere-se à função que a palavra exerce na oração, isto é, ao papel que desempenha em relação a outros termos (núcleo do sujeito, complemento verbal, adjunto adnominal, adjunto adverbial etc.). Muitas palavras podem, em função do uso, transitar entre classes distintas, fenômeno conhecido como derivação imprópria ou conversão. Critério semântico: diz respeito ao significado lexical ou gramatical da palavra. Algumas classes têm significado pleno (substantivos, adjetivos, verbos, advérbios), enquanto outras veiculam predominantemente significados gramaticais (artigos, preposições, conjunções). As interjeições constituem uma classe à parte, expressando emoções e estados de espírito de forma direta. A aplicação conjunta desses três critérios evita equívocos de classificação, como confundir artigos com pronomes ou advérbios com adjetivos. Classes Variáveis As classes variáveis são aquelas cujas palavras se flexionam para indicar gênero, número, pessoa, tempo ou modo. São seis: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome e verbo. Substantivo Substantivo é a classe que designa os seres, objetos, lugares, instituições, conceitos, ações, estados e qualidades, considerados em si mesmos. Funciona tipicamente como núcleo do sujeito e do objeto direto ou indireto, podendo ser acompanhado de artigos, adjetivos, numerais e pronomes. Flexiona-se em gênero (masculino e feminino), número (singular e plural) e grau (aumentativo e diminutivo). Subdivide-se em: Comum e próprio: comuns designam genericamente os elementos de uma espécie (cidade, pessoa, país); próprios designam um ser específico (Recife, Ana, Brasil), sendo grafados com inicial maiúscula. Concreto e abstrato: concretos nomeiam seres ou entidades que podem ser percebidos pelos sentidos ou imaginados com existência autônoma (cadeira, fada, saci); abstratos designam ações, qualidades, estados ou sentimentos cuja existência depende de outro ser (amor, corrida, beleza, infância). Simples e composto: simples têm um único radical (sol, mar, pão); compostos têm dois ou mais radicais (girassol, guarda-roupa, beija-flor). Primitivo e derivado: primitivos não derivam de outra palavra do português (pedra, flor, livro); derivados são formados a partir de uma palavra primitiva (pedreiro, florista, livraria). Coletivos: designam um conjunto de seres da mesma espécie (alcateia, cardume, frota, enxame). Adjetivo Adjetivo é a classe que caracteriza, qualifica ou classifica os substantivos, atribuindo-lhes propriedades, estados, aspectos ou relações. Varia em gênero, número e grau. Concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere; o grau (comparativo e superlativo) expressa intensidade ou estabelece comparações de modo independente, sem constituir uma concordância com o substantivo. O adjetivo pode desempenhar as funções de adjunto adnominal ou predicativo (do sujeito ou do objeto). Subdivide-se em: Qualificativos: expressam uma qualidade subjetiva, admitindo gradação (feliz, bonito, alto, inteligente). Exemplo: "O dia está ensolarado." Relacionais: indicam relação, origem, matéria, finalidade, não admitindo gradação (escolar, pétreo, brasileiro, solar). Exemplo: "O prédio escolar foi reformado." Os adjetivos compostos seguem regras próprias de flexão, com atenção especial aos adjetivos de cor (verde-clara, azul-marinho). Artigo Artigo é a classe que antecede o substantivo, determinando-o de modo definido ou indefinido, e com ele concorda em gênero e número. Constitui um importante elemento de coesão textual, podendo substantivar palavras de outras classes. Os artigos definidos (o, a, os, as) indicam que o substantivo é conhecido ou já mencionado; os artigos indefinidos (um, uma, uns, umas) indicam que o substantivo é apresentado de modo genérico. Exemplo: "O aluno resolveu a questão." (artigo definido, especificando um aluno particular); "Um aluno resolveu a questão." (artigo indefinido, sem especificar qual). Numeral Numeral é a classe que expressa quantidade, ordem, múltiplo ou fração. Pode referir-se a substantivos ou funcionar como substantivo. Classifica-se em: Cardinal: indica quantidade exata (um, dois, vinte, cem). Ordinal: indica ordem em uma sequência (primeiro, segundo, vigésimo). Multiplicativo: indica multiplicação (dobro, triplo, quádruplo). Fracionário: indica divisão (meio, terço, décimo). Os numerais podem variar em gênero e número (dois/duas, primeiro/primeira, meia, terças). Pronome Pronome é a classe que substitui ou acompanha o substantivo, podendo indicar as pessoas do discurso, posse, localização no espaço, no tempo ou no texto, e estabelecer relações de coesão referencial. Flexiona-se em gênero, número e pessoa, conforme o tipo. Os pronomes subdividem-se em: Pessoais: retos (eu, tu, ele, nós, vós, eles) e oblíquos (me, mim, comigo, nos, conosco, te, ti, contigo, vos, convosco, o, a, lhe, se, si, consigo). Possessivos: meu, teu, seu, nosso, vosso e flexões. Demonstrativos: este, esse, aquele e flexões; isto, isso, aquilo. Relativos: que, quem, cujo, onde, o qual e flexões. Indefinidos: algum, nenhum, todo, outro, muito, pouco, certo, vários, alguém, ninguém, tudo, nada, cada, algo. Interrogativos: que, quem, qual, quanto (em perguntas diretas ou indiretas). De tratamento: você, senhor, senhora, Vossa Excelência, Vossa Majestade etc. É fundamental conhecer a colocação dos pronomes oblíquos átonos (próclise, mesóclise, ênclise) e a regência associada a pronomes relativos e indefinidos. Verbo Verbo é a classe que expressa ação, estado, processo, fenômeno da natureza ou mudança de estado, situando-os no tempo. É a classe mais rica em flexões, variando em pessoa, número, tempo, modo e voz. O verbo constitui o núcleo do predicado verbal e, em muitos casos, seleciona complementos (objeto direto, objeto indireto), sendo classificado quanto à transitividade em intransitivo, transitivo direto, transitivo indireto ou transitivo direto e indireto. Os modos verbais (indicativo, subjuntivo, imperativo) e os tempos (presente, pretéritos, futuros) articulam-se para construir as noções de certeza, possibilidade, ordem e temporalidade. Classes Invariáveis As classes invariáveis são aquelas cujas palavras não sofrem flexão. São quatro: advérbio, preposição, conjunção e interjeição. Advérbio Advérbio é a classe que modifica o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, acrescentando uma circunstância (tempo, lugar, modo, intensidade, dúvida, negação, afirmação etc.). É invariável. Muitos advérbios formam-se pelo acréscimo do sufixo -mente a adjetivos femininos (rapidamente, calmamente). Locuções adverbiais são expressões com valor de advérbio (à noite, de repente, com certeza). Os advérbios podem ser classificados em: Lugar: aqui, ali, lá, perto, longe, acima, abaixo, dentro, fora. Tempo: hoje, ontem, amanhã, sempre, nunca, já, cedo, tarde. Modo: bem, mal, assim, depressa, devagar, calmamente. Intensidade: muito, pouco, bastante, demais, tão, tanto. Dúvida: talvez, quiçá, acaso, porventura. Negação: não, tampouco, jamais (com sentido negativo). Afirmação: sim, certamente, realmente, efetivamente. Preposição Preposição é a classe que estabelece relações de dependência entre dois termos, subordinando um ao outro. São invariáveis e podem ser essenciais (a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre) ou acidentais (palavras de outras classes que eventualmente funcionam como preposição: conforme, durante, exceto, salvo, visto). As preposições podem combinar-se ou contrair-se com artigos e pronomes. Na combinação, a preposição une-se ao artigo sem perda de fonemas (a + o = ao). Na contração, ocorre alteração fonética (de + o = do, em + o = no, por + a = pela). Também se contraem com pronomes (dele, nela, disto). Locuções prepositivas são conjuntos de palavras com valor prepositivo (em frente a, de acordo com, por causa de, a fim de). Conjunção Conjunção é a classe que liga orações ou termos semelhantes, estabelecendo entre eles relações lógico-semânticas. É invariável. As conjunções dividem-se em coordenativas e subordinativas. Coordenativas: ligam orações ou termos de mesma função, sem relação de dependência sintática. Subdividem-se em aditivas (e, nem, também), adversativas (mas, porém, contudo, entretanto), alternativas (ou, ora...ora, quer...quer), conclusivas (logo, portanto, assim, por isso) e explicativas (pois, porque). Subordinativas: ligam uma oração subordinada à sua principal, estabelecendo relação de dependência. Subdividem-se em integrantes (que, se) e adverbiais (causais, concessivas, condicionais, comparativas, conformativas, consecutivas, finais, proporcionais, temporais). Interjeição Interjeição é a classe que exprime emoções, sensações, estados de espírito ou apelos de forma sintética e direta. São invariáveis e geralmente aparecem isoladas ou no início de frases. Exemplos: ah!, oh!, ufa!, ai!, psiu!, nossa!, socorro!, viva!. Transposição de Classes Uma mesma palavra pode, dependendo do contexto, pertencer a classes gramaticais diferentes, fenômeno conhecido como derivação imprópria ou conversão. Exemplos clássicos: "o jantar" (verbo usado como substantivo), "os bons" (adjetivo usado como substantivo), "o sim" (advérbio usado como substantivo), "é um judas" (substantivo próprio usado como comum), "criança prodígio" (substantivo usado como adjetivo, em aposição). A identificação da classe depende da análise do contexto sintático e semântico, e não apenas da forma da palavra. Relevância para a Análise Linguística O estudo das classes gramaticais não se limita à memorização de listas de palavras. Ele fundamenta a análise morfossintática, permitindo ao estudante: Identificar o núcleo do sujeito e do predicado, distinguindo verbo significativo de verbo de ligação; Reconhecer a função dos termos acessórios, como adjunto adnominal (normalmente adjetivo, artigo, numeral, pronome) e adjunto adverbial (advérbio ou locução adverbial); Estabelecer a concordância nominal (substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome) e a concordância verbal (sujeito e verbo); Determinar a regência verbal e nominal, que depende da classe e das propriedades do verbo ou do nome; Interpretar a coesão textual, reconhecendo pronomes, conjunções e articuladores como responsáveis pela progressão e encadeamento das ideias; Aplicar corretamente as regras de colocação pronominal (ênclise, próclise, mesóclise), que envolvem a interação entre verbos, advérbios, conjunções e pronomes oblíquos átonos. Portanto, o domínio da classificação das palavras, aliado ao estudo das relações sintáticas e semânticas, constitui a base insubstituível para a compreensão plena da gramática normativa e para a produção de textos coesos, claros e adequados à norma culta da língua.