Introdução à Concordância Verbal e Nominal – Português | Tuco-Tuco
Definição e importância da concordância verbal e nominal na língua portuguesa, com exemplos básicos.
Introdução à Concordância Verbal e Nominal
A concordância é o mecanismo pelo qual as palavras de uma oração se harmonizam, ajustando-se umas às outras em gênero, número e pessoa. Na língua portuguesa, esse fenômeno é o reflexo de regras sintáticas que garantem a coesão e a clareza do enunciado, evitando ambiguidades e assegurando a observância da norma culta. A concordância divide-se em dois grandes eixos: a concordância verbal, que diz respeito à relação entre o verbo e o sujeito, e a concordância nominal, que envolve a relação entre o substantivo e seus determinantes e modificadores (artigos, adjetivos, pronomes, numerais). Este estudo introdutório tem por objetivo estabelecer os fundamentos teóricos e práticos desses dois tipos de concordância, preparando o estudante para os aprofundamentos que ocorrerão nas aulas seguintes, com vistas ao domínio completo da matéria exigida em concursos e vestibulares.
Concordância Verbal: Conceito e Princípios
A concordância verbal é a adequação do verbo ao sujeito em número (singular/plural) e pessoa (1ª, 2ª, 3ª). O verbo flexiona-se para refletir as características do núcleo do sujeito, o que permite que se identifique, mesmo quando o sujeito não está explícito, a que pessoa do discurso se refere a ação, o estado ou o processo verbal.
Regra Geral
Na regra geral, o verbo concorda com o núcleo do sujeito em número e pessoa. Essa regra aplica-se independentemente da posição do sujeito (anteposto ou posposto ao verbo) e da complexidade do sujeito (simples, composto, oracional).
Exemplos:
"O professor explicou a matéria." (sujeito simples, núcleo: "professor"; verbo na 3ª pessoa do singular)
"Os professores explicaram a matéria." (núcleo plural: "professores"; verbo no plural)
"Ela estuda todos os dias." (pronome reto "ela" – 3ª pessoa do singular)
"Nós estudamos todos os dias." (pronome reto "nós" – 1ª pessoa do plural)
Sujeito Composto
Quando o sujeito é composto, ou seja, possui dois ou mais núcleos, o verbo normalmente vai para o plural. Se os núcleos são de pessoas gramaticais diferentes, a concordância segue uma hierarquia: a 1ª pessoa prevalece sobre a 2ª e a 3ª; a 2ª pessoa prevalece sobre a 3ª.
Exemplos:
"João e Maria viajaram para o interior." (dois núcleos, verbo na 3ª pessoa do plural)
"Eu e ela faremos o trabalho." (1ª pessoa + 3ª pessoa = 1ª pessoa do plural)
"Tu e ele fizestes (ou fizeram) o trabalho." (2ª pessoa + 3ª pessoa = 2ª ou 3ª pessoa do plural, dependendo do registro)
Casos de Flexão Especial
A língua apresenta situações em que a concordância verbal se afasta da regra geral por razões de ênfase, eufonia ou especificidade semântica. Esses casos serão detalhados nas aulas subsequentes, mas cabe mencionar alguns exemplos introdutórios:
Sujeito composto posposto ao verbo: o verbo pode concordar no plural ou com o núcleo mais próximo. "Chegou o diretor e os professores." ou "Chegaram o diretor e os professores."
Sujeito formado por expressão partitiva ("a maioria de", "parte de"): o verbo pode concordar com o partitivo (singular) ou com o termo preposicionado (plural). Exemplo: "A maioria dos alunos compreendeu (ou compreenderam) a explicação."
Verbo impessoal "haver" no sentido de existir: permanece no singular, pois o termo que o segue é objeto direto, não sujeito. Exemplo: "Há vagas." (e não "Hão vagas").
Verbo "ser" com predicativo do sujeito: a concordância pode dar-se com o sujeito ou com o predicativo, conforme a ênfase. Exemplo: "O problema são as provas." (concordância com o predicativo plural).
Concordância Nominal: Conceito e Princípios
A concordância nominal é o ajuste em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) entre o substantivo e as palavras que o determinam ou caracterizam: artigos, adjetivos, pronomes adjetivos e numerais. A regra geral determina que esses elementos concordem com o substantivo nuclear, que é o centro do sintagma nominal.
Regra Geral
O artigo, o adjetivo, o pronome adjetivo e o numeral concordam em gênero e número com o substantivo a que se referem.
Exemplos:
"O livro interessante" (masculino singular)
"As flores bonitas" (feminino plural)
"Dois rapazes estudiosos" (masculino plural)
"Estas moças dedicadas" (feminino plural)
Adjetivo e Substantivos de Diferentes Gêneros
Quando um adjetivo posposto se refere a dois ou mais substantivos de gêneros diferentes, pode concordar com o mais próximo ou ir para o masculino plural.
Exemplos:
"Ela vestiu saia e blusa novas." (feminino plural, concordando com ambos; ambos os substantivos são femininos)
"Ela vestiu blusa e saia nova." (concordância atrativa com o mais próximo: "saia", feminino singular)
"O aluno e a aluna dedicados." (masculino plural, substantivos de gêneros diferentes: masculino + feminino)
Se o adjetivo estiver anteposto aos substantivos, concorda com o mais próximo ou vai para o masculino plural.
Exemplos:
"Bela pintura e paisagem." (concorda com "pintura", o substantivo mais próximo)
"Belas pintura e paisagem." (feminino plural, concordando com ambos, ambos os substantivos são femininos)
"Novo projeto e ideias." (concorda com "projeto", o substantivo mais próximo)
Expressões com Verbo de Ligação + Predicativo
Em construções como "é proibido", "é necessário", "é permitido" seguidas de substantivo, a concordância da expressão depende da presença ou ausência de artigo:
Sem artigo: a expressão fica invariável. Exemplo: "É proibido entrada." "É necessário paciência."
Com artigo: a expressão concorda com o substantivo. Exemplo: "É proibida a entrada." "É necessária a paciência."
O mesmo ocorre com "é bom", "é preciso", "é vedado".
Palavras com Função Adjetiva Invariável
Algumas palavras de valor adjetivo permanecem invariáveis, como "azul-marinho", "verde-oliva", "amarelo-ouro" (cores substantivas). Exemplos: "Comprei duas blusas azul-marinho." "Os sapatos amarelo-ouro desapareceram."
Concordância com Pronomes
Os pronomes demonstrativos, possessivos e indefinidos devem concordar com o substantivo que determinam. Exemplos: "Esta casa", "meus livros", "alguns problemas". Os pronomes de tratamento, embora se refiram a pessoas, exigem concordância com a 3ª pessoa do singular: "Vossa Excelência está convidado." (masculino, se for homem).
Concordância de Palavras Específicas
"Meio", "bastante", "caro", "barato", "só", "anexo", "incluso"
Meio: como numeral (metade), varia; como advérbio (um pouco), é invariável. Exemplos: "Bebeu meia garrafa." (numeral) × "Ela está meio cansada." (advérbio).
Bastante: como adjetivo (suficiente), concorda; como advérbio (muito), é invariável. Exemplos: "Há bastantes motivos para comemorar." (adjetivo) × "Ela estudou bastante." (advérbio).
Caro, barato: quando advérbios, são invariáveis; quando adjetivos, concordam. Exemplos: "O carro custou caro." (advérbio) × "Vendas caras foram feitas." (adjetivo).
Só: como adjetivo (sozinho), concorda; como advérbio (somente), é invariável. Exemplos: "Eles ficaram sós." (adjetivo) × "Eles só queriam ajuda." (advérbio).
Anexo, incluso: concordam com o substantivo. Exemplos: "Segue anexa a cópia." "Seguem inclusos os comprovantes."
A Concordância e a Construção de Sentido
A concordância não é um mero requisito normativo; ela auxilia na construção do sentido e na desambiguação de frases. Um verbo no singular ou no plural pode alterar completamente a interpretação de um período. Compare: "A multidão aplaudiu o orador." (concordância com o coletivo singular) e "A multidão de fãs aplaudiram o orador." (concordância com o termo especificador). A escolha da concordância reflete um foco no todo (coletivo) ou nas partes (indivíduos que compõem o coletivo).
Da mesma forma, a concordância nominal especifica o escopo de um adjetivo: "Comprei camisa e calça nova." (apenas a calça é nova) × "Comprei camisa e calça novas." (ambas são novas).
Introdução aos Casos Especiais
As aulas que se seguem serão dedicadas ao estudo pormenorizado das regras de concordância verbal com sujeito simples, composto e indeterminado, e dos casos especiais (verbos impessoais, expressões de quantidade, sujeito oracional, etc.). Na concordância nominal, serão aprofundadas as regras para adjetivos antepostos e pospostos, a concordância com pronomes de tratamento, a concordância de particípios e a análise de palavras e expressões que geram dúvidas. A compreensão da base aqui apresentada é o alicerce para o domínio desses tópicos.
Importância do Estudo da Concordância
Dominar a concordância verbal e nominal permite ao estudante:
Produzir textos que obedeçam à norma culta, requisito essencial em concursos e vestibulares;
Analisar e corrigir frases, identificando inadequações de concordância;
Interpretar corretamente enunciados, nos quais a concordância sinaliza relações de sentido e hierarquia entre os termos;
Estruturar períodos complexos com segurança, sabendo como o verbo se relaciona com sujeitos de naturezas variadas;
Ampliar o conhecimento sobre o funcionamento da língua, relacionando a concordância com a regência, a colocação pronominal e a sintaxe do período.
O caminho que se inicia agora é denso, mas seu domínio é plenamente alcançável com estudo organizado e prática constante.