Inferência e Leitura nas Entrelinhas - Português | Tuco-Tuco
Aula de Português (Interpretação de Textos): Inferência e Leitura nas Entrelinhas. Desenvolvimento da habilidade de deduzir informações implícitas. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Inferência e Leitura nas Entrelinhas
A habilidade de inferir — isto é, de extrair de um texto informações que não estão explicitamente declaradas — é uma das competências mais sofisticadas da leitura e, ao mesmo tempo, uma das mais exigidas em provas de concursos e vestibulares. Enquanto a leitura literal se limita a reconhecer o que está dito na superfície do texto, a leitura inferencial penetra nas camadas implícitas do sentido, mobilizando conhecimentos prévios, raciocínio lógico e sensibilidade contextual. Nesta aula, examinaremos em profundidade o que são inferências, como se constroem, quais os seus tipos e quais estratégias o leitor pode empregar para ler nas entrelinhas com segurança e precisão.
Leitura literal e leitura inferencial: dois níveis de compreensão
A leitura literal é o ponto de partida da compreensão textual. Consiste em localizar informações explícitas no texto — datas, nomes, definições, sequências de eventos — e reproduzi-las ou parafraseá-las. Nesse nível, o leitor opera sobretudo com a memória e a atenção: a resposta à pergunta "o que o texto diz?" está presente, palavra por palavra, na materialidade do enunciado.
A leitura inferencial vai além. Ela responde a perguntas como "o que o texto sugere?", "o que o autor quis dizer com isso?", "que ideia está subentendida?". Para tanto, o leitor articula as pistas textuais com seu conhecimento de mundo, com as convenções do gênero e com as circunstâncias da comunicação. A inferência é, portanto, um processo ativo de construção de sentidos que o autor não verbalizou, mas que deixou ao alcance do leitor atento.
Exemplo elementar: a frase "João chegou ensopado e deixou poças d'água pelo chão" não afirma que choveu. Contudo, qualquer falante do português e habitante de um mundo em que pessoas se molham na chuva inferirá, com alto grau de certeza, que estava chovendo quando João chegou. O texto diz "ensopado" e "poças d'água"; a inferência conecta esses indícios à causa mais provável.
O que é inferência: definição e natureza
Inferência é o processo cognitivo pelo qual o leitor, a partir de informações explícitas no texto e de conhecimentos armazenados em sua memória, deriva uma informação nova, não declarada, mas compatível e coerente com os dados disponíveis. Trata-se de um raciocínio que pode assumir a forma de dedução, indução ou abdução, conforme a natureza da relação entre as premissas e a conclusão.
O conceito de inferência está na base da Linguística Textual, da Análise do Discurso e da Pragmática. Essas disciplinas mostram que a comunicação humana é sempre parcialmente implícita: os falantes deixam muito por conta da capacidade interpretativa dos ouvintes. Se tudo tivesse de ser dito de modo exaustivo, a comunicação seria inviável. A inferência, portanto, não é um luxo interpretativo, mas uma necessidade estrutural da linguagem.
Tipos de inferência
A literatura especializada costuma classificar as inferências segundo diversos critérios: quanto ao raciocínio envolvido, quanto ao grau de certeza, quanto ao momento em que são realizadas, entre outros. Para os fins da leitura de textos em provas, é útil conhecer as seguintes categorias:
3.1 Inferência lógica (ou dedutiva)
Baseia-se em relações formais de implicação entre proposições. Se o texto diz "Todos os mamíferos são vertebrados" e depois menciona "A baleia é um mamífero", o leitor pode inferir dedutivamente que "A baleia é um vertebrado". Não há como a conclusão ser falsa se as premissas forem verdadeiras. Esse tipo de inferência é comum em textos científicos e filosóficos.
3.2 Inferência pragmática (ou contextual)
Apoia-se nas convenções da comunicação, nas máximas conversacionais (Grice) e no conhecimento de mundo partilhado. Exemplo: se alguém pergunta "Você tem horas?" e recebe como resposta "São duas e meia", infere-se que a pessoa não apenas sabe as horas, mas as informou. A inferência preenche a lacuna entre o dito e o comunicado.
3.3 Inferência conectiva (ou ponte)
É aquela que liga duas informações do texto que, sem a inferência, permaneceriam desconexas. Exemplo: "Maria acendeu o forno. O bolo começou a crescer." O leitor infere que Maria colocou o bolo no forno e que o calor fez o bolo crescer, ainda que essas ações não estejam descritas. A inferência conectiva é um dos principais recursos de coesão implícita.
3.4 Inferência elaborativa
Acrescenta detalhes, imagens ou informações suplementares que enriquecem a representação mental do texto, mas que não são indispensáveis para a compreensão. Exemplo: ao ler "Ele entrou no carro e partiu", o leitor pode inferir que ele abriu a porta, sentou-se, ligou o motor e acelerou. São inferências prováveis, mas não necessárias; o texto permaneceria compreensível sem elas.
3.5 Inferência avaliativa
Envolve juízos de valor, opiniões ou interpretações que o leitor faz a partir de indícios textuais. Exemplo: um texto que descreve longamente as ações filantrópicas de um personagem pode levar o leitor a inferir que ele é generoso. A inferência avaliativa é frequente na leitura de textos literários, charges e artigos de opinião, mas deve ser feita com cautela para não projetar indevidamente valores do leitor sobre o texto.
Inferência e pressuposição
A pressuposição, estudada em outra aula, é um tipo especial de inferência: é a informação implícita cuja verdade o falante assume ao proferir um enunciado, e que permanece válida mesmo que o enunciado seja negado. Exemplo: "João parou de fumar" pressupõe que João fumava antes. Se negarmos — "João não parou de fumar" —, a pressuposição continua de pé: João ainda fuma (ou continuava fumando, dependendo do tempo verbal).
As pressuposições são inferências "garantidas" pelo próprio texto, pois decorrem da estrutura semântica de certas palavras e construções. Identificar pressuposições é uma das tarefas mais frequentes em questões de interpretação, pois elas revelam posicionamentos e crenças do autor que não foram ditos abertamente.
Inferência e implicatura conversacional
As implicaturas conversacionais, conceito desenvolvido pelo filósofo Paul Grice, são inferências que o ouvinte faz presumindo que o falante está respeitando as máximas da conversação (quantidade, qualidade, relação e modo). Quando uma máxima é violada de modo ostensivo, o ouvinte busca um sentido implícito que restaure a coerência da comunicação.
Exemplo clássico: em uma carta de recomendação, o professor escreve apenas "O aluno é assíduo e sua caligrafia é excelente". O destinatário infere que o professor não tem coisas positivas a dizer sobre a competência acadêmica do aluno, embora nada de negativo tenha sido dito. Essa inferência é uma implicatura: ela resulta da percepção de que o professor está dizendo menos do que seria esperado, violando a máxima da quantidade.
Condições para uma inferência válida
Nem toda inferência é legítima. A inferência deve ser:
Sustentada pelo texto: deve haver pistas textuais que a apoiem, ainda que indiretamente.
Compatível com o conhecimento de mundo partilhado: a inferência não pode contrariar fatos estabelecidos e consensuais.
Coerente com o contexto comunicativo: gênero, época, intenção do autor, público-alvo, etc.
Diferenciável de mera suposição ou projeção pessoal: o leitor não pode atribuir ao autor ideias que não encontram amparo no texto, por mais que ele, leitor, as compartilhe.
Em provas de vestibular, uma das armadilhas mais comuns é apresentar como alternativa uma afirmação que "vai além do texto" — ou seja, que não encontra suporte nas informações textuais, configurando uma extrapolação indevida. Distinguir inferência legítima de extrapolação é uma habilidade que se desenvolve com a prática analítica e com o conhecimento das convenções de cada gênero.
Estratégias para realizar inferências
Desenvolver a competência inferencial requer prática orientada. Abaixo, algumas estratégias eficazes:
Ativação de conhecimentos prévios: antes ou durante a leitura, reflita sobre o que você já sabe a respeito do tema, do autor, da época e do gênero. Esse repertório será a base para as conexões inferenciais.
Atenção às pistas linguísticas: palavras como "portanto", "mas", "embora", "assim", "porque" sinalizam relações que podem conter implícitos. Advérbios modais ("felizmente", "infelizmente") e adjetivos valorativos também carregam inferências sobre a posição do autor.
Questionamento do texto: faça perguntas ao texto: "Por que o autor disse isso?", "O que essa palavra sugere?", "Qual a intenção ao usar essa metáfora?", "O que está pressuposto nessa afirmação?".
Leitura do contexto mais amplo: um parágrafo pode conter pistas para inferências que se confirmam ou se ajustam nos parágrafos seguintes. A interpretação inferencial é progressiva e deve ser revista à luz do todo.
Confronto com outros textos: a leitura de textos diferentes sobre o mesmo tema revela implícitos que um texto esconde e outro explicita.
Discussão e troca de interpretações: o diálogo com colegas e professores expõe diferentes percursos inferenciais, permitindo avaliar quais são mais consistentes com o texto.
Exemplos práticos de inferência em diferentes gêneros
8.1 Texto literário
Trecho: "A lua brilhava sobre o casario. Passos ressoavam na calçada deserta. Ele apertou o passo, sem olhar para trás."
Inferências possíveis:
É noite (pela presença da lua e pelo adjetivo "deserta", que sugere hora avançada).
O personagem está com medo ou quer evitar um encontro (o ato de apertar o passo e não olhar para trás, combinado com os passos ressoando).
Há alguém seguindo-o ou ele teme que haja (os passos ressoando, sem que se explicite de quem são).
Essas inferências não estão ditas, mas são construídas com alto grau de plausibilidade a partir das pistas textuais.
8.2 Charge ou tirinha
Em uma charge que mostra um homem com uma placa "Quero emprego" e um passante dizendo "Estude", o leitor infere que o passante atribui o desemprego do homem à falta de estudo, além de perceber a crítica social implícita na simplificação da relação entre educação e empregabilidade.
8.3 Artigo de opinião
Trecho: "A nova medida provisória foi saudada por alguns setores, mas recebida com ceticismo pela comunidade acadêmica."
Inferências:
A medida é controversa (pela oposição entre "saudada" e "ceticismo").
O autor pode estar se alinhando ao ceticismo, ou ao menos sinalizando que existem razões para desconfiar da medida (a escolha lexical "ceticismo" é mais carregada do que "dúvida" ou "ressalvas").
A comunidade acadêmica tem argumentos técnicos ou científicos para questionar a medida (pelo conhecimento de mundo sobre o papel da academia).
8.4 Texto publicitário
Anúncio: "Você merece chegar mais longe. Conheça o novo sedan Executivo."
Inferências:
O carro é associado a status, conforto e sucesso profissional ("Executivo").
O consumidor é tratado como alguém que aspira a ascender socialmente ("chegar mais longe").
O pronome "você" cria proximidade e individualiza a mensagem.
Cuidados e limites da inferência
A inferência é uma ferramenta poderosa, mas deve ser usada com rigor. Os principais riscos são:
Extrapolação: atribuir ao texto informações que ele não contém e que não podem ser logicamente derivadas de suas pistas.
Superinterpretação: forçar uma leitura que, embora engenhosa, não encontra respaldo suficiente no texto.
Projeção ideológica: ler o texto apenas para confirmar as próprias crenças, distorcendo o que o autor efetivamente disse.
Desconsideração do gênero e do contexto: uma metáfora poética pode admitir inferências mais livres; um texto jurídico exige inferências restritas e lastreadas na literalidade.
O leitor crítico deve estar permanentemente disposto a revisar suas inferências diante de novas evidências textuais e a reconhecer os limites do que o texto autoriza inferir.
Síntese dos pontos fundamentais
Inferência é o processo de derivar informações não explícitas a partir de pistas textuais e conhecimentos prévios.
A leitura inferencial complementa a leitura literal, permitindo acessar implícitos, pressupostos e subentendidos.
Existem diferentes tipos de inferência: lógica, pragmática, conectiva, elaborativa e avaliativa, cada qual com função e grau de certeza distintos.
A pressuposição é um tipo de inferência garantida pela estrutura semântica do enunciado; a implicatura conversacional decorre de princípios da comunicação.
Para ser válida, a inferência precisa estar ancorada no texto e ser coerente com o conhecimento de mundo e com o contexto.
Estratégias como ativação de conhecimentos prévios, atenção a pistas linguísticas e questionamento do texto ajudam a desenvolver a competência inferencial.
É fundamental distinguir inferência legítima de extrapolação, superinterpretação ou projeção pessoal.
O domínio da leitura inferencial é indispensável para a interpretação de textos complexos, para a resolução de questões de concurso e vestibular e para a formação de leitores críticos e autônomos.
Exercícios:
[ENEM 2022] Contexto: **O bebê de tarlatana rosa**
– \[…\] Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
RIO, J. **Dentro da noite**. São Paulo: Antíqua, 2002.
No texto, o personagem vincula ao carnaval atitudes e reações coletivas diante das quais expressa
Fazer uma inferência significa:
A inferência é o processo de descobrir informações que não estão escritas de forma direta, mas que podem ser deduzidas através das pistas deixadas pelo autor no texto.
Fazer uma inferência em um texto é o mesmo que dar uma opinião pessoal sobre o assunto, sem a necessidade de buscar provas ou pistas concretas no que foi lido.
Ler nas entrelinhas permite identificar o uso da ironia, que ocorre quando o autor utiliza palavras com sentido oposto ao que ele realmente deseja comunicar.
A informação explícita é aquela que o autor registrou claramente no papel, enquanto a implícita é o que o leitor conclui através do raciocínio sobre o que foi dito.
A técnica de ler nas entrelinhas deve ser aplicada apenas em textos literários, como poemas e contos, sendo proibida em textos técnicos ou notícias de jornal.
O conhecimento sobre quem escreveu o texto e em que época ele foi produzido ajuda o leitor a realizar inferências mais precisas e evita interpretações erradas.
Toda conclusão que um leitor tira após ler um parágrafo é considerada uma inferência válida, mesmo que não existam marcas ou palavras no texto que a comprovem.
Descobrir informações implícitas é uma tarefa puramente mecânica de tradução, que não depende da cultura ou do conhecimento de mundo de quem está lendo.
O uso de certos conectivos, como embora ou visto que, serve como uma autorização para o leitor inferir relações de oposição ou de causa entre as ideias.
Em provas de interpretação, se uma informação não estiver escrita com palavras literais e explícitas, o candidato deve sempre considerá-la como falsa ou inexistente.
Ao analisar a frase 'Lucas não quer mais jogar futebol', qual é o pressuposto linguístico imediato gerado pelo termo 'mais'?
Em uma questão de interpretação, qual dos seguintes comandos de enunciado sugere que a resposta deve ser buscada nas entrelinhas?
No trecho 'Apesar de todos os esforços, os resultados não foram os esperados', o que a expressão 'Apesar de' permite inferir?
Na frase 'Maria chegou em casa e colocou o casaco molhado no cabide', qual inferência é logicamente sustentada pelo texto?
No poema 'Morte e Vida Severina', a expressão 'morrer de velhice antes dos trinta' exige qual tipo de inferência?
O que se pode concluir sobre a expressão 'nem ligou' em um texto que descreve a reação de um príncipe a um pedido de casamento?
[UNESP-2025] Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa
(1960- ).
1 Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.
— Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.
A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.
— Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.
5 O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.
— Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.
Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:
— Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.
Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:
10 — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.
Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]
Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:
— Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.
Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo [1], apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.
15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda [2], ele falou-me desse desterro com nostalgia:
— Foi a melhor época da minha vida.
Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 1975 [3].
A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal [4], em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril [5] e regressou a Angola.
Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor
para se certificar de que estávamos sozinhos:
20 — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.
(Rita Chaves (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)
[1] cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.
[2] Luanda: capital de Angola.
[3] Angola tornou-se um país independente em 1975.
[4] Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.
[5] Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
No conto, os discursos do pássaro são caracterizados, sobretudo, como
[UNESP-2025] Para responder à questão, leia o conto “Passei por um sonho”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa
(1960- ).
1 Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.
— Passei por um sonho — disse à mulher quando esta acordou —, e vi um pássaro.
A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.
— Fui sonhado por ti — disse-lhe o pássaro —, com o fim de esclarecer o espírito dos Homens e de trazer a liberdade a este pobre país.
5 O discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.
— Foi apenas um sonho — disse à mulher —, um sonho estúpido.
Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:
— Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.
Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:
10 — Com estas minhas penas hás de curar os enfermos — disse o pássaro —, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.
Quando Justo Santana despertou o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. [...]
Justo Santana colocava na boca dos enfermos uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas:
— Se esse pássaro continuar assim tão generoso — disse Justo Santana à mulher —, ainda o veremos transformado numa alma despenada.
Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo [1], apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.
15 Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda [2], ele falou-me desse desterro com nostalgia:
— Foi a melhor época da minha vida.
Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia — na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 1975 [3].
A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal [4], em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril [5] e regressou a Angola.
Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor
para se certificar de que estávamos sozinhos:
20 — Estrangulei-o — segredou com um sorriso cúmplice —, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.
(Rita Chaves (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa, 2009.)
[1] cacimbo: estação com elevado índice de umidade caracterizada pela descida gradual da temperatura e pelo aumento da nebulosidade.
[2] Luanda: capital de Angola.
[3] Angola tornou-se um país independente em 1975.
[4] Tarrafal: antiga colônia penal portuguesa.
[5] Ocorrida em 25 de abril de 1974, a Revolução de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos, restabeleceu a democracia em Portugal, abrindo caminho para o processo de descolonização dos países da África.
Depreende-se do conto que o narrador se encontrou com Justo Santana
Na frase 'O candidato deixou o salão em silêncio após o resultado', pode-se inferir, com segurança, que:
No processo de interpretação textual, a inferência permite ao leitor concluir informações não explícitas no enunciado. Se um texto descreve que 'uma árvore está sem folhas e com galhos secos', qual conclusão representa uma hipótese plausível resultante da interpretação, e não um fato comprovado?
Qual é a distinção fundamental entre a compreensão de informações explícitas no texto e o processo de inferência?
Ao ler 'João saiu da sala e bateu a porta. O rosto estava vermelho', quais pistas permitem inferir que ele está com raiva?
O que a expressão 'sorriso amarelo' permite inferir sobre um personagem em um contexto narrativo?
[UNICAMP - 2025 - Vestibular] Enquanto o povo da cidade se sentia muito importante, eu, por minha vez, me sentia necessário. Eles, porém, não me viam como alguém necessário, me viam como alguém útil. Para eles eu era um servidor, um serviçal. Eu era útil, mas poderia ser substituído porque não era necessário. Percebi que o povo da cidade tinha relações de utilidade e importância, mas não tinha relações de necessidade. Para nós, a pessoa que é importante não é quase nada. É aquela pessoa que se acha ótima, mas não serve. O termo que tem valor para nós é necessário. Há pessoas que são necessárias e há pessoas que são importantes. As pessoas que são importantes acham que as outras pessoas existem para servi-las. As pessoas necessárias são diferentes, são pessoas que fazem falta. Pessoas que precisam estar presentes, de quem se vai atrás. (SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: UBU/Piseagrama, p. 24, 2023.) Considerando o ponto de vista apresentado no texto de Antônio Bispo dos Santos sobre os "tipos de pessoa", a personagem que fala nos quadrinhos de Wesley Samp pode ser caracterizada como alguém que
[UNICAMP - 2025 - Vestibular] O excerto a seguir, do livro Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol, narra o encontro entre a protagonista e o Gato de Cheshire: O Gato apenas sorriu ao avistá-la. Alice achou que ele parecia afável. Mas como tinha garras muito compridas e dentes bem graúdos, sentiu que devia tratá-lo com respeito. - Gatinho de Cheshire -- começou a dizer timidamente, sem ter certeza se ele gostaria de ser tratado assim, mas ele apenas abriu um pouco mais o sorriso. "Ótimo, parece que ele gostou", pensou ela, e prosseguiu: -- Podia me dizer, por favor, qual é o caminho para sair daqui? - Isso depende muito do lugar para onde você quer ir -- disse o Gato. - Não me importa onde... -- disse Alice. - Nesse caso não importa por onde você vá -- disse o Gato. - ...conquanto que eu chegue a algum lugar -- acrescentou Alice como explicação. - É claro que isso acontecerá -- disse o Gato --, desde que você ande por algum tempo. (CARROLL, L. Aventuras de Alice no país das maravilhas. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Editora 34, p. 68-69, 2016.) A partir da leitura do trecho e da compreensão do todo da narrativa, pode-se afirmar que o excerto é um exemplo
[UNICAMP - 2026 - Vestibular] "O sineiro era um preto velho e doido. Não fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ninguém lhe falava, embora fosse manso. [...] Com a razão, perdera a convivência dos mais. Vivia entregue aos pensamentos solitários, mergulhado na inconsciência e na solidão. A moça representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da consciência antiga."
(ASSIS, M. de Casa Velha. Apresentação e notas de Paulo Franchetti. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, p. 85-86, 2023.)
No enredo de Casa Velha, é possível afirmar que a cena em que aparece a figura do sineiro cumpre o papel de
[INSPER - 2026 - Vestibular] Para responder à questão, leia um trecho do conto "Último capítulo", do escritor Machado de Assis, publicado originalmente em 1884 no livro Histórias sem data.
"Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro¹ da empresa. Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz², mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro³ no segundo. [...] O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado.
Felizmente --- ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava⁴ em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das francesas", como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo⁵, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas coisas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino."
(Machado de Assis. Histórias sem data, 2022.)
¹ agro: que ou o que é árduo, duro, rigoroso.
² Macbeth, Cleópatra, Julieta e Beatriz: personagens de conhecidas
obras literárias.
³ desdouro: descrédito, desonra.
⁴ mourejar: trabalhar duro.
⁵ cepo: pedaço de um tronco de árvore. O narrador refere-se aqui a uma fábula de Esopo intitulada “As râs que pediam um rei”.
A chamada "autoconsciência narrativa" consiste na intromissão do narrador na história, comentando a própria escrita, justificando suas escolhas e explicitando o seu processo criativo, a exemplo do que ocorre em:
[INSPER - 2026 - Vestibular] Para responder à questão, leia um trecho do conto "Último capítulo", do escritor Machado de Assis, publicado originalmente em 1884 no livro Histórias sem data.
"Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro¹ da empresa. Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz², mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro³ no segundo. [...] O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado.
Felizmente --- ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava⁴ em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das francesas", como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo⁵, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas coisas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino."
(Machado de Assis. Histórias sem data, 2022.)
¹ agro: que ou o que é árduo, duro, rigoroso.
² Macbeth, Cleópatra, Julieta e Beatriz: personagens de conhecidas
obras literárias.
³ desdouro: descrédito, desonra.
⁴ mourejar: trabalhar duro.
⁵ cepo: pedaço de um tronco de árvore. O narrador refere-se aqui a uma fábula de Esopo intitulada “As râs que pediam um rei”.
"Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo." (2º parágrafo)
Depreende-se desse trecho que o narrador, em relação ao seu destino, revela-se
[FUVEST - 2025] [...]
Um sino de vidro claro,
uma ampola cristalina e contrátil,
flutua calma no seu caminho.
“Peixinho, peixinho, deixe-a ir!
Peixinho, peixinho, se apresse em fugir!”
Ali atrás, longos fios transparentes se arrastam
e os olhos do peixinho a um banquete convidam.
“Serão, por acaso, minhocas o que eu vejo de repente?”
“Peixinho, peixinho, deixe-me alertar!
Peixinho, peixinho, não se deixe enganar!”
Próximo demais o peixinho chegou:
“Ai, ai, ai, agora ela me pegou!
Firme me amarrou e não consigo me soltar!
Firme me envolve e arde de matar!”
[...]
Tradução e adaptação de Flavia Souza, Stefano Hagen e Luiz Fontes.
O fragmento de poema apresentado foi escrito pelo naturalista Fritz Müller para suas filhas. O trecho do poema permite afirmar que a predação é realizada por um/uma
[FUVEST - 2025] Texto 1
“Na confusão verde do fundo da machamba, Maria não viu o capataz imediatamente. Esbracejou com aflição, tentando libertar as pernas. O braço rodeou-lhe os ombros duramente.
O bafo quente e ácido do homem aproximou-se da sua face.
A capulana da Maria desprendeu-se durante a breve luta e a sensação fria de água tornou-se-lhe mais vívida. Um arrepio fê-la contrair-se.
Sentiu nas coxas nuas a carícia morna e áspera dos dedos calosos do homem.”
Luis Bernardo Honwana. Dina, In: Nós Matamos o Cão Tinhoso!.
Texto 2
“– Mas choraste. A bofetada que te dei foi só uma disciplina para aprenderes a não fazer ciúmes. Gosto muito de ti, Sarnau. És a minha primeira mulher. É tua a honra deste território. Tu és a mãe de todas as mães da nossa terra. Tu és o meu mundo, minha flor, rebuçado [bala] do meu coração.
Deixei cair duas gotas de fel bem amargas e salgadinhas. Meu marido acariciava-me à moda dos búfalos; dizia-me coisas no ouvido e o seu hálito fedia a álcool, enjoava-me, arrepiavame, maltratando o meu corpinho frágil. Explodi furiosa e chorei de amargura.
– Sarnau, pareces ser uma machamba difícil. Já faz tempo que semeio em ti e não vejo resultado. Com a outra foi tão diferente. Bastou uma sementeira e germinou logo.
– Casámo-nos há pouco tempo, Nguila, muito pouco tempo.
– Não tenho lá muita paciência. Não estou para lavrar sem colher.”
Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento, p. 61-62.
Nos excertos, os escritores moçambicanos descrevem, cada um em seu contexto, cenas de violência. Sobre elas, é correto afirmar:
[FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] Observe a seguinte frase do escritor italiano Cesare Pavese: "É bom escrever porque reúne as duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão." Assinale a opção que mostra uma afirmação adequada a esse pensamento.
[FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] Leia o seguinte trecho do escritor inglês Aldous Huxley: "O homem que pretende ser sempre coerente no seu pensamento e nas suas decisões morais ou é uma múmia ambulante ou, se não conseguir sufocar toda a sua vitalidade, um monomaníaco fanático." Sobre o significado ou a estruturação do texto, é correto afirmar que
[FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] Com as informações do texto, conclui-se corretamente que Stephen Hawking
[FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] As informações do editorial permitem inferir corretamente que
[FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] Da perspectiva apresentada pelo cronista, conclui-se corretamente que
[UFRGS - 2025] Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações a seguir. ( ) A expressão apanhava no ar as coisas que outros diziam (l. 18-19) expressa a ideia de que o personagem Rodrigo apreendia algo de maneira rápida nas conversas. ( ) A expressão “cultura de oitiva” (I. 24-25) carrega a ideia de que o correto é ouvir pelo menos oito vezes sobre um tema para tirar conclusões. ( ) A expressão um tênue verniz de ilustração (l. 29) evoca a ideia de que escritores, artistas e políticos brasileiros procuravam aparentar um saber cultural. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
[UFRGS - 2025] Para responder a questão, leia os excertos abaixo, retirados, respectivamente, da canção “Identidade”, de Jorge Aragão, e da obra O avesso da pele , de Jeferson Tenório, considerando, também, a leitura integral desse livro.
Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai
Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história
Se preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade
Vocês estavam juntos desafiando a sociedade hipócrita. Quando você entrava sozinho numa loja e recebia um tratamento frio e desconfiado por ser negro, se dava conta de que, quando Juliana estrava e te beijava, os vendedores te tratavam melhor. Uma mulher branca com um negro, ele deve ser um bom homem. E por algum tempo você começou a gostar disso também. A presença de Juliana te dava uma espécie de salvo-conduto em certos ambientes. Porque, quando você estava com ela, você não era qualquer negro diante dos outros. Você era especial.
A partir da leitura dos excertos, considere as seguintes afirmações.
I - Na canção, o preconceito racial é percebido na proibição do uso do elevador social por pessoas negras, que devem usar o de serviço, e a dignidade preta é alcançada ao se aproximar dos valores dos brancos, uma visão crítica que distancia pessoas negras de sua identidade.
II - No fragmento da obra, o estigma sofrido pela população preta, representada pelo pai do narrador, é suavizado quando ele é reconhecido por estar acompanhado de uma pessoa branca, fato que, em determinadas situações, conferia-lhe segurança e algum tipo de privilégio.
III- No fragmento da obra, Pedro, em um fluxo de consciência, revela ao leitor como se sentiu constrangido em uma situação específica de racismo, e o texto grafado em itálico representa a fala dos vendedores da loja.
Quais estão corretas?
[UFRGS - 2025] Para responder a questão, leia o excerto abaixo, retirado do capítulo 40, de Niketche, de Paulina Chiziane.
— Diz-me, Tony para quê enganar mulheres e deixá-las com filhos nos braços? O querias tu com elas?
— Nada de sério, confesso. Orgulho, simples orgulho. Ter uma mulher aqui, um filho acolá, dá vaidade a qualquer macho. Não sou o único. Muitos homens fazem isso.
Ele mergulha as mãos no meu peito e me destrói o coração como quem arranca uma planta do chão. Sinto uma dor imensa, ele mata-me, eu morro, quantas vezes me matam por dia, neste lar, eu, que sou a primeira esposa?
— Não me culpes, Rami. Não fui eu quem inventou o mundo e as suas tradições. Muito antes de eu nascer os homens já eram assim.
Como ele tem razão, meu Deus! Esta situação nasce do ventre do passado e desde sempre que as mulheres são peixe na banca do mercado: um quilo deste, dois quilos daquele, fico com este, largo aquele, gosto deste, agora pego, agora pago, agora uso, agora asso, agora como.
— A ideia de juntar essas mulheres foi tua, Rami. Surpreendeste-me. Superaste-me. Conduziste todo esse rebanho com uma mestria incrível. Eu só iria usar e largar sem pensar sequer nas consequências. De vendedeiras de rua conseguiste transformá-las em empresárias.
— Meu Tony cansaste-te de mim e amaste a elas. Cansaste-te delas e agora voltas para mim. Daqui a pouco te cansas de mim outra vez. Não acredito em ti.
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre esse excerto, considerando, também, a leitura integral da obra Niketche.
( ) Tony, depois do doloroso aprendizado, mostra-se arrependido e assume a responsabilidade por tudo que ocorreu.
( ) Rami, quando diz que as mulheres são peixes, percebe que elas são como mercadorias a serem compradas, eventualmente largadas e usadas ao bel-prazer do cliente.
( ) Rami, de fato, organizou um sistema poligâmico com ela e as demais amantes.
( ) Rami não acredita nas declarações de Tony, movidas pela perda de poder sobre as mulheres.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
[UFRGS - 2025] Leia o trecho abaixo, de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez.
Mal tinham começado quando Amaranta percebeu que Remédios, a Bela, estava quase transparente, com uma palidez intensa. — Você está se sentindo mal? — perguntou.
Remédios, a Bela, que tinha agarrado o lençol pela outra ponta, fez um sorriso de lástima.
— Ao contrário — disse —, nunca me senti melhor.
Acabou de falar e Fernanda sentiu um delicado vento de luz que arrancou os lençóis de suas mãos e os estendeu em toda sua amplitude. Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas de suas anáguas e tratou de se agarrar no lençol para não cair, no mesmo instante em que Remédios, a Bela, começava a se elevar. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve serenidade para identificar a natureza daquele vento irreparável, e deixou os lençóis à mercê da luz, vendo Remédios, a Bela, que dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante bater de asas dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos besouros e das dálias, e passavam com ela através do ar onde as quatro da tarde terminavam, e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde não podiam alcançá-la nem os mais altos pássaros da memória.
Os forasteiros, claro, acharam que Remédios, a Bela, havia enfim sucumbido ao seu irrevogável destino de abelha rainha e que sua família tratava de salvar a honra com o engodo da levitação. Fernanda, mordida pela inveja, acabou aceitando o prodígio, e durante muito tempo continuou rogando a Deus que lhe devolvesse os lençóis. A maioria acreditou no milagre, e até acendeu velas e rezou novenas.
Assinale a alternativa correta sobre o fragmento acima, considerando, também, a leitura integral de Cem anos de solidão.
[UFRGS - 2025] Para responder, leia os excertos abaixo, retirados da seção “3 poemas com o auxílio do google”, do livro Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas.
a mulher vai
a mulher vai ao cinema
a mulher vai aprontar
a mulher vai ovular a
mulher vai sentir prazer
a mulher vai implorar por mais
a mulher vai ficar louca por você
a mulher vai dormir
a mulher pensa
a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher quer
a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre esses excertos, considerando, também, a leitura integral da obra Um útero é do tamanho de um punho.
( ) Os três poemas são construídos com frases prontas, a partir de uma mesma base: a mulher vai; a mulher pensa; a mulher quer.
( ) A estrutura repetitiva, com sentenças contraditórias, mostra o quanto a mulher contemporânea é confusa e não sabe agir, nem definir o que quer.
( ) A colagem de frases feitas, divulgadas pelo Google, instrui como a mulher deve agir, pensar e desejar.
( ) A originalidade do conjunto encontra-se na montagem das frases coletadas no Google.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
[UFRGS - 2025] Leia o poema, a seguir, de Sophia de Mello Andresen.
Com fúria e raiva
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Junho de 1974
Assinale a alternativa que se refere adequadamente ao poema "Com fúria e raiva", considerando, também, a leitura integral da obra Coral e outros poemas.
[UFRGS - 2025] Considere o texto abaixo.
Dizem que, se você olhar para o mar por muito tempo, cenas do passado renascerão. Dizem que “o mar é história”. E “o mar não tem nada para mostrar além de uma bem escavada sepultura”. Encarando o Atlântico, pensei na garota. Havia inúmeras outras enterradas no fundo do oceano, mas ela era aquela em que eu pusera meus olhos. Se me concentrasse o bastante, poderia ver tudo acontecendo novamente. (...) O capitão, o médico e os abolicionistas, todos discordavam sobre o que ocorrera no convés do Recovery, ainda que todos insistissem em dizer que estavam tentando salvar a vida da garota. A esse respeito, eu sou tão responsável quanto todos os outros. Eu também estou tentando salvar a vida da garota, não da morte, da doença ou de um tirano, mas do esquecimento. Entretanto, não tenho certeza se é possível salvar uma existência a partir de um punhado de palavras: o suposto assassinato de uma garota negra. Sua vida era impossível de ser reconstruída, nem mesmo seu nome sobreviveu. (...) Umas poucas linhas de uma transcrição judicial mofada formam a história inteira da vida de uma garota.
HARTMAN, S. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
O enfoque principal do trecho do livro "Perder a mãe...", da pesquisadora Saidiya Hartman, aborda um problema enfrentado para a investigação e a pesquisa da história da escravidão e da diáspora Africana, que diz respeito
[UFRGS - 2025] Leia com atenção o poema abaixo, de Manuel Bandeira.
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Assinale a alternativa correta em relação ao poema.
[UFRGS - 2025] Para responder a questão, considere os fragmentos retirados de A terra dos mil povos , de
Kaká Werá Jecupé.
I.
Nessas andanças conheci mil povos, vivenciei suas riquezas: o pensamento, a sabedoria, os ritos, os mitos e a medicina sagrada nativa. [...]
A peregrinação na terra e o encontro espiritual me permitiam vivenciar a essência desses mil povos, a qual pretendo expor aqui, como parte da tarefa que desenvolvo atualmente, que é difundir os ensinamentos ancestrais: a tradição do Sol, a tradição da Lua e a tradição do sonho.
Ⅱ.
Ao contar sua história, um índio, um clã, uma tribo, parte do momento em que sua essência-espírito permeou a terra e relata a passagem dessa essência-espírito pelos reinos vegetal, mineral e animal. Há tribos que começam sua história desde quando o clã era formado por seres do espírito das águas, outras trazem sua memória animal como início da história, e há aquelas que iniciam sua história a partir da árvore que foram.
Assinale a alternativa correta sobre os fragmentos acima, considerando, também, a leitura integral da obra A terra dos mil povos.
[UFRGS - 2025] Leia o trecho abaixo, retirado da crônica "de volta ao campus", de José Falero. Considere-o no contexto do livro Mas em que mundo tu vive?.
Quando o galpão finalmente ficou pronto, eu dei graças a Deus. Creia-me, leitor: não existe ambiente mais hostil para um pé-rapado do que um ambiente acadêmico. É impossível ficar à vontade. Nada ao redor traz sensação de conforto, nada ao redor lembra minimamente as vielas e os barracos que estamos acostumados a ver à nossa volta, ninguém ao redor nos desperta a mínima sensação de identificação ou nos inspira empatia, é todo mundo pálido demais, é todo mundo civilizado demais, é todo mundo bem-vestido demais, é todo mundo sem ginga, é todo mundo sem suingue, é todo mundo tão diferente de nós, e em tantos sentidos! Eu dei graças a Deus quando o galpão finalmente ficou pronto e eu soube que não precisaria mais ir comprar refrigerante no meio dos universitários. Fiz uma promessa boba para mim mesmo naquele dia: quando eu voltasse àquele ambiente, seria como estudante de letras. Jurei para mim mesmo, tendo como testemunha o matagal que circunda aqueles prédios: em nenhuma circunstância eu voltaria ali, exceto como estudante de letras. Ou bem eu voltava como estudante de letras, ou bem não voltava jamais.
Considere as afirmações abaixo, sobre o segmento.
I - O narrador indica que voltou à universidade como estudante de Letras depois de pronto o galpão.
II - O narrador dialoga diretamente com o leitor – um procedimento típico desta e de outras crônicas do livro.
III- O ponto de vista periférico caracteriza o olhar lançado pelo narrador sobre os acadêmicos que circulam no campus da universidade.
Quais estão corretas?
[UFRGS - 2025] Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre algumas canções de Lupicínio Rodrigues.
( ) “Vingança” expressa a dor e o ressentimento decorrentes do término de uma relação amorosa, em que o eu lírico sugere ter sido traído pela mulher amada e, em um tom de desabafo e de amargura, revela o desejo de vingança.
( ) “Se acaso você chegasse” apresenta uma situação de traição, cantada em primeira pessoa, em que o eu lírico se dirige à pessoa traída, exigindo que não se aproxime mais dele e da mulher causadora da discórdia entre os ex-amigos.
( ) “Nervos de aço” apresenta o eu lírico que se dirige a um “meu senhor”, revelando-lhe que tem um amor, mas que a mulher amada já pertence a outro homem e, conformado com essa situação, ele abençoa o enlace do casal.
( ) "Castigo" apresenta referência às plantas que permanecem eretas até o fim e indica a tentativa da mulher, que outrora preteriu o eu lírico, de manter a dignidade, mesmo diante do declínio inevitável.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é