Gêneros Literários e Versificação - Português | Tuco-Tuco
Aula de Português (Linguística): Gêneros Literários e Versificação. Estudo das formas clássicas (Lírico, Épico e Dramático) e a estrutura do poema (métrica e rima). Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Gêneros Literários e Versificação
Introdução: A Literatura como Sistema de Formas
A Literatura, enquanto instituição cultural, organiza-se a partir de formas que não são aleatórias, mas respondem a tradições, necessidades expressivas e contextos históricos. Os gêneros literários constituem as grandes categorias que permitem classificar e compreender as obras de acordo com seus modos de representação do mundo. Já a versificação é o conjunto de técnicas que presidem à construção do poema, regulando seu ritmo, sua sonoridade e sua arquitetura visual e auditiva. Dominar esses dois domínios — os gêneros e a versificação — é condição indispensável para a leitura crítica e para a análise aprofundada da literatura em exames de alto nível.
A Teoria Clássica dos Gêneros Literários
2.1 Fundamentos Filosóficos: A Mimese
A reflexão sobre os gêneros literários tem origem na Grécia antiga. Em A República, Platão concebe a arte como imitação (mimese) da realidade sensível, a qual, por sua vez, já é imitação imperfeita do mundo das Ideias. A poesia, para Platão, afasta o homem da verdade e desperta emoções que a razão deveria controlar. Sua visão é, portanto, de desconfiança em relação à literatura.
Aristóteles, ao contrário, reabilita a mimese na Poética. Para ele, a imitação é uma atividade natural do ser humano e constitui uma forma de conhecimento. A poesia — entendida em sentido amplo como criação literária — não reproduz o que de fato aconteceu (campo da História), mas o que poderia ter acontecido segundo as leis da verossimilhança e da necessidade. Enquanto a História trata do particular e do contingente, a poesia se ocupa do universal. Essa distinção aristotélica é fundadora: a literatura não é documento, mas representação verossímil da experiência humana.
A partir da Poética, Aristóteles identifica três grandes modos de imitação, que darão origem aos três gêneros clássicos:
Lírico: O poeta fala em seu próprio nome, expressando seu mundo interior.
Épico: O poeta narra acontecimentos externos, alternando sua voz com a das personagens.
Dramático: As personagens agem diretamente diante do público, sem a mediação de um narrador.
2.2 A Tríade Clássica e sua Persistência
Embora a literatura contemporânea tenha problematizado e subvertido as fronteiras entre os gêneros, a tríade clássica permanece um instrumento analítico produtivo. Ela não deve ser tomada como camisa de força, mas como mapa que orienta a leitura. A cada gênero correspondem atitudes enunciativas e formas de representação que organizam a relação entre o autor, o texto e o leitor.
O Gênero Lírico
3.1 Definição e Características
O gênero lírico é aquele em que a subjetividade ocupa o primeiro plano. Diferentemente da narrativa, que se volta para fatos exteriores, a lírica se concentra na expressão dos sentimentos, das emoções e dos estados de alma. O termo "lírico" deriva de lira, instrumento musical com o qual, na Antiguidade grega, os poetas acompanhavam seus cantos. A música, portanto, é a origem e a essência da lírica, e mesmo quando esta se separa do acompanhamento instrumental, conserva em sua estrutura o ritmo, a sonoridade e a musicalidade.
3.2 O Eu Lírico
O conceito de eu lírico (ou eu poético) é central. Trata-se da voz que fala no poema, e que não deve ser confundida com o autor empírico. O eu lírico é uma construção textual, uma persona que o poeta cria para dar forma a determinada experiência. Um mesmo autor pode criar múltiplos eus líricos ao longo de sua obra, cada um com sensibilidade, linguagem e visão de mundo distintas. Fernando Pessoa, com seus heterônimos, oferece o exemplo mais extremo desse fenômeno: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis são eus líricos completamente diferenciados, cada qual com sua dicção e sua filosofia.
3.3 Subgêneros Líricos
A tradição literária consolidou uma série de formas poéticas associadas ao gênero lírico, cada uma com características próprias quanto à temática, ao tom e à estrutura.
Soneto: Forma fixa de quatorze versos, geralmente decassílabos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. O soneto petrarquiano (ou italiano) consagrou-se como veículo da expressão amorosa, mas o soneto foi utilizado para os mais variados temas por poetas como Camões, Antero de Quental, Olavo Bilac, Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Na tradição inglesa, Shakespeare introduziu o soneto com três quartetos e um dístico final, estrutura diversa da italiana.
Ode: Poema de tom elevado e solene, originalmente destinado ao louvor de deuses, heróis, atletas ou valores abstratos. Na Grécia antiga, Píndaro foi o mestre da ode triunfal. Na modernidade, a ode foi reinventada por poetas como John Keats e, no Brasil, por Álvaro de Campos, cuja "Ode Triunfal" celebra a velocidade e a máquina com um ímpeto que mescla exaltação e crítica.
Elegia: Poema que expressa luto, tristeza e melancolia, frequentemente associado à perda de um ente querido. A elegia não se confunde com qualquer poema triste: ela possui um tom cerimonioso de lamento e, na tradição clássica, obedecia a uma métrica específica (o dístico elegíaco, composto por um hexâmetro seguido de um pentâmetro).
Écloga: Poema de ambientação pastoril, em que pastores dialogam em meio a uma natureza idealizada. A écloga expressa o ideal bucólico de vida simples e integrada à natureza. Teócrito, na Grécia, e Virgílio, em Roma, são os grandes modelos do gênero.
Haicai (ou Haiku): Forma poética japonesa que, na tradição clássica, compõe-se de três versos com 5, 7 e 5 sílabas poéticas (na contagem japonesa, que difere da ocidental). O haicai tradicional captura um instante da natureza, com simplicidade e profundidade, e deve conter uma palavra de estação (kigo) que situe o poema em um momento do ano. No Brasil, o haicai foi praticado com grande êxito por Paulo Leminski, Guilherme de Almeida e Millôr Fernandes, frequentemente com adaptações à sensibilidade e à língua portuguesa.
Epigrama: Poema curtíssimo, em geral de dois a quatro versos, que concentra uma ideia engenhosa, uma sátira ou um remate surpreendente. O epigrama visa o efeito agudo e a concisão mordaz.
3.4 Recursos Expressivos do Lírico
A densidade expressiva da poesia lírica se constrói por meio de figuras de linguagem, entre as quais se destacam:
Metáfora: Transporte de sentido de um termo para outro, baseado em relação de semelhança. ("Minha alma é uma caverna escura.")
Comparação (símile): Estabelece analogia explícita, com o uso de conectivos como "como", "tal qual". ("Meu coração arde como fogo.")
Antítese: Aproximação de termos de sentido oposto, expressando o conflito interior. ("Era o fogo e o gelo em meu peito.")
Paradoxo: Fusão de opostos em uma mesma ideia, criando um efeito de tensão conceitual. ("Amor é fogo que arde sem se ver", de Camões, é exemplo clássico.)
Hipérbole: Exagero expressivo, intensificador da emoção. ("Morreria de saudades se partisses.")
Prosopopeia (personificação): Atribuição de características humanas a seres inanimados ou abstratos. ("O vento sussurra segredos.")
O Gênero Épico e a Narrativa
4.1 A Epopeia Clássica
O gênero épico, em sua forma original, manifesta-se na epopeia: um longo poema narrativo que celebra os feitos heroicos de um povo. As epopeias clássicas — a Ilíada e a Odisseia, de Homero; a Eneida, de Virgílio; e, na língua portuguesa, Os Lusíadas, de Luís de Camões — obedecem a uma estrutura fixa:
Proposição: O poeta anuncia o tema e o herói cujos feitos cantará.
Invocação: O apelo às musas ou a entidades divinas para que inspirem o canto.
Dedicatória: Oferecimento da obra a um patrono, rei ou figura ilustre.
Narração: O corpo do poema, com o relato das aventuras, batalhas e viagens.
Epílogo: Encerramento, frequentemente com reflexão moral ou advertência.
Na epopeia, o herói representa os valores de sua cultura — a coragem, a honra, a fé, a astúcia — e sua trajetória é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. As divindades intervêm na ação, e o destino (fatum) paira sobre os acontecimentos.
4.2 A Evolução para as Narrativas em Prosa
Com o declínio da epopeia como forma viva, as funções narrativas foram progressivamente absorvidas pela prosa. O romance, o conto e a novela são os gêneros narrativos modernos, que conservam a estrutura de enredo, personagens, tempo e espaço, mas se afastam do aparato mitológico e da forma versificada.
4.3 Elementos da Narrativa em Prosa
Enredo: A trama, que se organiza em exposição, conflito, clímax e desfecho. A forma de organização dos eventos pode ser linear ou não linear (com flashbacks, flashforwards, fragmentação).
Personagens: Podem ser planas (estáticas, previsíveis, caricaturais) ou redondas (dinâmicas, complexas, psicológicas). O protagonista é a personagem central; o antagonista é quem a ele se opõe.
Narrador: A voz que conta a história. Pode ser de primeira pessoa (narrador-personagem) ou de terceira pessoa (narrador-observador ou narrador-onisciente).
Tempo: Cronológico (linear, medido pelo relógio) ou psicológico (subjetivo, regido pela memória e pela percepção).
Espaço: O ambiente físico (geográfico) e social em que se passa a ação.
O Gênero Dramático
5.1 Definição e Características
O gênero dramático é aquele em que a ação se apresenta diretamente, por meio da fala e do movimento das personagens, sem a mediação de um narrador. A palavra "drama" vem do grego e significa "ação". O texto dramático é escrito para ser representado, e não apenas lido. Ele se compõe de dois elementos fundamentais:
Diálogos: As falas das personagens, que constituem a substância da ação.
Rubricas (didascálias): Instruções do dramaturgo para a encenação, geralmente em itálico e entre parênteses, indicando gestos, movimentos, entonações, cenário e iluminação.
5.2 Formas Dramáticas
Tragédia: Na formulação aristotélica, a tragédia é a imitação de uma ação de caráter elevado, protagonizada por homens superiores que, por um erro (hamartia) ou pela força do destino, caminham para a catástrofe. A tragédia visa despertar no espectador a piedade e o terror, conduzindo à catarse — a purificação das emoções. Sófocles (Édipo Rei), Eurípides (Medeia) e Shakespeare (Hamlet, Macbeth) são os grandes mestres trágicos.
Comédia: Representa homens comuns ou inferiores, com foco nos vícios, nos ridículos e nas contradições da sociedade. A comédia busca o riso e a correção dos costumes (castigat ridendo mores). Aristófanes, na Grécia, e Molière, na França, são os paradigmas do gênero. No Brasil, destaca-se Martins Pena com suas comédias de costumes.
Tragicomédia: Forma mista, que combina elementos trágicos e cômicos, recusando a pureza dos gêneros. Muito cultivada no Barroco e na modernidade.
Farsa: Peça curta, de caráter puramente cômico, com situações absurdas, personagens caricaturais e ritmo acelerado. A farsa visa o entretenimento imediato e o riso franco.
Auto: Peça de temática religiosa ou moralizante, originária da Idade Média. No teatro português, Gil Vicente é o mestre do auto, com obras como o Auto da Barca do Inferno, alegoria do julgamento das almas.
5.3 Elementos Estruturais da Peça
Ato: Grande divisão da peça, correspondendo, no teatro clássico, a uma mudança de cenário ou a um intervalo temporal significativo. O teatro moderno pode ter um, dois ou três atos, enquanto o teatro clássico francês obedecia à regra das três unidades: ação, tempo (24 horas) e lugar (um único cenário).
Cena: Subdivisão do ato, marcada pela entrada ou saída de personagens.
Diálogo: Trocas verbais entre as personagens que fazem a ação avançar.
Monólogo: Fala de uma personagem sozinha em cena, expressando seus pensamentos em voz alta.
Aparte: Fala dirigida diretamente ao público, que as outras personagens em cena fingem não ouvir, revelando intenções ocultas ou comentários irônicos.
Versificação: A Anatomia do Poema
A versificação é o conjunto de regras e técnicas que regem a construção do verso. Estudar versificação é aprender a examinar o poema em sua materialidade sonora e rítmica, desmontando seus mecanismos para compreender como produzem sentido.
6.1 Verso, Estrofe e Poema
Verso: Cada linha do poema. Pode ser regular (com métrica definida) ou irregular (verso livre).
Estrofe: Agrupamento de versos. As estrofes classificam-se pelo número de versos: dístico (2), terceto (3), quarteto (4), quintilha (5), sextilha (6), sétima (7), oitava (8), nona (9), décima (10).
Poema: A totalidade do texto poético, constituído por uma ou mais estrofes.
6.2 A Escansão: Contagem das Sílabas Poéticas
A escansão é a operação de contar as sílabas poéticas de um verso. Diferentemente da separação silábica gramatical, a escansão obedece ao ritmo e à audição.
Regras fundamentais da escansão:
Elisão (sinalefa): Quando uma palavra termina em vogal e a seguinte começa por vogal, as sílabas se fundem em uma única sílaba poética. Exemplo: "Minhaamada partiu" (Mi-nhaa-ma-da par-tiu).
Hiato: Em alguns casos, o poeta pode manter as vogais separadas para efeito rítmico, mesmo que a elisão fosse possível.
Limite da contagem: A contagem das sílabas poéticas para sempre na última sílaba tônica do verso. As sílabas átonas que se seguem à última tônica não são contadas. Exemplo: no verso "Minha terra tem palmeiras", a última palavra é "palmeiras", cuja tônica é "mei". Assim, a contagem para em "mei", e as sílabas "ras" não são contadas. Resultado: Mi-nha ter-ra tem pal-mei = 7 sílabas poéticas (Redondilha Maior).
6.3 Classificação dos Versos quanto ao Número de Sílabas
Monossílabo: 1 sílaba poética.
Dissílabo: 2 sílabas.
Trissílabo: 3 sílabas.
Tetrassílabo: 4 sílabas.
Pentassílabo (Redondilha Menor): 5 sílabas.
Hexassílabo: 6 sílabas.
Heptassílabo (Redondilha Maior): 7 sílabas. É o metro da poesia popular, dos cordéis e de muitas cantigas.
Octossílabo: 8 sílabas.
Eneassílabo: 9 sílabas.
Decassílabo: 10 sílabas. É o metro nobre do Classicismo e do Parnasianismo, utilizado nos sonetos de Camões e Bilac.
Hendecassílabo: 11 sílabas.
Alexandrino: 12 sílabas. Usado em poemas de tom solene, didático ou declamatório.
A Redondilha Menor (5 sílabas) e a Redondilha Maior (7 sílabas) são os metros da tradição medieval e popular, chamados de "medida velha". O Decassílabo, introduzido em Portugal por Sá de Miranda, é a "medida nova", associada ao Classicismo.
A Rima e seus Tipos
7.1 Definição
A rima é a identidade ou semelhança sonora entre palavras, geralmente no final dos versos. A rima confere musicalidade e coesão ao poema, criando expectativas e sugerindo relações de sentido entre os termos rimados.
7.2 Classificação quanto ao Valor
Rima Pobre: Ocorre entre palavras da mesma classe gramatical. Exemplo: "coração" com "paixão" (dois substantivos), "falava" com "cantava" (dois verbos). Embora menos valorizada na tradição parnasiana, a rima pobre pode cumprir funções expressivas importantes.
Rima Rica: Ocorre entre palavras de classes gramaticais diferentes. Exemplo: "desprezo" (substantivo) com "preso" (adjetivo), "ira" (substantivo) com "expira" (verbo). A rima rica era um preceito central da estética parnasiana.
Rima Rara: Emprega terminações pouco usuais na língua, palavras de sonoridade incomum. É recurso de virtuosismo técnico.
7.3 Classificação quanto à Disposição na Estrofe
Rima Emparelhada (ou Gêmea): AABB (o primeiro verso rima com o segundo; o terceiro com o quarto).
Rima Cruzada (ou Alternada): ABAB (o primeiro rima com o terceiro; o segundo com o quarto).
Rima Interpolada (ou Oposta): ABBA (o primeiro rima com o quarto; o segundo com o terceiro).
Rima Mista: Combinação livre dos esquemas anteriores.
7.4 Versos Brancos e Versos Livres
Versos Brancos (ou soltos): São versos que possuem métrica regular (obedecem a uma contagem silábica, como os decassílabos ou alexandrinos), mas não apresentam rima entre si. Foram amplamente utilizados por poetas como Goethe, Shakespeare, e, no Brasil, por românticos e parnasianos em peças épicas ou teatrais.
Versos Livres: São versos que não obedecem a uma métrica fixa e, na maioria das vezes, também não apresentam rima regular. A estruturação do poema passa a depender do ritmo natural da fala, da respiração e das pausas lógicas. São a grande marca do Modernismo e da poesia contemporânea.
A Estrofação e as Formas Fixas
8.1 Principais Formas Fixas
Soneto: Já mencionado, é a forma fixa mais prestigiada na literatura ocidental. O soneto italiano é composto de dois quartetos e dois tercetos (14 versos), geralmente decassílabos. O último terceto costuma conter a "chave de ouro", um fecho de grande impacto expressivo. O soneto shakespeariano (inglês) estrutura-se em três quartetos e um dístico final.
Balada: Poema de origem medieval, composto por três oitavas e uma quadra final (a oferta ou envio), com refrão recorrente. A balada foi cultivada por François Villon e revitalizada por poetas modernos.
Rondó: Forma fixa de origem francesa, com refrão que se repete a intervalos regulares.
Haicai: Forma de três versos que busca capturar um instante sensível.
8.2 As Formas Livres
A partir do Modernismo, as formas fixas deixaram de ser obrigatórias. O verso livre — que não obedece a contagem silábica nem a esquema de rimas — tornou-se a prática dominante. No entanto, o verso livre não é sinônimo de ausência de forma: ele desloca o eixo da organização rítmica para outros recursos, como a respiração, a sintaxe, a repetição de palavras e as pausas.
O Hibridismo e o Gênero Ensaístico
Na modernidade e na contemporaneidade, as fronteiras entre os gêneros clássicos se tornam fluidas. Um romance pode conter passagens de intenso lirismo; um poema pode narrar uma história; uma peça teatral pode abolir a distinção entre atores e público.
Nesse contexto, o ensaio surge como um gênero particularmente relevante. Situado entre a literatura, a filosofia e a ciência, o ensaio trata de temas variados com linguagem cuidada, subjetividade assumida e estrutura flexível. Montaigne, no século XVI, é o fundador do gênero. No Brasil, Machado de Assis e Rubem Braga (com suas crônicas) e autores como Antonio Candido (com seus ensaios críticos) ilustram a vitalidade do ensaio.
Relações entre os Gêneros Literários
| Gênero | Voz Principal | Modo de Representação | Exemplo Típico |
| :--- | :--- | :--- | :--- |
| Lírico | Eu lírico | Expressão da subjetividade | Poema, soneto, ode, haicai |
| Épico/Narrativo | Narrador | Relato de acontecimentos | Epopeia, romance, conto, novela |
| Dramático | Personagens | Ação representada | Tragédia, comédia, auto, farsa |
O Estudo da Versificação como Ferramenta Analítica
A análise da métrica, da rima e da estrofação não é um exercício mecânico, mas um instrumento para compreender as escolhas do poeta e os efeitos de sentido que elas produzem. Um verso decassílabo branco, por exemplo, combina a solenidade do metro clássico com a liberdade da ausência de rima, produzindo um efeito de gravidade contida. Uma redondilha maior, com rimas emparelhadas e ritmo acelerado, evoca a espontaneidade e a musicalidade populares.
O estudante que domina esses conceitos está apto a descrever e a interpretar textos poéticos com a profundidade exigida pelos exames de maior complexidade, reconhecendo que a forma é, ela mesma, portadora de significado.
Exercícios:
É correto afirmar sobre o 'Eu lírico' que ele:
Na terminologia literária, o que caracteriza tecnicamente o gênero 'Romance'?
A estrutura composta por dois quartetos e dois tercetos é chamada de:
Rimas que seguem o esquema ABBA são classicamente classificadas como:
Segundo Aristóteles, a literatura não tem a obrigação de contar a verdade exata dos fatos como a História faz, mas sim de criar histórias verossímeis, ou seja, situações que façam sentido dentro daquele universo inventado.
Para o filósofo Platão, o mundo físico em que vivemos é perfeito. Por isso, ele acreditava que a arte alcançava a sua maior glória quando imitava a realidade, aproximando o ser humano da verdade racional.
O gênero dramático é o único modelo clássico que não utiliza um narrador para contar a história, pois a ação acontece ao vivo, diretamente na frente do espectador, por meio das falas e movimentos dos atores.
Na Grécia Antiga, a tragédia era uma peça de teatro que mostrava heróis e pessoas nobres enfrentando um destino terrível e incontrolável, com o objetivo de provocar terror, piedade e purificação emocional no público.
Para medir o tamanho de um verso em um poema (escanção), o leitor deve seguir exatamente a mesma separação de sílabas ensinada pela gramática tradicional, contando todas as sílabas escritas até a última letra.
A elegia e a écloga são tipos de poemas do gênero lírico. A elegia foca na tristeza e no luto por uma perda, enquanto a écloga tem um tom tranquilo e retrata cenários do campo, geralmente com pastores conversando.
O "Eu Lírico" é sempre o próprio autor de carne e osso contando a sua verdade. Sendo assim, é impossível que um poeta que seja feliz e rico escreva um poema relatando pobreza e tristeza profunda.
Na estrutura tradicional de um poema épico (como as epopeias), o momento chamado de "Invocação" acontece no final do livro, quando o herói agradece a Deus por ter vencido a guerra.
A métrica que possui exatamente sete sílabas poéticas é chamada de redondilha maior. Ela tem um ritmo muito musical e é o formato padrão da literatura de cordel no Brasil.
Os textos classificados no gênero ensaístico, que discutem política ou filosofia, são apenas informativos e técnicos, sendo totalmente proibido o uso de linguagem poética ou literária neles.
De que maneira a concepção de 'mimese' em Aristóteles fundamenta a existência dos gêneros literários?
Qual é a distinção técnica fundamental entre o autor de um texto e o 'eu-lírico'?
Historicamente, por que o gênero lírico recebeu essa denominação específica?
No contexto da versificação clássica, como se define a estrutura de um soneto?
O gênero épico evoluiu para o que hoje chamamos de gênero narrativo. Qual a principal mudança formal nessa transição?
O gênero dramático prescinde de um elemento que é vital no gênero narrativo. Que elemento é esse?
Como se define a 'métrica' de um verso na poesia?
A 'Redondilha Maior' é um dos metros mais populares da língua portuguesa. Quantas sílabas poéticas ela possui?
O que caracteriza o gênero 'Ensaístico', uma categoria que ganha relevância na modernidade?
Um texto que apresenta diálogos diretos, indicações de cenário e ausência de narrador pertence ao gênero:
Na escansão poética, a determinação da última sílaba métrica do verso varia de acordo com:
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão, leia o excerto abaixo, retirado de A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida.
As plantas viam o jardineiro como as plantas veem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora. Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.
[...]
Nenhuma flor lamentava a morte dos escravos que Celestino sufocara em mar alto. Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas. O rapaz que lhes abrira o porão pela calada manteve-se a um canto, aturdido.
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre esse excerto, considerando, também, a leitura integral da obra A visão das plantas.
( ) O capitão, ao contrário da indiferença das flores, se arrepende do assassinato dos escravizados.
( ) O capitão busca consolo para seus crimes nas conversas com o padre Alfredo.
( ) O capitão passa a ver uma “velha negra”, uma das vítimas.
( ) O capitão conta para as crianças apenas as belezas de suas viagens marítimas.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
[UFRGS - 2026 - Vestibular] Para responder a questão, leia a letra da canção Vingança, de Lupicínio Rodrigues.
Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar
E que quando
Os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar
Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo
De fazer esforços
Para ninguém notar.
O remorso talvez seja a causa do seu desespero
Ela deve estar bem consciente do que praticou
Me fazer passar tanta vergonha com um companheiro
E a vergonha é a herança maior
Que o meu pai me deixou.
Mas enquanto houver voz em meu peito
Eu não quero mais nada
Que pra todos os santos,
Vingança, vingança clamar
Ela há de rolar
Qual as pedras que rolam nas estradas
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar.
A partir da leitura da letra da canção, assinale a alternativa correta.
[UNESP - 2025] Leia o soneto da poeta portuguesa Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, também conhecida como Marquesa de Alorna, para responder:
Arguindo-me várias pessoas de fazer sempre versos tristes
Como posso explicar em brando verso
Doce prazer, se o peito nunca o sente?
Musas, vós não ditais ao descontente
Senão queixas do seu fado adverso!
Linda cena, espetáculo diverso
Embora alegre o mundo me apresente,
Que em luto, isto que choro amargamente,
Me sepulta o vastíssimo Universo.
Jamais um dia alegre me afigura
A incerta e voadora fantasia,
Que a mágoa o não transborde em sombra escura.
Que quereis que vos diga da alegria,
Se vítima da negra desventura
Sirvo sempre a cruel melancolia?!
(Marquesa de Alorna. Sonetos, 2007.)
O referente do pronome oblíquo que consta da primeira estrofe é