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Funções da Linguagem: A Intencionalidade no Discurso - Português | Tuco-Tuco

Aula de Português (Linguística): Funções da Linguagem: A Intencionalidade no Discurso. O modelo de Roman Jakobson: como os elementos da comunicação determinam a função do texto. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.

Funções da Linguagem: A Intencionalidade no Discurso A Comunicação como Estrutura e os Elementos de Jakobson O estudo das funções da linguagem está indissoluvelmente ligado ao modelo comunicativo proposto pelo linguista russo Roman Jakobson, uma das figuras centrais do Formalismo Russo e do Círculo Linguístico de Praga. Jakobson, em seu ensaio "Linguística e Poética" (1960), sistematizou um modelo que descreve os fatores constitutivos de qualquer ato de comunicação verbal. Esse modelo, embora formulado no âmbito da linguística estrutural, tornou-se uma ferramenta essencial para a análise de textos literários, publicitários, jornalísticos e cotidianos. Compreender as funções da linguagem exige, em primeiro lugar, dominar os seis elementos que compõem o circuito comunicativo. Cada um desses elementos corresponde a uma função específica da linguagem, e a predominância de uma função sobre as outras determina a natureza do texto e a intenção comunicativa do emissor. 1.1 O Emissor (Remetente ou Destinador) O emissor é a instância que produz e envia a mensagem. Em uma conversa face a face, o emissor é o falante; em um romance, é o narrador; em um poema, é o eu lírico; em um anúncio publicitário, é a marca ou a agência que o concebeu. É crucial distinguir o emissor discursivo do autor empírico: o "eu" que fala em uma crônica de Machado de Assis não é exatamente Joaquim Maria Machado de Assis, mas uma persona literária por ele construída. Essa distinção é especialmente relevante na análise de textos literários e na interpretação de funções como a emotiva. 1.2 O Receptor (Destinatário) O receptor é a instância a quem a mensagem se dirige. Também aqui é necessário distinguir entre o receptor ideal (aquele previsto pelo texto) e o receptor empírico (qualquer pessoa que efetivamente leia ou ouça a mensagem). Um edital de concurso público, por exemplo, tem como receptor ideal o candidato que busca informações sobre regras e procedimentos; um poema enigmático pode ter como receptor ideal um leitor capaz de decifrar suas alusões. A caracterização do receptor é fundamental para a compreensão da função conativa e para a análise de estratégias de persuasão. 1.3 A Mensagem A mensagem é o conteúdo transmitido, o conjunto de signos organizados que veiculam a informação. A mensagem não se reduz ao seu conteúdo referencial: ela inclui sua organização formal, suas escolhas lexicais e sintáticas, seus ritmos e sonoridades. É precisamente o foco na mensagem enquanto construção estética que define a função poética, uma das mais importantes na análise literária. 1.4 O Código O código é o sistema de signos e regras compartilhado por emissor e receptor que torna possível a comunicação. A língua portuguesa é um código; a linguagem de sinais (Libras) é outro; o sistema de notação musical é outro ainda. Para que a comunicação se efetue, é necessário que emissor e receptor dominem o mesmo código, ainda que em graus variáveis. Quando a mensagem se volta para o próprio código, esclarecendo-o ou definindo-o, temos a função metalinguística. 1.5 O Canal (Contato) O canal é o meio físico ou psicológico que estabelece e mantém a conexão entre emissor e receptor. Na comunicação oral, o canal é o ar que conduz as ondas sonoras; na comunicação escrita, é o papel ou a tela do computador; na comunicação telefônica, são os impulsos elétricos ou as ondas de rádio. A função fática está centrada precisamente no canal, visando estabelecer, prolongar, verificar ou interromper a comunicação. 1.6 O Referente (Contexto) O referente é o assunto da mensagem, aquilo sobre o que se fala. Pode ser um objeto concreto, uma ideia abstrata, um evento histórico, uma emoção. É importante notar que o referente não é o "real" em si, mas uma representação discursiva do real. A função referencial, centrada no referente, busca transmitir informações objetivas sobre o mundo, sendo predominante em textos jornalísticos e científicos. As Seis Funções da Linguagem A cada um dos seis elementos do circuito comunicativo corresponde uma função da linguagem. É importante ressaltar que, em qualquer texto, várias funções coexistem e se sobrepõem. A classificação de um texto como predominantemente referencial, emotivo ou poético baseia-se na função que se destaca, e não na exclusão das demais. Um poema pode ser predominantemente poético, mas conter também elementos emotivos e referenciais; um anúncio publicitário pode ser conativo, mas explorar recursos poéticos para aumentar seu poder de persuasão. 2.1 Função Referencial (Denotativa) A função referencial é centrada no referente, isto é, no assunto ou contexto da mensagem. Seu objetivo primordial é transmitir informações de forma objetiva, clara e precisa, sem interferência da subjetividade do emissor. Características da Função Referencial Objetividade e impessoalidade: O emissor busca apagar as marcas de sua presença no texto, utilizando a terceira pessoa do singular e evitando expressões que denotem opinião ou emoção. Em vez de "Eu acho que a economia vai crescer", um texto referencial dirá "Segundo os indicadores econômicos, há perspectiva de crescimento". Linguagem denotativa: As palavras são empregadas em seu sentido literal, evitando-se metáforas, ironias e outras figuras de linguagem que possam gerar ambiguidade. O significado é exatamente aquele que consta nos dicionários. Clareza e concisão: A informação é organizada de modo lógico e direto, com períodos bem estruturados e vocabulário preciso. Uso da terceira pessoa: O texto é geralmente redigido na terceira pessoa do singular ou do plural, o que contribui para o efeito de impessoalidade. Gêneros e Contextos em que Predomina a Função Referencial Textos jornalísticos informativos: A notícia, a reportagem factual e o editorial informativo — quando se limitam a expor fatos sem emitir juízos de valor — são exemplos clássicos de função referencial. Textos científicos e acadêmicos: Artigos, teses, dissertações e relatórios de pesquisa buscam descrever fenômenos e apresentar resultados de forma objetiva, centrando-se no referente. Manuais e documentos técnicos: Bulas de remédio, manuais de instruções e pareceres técnicos priorizam a informação precisa sobre o objeto de que tratam. Verbetes de enciclopédias e dicionários: Embora também possam apresentar função metalinguística, os verbetes enciclopédicos são primordialmente referenciais ao descreverem conceitos, objetos e eventos. Exemplo de Função Referencial Considere o seguinte trecho de uma notícia: "O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,48% em outubro, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)." O foco está no dado objetivo (a variação do IPCA) e na fonte da informação (o IBGE). O emissor está ausente como subjetividade; o que importa é o referente. 2.2 Função Emotiva (Expressiva) A função emotiva é centrada no emissor. Nela, a mensagem é impregnada pela subjetividade de quem fala, expressando seus sentimentos, opiniões, emoções, estados de espírito e atitudes pessoais diante do que é dito. Características da Função Emotiva Subjetividade e pessoalidade: O texto é marcado pela presença explícita do emissor, que se inscreve na mensagem por meio de pronomes e verbos na primeira pessoa do singular ("eu", "meu", "penso", "sinto"). Interjeições e exclamações: Palavras como "ah!", "oh!", "ufa!", "nossa!", "que pena!" são marcas típicas da função emotiva, pois funcionam como extravasamentos diretos das emoções do emissor. Uso de adjetivos valorativos: Expressões como "maravilhoso", "terrível", "injusto", "belo", "repugnante" revelam a avaliação subjetiva do emissor sobre o referente. Presença de reticências e pontos de exclamação: Esses sinais de pontuação indicam hesitação, emoção contida ou ênfase emocional. Textos em primeira pessoa: Diários íntimos, depoimentos pessoais, cartas de amor, poemas confessionais e letras de música com forte carga autobiográfica são exemplos de textos em que a função emotiva predomina. Exemplo de Função Emotiva "Ah, como eu gostaria de voltar àqueles dias! Sinto uma saudade imensa daquelas manhãs ensolaradas, do cheiro de terra molhada, da simplicidade que parecia eterna..." Neste trecho, o que importa não é a descrição objetiva dos dias passados, mas a forma como o emissor os sente e os expressa. A interjeição "Ah", o verbo na primeira pessoa ("gostaria", "sinto"), a adjetivação valorativa ("imensa", "ensolaradas") e as reticências são marcas claras da função emotiva. A Função Emotiva na Literatura Na poesia lírica, a função emotiva é frequentemente dominante. O eu lírico expressa seus sentimentos mais profundos, suas angústias e alegrias. No entanto, é fundamental distinguir o emissor poético (o eu lírico) do autor empírico: a tristeza de um eu lírico não é necessariamente a tristeza do poeta que o criou. 2.3 Função Conativa (Apelativa) A função conativa é centrada no receptor. Seu objetivo é influenciar o comportamento, as atitudes ou as opiniões daquele a quem a mensagem se dirige. É a função da persuasão, do comando, do convite, da súplica e da propaganda. Características da Função Conativa Presença de vocativos: O emissor chama o receptor pelo nome, por um título ou por uma expressão que o identifique diretamente. Exemplos: "Amigo", "Caro cliente", "Você, que nos assiste", "Eleitor". Uso do modo imperativo: Os verbos no imperativo ("compre", "faça", "venha", "acredite", "vote") são a marca mais explícita da função conativa, pois constituem ordens ou pedidos diretos ao receptor. Pronomes de segunda pessoa: O uso de "tu", "você", "vós", "vocês" e dos respectivos pronomes oblíquos e possessivos ("te", "seu", "lhe", "vosso") direciona a mensagem ao interlocutor. Perguntas retóricas: Muitas vezes, o emissor formula perguntas que não buscam informação, mas sim engajar o receptor e levá-lo a refletir ou a concordar com um ponto de vista ("Você já pensou no futuro dos seus filhos?"). Organização argumentativa: Mesmo quando o texto não usa o imperativo explícito, a presença de argumentos que visam convencer o leitor a adotar uma posição ou tomar uma atitude é característica da função conativa. Gêneros e Contextos em que Predomina a Função Conativa Publicidade e propaganda: Anúncios impressos, comerciais de televisão, slogans, banners digitais e campanhas de marketing são os exemplos mais evidentes. Discursos políticos: O comício, o debate eleitoral e o panfleto de campanha buscam convencer o eleitor a adotar uma candidatura ou uma ideia. Sermões e pregações religiosas: O sermão visa persuadir os fiéis a seguirem determinados preceitos morais ou espirituais. Textos instrucionais e prescritivos: Embora também contenham função referencial, receitas de bolo, manuais de montagem e códigos de conduta são predominantemente conativos, pois visam orientar a ação do receptor. Exemplo de Função Conativa "Você merece o melhor. Não perca essa oportunidade única! Adquira já o seu e descubra um novo jeito de viver." Neste exemplo, a presença do pronome "você", dos verbos no imperativo ("perca", "adquira", "descubra") e dos vocativos implícitos ("você") configuram a predominância da função conativa. A mensagem busca persuadir o receptor a consumir um produto ou serviço. 2.4 Função Fática A função fática é centrada no canal de comunicação. Seu propósito é estabelecer, manter, verificar ou interromper o contato entre emissor e receptor. É a função que "testa" o canal e que sinaliza a disponibilidade para a comunicação, sem necessariamente veicular um conteúdo informativo relevante. Características da Função Fática Expressões de saudação e despedida: "Bom dia", "Olá", "Como vai?", "Até logo", "Tchau" são exemplos de enunciados fáticos cuja principal função é abrir ou encerrar o canal de comunicação. Verificações de escuta: "Alô?", "Está me ouvindo?", "Entendeu?", "Não é?", "Certo?", "Ok?" são expressões que o emissor utiliza para assegurar-se de que o canal está operante e que o receptor está atento. Fórmulas de manutenção do contato: Durante uma conversa telefônica, o ouvinte frequentemente emite sinais como "Uhum", "Ahã", "Sei", "É mesmo?" para indicar que continua na linha e que está acompanhando o que o emissor diz. Esses sinais não constituem respostas substanciais, mas sim confirmações fáticas. Conversas sobre o tempo e amenidades: Em muitas culturas, falar sobre o clima ("Que calor, não?", "Será que vai chover?") ou sobre amenidades ("Como está a família?") tem função primordialmente fática: estabelece um vínculo social e mantém o canal de comunicação aberto para eventuais conteúdos mais relevantes. A Função Fática na Comunicação Cotidiana e na Literatura Na comunicação cotidiana, a função fática é onipresente. As conversas triviais que ocorrem no elevador, na fila do banco ou no ponto de ônibus são predominantemente fáticas: importa menos o que se diz e mais o fato de se estar dizendo algo com alguém. Na literatura, a função fática pode ser mobilizada de forma sofisticada. Em romances, o narrador que dialoga com o leitor ("Caro leitor", "Como você já deve ter percebido", "Não me leve a mal") está utilizando recursos fáticos para estreitar a conexão com o receptor. Na poesia, vocativos como "Ó vós que ides passando" ou "Escuta, amigo" também cumprem função fática ao instaurar o canal comunicativo com o leitor. 2.5 Função Metalinguística A função metalinguística é centrada no código. Ocorre quando a linguagem se volta sobre si mesma, isto é, quando o código é utilizado para falar, explicar, definir ou analisar o próprio código. A metalinguagem é o discurso que tem como objeto outro discurso, ou a língua que se debruça sobre a língua. Características da Função Metalinguística Definições e explicações lexicais: Quando um dicionário define uma palavra, ele está exercendo a função metalinguística por excelência. O verbete "Amor: substantivo masculino; sentimento afetivo que une duas pessoas" utiliza a língua portuguesa para explicar um termo da própria língua portuguesa. Gramáticas e manuais de linguagem: Qualquer texto que descreva ou prescreva regras gramaticais está empregando a função metalinguística. O enunciado "O verbo 'haver' no sentido de existir é impessoal e deve ser conjugado na terceira pessoa do singular" é metalinguístico. Análises literárias e críticas de arte: Quando um crítico literário escreve um ensaio sobre um romance, ele está utilizando a linguagem verbal para analisar outra manifestação da linguagem verbal. O mesmo ocorre com a crítica de cinema (que usa palavras para analisar um filme) ou com a crítica musical. Obras que tratam do próprio processo de criação: Poemas que falam sobre o fazer poético ("Fazer um poema é como...", "Este poema não é sobre o amor, é sobre as palavras"), romances que discutem a escrita do próprio romance e filmes que mostram os bastidores da filmagem são exemplos de metalinguagem. Exemplos de Função Metalinguística "A palavra 'saudade' só existe em português e não tem tradução exata em outros idiomas." (A frase usa a língua para falar sobre uma palavra da língua.) "Neste poema, o eu lírico expressa sua angústia por meio de imagens sombrias e de uma métrica irregular." (O texto analisa outro texto.) "O que significa 'democracia'? Democracia é o regime de governo em que o poder emana do povo." (A pergunta e a resposta definem um termo do código.) A Função Metalinguística na Literatura e nas Artes A metalinguagem é um dos traços mais marcantes da arte moderna e contemporânea. Na literatura, autores como Machado de Assis (que constantemente interrompe a narrativa para comentar o próprio ato de narrar), Oswald de Andrade (cujos poemas frequentemente refletem sobre a linguagem) e Clarice Lispector (que usa a escrita para investigar a insuficiência da linguagem) são exemplos de uso magistral da função metalinguística. Na pintura, obras que representam o próprio ato de pintar ou que expõem os materiais do artista (como as colagens cubistas) também são manifestações metalinguísticas. 2.6 Função Poética A função poética é centrada na mensagem em si mesma, considerada em sua materialidade. É a função que põe em relevo a forma da mensagem, sua construção estética, suas sonoridades, seus ritmos, suas escolhas lexicais e suas figuras de linguagem. Diferentemente do que o nome pode sugerir, a função poética não se restringe à poesia: ela está presente sempre que a elaboração formal da mensagem adquire protagonismo. Características da Função Poética Valorização da sonoridade e do ritmo: A repetição de sons (aliterações, assonâncias, rimas), a métrica e o ritmo são elementos centrais da função poética. O aspecto sonoro da mensagem é tão importante quanto seu conteúdo referencial. Uso de figuras de linguagem: Metáforas, metonímias, antíteses, paradoxos, hipérboles e outras figuras são recursos que desautomatizam a percepção da língua, chamando a atenção para a forma do enunciado. Jogos de palavras e ambiguidades: Trocadilhos, duplos sentidos e polissemias são comuns na função poética, pois exploram a plasticidade do código. Desvio da norma e estranhamento: A função poética frequentemente subverte as regras da sintaxe e da semântica convencionais para criar efeitos surpreendentes. O conceito de "estranhamento" (do formalista russo Viktor Chklóvski) é essencial: a arte poética desfamiliariza o mundo, fazendo-nos vê-lo com novos olhos. Presença em gêneros não literários: Slogans publicitários ("A gente faz", "Vem pra Caixa você também"), provérbios ("Quem com ferro fere, com ferro será ferido"), trava-línguas e até mesmo títulos de reportagens podem exibir forte função poética ao explorarem rimas, aliterações e paralelismos. A Função Poética na Linguagem Cotidiana A função poética não é monopólio da literatura. Quando um falante diz "Quem ama o feio, bonito lhe parece", ele está utilizando rima e paralelismo sintático para criar um enunciado memorável e expressivo. Quando um publicitário cria um slogan como "Redondo é ralar de rir" (para uma marca de biscoitos), ele está explorando a aliteração e a rima para fixar a mensagem na memória do receptor. A diferença entre a função poética na literatura e na publicidade é de grau e de intenção, não de natureza. A Função Poética e o Formalismo Russo O conceito de função poética está enraizado nos trabalhos dos formalistas russos do início do século XX. Para Roman Jakobson, a função poética projeta "o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação". Em termos mais acessíveis, isso significa que, na função poética, o emissor seleciona palavras não apenas pelo seu significado, mas também por suas semelhanças sonoras, rítmicas ou morfológicas, e as combina de modo a criar padrões que saltam aos olhos (ou aos ouvidos). A rima, por exemplo, é uma equivalência sonora projetada sobre a cadeia sintática. Relações entre as Funções: Sobreposição e Predominância 3.1 Um Texto Nunca é Unifuncional É raro encontrar um texto que apresente uma única função da linguagem de forma pura. Na maioria dos casos, várias funções coexistem e se articulam, embora uma delas tenda a predominar. Cabe ao analista identificar a função dominante, aquela que organiza o texto em sua globalidade e que melhor caracteriza a intenção comunicativa do emissor. Um anúncio publicitário, por exemplo, é predominantemente conativo (quer persuadir o receptor a comprar algo), mas pode utilizar a função poética (um slogan rimado e sonoro), a função referencial (informações técnicas sobre o produto) e a função fática (um vocativo que chama a atenção do consumidor). A classificação do texto como conativo baseia-se na intenção predominante: convencer o receptor. Uma carta de amor pode combinar a função emotiva (expressão dos sentimentos do emissor) com a função conativa (tentativa de persuadir o destinatário a corresponder ao afeto) e a função poética (cuidado estético com a linguagem). A classificação dependerá da função que mais fortemente caracteriza o texto naquela situação específica. 3.2 A Função Poética como Fator de Complexidade A função poética é a que mais frequentemente se combina com outras funções, pois a elaboração estética da linguagem pode estar a serviço dos mais variados propósitos comunicativos. Um discurso político pode ser fortemente conativo (buscando persuadir o eleitor) e, ao mesmo tempo, poeticamente elaborado (com metáforas e paralelismos que aumentam seu impacto). Um texto científico, predominantemente referencial, pode apresentar passagens de grande beleza formal sem deixar de ser objetivo. A presença da função poética, portanto, não anula as demais funções, mas acrescenta-lhes uma camada de complexidade e de apelo estético. Síntese das Funções da Linguagem | Função | Foco Principal | Característica Central | Exemplo Típico | | :--- | :--- | :--- | :--- | | Referencial | Referente (contexto) | Objetividade, impessoalidade, linguagem denotativa | Notícia de jornal, artigo científico | | Emotiva | Emissor | Subjetividade, primeira pessoa, adjetivação valorativa | Diário íntimo, depoimento pessoal | | Conativa | Receptor | Imperativo, vocativos, persuasão | Anúncio publicitário, discurso político | | Fática | Canal | Saudação, verificação de contato, manutenção do canal | "Alô?", "Bom dia", "Entendeu?" | | Metalinguística | Código | Definição, explicação sobre a própria língua | Verbete de dicionário, gramática | | Poética | Mensagem | Elaboração formal, sonoridade, figuras de linguagem | Poema, slogan criativo, trava-línguas | As Funções da Linguagem na Análise Textual O domínio das funções da linguagem não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para a análise aprofundada dos textos. Identificar a função predominante permite compreender a intenção do autor e os recursos por ele mobilizados para atingir seu propósito comunicativo. Ao analisar um texto, as seguintes perguntas podem orientar a identificação da função predominante: O texto busca prioritariamente informar sobre fatos ou conceitos? (Função referencial) O texto expressa de forma intensa os sentimentos e opiniões do emissor, com verbos e pronomes em primeira pessoa? (Função emotiva) O texto busca persuadir, convencer ou ordenar, valendo-se de vocativos e imperativos? (Função conativa) O texto se preocupa principalmente em iniciar, manter ou encerrar o contato comunicativo? (Função fática) O texto fala sobre a própria linguagem, definindo termos ou comentando o processo de criação? (Função metalinguística) O texto chama a atenção para sua forma, explorando sonoridades, ritmos e figuras de linguagem de modo ostensivo? (Função poética) O exame cuidadoso dessas questões permite ao leitor não apenas classificar o texto, mas compreender seus mecanismos internos e sua eficácia comunicativa. Exercícios: A definição da palavra 'casa' no dicionário utiliza qual função da linguagem? A frase 'No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho' prioriza a forma e a repetição. Qual a função? Um anúncio diz: 'Beba Coca-Cola'. A função predominante é: Uma notícia sobre o índice de inflação do mês foca na informação nua e crua. Qual é a função? Durante uma ligação telefônica, a pessoa diz: 'Oi, tá me ouvindo?'. Ela está usando a função: Qual função da linguagem predomina em um texto que busca, primordialmente, verificar se o interlocutor está prestando atenção à mensagem, utilizando expressões como 'Entendeu?' ou 'Certo?'? Ao escrever um poema que descreve o próprio ato de compor versos, o autor utiliza predominantemente qual função da linguagem? A objetividade e a impessoalidade, marcas registradas de notícias jornalísticas e artigos científicos, são características de qual função? Em um diário pessoal, onde abundam interjeições, exclamações e o uso frequente da primeira pessoa, qual função da linguagem se destaca? Qual a principal diferença entre a função poética e a função emotiva, considerando que ambas podem aparecer em textos literários? Um dicionário é o exemplo clássico de qual função da linguagem por excelência? Se um locutor de rádio diz: 'Som, um, dois, testando o microfone', qual elemento da comunicação ele está priorizando? Qual característica gramatical é predominante na função conativa ou apelativa? Quando um apresentador de telejornal encerra a transmissão dizendo 'Boa noite a todos', qual função da linguagem predomina nesse fragmento específico? A função metalinguística se destaca quando o código é usado para explicar o próprio código, como acontece em um dicionário ou em um poema que explica como se faz poesia. A função referencial, muito comum em notícias de jornal e textos científicos, usa sempre a primeira pessoa do singular para relatar os fatos com base nas emoções e opiniões do autor. A função conativa (ou apelativa) tem como foco principal o receptor da mensagem, utilizando bastante verbos no imperativo para tentar convencer a pessoa ou mudar sua atitude. Expressões simples do dia a dia, como 'Alô?', 'Entendeu?' e 'Tudo bem?', focam na função fática, cujo objetivo principal é apenas testar, iniciar ou manter aberto o canal de comunicação. A função poética da linguagem tem o objetivo de passar informações de maneira totalmente direta e literal, evitando o uso de rimas, figuras de linguagem ou qualquer formato visual que embeleze o texto. O modelo de Roman Jakobson define que, para cada um dos seis elementos da comunicação, existe uma função da linguagem correspondente, e a intenção de quem fala é o que define qual função será dominante. A função emotiva concentra as suas forças no assunto da notícia e exige que o texto seja escrito com total neutralidade, proibindo o uso de pontos de exclamação para não mostrar os sentimentos de quem fala. Em um texto real, seja ele literário ou jornalístico, só pode existir uma única função da linguagem por vez, havendo uma regra rígida que impede um poema de ter traços da função conativa para convencer o leitor. Mesmo que a função conativa seja a mais importante nas propagandas para convencer o cliente a comprar, as agências costumam usar também a função poética para criar frases bonitas, sonoras e com rimas. Na hora de escrever manuais de instrução complexos ou bulas de remédios, os autores devem usar principalmente a função poética, para embelezar os termos técnicos e permitir várias interpretações diferentes pelo leitor. A função referencial é também conhecida como cognitiva ou denotativa. Por que o termo 'denotativa' é apropriado?