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Figuras de Linguagem: Introdução - Português | Tuco-Tuco

Aula de Português (Semântica e Figuras de Linguagem): Figuras de Linguagem: Introdução. Panorama geral das principais figuras de linguagem e seus efeitos no texto. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.

Figuras de Linguagem: Introdução As figuras de linguagem são recursos expressivos que se afastam do uso meramente referencial e literal da língua para produzir efeitos de sentido, estéticos, persuasivos ou emocionais. Elas representam a dimensão criativa da linguagem e estão presentes em todos os gêneros textuais, desde a conversa cotidiana até a literatura mais elaborada, passando pela publicidade, pela oratória política e pelas letras de música. Conhecer as figuras de linguagem não significa apenas decorar nomes e classificações. Significa, antes de tudo, compreender como o falante ou o escritor manipula os recursos da língua para gerar determinados impactos sobre o interlocutor. Esse conhecimento é essencial para a interpretação de textos, para a análise de estilos de época e para a produção de redações que saibam usar a expressividade de modo adequado e consciente. A natureza das figuras de linguagem Toda figura de linguagem consiste em um desvio ou uma reconfiguração do uso ordinário da língua. Quando se diz "Ela é uma flor", não se está produzindo uma afirmação falsa nem um enunciado sem sentido, mas sim acionando um mecanismo de analogia que transporta atributos do domínio das flores (beleza, delicadeza, perfume) para o domínio das pessoas. Esse transporte ou transformação pode ocorrer em diferentes níveis: No significado das palavras (figuras de palavras ou semânticas). Na construção das frases e na organização sintática (figuras de construção ou sintáticas). Na maneira de apresentar as ideias para gerar contraste, ênfase ou emoção (figuras de pensamento). Na exploração dos sons e ritmos da língua (figuras de som ou harmonia). Classificação das figuras de linguagem A tradição gramatical e retórica costuma agrupar as figuras em quatro grandes grupos. Essa classificação é didática e auxilia a identificar o tipo de recurso que está sendo utilizado, embora muitas figuras participem simultaneamente de mais de um eixo. Figuras de palavras (ou semânticas) Envolvem o uso de uma palavra ou expressão com sentido diferente do habitual, seja por deslocamento de significado, seja por substituição baseada em relações de contiguidade. As principais são a metáfora, a metonímia, a catacrese, a comparação (ou símile) e a sinestesia. Metáfora: é a transferência de significado por semelhança implícita. Ex.: "A vida é um sopro." (a brevidade da vida é comparada à rapidez de um sopro, sem o uso de conectivo). Metonímia: é a substituição de um termo por outro com base em uma relação lógica ou de proximidade (parte pelo todo, autor pela obra, continente pelo conteúdo, etc.). Ex.: "Bebeu um copo de leite." (continente pelo conteúdo). Comparação: é a aproximação explícita entre dois elementos por meio de um conectivo (como, assim como, tal qual). Ex.: "Ele é forte como um touro." (a força do homem é comparada à do animal). Catacrese: é o uso de uma palavra fora do seu sentido original por falta de termo específico, configurando uma metáfora lexicalizada. Ex.: "braço da cadeira", "dente de alho". Sinestesia: é a fusão de sensações percebidas por diferentes órgãos dos sentidos. Ex.: "cor berrante" (visão + audição); "som macio" (audição + tato). Figuras de pensamento Operam na esfera das ideias e das intenções comunicativas, organizando o raciocínio de modo a produzir efeitos como contraste, ênfase, ironia ou atenuação. Entre elas destacam-se: Antítese: aproximação de palavras ou ideias opostas. Ex.: "O amor e o ódio andam de mãos dadas." Paradoxo: enunciado que encerra uma contradição lógica, mas que, interpretado em profundidade, expressa uma verdade complexa. Ex.: "É ferida que dói e não se sente." (Camões). Ironia: expressão do contrário do que se pensa, com intuito crítico ou humorístico. Ex.: "Chegou cedo, como sempre!" (dito a alguém notoriamente atrasado). Eufemismo: suavização de uma ideia desagradável ou chocante. Ex.: "Ele partiu desta para uma melhor." (em lugar de "morreu"). Hipérbole: exagero intencional para realçar uma qualidade ou uma reação. Ex.: "Já te falei um milhão de vezes." Prosopopeia (ou personificação): atribuição de qualidades humanas a seres inanimados ou irracionais. Ex.: "O vento gemia entre as árvores." Figuras de construção (ou sintáticas) Decorrem de uma organização especial da estrutura da frase, seja pela inversão, pela omissão ou pela repetição de termos, gerando efeitos de ênfase, suspense ou simetria. Elipse: omissão de um termo que pode ser subentendido pelo contexto. Ex.: "No fim da tarde, uma brisa suave." (omite-se "havia" ou "surgiu"). Zeugma: omissão de um termo que já apareceu anteriormente na frase. Ex.: "Ela gosta de cinema; eu, de teatro." (omite-se "gosto"). Polissíndeto: repetição intencional de conjunções (e, ou, nem). Ex.: "E chora, e ri, e canta, e dança." Assíndeto: omissão de conjunções coordenativas para dar rapidez ao enunciado. Ex.: "Vim, vi, venci." (Júlio César). Anáfora: repetição de uma ou mais palavras no início de versos ou frases sucessivas. Ex.: "Ela é a luz. Ela é a paz. Ela é tudo." Hipérbato (inversão): alteração da ordem direta (sujeito-verbo-complemento) dos termos na oração. Ex.: "De flores se faz a primavera." (ordem direta: "A primavera se faz de flores."). Pleonasmo: redundância que pode ser estilística (para dar ênfase) ou viciosa (considerada erro). Ex.: "Vi com meus próprios olhos." (ênfase, pleonasmo literário). Figuras de som (ou harmonia) Relacionam-se à seleção e combinação de palavras com o objetivo de produzir efeitos sonoros, rítmicos e musicais. São essenciais na poesia e na prosa poética. Aliteração: repetição de sons consonantais. Ex.: "O rato roeu a roupa do rei de Roma." (repetição do /r/). Assonância: repetição de sons vocálicos. Ex.: "Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral." (Caetano Veloso, repetição das vogais /a/ e /o/). Onomatopeia: imitação de sons por meio de palavras ou expressões. Ex.: "Tic-tac do relógio", "boom", "miau". Paronomásia: aproximação de palavras de sons semelhantes, mas sentidos diferentes. Ex.: "Quem casa quer casa." (casa, do verbo casar; casa, substantivo). A importância do contexto e da intenção comunicativa Uma mesma construção pode ser ou não uma figura de linguagem conforme o contexto e a intenção do emissor. Por exemplo, a frase "O sol nasceu" é denotativa se for uma simples constatação meteorológica, mas pode ser uma personificação se fizer parte de um poema que descreve o sol como uma entidade viva. Por isso, a análise das figuras deve considerar: O gênero textual e a esfera de circulação (um texto científico evita figuras; um anúncio publicitário as explora ao máximo). A função da linguagem predominante (emotiva, poética, apelativa). O horizonte de expectativas do leitor. Quadro-síntese das principais figuras Para facilitar a consulta, apresenta-se a seguir um quadro com as figuras mais recorrentes, agrupadas por tipo, com uma breve definição e um exemplo. | Tipo | Figura | Definição | Exemplo | |------|--------|-----------|---------| | Palavras | Metáfora | Comparação implícita | "A vida é um rio." | | Palavras | Metonímia | Substituição por contiguidade | "Ler Machado de Assis." | | Palavras | Comparação | Aproximação explícita com conectivo | "Forte como um touro." | | Palavras | Sinestesia | Cruzamento de sensações | "Doce melodia." | | Pensamento | Antítese | Oposição de ideias | "Noite e dia." | | Pensamento | Paradoxo | Contradição aparente | "O silêncio ensurdecedor." | | Pensamento | Ironia | Sentido oposto ao literal | "Que bela bagunça!" | | Pensamento | Hipérbole | Exagero expressivo | "Morrer de rir." | | Construção | Elipse | Omissão de termo subentendido | "Na sala, apenas móveis." | | Construção | Anáfora | Repetição no início de frases | "Eu quero paz. Eu quero amor." | | Construção | Polissíndeto | Repetição de conjunções | "E luta, e sofre, e espera." | | Som | Aliteração | Repetição de consoantes | "Pedro pedreiro penseiro." | | Som | Assonância | Repetição de vogais | "Essa lua na rua." | Observações finais O estudo das figuras de linguagem não se esgota na memorização de nomes e exemplos. A verdadeira competência consiste em identificá-las em textos concretos, compreender o efeito que produzem e, quando adequado, empregá-las na própria produção textual. Em redações dissertativo-argumentativas, usos pontuais de figuras como a metáfora, a antítese ou a anáfora podem enriquecer a argumentação e conferir expressividade ao texto, desde que mantidas a clareza, a coerência e a impessoalidade. A seguir, cada uma das principais figuras será estudada em profundidade, com atenção às nuances que as distinguem e às suas aplicações nos mais variados contextos de uso da língua portuguesa. Exercícios: Contexto: Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos de arroz em torrões marrons e vermelhos revolvidos. Gostava do som redondo fácil e ruidoso que tinha ao ser enunciado. “Vou trabalhar no arado.” “Vou arar a terra.” “Seria bom ter um arado novo, esse arado tá troncho e velho.” O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada. VIEIRA JR.. I. **Torto arado**. São Paulo: Todavia, 2019. Com a perda de parte da língua na infância, a narradora tenta voltar a falar. Essa tentativa revela uma experiência que De acordo com a explicação da aula, qual é a diferença principal entre metáfora e comparação? Contexto: **Mais iluminada que outras** Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos. Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem – dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados. ARRAES. J. Redemoinho em dia quente. São Paulo: Alfaguara, 2019. Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora Mestre e companheiro, disse eu que nos íamos despedir. Mas disse mal. A morte não extingue: transforma; não aniquila; renova; não divorcia: aproxima. Um dia supuseste “morta e separada” a consorte dos teus sonhos e das tuas agonias, que te soubera “pôr um undo inteiro no recanto” do teu ninho; e, todavia, nunca ela te esteve mais presente, no íntimo de ti mesmo e na expressão do teu canto, no fundo do teu ser e na face de tuas ações. Esses catorze versos inimitáveis, em que o enlevo dos teus discípulos resume o valor de toda uma literatura, eram a aliança de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras núpcias, para a vida nova do teu renascimento e da tua glorificação, com a sócia sem nódoa dos teus anos e de mocidade e madureza, da florescência e frutificação de tua alma. Para os eleitos do mundo das ideias a miséria está em decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas de outra. Quando eles atravessavam essa passagem do invisível, que os conduz à região da verdade sem mescla, então é que entramos a sentir o começo do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos. BARBOSA, R. O adeus da Academia a Machado de Assis. Rio de Janeiro: Agir, 1962. Esse é um trecho do discurso de Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras em homenagem a Machado de Assis por ocasião de sua morte. Uma das características desse discurso de homenagem é a presença de [ENEM 2022] Contexto: **Urgência emocional** Se tudo é para ontem, se a vida engata uma primeira e sai em disparada, se não há mais tempo para paradas estratégicas, caímos fatalmente no vício de querer que os amores sejam igualmente resolvidos num átimo de segundo. Temos pressa para ouvir “eu te amo”. Não vemos a hora de que fiquem estabelecidas as regras de convívio: somos namorados, ficantes, casados, amantes? Urgência emocional. Uma cilada. Associamos diversas palavras ao AMOR: paixão, romance, sexo, adrenalina, palpitação. Esquecemos, no entanto, da palavra que viabiliza esse sentimento: “paciência”. Amor sem paciência não vinga. Amor não pode ser mastigado e engolido com emergência, com fome desesperada. É uma refeição que pode durar uma vida. MEDEIROS, M. Disponível em: http:/porumavidasimples.blogspot.com.br. Acesso em: 20 ago. 2017 (adaptado). Nesse texto de opinião, as marcas linguísticas revelam uma situação distensa e de pouca formalidade, o que se evidencia pelo(a) [ENEM 2022] Contexto: **PALAVRA** As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas, e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra “palavra” diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras tem corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto. **FALCÃO, A. Pequeno dicionário de palavras ao vento. São Paulo: Salamandra, 2013 (adaptado).** Esse texto, que simula um verbete para a palavra “palavra”, constitui-se como um poema porque [ENEM 2022] Contexto: **Notas** Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo. ASSIS, M. **Memórias Póstumas de Brás Cubas**. Disponível em: www.domíniopúblico.gov.br. Acesso em: 25 jul, 2022. O recurso linguístico que permite o Machado de Assis considerar o capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas como inventário é a: No enunciado "Umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava com elas", observa-se um termo que fica "solto" na frase. Esse recurso é: Ao dizer 'Comi dois pratos no jantar', o falante utiliza uma metonímia. Qual é a relação específica estabelecida nessa substituição? As figuras de linguagem são recursos usados para dar mais expressividade ao texto e são divididas em grupos de som, construção, palavras e pensamento. A assonância é uma figura de som que se destaca pela repetição de sons de consoantes para criar um ritmo na frase. O polissíndeto e a anáfora são figuras de construção baseadas na repetição; o polissíndeto repete conjunções, e a anáfora repete palavras no início de versos ou frases. A metonímia acontece quando substituímos uma palavra por outra que tem uma relação direta de proximidade com ela, como trocar o autor pela obra que ele escreveu. A catacrese é a invenção de uma palavra completamente nova pelos poetas, não sendo um recurso utilizado no dia a dia da língua portuguesa. A metáfora e a comparação são recursos parecidos, mas a principal diferença é que a comparação usa conectivos explícitos, como 'como' ou 'tal qual', e a metáfora faz uma afirmação direta. O hipérbato é uma figura de pensamento que consiste em exagerar intencionalmente uma ideia para impressionar quem está ouvindo ou lendo. A antítese e o paradoxo são exatamente a mesma figura de linguagem, pois as duas apenas aproximam palavras de sentidos opostos na frase, sem criar ideias absurdas. A elipse é a omissão proposital de uma palavra na frase, sendo possível que o leitor consiga entender o sentido completo da mensagem através do contexto. A onomatopeia é a figura de linguagem responsável por dar sentimentos humanos e capacidade de ação a objetos inanimados ou animais. [UNESP - 2025] Para responder à questão, leia um trecho do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo. Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. [...] Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se¹ discussões e rezingas²; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. [...] O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar³ da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos coradouros⁴ a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro. (O cortiço, 2016.) 1 ensarilhar-se: emaranhar-se. 2 rezinga: discussão acalorada. 3 trapejar: estalar. 4 coradouro: local ao ar livre, batido pelo sol, onde se estende a roupa. “As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitiços, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha.” (5º parágrafo) Para evitar a sua repetição, o narrador omite nesse trecho um substantivo que pode facilmente ser subentendido pelo contexto. Trata-se do substantivo Qual é a principal distinção técnica entre uma metáfora e uma comparação (símile) no contexto das figuras de palavras? A expressão 'pé da mesa' ou 'braço da cadeira' exemplifica qual figura de linguagem, e por qual motivo? O recurso da sinestesia é caracterizado pela fusão de diferentes impressões sensoriais. Qual alternativa apresenta esse recurso? Diferente do eufemismo, que busca suavizar uma ideia, a litotes atinge um efeito similar por qual caminho gramatical? O verso "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante" é um exemplo clássico de: Qual figura de som é predominantemente utilizada no trava-língua "O rato roeu a roupa do rei de Roma"? A repetição exagerada de conjunções coordenativas, como em "Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e vence", configura qual figura de linguagem? Qual dos exemplos abaixo representa a figura de sono conhecida como aliteração? Considerando a divisão das figuras de linguagem apresentada na aula, em qual dos grupos a 'metáfora' é classificada? Observe a frase: 'E lia, e pensava, e sonhava, e escrevia.' Qual figura de linguagem está presente, segundo a classificação ensinada? Em qual das seguintes alternativas ocorre um oxímoro, diferenciando-se de uma simples antítese? (OU, para manter o termo original, mas com precisão: 'Em qual das seguintes alternativas ocorre um paradoxo expresso na forma de um oxímoro...') [UNICAMP - 2024 - Vestibular] Em 1921, Mário de Andrade, escrevendo a série de artigos “Mestres do passado”, publicados no Jornal do Comércio (edição de São Paulo), observou: "Tarde [de Olavo Bilac] foi uma promessa de anos seguidos. Tais são, tão salientes os artifícios e tão repetidos que muito bem provam o esforço do poeta decaído da poesia e a sua parca inspiração (...).” (ANDRADE, M. Mestres do passado – Olavo Bilac. In: BRITO, M.S. História do modernismo brasileiro. Antecedentes da Semana de Arte Moderna. 5.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 288-289, 1978.) Relacione, ao poema a seguir, o trecho da crítica anterior, assinalando a alternativa que coincide com a ideia geral de Mário sobre a obra de Bilac. As estrelas Olavo Bilac Desenrola-se a sombra no regaço Da morna tarde, no esmaiado anil; Dorme, no ofego do calor febril, A natureza, mole de cansaço. Vagarosas estrelas! passo a passo, O aprisco desertando, às mil e às mil, Vindes do ignoto seio do redil Num compacto rebanho, e encheis o espaço... E, enquanto, lentas, sobre a paz terrena, Vos tresmalhais tremulamente a flux, – Uma divina música serena Desce rolando pela vossa luz: Cuida-se ouvir, ovelhas de ouro: a avena Do invisível pastor que vos conduz... (BILAC, Olavo. Tarde. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, p. 42-43, 1919.) Esmaiado: esmaecido, pálido Aprisco: curral Redil: curral para o gado ovino ou caprino; rebanho de ovelhas Tresmalhar: Afastar-se, perder-se do rebanho Flux: fluxo Avena: flauta pastoril [UNICAMP - 2024 - Vestibular] je ne parle pas bien* je ne parle pas bien je ne parle pas bien je ne parle pas bien eu tenho uma língua solta que não me deixa esquecer que cada palavra minha é resquício da colonização cada verbo que aprendi conjugar foi ensinado com a missão de me afastar de quem veio antes nossas escolas não nos ensinam a dar voos [...] reinvenção nossa revolução surge e urge das nossas bocas das falas aprendidas que são ensinadas e muitas não compreendidas salve, a cada gíria je ne parle pas bien [...] o que era pra ser arma de colonizador está virando revide de ex colonizado estamos aprendendo as suas línguas e descolonizando os pensamento * Je ne parle pas bien, do francês, significa “Eu não falo direito”. Podemos afirmar que o uso repetido do verso Je ne parle pas bien no poema slam de Luz Ribeiro [UNICAMP - 2026 - Vestibular] Leia os textos 1 e 2. Texto 1: "Só fingem que põem o mundo ao alcance dos meus olhos míopes. Já não vejo as coisas como são: vejo-as como eles querem que as veja. Na verdade, me exilam dele com filtrar-lhe a menor imagem. Logo, são eles que veem, não eu que, mesmo cônscio do logro, lhes sou grato" (PAES, J. P. Prosas seguidas de Odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, p. 63, 1992.) Texto 2: "Do grego odé e do latim õde (ou õda), a ode era, na antiguidade clássica, um poema destinado a ser cantado, ou um canto alegre, triste ou lírico. Era um poema de alguma extensão, de elevado assunto ou nobre, expressando sentimentos ilustres, em homenagem a algo ou a alguém. Apresentava também a elaboração estrófica, bem como estilo formal nobre e cerimonioso". (Adaptado do verbete "Ode", elaborado por Ana Ladeira. In: CEIA, C. E-Dicionário de termos literários (projeto abrigado pela Universidade Nova de Lisboa). Disponível em https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/ode. Acesso em 31/05/2025.) É correto afirmar que a ode mínima de José Paulo Paes reelabora a definição clássica de "ode" ao [INSPER - 2026 - Vestibular] Leia o artigo para responder à questão. Em janeiro de 2026, a juventude das periferias de São Paulo enfrenta um paradoxo cruel: a cidade é o motor econômico do país, mas o caminho até a escola ou ao trabalho é uma corrida de obstáculos. Enquanto o senso comum diz que "não há verba", a realidade técnica revela uma escolha política. A crise do transporte público coletivo no Brasil não é um acidente, mas o resultado de um sistema rodoviarista que, historicamente, priorizou o transporte sobre pneus em detrimento de sistemas de alta capacidade. O modelo atual de São Paulo, baseado em uma lógica de mercado que chamamos de Logística 4.0, trata o estudante como "massa" ou "carga viva" a ser movimentada pelo menor custo operacional possível. A eficiência, medida por planilhas de custo, ignora a dignidade humana. O jovem perde tempo de vida no trânsito porque a falha do sistema não é técnica; como argumentamos em pesquisa, ela é ontológica: falha em sua missão humana. A miopia da Logística 4.0 revela-se quando o transporte público cumpre horários rastreados por algoritmos, mas falha em sua missão humana de garantir o bem-estar coletivo. O tempo de deslocamento médio em grandes cidades brasileiras pode ultrapassar duas horas, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Para o jovem da escola pública, esse tempo é um custo de oportunidade elevado, um roubo do tempo de estudo, lazer e descanso. Esse "pedágio de vida" é um marcador de classe social, uma forma de exclusão que impede o acesso à faculdade ou ao primeiro emprego. O urbanista Eduardo Alcântara de Vasconcellos alerta que a rede de transporte deve ser dinâmica para evitar a exclusão das periferias. A ausência de um alinhamento entre os diferentes órgãos gestores impede uma análise sistêmica que integre a gestão do trânsito com a função social do transporte, o que impede a democratização do espaço viário, impactando negativamente a produtividade urbana e a qualidade de vida. A gestão pública da mobilidade deve ser compreendida como um tema transversal, onde o Estado reassume o protagonismo estratégico. Propomos a classificação da logística urbana como uma Infraestrutura de Suporte à Vida (ISV), no mesmo nível de saneamento básico. O futuro da ciência do fluxo reside na orquestração de movimentos que respeitem a escala humana. A Logística 5.0 define-se como a ética do movimento: um compromisso técnico e social que transforma a circulação de massa e energia em suporte fundamental à soberania coletiva. O seu papel, jovem estudante, é cobrar essa transparência radical. (Eduardo Facchini e Mariana Domingues Facchini. “Por que a ciência prova que o modelo de transporte de SP falhou (e como o SUM 5.0 é a solução)?”. https://diplomatique.org.br, 10.02.2026. Adaptado.) Na expressão "A miopia da Logística 4.0" (2º parágrafo), os autores recorrem à seguinte figura de linguagem: [UNESP - 2025] Examine a tirinha do cartunista Eduardo Arruda, publicada em sua conta no Instagram em 04.12.2024. (A tirinha mostra três quadros: no primeiro, uma pessoa diz que um dia vai fazer uma tatuagem de uma frase em inglês; no segundo, ela mostra a frase "The world is my oyster" tatuada; no terceiro, ela diz que gostaria de ter pesquisado melhor o significado.) Para obter o seu efeito de humor, a tirinha mobiliza fundamentalmente os seguintes recursos expressivos: [INSPER - 2026 - Vestibular] Leia o artigo para responder à questão. Em janeiro de 2026, a juventude das periferias de São Paulo enfrenta um paradoxo cruel: a cidade é o motor econômico do país, mas o caminho até a escola ou ao trabalho é uma corrida de obstáculos. Enquanto o senso comum diz que "não há verba", a realidade técnica revela uma escolha política. A crise do transporte público coletivo no Brasil não é um acidente, mas o resultado de um sistema rodoviarista que, historicamente, priorizou o transporte sobre pneus em detrimento de sistemas de alta capacidade. O modelo atual de São Paulo, baseado em uma lógica de mercado que chamamos de Logística 4.0, trata o estudante como "massa" ou "carga viva" a ser movimentada pelo menor custo operacional possível. A eficiência, medida por planilhas de custo, ignora a dignidade humana. O jovem perde tempo de vida no trânsito porque a falha do sistema não é técnica; como argumentamos em pesquisa, ela é ontológica: falha em sua missão humana. A miopia da Logística 4.0 revela-se quando o transporte público cumpre horários rastreados por algoritmos, mas falha em sua missão humana de garantir o bem-estar coletivo. O tempo de deslocamento médio em grandes cidades brasileiras pode ultrapassar duas horas, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Para o jovem da escola pública, esse tempo é um custo de oportunidade elevado, um roubo do tempo de estudo, lazer e descanso. Esse "pedágio de vida" é um marcador de classe social, uma forma de exclusão que impede o acesso à faculdade ou ao primeiro emprego. O urbanista Eduardo Alcântara de Vasconcellos alerta que a rede de transporte deve ser dinâmica para evitar a exclusão das periferias. A ausência de um alinhamento entre os diferentes órgãos gestores impede uma análise sistêmica que integre a gestão do trânsito com a função social do transporte, o que impede a democratização do espaço viário, impactando negativamente a produtividade urbana e a qualidade de vida. A gestão pública da mobilidade deve ser compreendida como um tema transversal, onde o Estado reassume o protagonismo estratégico. Propomos a classificação da logística urbana como uma Infraestrutura de Suporte à Vida (ISV), no mesmo nível de saneamento básico. O futuro da ciência do fluxo reside na orquestração de movimentos que respeitem a escala humana. A Logística 5.0 define-se como a ética do movimento: um compromisso técnico e social que transforma a circulação de massa e energia em suporte fundamental à soberania coletiva. O seu papel, jovem estudante, é cobrar essa transparência radical. (Eduardo Facchini e Mariana Domingues Facchini. “Por que a ciência prova que o modelo de transporte de SP falhou (e como o SUM 5.0 é a solução)?”. https://diplomatique.org.br, 10.02.2026. Adaptado.) Há emprego de palavra formada com prefixo que significa "abaixo" em: [UNESP-2025] Examine o cartum de Rafael Corrêa, publicado em sua conta no Instagram em 19.12.2020. Na construção do sentido de seu cartum, Rafael Corrêa mobiliza fundamentalmente uma figura de retórica e um conceito geográfico, a saber, [UNESP - 2024] Examine a tirinha do cartunista André Dahmer, publicada em sua conta no Instagram em 15.07.2023. Em sua tirinha, o cartunista ironiza o emprego pelo personagem do seguinte recurso expressivo: [FUVEST — Concurso] O verso “É tempo de formar novos quilombos” é um exemplo de [FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] Leia o trecho a seguir: "Ao iniciar um romance, o escritor é semelhante ao capitão de um navio de guerra, partindo de viagem com ordens seladas no bolso. Mas, ao abrir o envelope, já em alto-mar, descobre ele que a mensagem foi escrita com tinta invisível. Não a pode ler. Está, entretanto, consciente do dever a cumprir, pois é comandante de um navio de guerra e não de um barco de recreio. As ordens indecifráveis, porém imperativas, que guarda no bolso, enchem-no com a consciência de sua responsabilidade. Nisso reside a missão do escritor." Assinale a opção que não está de acordo com a significação ou a estruturação do texto. [FGV - 2025 - Oficial de Justiça - TRT24] Identifica-se termo empregado em sentido figurado, destacado em negrito, na passagem: