Casos de Não Ocorrência da Crase – Português | Tuco-Tuco
Explicação sobre os contextos em que a crase nunca deve ser utilizada.
Casos de Não Ocorrência da Crase
Assim como existem situações em que o acento grave indicativo de crase é obrigatório ou facultativo, há um conjunto de contextos nos quais a crase é terminantemente proibida. O reconhecimento desses casos é essencial para evitar erros comuns em provas, redações e na comunicação formal. A proibição decorre, fundamentalmente, da ausência de um dos dois elementos necessários para a crase: ou não há a preposição a exigida, ou a palavra seguinte não admite artigo definido feminino (ou pronome iniciado por a).
Antes de Palavras Masculinas
A crase é a fusão da preposição a com o artigo definido feminino a(s). Portanto, diante de substantivos, adjetivos ou pronomes masculinos, não há artigo feminino disponível, e a crase não se justifica.
Caminhava a pé. (e não "à pé")
Comprei o carro a prazo. (e não "à prazo")
Prefiro bife a cavalo. (e não "à cavalo")
Agradeceu a Deus. (e não "à Deus")
Entregou o convite a ele. (e não "à ele")
Ainda que o termo regente peça preposição a, a ausência de artigo feminino impede a crase. Em casos como à moda de, o substantivo subentendido é feminino (moda), e por isso a crase aparece mesmo diante de palavra masculina: camarão à milanesa (à moda milanesa). Esse é um caso especial de crase com palavra masculina, mas que ocorre apenas porque a locução feminina está implícita.
Antes de Verbo
Verbos não admitem artigo, salvo raras exceções em que são substantivados (e, nesse caso, passam a ser nomes). Portanto, diante de verbo no infinitivo, gerúndio ou particípio, a crase é impossível.
Começou a estudar.
Estava disposto a colaborar.
Passou a acreditar em si mesmo.
Pôs-se a chorar.
A confusão pode ocorrer quando o verbo é precedido de uma palavra feminina, mas o fato de ser verbo anula a possibilidade de artigo.
Antes de Pronomes Pessoais
Pronomes pessoais do caso reto (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) e oblíquos tônicos (mim, ti, si, nós, vós) não aceitam artigo definido. Assim, a crase está proibida.
Dirigiu-se a mim.
Enviou o presente a ti.
Referiu-se a ela.
Entregou a nós a tarefa.
Nos pronomes pessoais retos de terceira pessoa, pode haver dúvida: Fez referência a ela (sem crase, pois ela é pronome pessoal) versus Fez referência àquela (com crase, pois aquela é pronome demonstrativo). A distinção é fundamental.
Antes de Pronomes de Tratamento que Rejeitam Artigo
A maioria dos pronomes de tratamento, por sua natureza, não é antecedida de artigo definido. Portanto, não se usa crase diante deles.
Comuniquei a Vossa Excelência.
Enviei o ofício a Vossa Senhoria.
Dirigi-me a Sua Alteza.
Entregou a petição a Vossa Majestade.
As exceções são os pronomes de tratamento que admitem artigo, como senhora, senhorita, madame e dona (quando senhora proprietária). Nesses casos, o artigo é, em geral, obrigatório, e a crase ocorre sempre que houver preposição a: Entreguei à senhora. Portanto, com esses pronomes, a crase é obrigatória se a preposição estiver presente.
Antes de Pronomes Indefinidos que Rejeitam Artigo
Pronomes indefinidos como alguém, ninguém, algum, alguma, nenhum, nenhuma, certo, certa, qualquer, toda, tudo, outrem, nada não são acompanhados de artigo definido, o que impede a crase.
Referiu-se a alguma mulher.
Não obedece a ninguém.
Isso interessa a qualquer pessoa.
Dirigiu-se a certa autoridade.
Atenção: pronomes indefinidos como pouca, muita, tanta podem, em certos contextos, ser antecedidos de artigo (a pouca, a muita), e, nesse caso, havendo preposição, pode ocorrer crase: Refiro-me à pouca atenção que recebem. Mas essa é uma construção mais rara, e o cuidado deve ser redobrado.
Antes de Pronomes Demonstrativos que Não Começam por "A"
Os pronomes demonstrativos que não começam com a vogal "a" são: este(s), esta(s), esse(s), essa(s), isto, isso. Esses pronomes não contêm artigo definido e, portanto, não permitem a fusão com a preposição a. Já o pronome aquilo começa com "a" e, como visto, admite crase.
Chegou a esta conclusão.
Referiu-se a isso.
Fez alusão a essa possibilidade.
Não dei importância a esse tipo de crítica.
Em Expressões com Palavras Repetidas (Mesmo Femininas)
Nas locuções formadas por palavras repetidas, não se usa crase, pois a preposição a aparece sozinha entre os termos, sem artigo.
Cara a cara.
Frente a frente.
Dia a dia.
Gota a gota.
Passo a passo.
Essas expressões são consagradas e, independentemente do gênero da palavra, a ausência de artigo é a norma. Portanto, mesmo que se trate de palavras femininas, não ocorre a fusão.
Antes de Artigo Indefinido Feminino
O artigo indefinido feminino uma(s) já possui a letra a, mas não se trata de artigo definido; é uma palavra que, por si só, não admite ser precedida de outro artigo definido. Assim, a crase é proibida.
Foi a uma festa.
Entregou a uma senhora.
Dirigiu-se a uma plateia atenta.
Fez referência a uma palestra.
Isso conduz a uma reflexão.
A presença da preposição a é clara, mas não há fusão com o artigo, porque uma é artigo indefinido.
Antes de Numerais Cardinais (Exceto Horas Definidas)
Numerais cardinais não vêm normalmente acompanhados de artigo definido feminino, exceto quando referentes a horas definidas (discutido nas aulas anteriores). Fora desse contexto, a crase não acontece.
A promoção se estende a duas pessoas.
O auxílio foi concedido a três famílias.
A entrevista será feita a um candidato. (aqui, numeral um é masculino)
Isso se aplica a quatro categorias.
Contudo, quando o numeral é substantivado e determinado por artigo feminino, a crase pode aparecer: Refiro-me às duas que chegaram atrasadas. Esse uso é raro e depende do contexto.
Diante de Nomes de Cidades (Topônimos) que Rejeitam Artigo
Conforme visto na regência e em aulas anteriores, muitos nomes de cidades não são precedidos de artigo definido. Para esses, a crase não ocorre.
Foi a Roma.
Retornou a Paris.
Chegou a Curitiba.
Viajou a Londres.
Vai a Fortaleza. (de acordo com a norma culta, Fortaleza rejeita artigo)
Para saber se há artigo, usa-se o teste de substituição com "de/da": Vim de Roma (sem crase) vs. Vim da Bahia (com crase).
Com as Palavras "Casa" (Lar) e "Terra" (Solo Firme) sem Determinante
Casa, no sentido de lar, domicílio, não admite artigo. Voltei a casa.
Terra, em oposição a bordo, também rejeita artigo. Os marinheiros desceram a terra.
Se houver determinante, a crase se torna obrigatória: Fui à casa de meus pais. Retornou à terra natal.
Depois de Preposições que Não Exigem "A"
Quando outra preposição (que não a) rege o termo seguinte, não há que se falar em crase, mesmo que a palavra seguinte seja feminina e admita artigo. A crase só ocorre com a preposição a.
Compareceu perante a diretora.
Discutiu sobre a proposta.
Está sob a mesa.
Passou por a mesma rua. (contração ocorre: pela)
Nesses casos, a ausência da preposição a inviabiliza qualquer fusão.
Antes de Substantivos Femininos Usados em Sentido Geral (sem Artigo)
Quando um substantivo feminino é empregado em sentido amplo, sem artigo definido, a crase não acontece, ainda que o termo regente peça preposição a.
Não assisto a cenas de violência. (o a é apenas preposição; se houvesse artigo, seria às cenas)
Isso leva a situações inusitadas.
Fez referência a pessoas famosas.
O projeto visa a melhorias significativas. (sem artigo, crase proibida)
Se o artigo estivesse presente, a crase seria obrigatória: assiste às cenas, leva às situações, fez referência às pessoas, visa à melhoria. Portanto, a presença ou ausência do artigo é o fator decisivo.
Em Locuções de Caráter Geral com Palavras Femininas sem Artigo
Algumas expressões cristalizadas, mesmo contendo palavras femininas, não levam crase porque o artigo não está presente:
Encontramo-nos frente a frente. (palavra repetida, já vista)
Isso equivale a meia entrada. ("meia" é numeral, não artigo)
Ficou a ver navios. (locução verbal, sem artigo)
Observações Importantes sobre Exceções e Armadilhas
Mesmo diante de palavra masculina, se houver subentendida uma expressão feminina do tipo à moda de, à maneira de, a crase é obrigatória: Bife à milanesa, Gols à Pelé.
Com pronomes de tratamento que aceitam artigo (senhora, senhorita, madame), a crase é obrigatória sempre que a preposição a estiver presente, pois o artigo é exigido: Entreguei à senhora.
Em expressões do tipo à uma hora, a crase ocorre porque se trata de hora definida, e não de numeral cardinal comum. O contexto de horário justifica a fusão.
Pontos Essenciais para a Prova
A crase só ocorre quando há a fusão da preposição a com artigo definido feminino (ou pronome iniciado por a). Se faltar qualquer desses elementos, a crase é proibida.
Palavras masculinas, verbos, pronomes pessoais, pronomes de tratamento sem artigo, pronomes indefinidos e demonstrativos que não começam com "a" são ambientes onde a crase não pode ocorrer.
Expressões com palavras repetidas, artigos indefinidos, numerais (exceto horas) e substantivos femininos sem artigo também rejeitam a crase.
O teste de substituição por palavra masculina equivalente continua sendo o método mais prático: se a construção com ao não fizer sentido, a crase é incorreta.
Compreender os casos proibitivos é tão fundamental quanto saber os obrigatórios, pois as bancas costumam explorar justamente as situações em que o candidato, por insegurança, tende a aplicar indevidamente o acento grave.