Segurança internacional contemporânea: dilemas e ameaças - Políticas de Segurança e Defesa | Tuco-Tuco
Aula de Políticas de Segurança e Defesa (Segurança Internacional e Regional): Segurança internacional contemporânea: dilemas e ameaças. Conceito clássico e ampliado de segurança, dilema de segurança, novas ameaças, Escola de Copenhague e securitização. Estude gratuitamente para concursos públicos e OAB no Tuco-Tuco.
Segurança Internacional Contemporânea: Dilemas e Ameaças
O Conceito Clássico de Segurança
A tradição realista das Relações Internacionais, dominante no pensamento estratégico durante a Guerra Fria, concebe a segurança internacional essencialmente como a sobrevivência do Estado em um sistema anárquico, no qual não existe uma autoridade superior capaz de garantir a paz. Nessa perspectiva, os Estados são os atores principais e o poder militar é o instrumento por excelência para dissuadir agressões e defender o território nacional.
Hans Morgenthau, em A Política entre as Nações (Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace, 1948), articulou os fundamentos do realismo clássico, sustentando que a política internacional é governada por leis objetivas enraizadas na natureza humana e que os Estados buscam racionalmente o poder como seu objetivo primário. Para Morgenthau, o interesse nacional definido em termos de poder é o farol que guia a ação externa dos Estados — todas as ações estatais visam manter, demonstrar ou aumentar seu poder relativo. Isso não significa, porém, que Morgenthau descartasse a diplomacia e os limites éticos: o subtítulo de sua obra ("a luta pelo poder e pela paz") já indica sua preocupação com os freios morais e jurídicos que restringem essa luta.
Kenneth Waltz, em Theory of International Politics (1979), refinou essa visão com o realismo estrutural (ou neorrealismo). Para Waltz, o elemento definidor do sistema internacional é sua estrutura anárquica, combinada com a distribuição de capacidades entre as grandes potências. Como não há um governo mundial, cada Estado deve prover sua própria segurança (self-help). As variações na polaridade do sistema (bipolar na Guerra Fria, multipolar em outros períodos) afetam a estabilidade e a probabilidade de conflitos — Waltz, aliás, considerava a bipolaridade mais estável que a multipolaridade, por reduzir a incerteza sobre quem se aliará a quem.
John Mearsheimer, principal expoente do realismo ofensivo, argumenta em The Tragedy of Great Power Politics (2001) que a estrutura anárquica força os Estados a maximizarem seu poder relativo, buscando a hegemonia regional sempre que possível. Como a sobrevivência nunca está garantida, a competição por segurança tende a ser intensa e a gerar conflitos recorrentes entre grandes potências.
Um refinamento importante do realismo estrutural veio de Stephen Walt, em The Origins of Alliances (1987). Contrariando a ideia de que os Estados formam alianças simplesmente para equilibrar o poder (balance of power) de um rival, Walt demonstrou, a partir de casos de alinhamento no Oriente Médio (1955-1979), que os Estados se aliam para equilibrar a ameaça percebida (balance of threat) — que depende não apenas do poder agregado do adversário, mas também de sua proximidade geográfica, de sua capacidade ofensiva e, sobretudo, de suas intenções percebidas como agressivas. Walt também mostrou que o bandwagoning (alinhar-se ao lado mais forte, em vez de se opor a ele) é bem menos frequente que o balancing, ocorrendo principalmente quando o Estado mais fraco não dispõe de aliados disponíveis ou já se encontra em guerra.
O Dilema de Segurança
Um dos conceitos mais poderosos do pensamento realista é o dilema de segurança, cunhado por John H. Herz em seu artigo seminal Idealist Internationalism and the Security Dilemma (World Politics, vol. 2, n. 2, janeiro de 1950, pp. 157-180). O dilema descreve uma situação trágica: um Estado, buscando aumentar sua própria segurança, adota medidas defensivas (como ampliar seu orçamento militar ou adquirir novos armamentos). Essas medidas, porém, são percebidas como ameaçadoras pelos Estados vizinhos, que respondem também aumentando suas capacidades militares. O resultado é uma corrida armamentista que deixa todos os envolvidos mais inseguros do que estavam antes.
Herz via o dilema de segurança como uma consequência praticamente inevitável da anarquia internacional. Não é necessário que um Estado tenha intenções agressivas; basta que seus vizinhos acreditem que ele poderia ter, gerando uma espiral de desconfiança e acúmulo de armas.
Robert Jervis, em Perception and Misperception in International Politics (1976), aprofundou a dimensão psicológica do dilema. Jervis mostrou que as percepções dos líderes — muitas vezes distorcidas por vieses cognitivos, imagens estereotipadas do adversário e informações incompletas — podem agravar o dilema. A dificuldade em distinguir armas ofensivas de defensivas torna ainda mais difícil para um Estado sinalizar que seu rearmamento é puramente defensivo. Jervis também explorou como o security dilemma varia conforme a relação entre ofensiva e defensiva: quando as armas defensivas são facilmente distinguíveis das ofensivas e a defesa tem vantagem sobre o ataque, o dilema se atenua; quando essa distinção é impossível e o ataque tem vantagem, o dilema se intensifica ao máximo.
O fim da Guerra Fria não eliminou o dilema de segurança. Ele persiste em regiões como o Leste Asiático, onde a ascensão militar da China gera reações de contenção e rearmamento por parte de Japão, Coreia do Sul e aliados dos Estados Unidos. O dilema também se manifesta no campo cibernético e espacial, onde capacidades defensivas e ofensivas são muitas vezes indistinguíveis — um satélite de observação civil e um satélite de vigilância militar, por exemplo, podem compartilhar a mesma tecnologia.
O Alargamento e o Aprofundamento do Conceito
Com o fim da Guerra Fria, a agenda de segurança internacional passou por uma profunda transformação. A literatura especializada passou a distinguir dois movimentos complementares: o alargamento (widening) e o aprofundamento (deepening).
3.1 Alargamento (widening)
O alargamento refere-se à inclusão de setores não militares na agenda de segurança. Durante a Guerra Fria, a segurança era quase sinônimo de segurança militar interestatal. A partir dos anos 1980-1990, passou-se a reconhecer que ameaças econômicas, ambientais, sociais e políticas também podem colocar em risco a estabilidade e a sobrevivência das sociedades.
Barry Buzan, em People, States and Fear: The National Security Problem in International Relations (1983, com edição revisada e ampliada em 1991, subtitulada An Agenda for International Security Studies in the Post-Cold War Era), foi o pioneiro dessa ampliação. Buzan propôs uma matriz em que a segurança pode ser analisada em cinco setores interligados, cada um com sua lógica própria:
Militar: o uso ou a ameaça do uso da força armada entre Estados. É o setor clássico, centrado no poderio bélico e nas alianças.
Político: a estabilidade das instituições, a legitimidade do governo, a integridade territorial e a soberania. Inclui ameaças como golpes de Estado, movimentos separatistas e deslegitimação internacional.
Econômico: o acesso a recursos naturais, mercados, financiamento externo e a proteção contra choques econômicos. Crises financeiras, embargos e dependência energética são ameaças típicas.
Societal: a sobrevivência da identidade coletiva — língua, religião, cultura, etnia. Imigração massiva, assimilação forçada e conflitos étnicos são ameaças societais.
Ambiental: a sustentabilidade da biosfera, incluindo mudanças climáticas, escassez de água, desmatamento e desastres naturais. O dano ambiental pode gerar migrações, conflitos por recursos e colapso de Estados.
Posteriormente, em Regions and Powers: The Structure of International Security (2003, com Ole Wæver), Buzan desenvolveu a Teoria dos Complexos Regionais de Segurança (Regional Security Complex Theory), segundo a qual as dinâmicas de segurança se organizam predominantemente em nível regional — grupos de Estados cujas percepções de ameaça e de segurança estão de tal forma interligadas que seus problemas de segurança não podem ser analisados isoladamente uns dos outros. Essa teoria ajuda a explicar, por exemplo, por que a dinâmica de segurança do Oriente Médio ou do Leste Asiático tem lógica própria, distinta da rivalidade entre grandes potências globais.
3.2 Aprofundamento (deepening)
O aprofundamento diz respeito ao deslocamento do objeto referente da segurança: do Estado para outras entidades, como o indivíduo, a comunidade, a humanidade ou o planeta. Se a segurança é a sobrevivência de um objeto referente diante de ameaças existenciais, então o indivíduo (ameaçado pela fome, pela violência ou pela opressão) é tão relevante quanto o Estado (ameaçado pela invasão estrangeira).
O marco mais importante do aprofundamento é o conceito de segurança humana (human security), lançado pelo Relatório de Desenvolvimento Humano de 1994 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), intitulado New Dimensions of Human Security. O relatório deslocou o foco da segurança dos territórios para as pessoas e do armamento para o desenvolvimento, definindo a segurança humana em torno de duas liberdades complementares:
Freedom from want (liberdade em relação à necessidade/carência): proteção contra a fome, a pobreza extrema e a privação de condições básicas de vida.
Freedom from fear (liberdade em relação ao medo): proteção contra a violência física, o conflito armado e a repressão política.
O relatório de 1994 identificou sete dimensões da segurança humana (econômica, alimentar, de saúde, ambiental, pessoal, comunitária e política). Em 2005, o relatório In Larger Freedom, do então Secretário-Geral da ONU Kofi Annan, e a posterior Resolução 66/290 da Assembleia Geral (2012) acrescentaram uma terceira liberdade — a freedom to live in dignity (liberdade para viver com dignidade) — consolidando o chamado "tripé" da segurança humana.
Paralelamente, a Escola de Gales (ou Escola de Aberystwyth), tendo Ken Booth como principal expoente (artigo Security and Emancipation, 1991; e o livro Theory of World Security, 2007), propôs uma abordagem de Estudos Críticos de Segurança que equipara segurança à emancipação: para Booth, o Estado é apenas um meio, não um fim, e a verdadeira segurança consiste em libertar indivíduos e grupos das amarras físicas e humanas que os impedem de exercer suas escolhas — pobreza, opressão política, falta de educação. Essa vertente critica tanto o realismo estatocêntrico quanto a abordagem, mais neutra em termos normativos, da Escola de Copenhague, por entender que a segurança deveria ser um projeto explicitamente emancipatório.
O fundamental aqui é compreender que a segurança deixou de ser uma preocupação exclusiva de estrategistas militares para se tornar um campo multidisciplinar, que dialoga com a economia, a sociologia, a antropologia e as ciências ambientais.
A Escola de Copenhague e a Securitização
A Escola de Copenhague — formada por Barry Buzan, Ole Wæver e Jaap de Wilde — deu uma contribuição teórica decisiva com o conceito de securitização, apresentado em Security: A New Framework for Analysis (1998).
4.1 O que é securitização?
A securitização é o processo pelo qual um tema é retirado da esfera normal da política (onde é debatido segundo regras comuns) e elevado ao patamar de ameaça existencial, justificando a adoção de medidas extraordinárias que rompem temporariamente os procedimentos políticos ordinários.
O processo de securitização é um ato de fala (inspirado na teoria de John L. Austin sobre atos de fala performativos, desenvolvida em How to Do Things with Words, 1962): ao declarar que algo é uma ameaça existencial, o ator securitizador cria essa condição, desde que a audiência relevante (o público, o parlamento, a opinião pública internacional) aceite essa definição. Não basta, portanto, o discurso do ator — a securitização só se completa com a aceitação da audiência, o que distingue uma "jogada de securitização" (securitizing move) bem-sucedida de uma tentativa frustrada.
Os elementos da securitização são:
Ator securitizador: aquele que declara a existência da ameaça (geralmente uma autoridade política, um líder carismático ou uma organização).
Objeto referente: aquilo que está ameaçado e precisa ser protegido (o Estado, a nação, o meio ambiente, a economia).
Ameaça existencial: o perigo identificado, que deve ser percebido como suficientemente grave para justificar a quebra da normalidade.
Audiência: o público que precisa ser convencido da legitimidade da securitização.
4.2 Exemplos de securitização
Guerra ao Terror (pós-11 de setembro de 2001): os ataques terroristas foram apresentados como ameaça existencial à civilização ocidental, justificando restrições a liberdades civis, vigilância em massa, detenções sem julgamento e intervenções militares no Afeganistão e no Iraque.
Narcotráfico na América Latina: a chamada "guerra às drogas" securitizou o tráfico de entorpecentes como ameaça à estabilidade estatal, permitindo a militarização da segurança pública e a cooperação com agências estrangeiras (DEA, CIA).
Mudanças climáticas: cada vez mais apresentadas como multiplicador de ameaças, com propostas — ainda controversas entre os membros da ONU — de tratamento pelo Conselho de Segurança como questão de paz e segurança internacionais.
4.3 Dessecuritização
O processo inverso também é possível: a dessecuritização consiste em devolver o tema ao debate político normal, retirando-lhe o caráter de emergência e as medidas excepcionais. Para a Escola de Copenhague, a dessecuritização é, em geral, desejável, pois a securitização tende a concentrar poder, suprimir o dissenso e justificar a violação de direitos — o ideal normativo dos autores é que temas sejam tratados, sempre que possível, pela política ordinária, e não pela lógica de exceção da segurança.
Novas Ameaças e Conflitos Contemporâneos
O panorama pós-Guerra Fria revelou a ascensão de ameaças que não se enquadram nos moldes tradicionais da guerra interestatal. Essas novas ameaças são frequentemente assimétricas, transnacionais e difusas, operando nas fronteiras entre o crime, a política e a guerra.
5.1 Terrorismo transnacional
Os ataques de 11 de setembro de 2001 demonstraram que atores não estatais (a Al-Qaeda) podem infligir danos catastróficos a superpotências. O terrorismo contemporâneo caracteriza-se por sua estrutura em rede, sua motivação ideológica radical (jihadismo salafista, extremismo de direita) e seu uso de meios não convencionais (ataques suicidas, veículos-bomba, ataques cibernéticos). O Estado Islâmico (ISIS/Daesh) chegou a controlar territórios e declarar um califado na Síria e no Iraque, borrando a fronteira entre terrorismo e insurgência.
5.2 Crime organizado transnacional
Cartéis de drogas, redes de tráfico de armas, redes de tráfico de pessoas e organizações financeiras criminosas operam em escala global, utilizando paraísos fiscais e criptomoedas. Na América Latina, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho ampliaram fortemente sua capilaridade internacional nos últimos anos: hoje mantêm associações documentadas com máfias europeias — como a 'Ndrangheta calabresa — e com grupos criminosos do Oeste da África (Nigéria, Guiné, Angola), consolidando o Brasil como corredor de trânsito da cocaína sul-americana para os mercados europeu, africano e asiático. A infiltração do crime organizado no Estado gera corrupção sistêmica e enfraquece a governança.
5.3 Ameaças cibernéticas
O ciberespaço tornou-se um domínio operacional de conflito. Estados (Rússia, China, Coreia do Norte, EUA) e atores não estatais conduzem operações de espionagem, sabotagem de infraestruturas críticas (redes elétricas, sistemas financeiros), interferência em processos eleitorais e roubo de propriedade intelectual. O ataque de ransomware ao sistema da Colonial Pipeline (Estados Unidos, maio de 2021), atribuído ao grupo criminoso DarkSide, paralisou por vários dias o principal duto de combustíveis da costa leste americana — responsável por cerca de 45% do abastecimento da região —, provocando desabastecimento, compra em pânico e o pagamento de um resgate de aproximadamente US$ 4,4 milhões, parcialmente recuperado depois pelo FBI.
5.4 Ameaças híbridas
O conceito de guerra híbrida ganhou proeminência após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a subsequente guerra no Donbass. Ameaças híbridas combinam meios convencionais (tropas regulares) com irregulares (milícias, mercenários), cibernéticos, informacionais (desinformação, fake news) e econômicos (sanções, coerção energética), operando deliberadamente abaixo do limiar que desencadearia uma resposta militar convencional — por isso também chamadas de ameaças de "zona cinzenta" (grey zone). A OTAN consolidou o conceito em seu Conceito Estratégico de 2022 (Cúpula de Madri), reconhecendo explicitamente as atividades híbridas de Rússia e China como um risco capaz, em tese, de acionar o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte.
5.5 Proliferação de armas de destruição em massa
A proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas permanece uma das ameaças mais graves à segurança internacional, por seu potencial de causar destruição catastrófica e irreversível. O Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em vigor desde 1970, constitui o principal instrumento multilateral de controle, apoiando-se em três pilares: não proliferação, desarmamento e uso pacífico da energia nuclear, fiscalizado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Programas nucleares controversos, como os da Coreia do Norte (que se retirou do TNP em 2003) e do Irã, e o risco de armas químicas e biológicas caírem em mãos de atores não estatais, mantêm esse tema no centro da agenda de segurança — inclusive em sua interseção com o terrorismo, no chamado risco de "terrorismo nuclear" ou "sujo" (dirty bomb).
5.6 "Novas Guerras" de Mary Kaldor
Mary Kaldor, em New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era (1999), argumenta que os conflitos pós-Guerra Fria diferem qualitativamente das guerras clássicas entre Estados. As "novas guerras" caracterizam-se por:
Atores difusos: milícias paramilitares, senhores da guerra, mercenários, grupos criminosos, em vez de exércitos regulares de Estados soberanos.
Motivações identitárias: as guerras são travadas em nome da etnia, religião ou tribo, e não por ideologias políticas universais.
Financiamento pela economia ilícita: contrabando de diamantes, petróleo, madeira, drogas; saqueio de ajuda humanitária; sequestros.
Vitimização de civis: a estratégia deliberada de limpeza étnica, terror contra a população e deslocamento forçado, em oposição às batalhas travadas entre forças militares organizadas.
Kaldor propõe, como resposta política a essas guerras, uma abordagem de realpolitik cosmopolita, baseada na reconstrução do monopólio legítimo da violência em bases transnacionais e na reconceituação da manutenção da paz como uma forma de aplicação da lei em nível cosmopolita — indo além tanto da indiferença realista quanto da intervenção puramente militar.
O Dilema de Segurança Aplicado às Novas Ameaças
O dilema de segurança tradicional opera entre Estados. No entanto, as novas ameaças geram variações do dilema. Medidas de segurança cibernética (como a construção de capacidades ofensivas para dissuadir adversários) podem levar outros Estados a também desenvolverem essas capacidades, gerando uma corrida armamentista cibernética. Da mesma forma, políticas de contraterrorismo agressivas podem produzir mais recrutamento para grupos extremistas, em um ciclo de retroalimentação — fenômeno por vezes chamado de "dilema da segurança e do terror", em que a resposta repressiva do Estado alimenta a própria ameaça que buscava eliminar.
Segurança Cooperativa, Coletiva e Defesa Coletiva
Diante do dilema de segurança, a tradição liberal/institucionalista — cujos fundamentos teóricos foram lançados por Robert Keohane e Joseph Nye em Power and Interdependence (1977), com o conceito de interdependência complexa — propõe que a segurança pode ser buscada por meio da cooperação internacional, e não apenas pela competição. Para Keohane e Nye, a crescente interdependência econômica e institucional entre os Estados reduz os incentivos ao conflito e cria canais múltiplos de interação que transcendem a lógica estritamente militar.
A partir dessa matriz liberal, um conceito mais específico se consolidou no início dos anos 1990: a segurança cooperativa (cooperative security), termo cunhado por Ashton Carter, William Perry e John Steinbruner, no influente estudo A New Concept of Cooperative Security (Brookings Institution, 1992), e desenvolvido também por Janne Nolan. A segurança cooperativa engloba práticas institucionais e diplomáticas — reciprocidade, inclusividade, diálogo, orientação defensiva, transparência e medidas de construção de confiança (CBMs) — com o objetivo de prevenir a guerra ao impedir, de forma consensual, que qualquer Estado reúna meios de agressão bem-sucedida, dispensando os demais de precisar se rearmar em resposta.
Dentro dos arranjos institucionais de segurança, é fundamental distinguir dois modelos clássicos de aliança e gestão de conflitos:
Defesa Coletiva (collective defense): é uma aliança militar voltada para o ambiente externo. O princípio é o de que um ataque armado a um membro da aliança por um ator de fora será considerado um ataque a todos, visando a dissuasão. O exemplo clássico é o Artigo 5º da OTAN.
Segurança Coletiva (collective security): é um pacto voltado para o ambiente interno do sistema. Os Estados membros comprometem-se a não usar a força uns contra os outros e a punir coletivamente qualquer membro da própria comunidade que cometer uma agressão. O foco é policiar o próprio sistema. O exemplo clássico é o sistema de segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), sobretudo o Capítulo VII da Carta, e, historicamente, a Liga das Nações.
Um exemplo intermediário e frequentemente citado de arranjo de segurança cooperativa institucionalizada é a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), herdeira da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE) iniciada em Helsique em 1975, que reúne Estados de origens político-militares distintas (OTAN, ex-Pacto de Varsóvia, Estados neutros) em torno de mecanismos de diálogo, verificação e alerta antecipado.
Por fim, no plano da segurança humana e da proteção de populações civis, consolidou-se desde 2005 a norma da Responsabilidade de Proteger (R2P), endossada por unanimidade pela Assembleia Geral da ONU no Documento Final da Cúpula Mundial daquele ano. A R2P estabelece que todo Estado tem a responsabilidade primária de proteger sua população de quatro crimes de atrocidade em massa — genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e limpeza étnica —; que a comunidade internacional deve auxiliar os Estados a cumprir essa responsabilidade; e que, caso um Estado falhe manifestamente em protegê-la, a comunidade internacional deve estar preparada para agir coletivamente, de forma tempestiva e decisiva, em conformidade com a Carta da ONU. A R2P representa, assim, uma tentativa de conciliar a soberania estatal (base da segurança coletiva clássica) com o aprofundamento da segurança em direção ao indivíduo.
A segurança cooperativa não elimina a competição estratégica, mas oferece canais (como a ONU, a OTAN em sua dimensão de parceria, ou a OSCE) para administrá-la, reduzindo a probabilidade de escalada inadvertida.
Para a prova
Dilema de segurança: conceito de John Herz (1950, World Politics) — medidas defensivas são percebidas como ameaças pelos outros Estados, gerando corrida armamentista; aprofundado psicologicamente por Robert Jervis (1976).
Realismo clássico/estrutural/ofensivo: Morgenthau (interesse definido como poder, 1948), Waltz (estrutura anárquica, self-help, 1979) e Mearsheimer (maximização do poder relativo, 2001); Walt (1987) refina o realismo com a teoria do equilíbrio de ameaças (balance of threat), superando o simples equilíbrio de poder.
Barry Buzan (1983/1991): cinco setores — militar, político, econômico, societal e ambiental. Fundamenta o alargamento da agenda; com Wæver (2003), desenvolve a Teoria dos Complexos Regionais de Segurança.
Escola de Copenhague (Buzan, Wæver, de Wilde, 1998): securitização como ato de fala (inspirado em Austin) que constrói ameaça existencial e justifica medidas extraordinárias, mediante aceitação da audiência; processo inverso é a dessecuritização.
Aprofundamento: deslocamento do objeto referente do Estado para o indivíduo, a comunidade, o planeta. Marco central: segurança humana (PNUD, 1994) — freedom from want, freedom from fear e, desde 2005, freedom to live in dignity. Vertente crítica: Escola de Gales/Aberystwyth (Ken Booth, 1991) — segurança como emancipação.
Mary Kaldor (1999): "novas guerras" — atores difusos, motivações identitárias, financiamento ilícito, vitimização de civis.
Defesa Coletiva vs. Segurança Coletiva: OTAN/Art. 5º (aliança contra ameaça externa) vs. ONU/Cap. VII (pacto de não agressão e punição interna); segurança cooperativa como categoria distinta, cunhada por Carter, Perry e Steinbruner (1992), fundamentada teoricamente no institucionalismo liberal de Keohane e Nye (1977).
Novas ameaças: terrorismo transnacional (11/9/2001, ISIS), crime organizado transnacional (PCC/CV e suas conexões com a 'Ndrangheta e redes do Oeste africano), ameaças cibernéticas (Colonial Pipeline/DarkSide, 2021), guerra híbrida/zona cinzenta (Crimeia 2014, Conceito Estratégico da OTAN de 2022) e proliferação de armas de destruição em massa (TNP, AIEA).
Responsabilidade de Proteger (R2P): Cúpula Mundial da ONU de 2005 — genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e limpeza étnica; três pilares (responsabilidade do Estado, assistência internacional, ação coletiva em caso de falha manifesta).
Exercícios:
Com o fim da Guerra Fria, o conceito de segurança internacional passou a ser entendido de forma multidimensional. Qual das seguintes dimensões NÃO faz parte dos cinco setores propostos por Barry Buzan em sua obra 'People, States and Fear'?
O conceito de securitização, associado à Escola de Copenhague, sugere que a segurança é uma construção intersubjetiva. O que caracteriza esse processo?
Mary Kaldor, em sua análise sobre as 'novas guerras', descreve conflitos que se diferenciam dos antigos. Qual das seguintes características NÃO é atribuída por Kaldor às novas guerras?
O dilema de segurança, conforme discutido por John Herz em 1950, refere-se a um fenômeno onde:
Qual das seguintes opções melhor descreve o conceito de 'segurança cooperativa' proposto por autores liberais como Robert Keohane e Joseph Nye?
As ameaças híbridas, conceito popularizado pela OTAN após a anexação da Crimeia em 2014, são caracterizadas por:
Hans Morgenthau, em "A Política entre as Nações", sustenta que o interesse nacional definido em termos de poder é o principal guia da ação externa dos Estados, mas reconhece que a diplomacia e os limites éticos podem restringir a busca pelo poder.
Kenneth Waltz, no realismo estrutural, argumenta que a distribuição de capacidades entre as grandes potências é irrelevante para a estabilidade do sistema internacional, pois o único fator determinante é a anarquia do sistema.
Stephen Walt, em "The Origins of Alliances", demonstrou que os Estados formam alianças para equilibrar a ameaça percebida, levando em conta não apenas o poder agregado do adversário, mas também sua proximidade geográfica, capacidade ofensiva e intenções agressivas.
John Mearsheimer, no realismo ofensivo, sustenta que a estrutura anárquica do sistema internacional força os Estados a maximizarem seu poder relativo, buscando a hegemonia regional sempre que possível, o que gera conflitos recorrentes entre grandes potências.
No conceito clássico de segurança, predominante durante a Guerra Fria, a segurança internacional é concebida como a sobrevivência do Estado em um sistema hierárquico, no qual existe uma autoridade superior capaz de garantir a paz.
Para Hans Morgenthau, todas as ações estatais visam manter, demonstrar ou aumentar o poder relativo, mas a política internacional também pode ser limitada por freios morais e jurídicos.
Stephen Walt, na obra "The Origins of Alliances", utilizou casos de alinhamento na Europa durante a Guerra Fria para demonstrar sua teoria do 'balance of threat'.
Kenneth Waltz, no realismo estrutural, considerava a multipolaridade mais estável que a bipolaridade, pois um maior número de grandes potências reduz a incerteza sobre alianças e equilibra o poder de forma mais eficaz.
O realismo estrutural de Kenneth Waltz afirma que, em um sistema anárquico, cada Estado deve prover sua própria segurança (self-help), e a distribuição de capacidades entre as grandes potências afeta a probabilidade de conflitos.
John Mearsheimer, em "The Tragedy of Great Power Politics", argumenta que a competição por segurança entre grandes potências tende a ser moderada porque a sobrevivência dos Estados está amplamente garantida no sistema internacional.
Complete a frase: Para Kenneth Waltz, a __________ é a condição fundamental do sistema internacional que leva os Estados a seguirem a lógica do self-help.
Complete a frase: Em sua obra 'The Tragedy of Great Power Politics', John Mearsheimer defende que os Estados são levados a buscar a __________ regional sempre que possível.
Complete a frase: Stephen Walt, em 'The Origins of Alliances', sustenta que os Estados formam alianças para equilibrar a __________ percebida, e não apenas o poder.
Complete a frase: Para Stephen Walt, a percepção de ameaça depende, entre outros fatores, da __________ geográfica do adversário.
Complete a frase: Kenneth Waltz considerava a __________ mais estável que a multipolaridade, por reduzir a incerteza sobre alianças.
Complete a frase: Mearsheimer argumenta que a competição por segurança entre grandes potências tende a gerar __________ recorrentes.
Complete a frase: Para Stephen Walt, a percepção de ameaça é influenciada, entre outros fatores, pelas __________ agressivas percebidas do adversário.
Complete a frase: Na visão de Hans Morgenthau, o interesse nacional é definido em termos de __________.
Complete a frase: Para Kenneth Waltz, a condição anárquica do sistema força cada Estado a prover sua própria __________.
Complete a frase: Hans Morgenthau acreditava que a política internacional é governada por leis objetivas enraizadas na __________.