Debate latino-americano de segurança: realismo periférico e Mohammed Ayoob - Políticas de Segurança e Defesa | Tuco-Tuco
Aula de Políticas de Segurança e Defesa (Segurança Internacional e Regional): Debate latino-americano de segurança: realismo periférico e Mohammed Ayoob. O pensamento sul-americano sobre segurança: Carlos Escudé, Holsti, Mohammed Ayoob, dilema de segurança no Sul, doutrinas brasileiras. Estude gratuitamente para concursos públicos e OAB no Tuco-Tuco.
O Debate Latino-Americano de Segurança e Defesa
Por que um pensamento próprio sobre segurança?
Os países do Sul Global — e, em particular, os da América do Sul — enfrentam uma realidade securitária distinta daquela que moldou as teorias dominantes das Relações Internacionais (Realismo e Liberalismo), forjadas na experiência europeia de disputa entre grandes potências. Suas principais ameaças raramente são invasões interestatais; predominam fragilidades internas, violência urbana, crime organizado transnacional, desigualdades estruturais e desafios de consolidação estatal. Além disso, a margem de manobra desses Estados no sistema internacional é limitada pela assimetria de poder em relação aos centros hegemônicos. Por isso, desenvolveram-se correntes teóricas que buscam explicar a segurança a partir da periferia, com destaque para o realismo subalterno, o realismo periférico e as doutrinas geopolíticas brasileiras — um corpo de pensamento que, somado às teorizações sobre complexos regionais de segurança, oferece as chaves de leitura mais adequadas para compreender a segurança e a defesa na América do Sul.
Mohammed Ayoob e o Realismo Subalterno
Mohammed Ayoob, professor indiano radicado nos Estados Unidos (Michigan State University), formulou o conceito de realismo subalterno (subaltern realism) principalmente em The Third World Security Predicament: State Making, Regional Conflict, and the International System (1995). Para Ayoob, as teorias realistas tradicionais (Morgenthau, Waltz) são úteis, porém insuficientes para explicar a realidade dos Estados do Terceiro Mundo, pois foram construídas a partir da experiência das potências europeias que já concluíram seu processo de formação estatal.
2.1 A centralidade da construção do Estado
No Primeiro Mundo, o problema central de segurança é a soberania externa — proteger-se de outros Estados em um sistema anárquico. Já no Terceiro Mundo, o problema premente é a construção do Estado e da nação (state-building e nation-building). A maioria desses Estados é fruto da descolonização e possui fronteiras artificiais, instituições frágeis, múltiplas etnias e legitimidade contestada. Sua principal ameaça não é a invasão estrangeira, mas a desintegração interna: insurgências separatistas, conflitos étnicos, golpes de Estado e colapso institucional.
Ayoob argumenta que o processo de construção estatal no Terceiro Mundo é incompleto, violento e acelerado, diferentemente do longo e gradual processo europeu. Essa fragilidade torna os Estados terceiro-mundistas mais propensos a conflitos internos do que a guerras interestatais — um argumento que ele viria a sistematizar, em textos posteriores, sob o rótulo de "realismo subalterno" propriamente dito, em diálogo crítico com a Escola de Copenhague e com os estudos críticos de segurança.
2.2 Implicações para o conceito de segurança
A segurança desses Estados está ligada à capacidade de consolidar o monopólio legítimo da força e de construir lealdade nacional.
A soberania não é um dado, mas um objetivo ainda em construção.
Ayoob alerta para o risco de o discurso da "segurança humana" ser usado por potências ocidentais como justificativa para intervir nos Estados periféricos, minando ainda mais sua soberania e repetindo, sob nova roupagem, a lógica intervencionista que a própria tradição latino-americana sempre rechaçou.
Kalevi Holsti e as Guerras Intra-Estatais
O finlandês Kalevi J. Holsti, professor da University of British Columbia, em The State, War, and the State of War (Cambridge University Press, 1996), trouxe um importante complemento empírico ao debate. Holsti demonstrou, com extensa base de dados sobre os conflitos armados ocorridos entre 1945 e 1995, que a esmagadora maioria das guerras da segunda metade do século XX foram guerras intra-estatais ("guerras de terceiro tipo", em sua terminologia), e não guerras entre Estados — um padrão histórico que ele contrasta com os séculos de conflitos interestatais analisados em seu trabalho anterior, Peace and War: Armed Conflicts and International Order, 1648-1989 (1991). Esses conflitos giram em torno de questões de legitimidade, identidade e território — exatamente os déficits de state-building apontados por Ayoob.
Holsti propôs uma tipologia de Estados baseada no grau de legitimidade institucional:
Estados fortes: alta legitimidade, instituições consolidadas, capacidade de resolver disputas pacificamente.
Estados fracos: baixa legitimidade, corrupção endêmica, incapacidade de prover serviços básicos.
Estados falidos: perda do monopólio da violência legítima, território fragmentado, colapso institucional.
O próprio Holsti dedicou um capítulo específico de sua obra à análise da América do Sul como uma anomalia interessante: uma região historicamente livre de guerras interestatais generalizadas, mas que ainda assim convive com fragilidades internas de legitimidade estatal. A análise de Holsti desloca, assim, o foco da segurança internacional da geopolítica clássica para a engenharia institucional doméstica — um tema central na América Latina contemporânea.
Carlos Escudé e o Realismo Periférico
O argentino Carlos Escudé propôs, a partir de fins dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, o realismo periférico, uma doutrina de política externa pensada para Estados de pequeno e médio porte que não podem aspirar à autonomia estratégica plena frente às grandes potências.
4.1 Pressupostos do realismo periférico
Os Estados periféricos não possuem capacidade de desafiar as grandes potências nos temas de "alta política" (segurança estratégica, questões nucleares, ordem internacional). Tentativas de afrontamento geram custos desproporcionais e isolamento diplomático e econômico.
A política externa deve concentrar-se nos temas de "baixa política" — economia, comércio, investimentos — nos quais as potências estão dispostas a negociar de forma mais horizontal.
O objetivo central deve ser o desenvolvimento econômico e a melhoria das condições de vida da população, não a afirmação política ou o prestígio no cenário internacional, considerados custos desnecessários ("vaidades diplomáticas") para um país sem poder real de barganha.
4.2 Aplicação e críticas
O realismo periférico foi a base ideológica da política externa argentina sob Carlos Menem (1989-1999), caracterizada pelo alinhamento automático com os Estados Unidos, a adesão ao Consenso de Washington, a privatização de estatais e a participação argentina na Guerra do Golfo (1991). Embora tenha gerado estabilidade macroeconômica por um período (viabilizada em boa parte pelo Plano de Conversibilidade de 1991), o modelo resultou em desindustrialização e vulnerabilidade externa, sendo alvo de críticas por sua passividade estratégica e perda de margem de manobra diplomática — a crise argentina de 2001 é frequentemente apontada por seus críticos como o desfecho dessa vulnerabilidade acumulada. O Brasil, em contraste, buscou historicamente uma inserção internacional mais diversificada e autônoma, herdeira da tradição diplomática do Barão do Rio Branco e sistematizada, no plano estratégico-militar, pelas doutrinas geopolíticas examinadas a seguir.
Tradições Brasileiras de Pensamento Estratégico
O Brasil possui uma das mais ricas tradições de pensamento geopolítico do Sul Global. Antes mesmo dos autores mais conhecidos, Everardo Backheuser publicou, ainda na década de 1920, os primeiros estudos sistemáticos de geopolítica no país; mas foi a geração de militares ligados à Escola Superior de Guerra (ESG), fundada em 1949, que consolidou essa tradição como corpo doutrinário coerente sobre a ocupação do território e a projeção do poder nacional.
5.1 Mário Travassos: Projeção Continental do Brasil
O militar Mário Travassos (1891-1973) publicou, em 1935, a obra que consolidou sua fama como pioneiro da geopolítica brasileira: Projeção Continental do Brasil (originalmente lançada em 1931 sob o título Aspectos Geográficos Sul-Americanos, e renomeada a partir da segunda edição). Nela, Travassos transpôs o conceito de heartland de Mackinder para o contexto sul-americano, situando no altiplano boliviano o coração continental disputado por Brasil e Argentina. Principais ideias:
Adaptando o conceito mackinderiano de heartland para a América do Sul, Travassos identificou no planalto boliviano uma região pivô, cujo controle logístico definiria a hegemonia continental entre Brasil e Argentina.
Identificou o triângulo econômico boliviano (Cochabamba-Santa Cruz de la Sierra-Sucre) como área de influência natural e de interesse estratégico brasileiro, cuja vinculação aos portos do Atlântico (em vez de Buenos Aires) neutralizaria o avanço argentino.
Defendeu a articulação rodoferroviária transversal do Brasil (o "Brasil Longitudinal") e a necessidade de conectar a vertente amazônica à vertente platina, de modo a "soldar" o Brasil Amazônico ao Brasil Platino.
Destacou a importância de um eixo Manaus-Caribe, projetando a influência brasileira pela Amazônia em direção à Venezuela e às Guianas, e alertou para a competição geopolítica com a Argentina na Bacia do Prata e para a influência dos Estados Unidos na região do Caribe e dos Andes.
A visão de Travassos influenciou diretamente geopolíticos posteriores como Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos, e é hoje frequentemente associada, ainda que sem comprovação documental direta, à lógica por trás de grandes eixos de integração física continental como os da IIRSA/COSIPLAN.
5.2 Golbery do Couto e Silva: Geopolítica do Brasil
O General Golbery do Couto e Silva (1911-1987), ideólogo do regime militar e um dos fundadores da doutrina da ESG, publicou em 1967 sua obra mais influente, Geopolítica do Brasil, que sistematizou o pensamento estratégico brasileiro em conceitos que permanecem centrais até hoje.
Hemiciclos: para pensar a defesa continental do Brasil, Golbery dividiu o globo em dois grandes hemiciclos concêntricos a partir do território nacional. O hemiciclo interior corresponde essencialmente às Américas: nele, Golbery não vislumbrava ameaças estruturais relevantes — a leste, o Atlântico Sul isolava o Brasil da África; ao norte, os Estados Unidos figuravam como parceiro natural dentro do ideário pan-americanista; ao sul, a Antártida não oferecia riscos. Já o hemiciclo exterior — que reúne a costa leste da África, a Ásia, a Europa e a Oceania — era, para o autor, a fonte potencial dos principais perigos e disputas de poder que poderiam projetar-se sobre o continente americano.
Fronteiras vivas: Golbery distingue as "fronteiras mortas" — linhas no mapa que ninguém ocupa efetivamente — das fronteiras vivas: faixas de território efetivamente povoadas e integradas ao projeto nacional, capazes de se autodefender e de irradiar presença estatal. Um vazio demográfico na fronteira é, nessa lógica, um "vazio de poder" suscetível de penetração externa; caberia ao Estado povoá-lo, desenvolvê-lo e integrá-lo ao corpo nacional.
Segurança e desenvolvimento: a célebre máxima golberyana — "não há segurança sem desenvolvimento, nem desenvolvimento sem segurança" — resume a indissociabilidade entre a capacidade militar de proteger o território e a capacidade econômica de gerar riqueza. Esse binômio foi a base da aliança entre tecnocratas civis e militares durante o regime, e orientou grandes projetos de integração nacional (rodovias, colonização da Amazônia, polos industriais na fronteira).
Golbery foi também o arquiteto do Sistema Nacional de Informações (SNI) e de parte da estrutura de inteligência e segurança do regime. Sua obra é, ao mesmo tempo, referência incontornável do pensamento estratégico brasileiro e objeto de críticas, por seu vínculo direto com a Doutrina de Segurança Nacional e o autoritarismo do período 1964-1985.
5.3 Carlos de Meira Mattos: O Brasil Potência Regional
O General Carlos de Meira Mattos (1913-2007), autor de Brasil: Geopolítica e Destino (1975) — entre outras obras, como A Geopolítica e as Projeções do Poder (1977) e Uma Geopolítica Pan-Amazônica (1980) —, desenvolveu a noção do Brasil como potência emergente com dupla vocação:
Atlântica: o Brasil é um país marítimo por excelência, com mais de 8.500 km de costa. A defesa das linhas de comunicação marítimas e a projeção sobre o Atlântico Sul são vitais — vocação que décadas depois encontraria expressão institucional na Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), criada em 1986 por iniciativa brasileira (Resolução 41/11 da Assembleia Geral da ONU), reunindo países sul-americanos e africanos do entorno atlântico.
Amazônica: a Amazônia é o grande desafio geopolítico do país, demandando presença militar, integração física e desenvolvimento sustentável, sem abrir mão da soberania nacional sobre a região diante de pressões por "internacionalização".
Meira Mattos também analisou as relações com os vizinhos — em especial a Argentina e o Paraguai — e defendeu uma liderança brasileira na América do Sul, baseada no peso territorial, populacional e econômico do país, mas exercida com prudência e respeito à autodeterminação dos demais Estados da região.
5.4 A Doutrina da Escola Superior de Guerra (ESG)
Criada pela Lei nº 785, de 20 de agosto de 1949, sob influência das experiências do National War College norte-americano, a ESG desenvolveu uma doutrina própria — a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento — centrada nos seguintes conceitos:
Objetivos Nacionais Permanentes (ONP): metas de longo prazo que transcendem governos e conjunturas políticas, e que estariam enraizadas na constituição e na identidade nacional (integridade territorial, soberania, desenvolvimento e, após a redemocratização, também a democracia).
Poder Nacional: a capacidade de o Estado mobilizar recursos para alcançar os ONP. O Poder Nacional se expressa em cinco expressões, estruturantes desde a formulação original da doutrina esguiana:
1. Política
2. Econômica
3. Militar
4. Psicossocial
5. Científico-tecnológica
A doutrina apregoa que o desenvolvimento nacional deve ser equilibrado entre essas cinco expressões, sob pena de vulnerabilidade estratégica — ecoando, no plano doutrinário, o mesmo binômio segurança-desenvolvimento formulado por Golbery.
Particularidades Sul-Americanas
A América do Sul apresenta um panorama securitário singular, que a distingue de outras regiões do Sul Global:
Baixa probabilidade de guerra interestatal: a região é frequentemente descrita como uma zona de paz desde a Guerra do Chaco, travada entre Bolívia e Paraguai (1932-1935) pela disputa do Chaco Boreal — o maior e mais sangrento conflito armado internacional da América do Sul no século XX. O último conflito interestatal de vulto foi o Conflito do Cenepa, entre Equador e Peru, em 1995. Não há disputas territoriais de grande intensidade na região, e mecanismos diplomáticos regionais — historicamente a OEA e, mais recentemente, iniciativas como a UNASUL e o MERCOSUL — têm administrado as tensões remanescentes.
Predominância de ameaças não militares: narcotráfico, crime organizado transnacional, garimpo ilegal, migrações forçadas, violência urbana e crimes ambientais constituem as principais preocupações contemporâneas de segurança na região — um quadro que se encaixa diretamente no diagnóstico de Ayoob e Holsti sobre a primazia das ameaças internas nos Estados do Sul Global.
Soberania e não intervenção como valores centrais: a tradição latino-americana sempre rechaçou intervenções estrangeiras, com destaque para a Doutrina Drago (1902) — formulada pelo chanceler argentino Luis María Drago em resposta ao bloqueio naval imposto à Venezuela por potências europeias, sustentando a ilicitude do uso da força para cobrança de dívidas públicas — e para a Cláusula Calvo, que veda a um Estado estrangeiro invocar proteção diplomática em favor de seus nacionais em litígios contratuais com o Estado receptor. Os princípios de não intervenção e autodeterminação seguem como pilares da OEA e, mais recentemente, da CELAC.
Relações civis-militares em evolução: o legado de regimes militares (Brasil, 1964-1985; Argentina, 1976-1983; Chile, 1973-1990) marcou profundamente o desenho institucional da defesa na região. No Brasil, o Ministério da Defesa só foi criado em 1999 (Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999), unificando os antigos Ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica — um marco tardio do processo gradual de consolidação do controle civil sobre as Forças Armadas.
Institucionalização da cooperação em defesa: além dos mecanismos diplomáticos gerais, a região desenvolveu arranjos específicos para temas de defesa e recursos estratégicos compartilhados, como o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), criado em dezembro de 2008 no âmbito da UNASUL por iniciativa brasileira, como instância de consulta, cooperação e coordenação em matéria de defesa entre os países sul-americanos, e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que teve origem no Tratado de Cooperação Amazônica de 1978 e foi transformada em organização internacional com secretaria permanente a partir da decisão dos oito países amazônicos em 1995.
O Complexo Regional de Segurança Sul-Americano
Barry Buzan e Ole Wæver, em Regions and Powers: The Structure of International Security (Cambridge University Press, 2003), propuseram a noção de Complexo Regional de Segurança (RSC) para designar um conjunto de Estados cujas percepções e preocupações de segurança estão tão profundamente interligadas que não podem ser analisadas isoladamente, sendo cada RSC delimitado por padrões de interação securitária mais intensos internamente do que com o exterior. A América do Sul constitui um RSC próprio dentro dessa tipologia, caracterizado por uma baixa polarização interna, com o Brasil como potência centroide — um Estado com capacidades desproporcionalmente maiores que seus vizinhos, mas sem ambições imperialistas e, historicamente, atuando como mediador e estabilizador regional.
O RSC sul-americano é marcado pela presença de atores extrarregionais (principalmente os Estados Unidos), pelo vínculo estreito entre segurança e desenvolvimento — no qual a tradição golberyana se reconhece plenamente — e pela proliferação de instituições cooperativas (OEA, UNASUL/CDS, MERCOSUL, OTCA, ZOPACAS) que tentam gerenciar as ameaças transnacionais típicas da região.
A Faixa de Fronteira na Jurisprudência do STF
A centralidade da faixa de fronteira para o pensamento geopolítico brasileiro repercutiu diretamente na jurisprudência constitucional. A Constituição de 1988 define, em seu art. 20, § 2º, a faixa de fronteira como a área de até 150 km de largura ao longo das fronteiras terrestres, considerada fundamental para a defesa do território nacional e sujeita a regulação legal específica quanto à sua ocupação e utilização — herança direta da doutrina das "fronteiras vivas".
No julgamento da Pet 3.388/RR (caso Raposa Serra do Sol), o Supremo Tribunal Federal, ao decidir pela demarcação em área contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, situada na fronteira com a Venezuela e a Guiana, estabeleceu salvaguardas institucionais em nome da soberania nacional. O acórdão, relatado pelo Ministro Carlos Ayres Britto (Tribunal Pleno, julgado em 19/03/2009, DJe-181, divulgado em 24/09/2009 e publicado em 25/09/2009), embora tenha rejeitado a tese de que terras indígenas em faixa de fronteira constituiriam, por si só, risco à soberania nacional, fixou dezenove condicionantes para a execução da decisão, entre as quais se destacam:
O usufruto das riquezas do solo, dos rios e dos lagos existentes nas terras indígenas pertence à União, ressalvadas as situações de garimpo, que dependem de autorização do Congresso Nacional.
As Forças Armadas e a Polícia Federal têm livre trânsito, instalação e atuação na área, independentemente de consulta prévia às comunidades indígenas ou à FUNAI.
A defesa da faixa de fronteira — nos termos do art. 20, § 2º, da CF/88 — deve ser compatibilizada com o usufruto indígena, prevalecendo o interesse da defesa nacional em situações de conflito ou de necessidade estratégica.
É importante registrar que, em embargos de declaração julgados em 23/10/2013 (Rel. Min. Roberto Barroso, DJe-023, divulgado em 03/02/2014), o próprio STF esclareceu que essas dezenove condicionantes não têm efeito vinculante em relação a outras demarcações de terras indígenas, aplicando-se, em princípio, apenas ao caso concreto da Raposa Serra do Sol.
Esse julgado é emblemático porque concretiza juridicamente o conceito de "fronteiras vivas" de Golbery: a faixa de fronteira é tratada como um espaço de soberania fortalecida, no qual a presença militar, a proteção ambiental e os direitos das comunidades indígenas devem coexistir sob a supervisão da União.
Para a prova
Mohammed Ayoob: realismo subalterno (The Third World Security Predicament, 1995) — ameaças primárias são internas (state-building), não interestatais. Risco de manipulação do discurso da segurança humana por potências externas.
Kalevi Holsti: The State, War, and the State of War (1996) — maioria dos conflitos pós-1945 são intra-estatais ("guerras de terceiro tipo"). Tipologia: Estados fortes, fracos e falidos.
Carlos Escudé: realismo periférico — subordinação nos temas de alta política e foco no desenvolvimento econômico. Aplicado pelo governo Menem na Argentina (1989-1999).
Mário Travassos: Projeção Continental do Brasil (1935) — heartland boliviano, triângulo econômico Cochabamba-Santa Cruz-Sucre, eixo Manaus-Caribe, "Brasil Longitudinal".
Golbery do Couto e Silva: Geopolítica do Brasil (1967) — hemiciclos interior e exterior, fronteiras vivas, binômio segurança-desenvolvimento.
Carlos de Meira Mattos: Brasil: Geopolítica e Destino (1975) — Brasil como potência regional, com vocação atlântica (ZOPACAS, 1986) e amazônica.
Doutrina ESG (fundada em 1949): Objetivos Nacionais Permanentes e as cinco expressões do Poder Nacional — política, econômica, militar, psicossocial e científico-tecnológica.
América do Sul: zona de paz desde a Guerra do Chaco (1932-1935); último conflito interestatal relevante, o Cenepa (1995); ameaças predominantemente não militares; soberania e não intervenção (Doutrina Drago, 1902; Cláusula Calvo) como valores centrais; Ministério da Defesa brasileiro só criado em 1999; institucionalização via CDS/UNASUL (2008) e OTCA (1995).
Complexo Regional de Segurança (Buzan & Wæver, Regions and Powers, 2003): Brasil como potência centroide de baixa polarização.
STF, Pet 3.388/RR (Raposa Serra do Sol*, julgado em 19/03/2009): livre trânsito das Forças Armadas na faixa de fronteira independentemente de consulta prévia, soberania da União sobre recursos estratégicos, dezenove condicionantes sem efeito vinculante a outras demarcações (confirmado em embargos de declaração de 2013).
Exercícios:
De acordo com Mohammed Ayoob, qual é a principal característica da segurança nos Estados em formação do Terceiro Mundo?
Segundo Kalevi Holsti, qual foi a tendência mais significativa dos conflitos armados na segunda metade do século XX?
No contexto do realismo periférico de Carlos Escudé, qual é a recomendação para a política externa de Estados de pequeno e médio porte?
Qual é a principal contribuição de Mário Travassos para o pensamento estratégico brasileiro?
A Doutrina da Escola Superior de Guerra (ESG) é baseada em quais expressões do Poder Nacional?
Como a América do Sul é caracterizada em relação à probabilidade de guerras interestatais, segundo o conteúdo estudado?
Os países do Sul Global, especialmente da América do Sul, enfrentam ameaças securitárias distintas das que moldaram as teorias dominantes das Relações Internacionais, sendo mais comuns fragilidades internas, violência urbana e crime organizado transnacional do que invasões interestatais.
Mohammed Ayoob é um professor paquistanês que desenvolveu a corrente teórica do realismo periférico.
No realismo subalterno de Mohammed Ayoob, a principal preocupação de segurança dos Estados do Terceiro Mundo é a construção do Estado e da nação, e não a soberania externa.
Ayoob argumenta que o processo de construção estatal no Terceiro Mundo é incompleto, violento e acelerado, diferentemente do longo e gradual processo europeu.
Segundo Ayoob, as teorias realistas tradicionais são totalmente inadequadas para explicar a realidade dos Estados do Terceiro Mundo.
O realismo periférico é mencionado no texto como uma das correntes que, junto com o realismo subalterno e as doutrinas geopolíticas brasileiras, oferece chaves de leitura adequadas para a segurança na América do Sul.
Para Ayoob, a ameaça predominante nos Estados do Terceiro Mundo são as invasões estrangeiras por parte de potências vizinhas.
A Escola de Copenhague é o principal referencial teórico adotado por Ayoob em sua obra 'The Third World Security Predicament'.
O conceito de 'soberania externa' é o problema central de segurança para os Estados do Primeiro Mundo, segundo a análise de Ayoob.
A obra principal de Mohammed Ayoob, 'The Third World Security Predicament: State Making, Regional Conflict, and the International System', foi publicada em 2005.
Complete a frase: A margem de manobra dos Estados do Sul Global no sistema internacional é limitada pela _____ em relação aos centros hegemônicos.
Complete a frase: Para Mohammed Ayoob, o problema central de segurança no Terceiro Mundo é a _____.
Complete a frase: O conceito de realismo subalterno foi formulado por Mohammed Ayoob em sua obra _____.
Complete a frase: Segundo o realismo subalterno, a principal ameaça à segurança dos Estados do Terceiro Mundo é a _____.
Complete a frase: Diferentemente do processo europeu, a construção estatal no Terceiro Mundo é _____.
Complete a frase: Para Mohammed Ayoob, a segurança dos Estados terceiro-mundistas está diretamente ligada à capacidade de _____.
Complete a frase: As teorias dominantes das Relações Internacionais foram forjadas na experiência europeia de _____.
Complete a frase: Mohammed Ayoob é um professor indiano radicado na _____.
Complete a frase: Devido à fragilidade institucional, os Estados terceiro-mundistas são mais propensos a _____ do que a guerras interestatais.
Complete a frase: O realismo periférico é uma corrente que busca explicar a segurança a partir da _____.