Análise de funções dadas por frações polinomiais e seus gráficos, incluindo assíntotas.
Guia definitivo: funções racionais e a geometria das assíntotas
1) O que é uma função racional (e por que ela é cobrada com tanta força)
Uma função racional é uma função definida como o quociente (razão) entre dois polinômios:
$
f(x)=\frac{P(x)}{Q(x)}
$
em que $P(x)$ e $Q(x)$ são polinômios e, obrigatoriamente, $Q(x)\neq 0$ para que a expressão faça sentido.
Em provas de alto nível, funções racionais aparecem porque concentram, em um único objeto, vários temas importantes:
Domínio e restrições (evitar divisão por zero).
Fatoração e simplificação algébrica (identificar cancelamentos, zeros e singularidades).
Limites e comportamento assintótico (entender o que acontece “perto do proibido” e “no infinito”).
Leitura e esboço de gráfico sem calculadora ou software.
Equações e inequações com atenção ao conjunto verdade (soluções estranhas).
O que é e o que não é função racional
Para reconhecer rapidamente:
É racional quando numerador e denominador são polinômios em $x$:
$f(x)=\frac{1}{x}$
$g(x)=\frac{x+2}{x^2-4}$
$h(x)=\frac{3x^2-7x+1}{5x-10}$
Não é racional se aparecer algo que não é polinômio (no numerador ou no denominador):
radicais: $\frac{\sqrt{x}+1}{x-2}$
exponenciais: $\frac{2^x}{x+1}$
logaritmos: $\frac{\ln x}{x^2+1}$
trigonométricas: $\frac{\sin x}{x}$
Observação importante: uma expressão como $\frac{x^2+3x}{4}$ pode ser vista como racional (pois é quociente de polinômios), mas é usualmente tratada como polinomial, já que o denominador é constante e não cria restrições de domínio nem assíntotas verticais. Em termos de análise de gráfico e domínio, ela se comporta como uma parábola reescalada.
Classificação por graus (uma “bússola” para o infinito)
Seja:
$m=\deg(P)$ (grau do numerador)
$n=\deg(Q)$ (grau do denominador)
A comparação entre $m$ e $n$ determina o comportamento quando $x\to \pm\infty$:
Função própria: $m<n$
O grau do numerador é menor que o do denominador. Neste caso, quando $x\to \pm\infty$, o denominador cresce mais rápido, fazendo com que o limite da função seja $0$. Isso resulta em uma assíntota horizontal em $y=0$.
Ex.: $\displaystyle f(x)=\frac{5x-7}{3x^3+2x-5}$.
Função imprópria: $m\ge n$
Pode ser reescrita por divisão polinomial.
Ex.: $\displaystyle g(x)=\frac{3x^2+4x-1}{x^2+x-2}$.
Essa comparação é essencial porque antecipa assíntota horizontal ou oblíqua (ou nenhuma delas), e direciona o esboço do gráfico.
2) Domínio: a regra número 1 antes de qualquer coisa
Em questões de gráfico, o erro mais comum é começar a fatorar e “cancelar” sem registrar o que é proibido. Para função racional,
$
\text{Domínio} = \{x\in \mathbb{R} \mid Q(x)\neq 0\}.
$
Protocolo de exclusão (passo a passo)
Isole o denominador $Q(x)$.
Resolva $Q(x)=0$.
Exclua essas raízes do domínio:
$D=\mathbb{R}\setminus\{a,b,\dots\}$
Pegadinha clássica: “cancelou, então pode?”
Não. Mesmo que um fator se cancele algébricamente, o ponto que zera o denominador original continua proibido.
Exemplo:
$
f(x)=\frac{(x-1)(x+2)}{(x-1)(x-3)}.
$
Denominador zera em $x=1$ e $x=3$.
Mesmo que a simplificação dê $\displaystyle f(x)=\frac{x+2}{x-3}$ para $x\neq 1$, o ponto $x=1$ não entra no domínio.
Isso gera uma descontinuidade removível (um buraco) em $x=1$ e uma assíntota vertical em $x=3$.
Regra de ouro: primeiro anote as restrições do domínio; depois simplifique.
3) Assíntotas: o “esqueleto” que guia o gráfico
Assíntotas são retas que descrevem como a curva se comporta perto de pontos proibidos (assíntotas verticais) e no infinito (horizontais ou oblíquas).
3.1) Assíntota vertical (AV)
Em geral, $x=a$ é assíntota vertical quando:
$Q(a)=0$ e
após simplificação, o fator $(x-a)$ permanece no denominador (não cancelou).
Então,
$
\lim{x\to a^-} f(x)=\pm\infty \quad \text{e/ou} \quad \lim{x\to a^+} f(x)=\pm\infty.
$
Como decidir se vai para $+\infty$ ou $-\infty$ (sem “chute”)
Use uma análise de sinal bem objetiva:
Escolha um valor ligeiramente menor que $a$ (lado esquerdo) e um valor ligeiramente maior que $a$ (lado direito).
Determine o sinal do numerador e do denominador nesses pontos.
Se a fração é positiva e o denominador está “tendendo a zero” por valores positivos, a tendência é $+\infty$; se a fração é negativa, tende a $-\infty$.
Exemplo simples:
$
f(x)=\frac{1}{x-2}.
$
$x=2$ é AV.
Se $x\to 2^-$, então $x-2<0$ e $f(x)\to -\infty$.
Se $x\to 2^+$, então $x-2>0$ e $f(x)\to +\infty$.
Essa análise evita um erro recorrente: inverter os ramos no desenho.
3.2) Assíntota horizontal (AH)
A assíntota horizontal descreve:
$
\lim{x\to \pm\infty} f(x).
$
A regra prática vem do confronto de graus ($m$ e $n$):
Se $m<n$:
$\lim{x\to\pm\infty} \frac{P(x)}{Q(x)}=0 \Rightarrow \text{AH: } y=0.$
Se $m=n$:
$\lim{x\to\pm\infty} \frac{P(x)}{Q(x)}=\frac{am}{bn} \Rightarrow \text{AH: } y=\frac{am}{bn},$
onde $am$ e $bn$ são os coeficientes líderes.
Se $m>n$:
não há assíntota horizontal (a função cresce sem “estabilizar” numa constante).
Pegadinha: quando $m=n$, ignore termos de menor grau no infinito. O que manda é o quociente dos coeficientes líderes.
3.3) Assíntota oblíqua (AO)
Quando $m=n+1$, existe assíntota oblíqua (uma reta inclinada) obtida por divisão polinomial:
$
\frac{P(x)}{Q(x)} = (ax+b) + \frac{R(x)}{Q(x)}, \quad \deg(R)<\deg(Q).
$
Como $\displaystyle \lim{x\to \pm\infty}\frac{R(x)}{Q(x)}=0$, a curva se aproxima de:
$
\text{AO: } y=ax+b.
$
Observação: se $m\ge n+2$, a divisão polinomial pode gerar uma assíntota polinomial de grau maior (parabólica etc.). Em vestibulares tradicionais, o foco costuma ser horizontal e oblíqua.
4) Buracos (descontinuidades removíveis) e pontos notáveis
4.1) Buraco (hole)
Um buraco ocorre quando existe um fator comum $(x-a)$ no numerador e no denominador, e ele é cancelado:
$
f(x)=\frac{(x-a)\,U(x)}{(x-a)\,V(x)} \quad (x\neq a).
$
O ponto $x=a$ não pertence ao domínio.
Não vira assíntota vertical (porque o fator sumiu do denominador após simplificar).
No gráfico, aparece uma bolinha aberta em $(a,\,y0)$.
Como achar a coordenada do buraco
Simplifique cancelando o fator comum.
Calcule o valor da função simplificada em $x=a$:
$
y0=\lim{x\to a} f(x)=\frac{U(a)}{V(a)}.
$
Isso é o “valor que faltou” no gráfico.
4.2) Interseções com os eixos
Interseção com o eixo $y$
É $f(0)$, se $0\in D$.
Se $0$ zera o denominador, não existe interseção com o eixo $y$.
Interseção com o eixo $x$ (zeros)
Resolva $P(x)=0$.
Mas apenas raízes que pertencem ao domínio contam.
Pegadinha:
Se uma raiz de $P(x)$ coincide com uma raiz de $Q(x)$, ela não é intercepto real (vira buraco).
5) Esboço de gráfico: um algoritmo confiável (sem improviso)
Algoritmo prático (roteiro de prova)
Domínio: resolva $Q(x)=0$ e exclua.
Fatoração e simplificação: identifique fatores comuns (buracos).
Assíntotas: verticais, horizontais e/ou oblíquas.
Pontos notáveis: interceptos com $x$ e $y$.
Sinais e comportamento: analise intervalos do domínio e lados das AV.
Rascunho final: desenhe assíntotas tracejadas e posicione os ramos coerentemente.
Aplicação completa: $\displaystyle f(x)=\frac{9x^2-36}{3x^2-3}$
1) Domínio
Denominador:
$
3x^2-3=0 \Rightarrow x^2=1 \Rightarrow x=\pm 1.
$
Logo:
$
D=\mathbb{R}\setminus\{-1,1\}.
$
2) Fatoração e simplificação
Fatore:
Numerador: $9x^2-36=9(x^2-4)=9(x-2)(x+2)$
Denominador: $3x^2-3=3(x^2-1)=3(x-1)(x+1)$
Então:
$
f(x)=\frac{9(x-2)(x+2)}{3(x-1)(x+1)}=3\cdot\frac{(x-2)(x+2)}{(x-1)(x+1)}.
$
Não há fatores comuns, então:
não há buracos.
3) Assíntotas
Verticais: onde o denominador zera (e não cancelou):
$x=1$ e $x=-1$.
Horizontal: como $m=n=2$, é o quociente dos coeficientes líderes:
$
y=\frac{9}{3}=3.
$
Logo:
AH: $y=3$.
4) Interseções
Eixo $y$:
$
f(0)=\frac{-36}{-3}=12 \Rightarrow (0,12).
$
Eixo $x$:
$
9x^2-36=0 \Rightarrow x^2=4 \Rightarrow x=\pm 2.
$
Como $\pm 2\in D$, há interceptos:
$(2,0)$ e $(-2,0)$.
5) Sinais e comportamento perto das AV
Use a forma fatorada:
$
f(x)=3\cdot\frac{(x-2)(x+2)}{(x-1)(x+1)}.
$
Divida a reta real em intervalos pelos pontos críticos $-2,-1,1,2$ (e lembre que $-1$ e $ não pertencem ao domínio):
$(-\infty,-2)$
$(-2,-1)$
$(-1,1)$
$(1,2)$
$(2,\infty)$
Agora analise sinais (escolhendo um ponto teste em cada intervalo):
Em $x=-3$:
$(x-2)(x+2)$ é $( -5)(-1)>0$
$(x-1)(x+1)$ é $(-4)(-2)>0$
$f(x)>0$
Em $x=-1.5$:
$(x-2)(x+2)=(-3.5)(0.5)<0$
$(x-1)(x+1)=(-2.5)(-0.5)>0$
$f(x)<0$
Em $x=0$:
$(x-2)(x+2)=(-2)(2)<0$
$(x-1)(x+1)=(-1)(1)<0$
$f(x)>0$ (coerente com $f(0)=12$)
Em $x=1.5$:
$(x-2)(x+2)=(-0.5)(3.5)<0$
$(x-1)(x+1)=(0.5)(2.5)>0$
$f(x)<0$
Em $x=3$:
$(x-2)(x+2)=(1)(5)>0$
$(x-1)(x+1)=(2)(4)>0$
$f(x)>0$
Com isso você sabe onde o gráfico está acima/abaixo do eixo $x$ e como atravessa os zeros.
Para o comportamento lateral nas AV:
Perto de $x=1$:
Se $x\to 1^-$, então $(x-1)<0$ e $(x+1)>0$; o denominador tende a $0^-$.
Avaliando o numerador em torno de 1: $(1-2)(1+2)=(-1)(3)<0$.
Quociente: negativo dividido por $0^-$ dá $+\infty$.
Logo $\displaystyle \lim{x\to 1^-} f(x)=+\infty$.
Se $x\to 1^+$, denominador tende a $0^+$ e o numerador continua negativo perto de 1.
Então $\displaystyle \lim_{x\to 1^+} f(x)=-\infty$.
Analogia semelhante pode ser feita em $x=-1$.
6) Montagem do esboço
Trace as retas pontilhadas: $x=-1$, $x=1$ e $y=3$.
Marque os pontos: $(-2,0)$, $(2,0)$, $(0,12)$.
Desenhe os ramos respeitando:
sinais em cada intervalo
explosões para $\pm\infty$ perto das AV
aproximação de $y=3$ quando $|x|$ é grande
Uma checagem rápida de consistência: como $y=3$ é AH, os ramos mais à esquerda e mais à direita devem se aproximar dessa altura, por cima ou por baixo dependendo do sinal de $f(x)-3$ em grandes valores de $|x|$.
6) Equações racionais: conjunto verdade é parte da solução
Resolver uma equação racional exige que você trate duas coisas:
Restrições do domínio (o que não pode).
Condição algébrica (o que zera a expressão).
Caso fundamental: fração igual a zero
Se:
$
\frac{P(x)}{Q(x)}=0,
$
então necessariamente:
$P(x)=0$ e
$Q(x)\neq 0$.
Ou seja: resolva $P(x)=0$, e depois elimine as raízes que anulam $Q(x)$.
Técnica geral (quando há várias frações)
Para equações do tipo:
$
\frac{A(x)}{B(x)}=\frac{C(x)}{D(x)}
$
Roteiro seguro:
Liste as restrições: $B(x)\neq 0$ e $D(x)\neq 0$.
Traga para um lado: $\displaystyle \frac{A(x)}{B(x)}-\frac{C(x)}{D(x)}=0$.
Faça o denominador comum (MMC polinomial):
$
\frac{A(x)D(x)-C(x)B(x)}{B(x)D(x)}=0.
$
Resolva o numerador:
$
A(x)D(x)-C(x)B(x)=0.
$
Filtre as soluções pelo domínio (remova soluções que zerem $B$ ou $D$).
Erro fatal (muito cobrado)
Multiplicar a equação toda pelo denominador sem registrar as restrições pode introduzir soluções estranhas.
Checklist rápido para não errar:
Antes de qualquer multiplicação, escreva: “$B(x)\neq 0$” (e demais denominadores).
No final, teste cada solução no denominador original.
Se algum denominador zera, descarte.
Vídeo Complementar
Segue uma vídeo aula sobre o tema, disponibilizada no Youtube, de um professor que não é vinculado ao Tuco-Tuco, mas que achamos interessante para que você possa complementar seus estudos:
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