Gestão por resultados e gestão por desempenho – Gestão Governamental e Métodos Aplicados | Tuco-Tuco
Nova Gestão Pública, gestão por resultados (GpR), cadeia de valor de resultados, contratos de gestão e ciclo de desempenho.
Gestão por Resultados e Gestão por Desempenho no Setor Público
Introdução e contexto histórico
A Administração Pública brasileira passou por profundas transformações ao longo do século XX e início do século XXI, migrando de um modelo patrimonialista para o burocrático weberiano e, posteriormente, para o paradigma gerencial. A gestão por resultados (GpR) é a materialização mais concreta desse último movimento, deslocando o foco da ação estatal dos meios (processos, normas e conformidade) para os fins (entregas, impactos e valor público).
Neste material, aprofundaremos os fundamentos, instrumentos, dimensões de desempenho e desafios da gestão por resultados, sempre com ênfase no contexto brasileiro e nos marcos normativos que lhe dão sustentação.
A Nova Gestão Pública (New Public Management)
A Nova Gestão Pública (NGP) surgiu a partir dos anos 1980 e 1990, inicialmente no Reino Unido (governo Thatcher) e na Nova Zelândia, como reação à rigidez e ineficiência do modelo burocrático tradicional. O acadêmico britânico Christopher Hood (1991) sistematizou seus pilares doutrinários:
Desagregação do serviço público em unidades especializadas e autônomas;
Gestão profissionalizada e discricionária, com metas claras;
Ênfase em controles de resultados (outputs/outcomes), não apenas de procedimentos;
Introdução de mecanismos de mercado (competição, contratualização);
Uso de indicadores de desempenho explícitos e mensuráveis;
Disciplina e parcimônia no uso de recursos.
No Brasil, a NGP inspirou a Reforma Gerencial de 1995, conduzida pelo então Ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira com o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (PDRAE). O PDRAE propunha a transição do Estado burocrático para o Estado gerencial, distinguindo quatro setores de atuação (núcleo estratégico, atividades exclusivas, serviços não exclusivos e produção de bens e serviços), com foco em descentralização, autonomia e responsabilização por resultados.
Fundamentos da Gestão por Resultados (GpR)
A Gestão por Resultados (também conhecida como Results-Based Management – RBM) é uma abordagem de gestão que orienta todo o ciclo das políticas públicas — planejamento, execução, monitoramento e avaliação — para a obtenção de resultados mensuráveis e transformadores na sociedade. Em vez de se contentar com o cumprimento de normas e procedimentos, a GpR pergunta: que mudança real foi produzida na vida das pessoas?
Princípios centrais da GpR:
Foco no cidadão: o destinatário final da ação pública é o centro das atenções; valor público é a medida última de sucesso.
Definição de objetivos e metas claros: todos os níveis da organização devem saber exatamente o que se espera em termos de entregas.
Autonomia com accountability**: os gestores ganham discricionariedade para decidir sobre os meios, mas são responsabilizados pelos resultados.
Tomada de decisão baseada em evidências: avaliações e dados empíricos orientam a formulação e a correção de rumos.
Cultura de desempenho: a organização cria incentivos (positivos e negativos) alinhados ao alcance das metas pactuadas.
A Cadeia de Valor de Resultados (Logic Model)
A representação mais clássica da GpR é a cadeia de valor de resultados, também chamada de logic model ou teoria do programa. Ela desdobra a ação estatal em cinco elos sequenciais, que facilitam desenhar, monitorar e avaliar políticas:
Insumos (inputs): recursos financeiros, humanos, materiais, equipamentos, normativos. Ex.: professores contratados, salas de aula construídas.
Atividades (processos): ações realizadas com os insumos para produzir as entregas. Ex.: aulas ministradas, capacitações realizadas.
Produtos (outputs): bens e serviços imediatamente gerados pela política. Ex.: alunos matriculados, vacinas aplicadas.
Resultados (outcomes): efeitos diretos de curto e médio prazo sobre o público-alvo. Ex.: aumento da taxa de alfabetização, redução da mortalidade infantil.
Impactos (impacts): efeitos estruturais de longo prazo sobre a sociedade como um todo. Ex.: elevação do nível educacional da força de trabalho, melhoria da qualidade de vida.
A grande vantagem desse encadeamento é permitir a construção de indicadores específicos para cada nível, evitando que a gestão se limite a contar produtos e ignorar o que de fato mudou na realidade social.
As Dimensões de Desempenho – Os Seis “E”
No Brasil, a referência mais consolidada para avaliação do desempenho no setor público é o conjunto conhecido como 6 Es do desempenho, sistematizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). As dimensões são:
Eficiência: relação entre os produtos gerados e os insumos consumidos; fazer mais com menos recursos. Ex.: custo por aluno atendido.
Eficácia: grau de alcance das metas previamente estabelecidas (fazer o que foi planejado). Ex.: percentual de cobertura vacinal atingido.
Efetividade: impacto real sobre o problema público; a transformação líquida atribuível à política. Ex.: redução da mortalidade por causas evitáveis em decorrência da vacinação.
Economicidade: aquisição de insumos ao menor custo, sem perda de qualidade, garantindo a melhor relação custo-benefício no momento da compra.
Excelência: conformidade a padrões de qualidade ou de atendimento ao cidadão.
Execução: implementação das ações conforme o planejamento físico e financeiro.
Destes, os três primeiros (eficiência, eficácia e efetividade) são os mais cobrados em concursos. Uma distinção mnemônica frequente: eficiência preocupa-se com o “como” (meios), eficácia com o “quanto” (metas) e efetividade com o “para quê” (mudança social).
Contratos de Gestão e Acordos de Resultados
Um dos mecanismos essenciais da GpR é a contratualização de resultados, materializada nos contratos de gestão e acordos de resultados. Têm fundamento constitucional no art. 37, §8º da CF/88, introduzido pela Emenda Constitucional nº 19/1998, que dispõe:
“A autonomia gerencial, orçamentária e financeira dos órgãos e entidades da administração direta e indireta poderá ser ampliada mediante contrato, a ser firmado entre seus administradores e o poder público, que tenha por objeto a fixação de metas de desempenho para o órgão ou entidade...”
Esse dispositivo permite que órgãos públicos formalizem pactos com o governo central, ganhando maior flexibilidade de gestão (dispensa de licitações em certos casos, simplificação de processos) em troca de compromissos de resultados mensuráveis. A Lei nº 9.637/1998 (Organizações Sociais) e a Lei nº 9.790/1999 (OSCIPs) operacionalizaram, respectivamente, os contratos de gestão com OS e os termos de parceria com OSCIPs.
Além dos contratos de gestão, há acordos de resultados entre órgãos e seus superiores hierárquicos, ou entre níveis de governo, estabelecendo metas de desempenho institucional e indicadores. O Decreto nº 9.203/2017, que dispõe sobre a política de governança da administração pública federal, reforça a necessidade de mecanismos de remuneração e incentivo baseados em resultados.
O Ciclo de Desempenho e o PDCA
A gestão do desempenho é um processo cíclico que se alimenta de feedback constante. A ferramenta universal para isso é o ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), originário dos trabalhos de Walter Shewhart e William Deming:
Plan (planejar): diagnosticar a situação, definir objetivos claros, metas SMART (específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes, com prazo) e indicadores.
Do (executar): implementar as ações conforme o plano, com os recursos alocados.
Check (verificar): monitorar e avaliar os resultados obtidos, comparando-os com as metas.
Act (agir): corrigir desvios, padronizar acertos e iniciar um novo ciclo de melhoria.
No setor público, o PDCA é aplicado desde o nível estratégico (PPA, planos setoriais) até o operacional (planos de trabalho individuais). A avaliação de desempenho institucional (ex.: gratificações vinculadas a metas de equipe) e individual (avaliação 360°, metas pessoais) concretiza o “Check” e o “Act”.
Desafios e armadilhas da GpR
Embora poderosa, a gestão por resultados não está imune a disfunções. A literatura alerta para diversos riscos:
Lei de Goodhart: “quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida”. Ou seja, a busca obsessiva por um indicador pode distorcer o comportamento e comprometer a qualidade real.
Gaming: manipulação intencional dos números para “bater metas”. Ex.: selecionar apenas casos fáceis para atender (cream-skimming), recusar os mais complexos, ou registrar serviços não prestados.
Efeito McNamara: focar apenas naquilo que é mensurável, negligenciando dimensões importantes não quantificadas (equidade, satisfação subjetiva, confiança institucional).
Fragmentação: quando cada unidade persegue seus próprios indicadores, pode ocorrer perda da visão sistêmica e sobreposição de esforços.
Complexidade dos problemas públicos: muitos desafios sociais são wicked problems (problemas perversos), que não se resolvem com metas lineares simples.
A boa prática exige combinar a GpR com avaliações qualitativas, participação dos stakeholders e mecanismos robustos de controle de integridade.
Instrumentos de GpR no setor público brasileiro
O Brasil conta com um arcabouço normativo que incorporou a lógica de resultados:
PPA – Plano Plurianual (art. 165, §1º, CF/88): define diretrizes, objetivos e metas regionais para um período de quatro anos, constituindo o planejamento estratégico do governo federal. Desde 2000, o PPA passou a ser estruturado em programas finalísticos com indicadores.
LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias: anualmente, estabelece metas e prioridades e orienta a LOA, devendo conter, desde a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), Anexo de Metas Fiscais e Anexo de Riscos Fiscais.
LOA – Lei Orçamentária Anual: fixa as despesas e prevê as receitas, devendo alinhar-se ao PPA e à LDO.
Contratos de gestão (art. 37, §8º, CF; Lei 9.637/98): pactos com entidades da administração indireta ou organizações sociais, com metas de desempenho e contrapartidas de autonomia.
Acordos de resultados: instrumentos internos de pactuação entre órgãos e o ministério supervisor, prevendo metas e eventuais gratificações.
Painéis de indicadores: plataformas como o Painel do Cidadão, Tesouro Gerencial, Transferegov e Painéis dos PPAs permitem transparência e monitoramento contínuo.
Integração com a gestão por competências e com a avaliação de políticas
A GpR não vive isolada. Ela se articula com:
Gestão por competências: a definição de resultados esperados orienta o mapeamento de competências individuais e organizacionais necessárias. O desenvolvimento de pessoas (PNDP – Decreto nº 9.991/2019) passa a ser guiado pelas lacunas de competências que comprometem a entrega dos resultados.
Avaliação ex ante e ex post: a análise de impacto regulatório (AIR) e as avaliações de programas (CMAP – Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas) retroalimentam o ciclo, permitindo ajustes baseados em evidências.
Governança pública: o Decreto nº 9.203/2017 estabelece a política de governança com princípios como capacidade de resposta, integridade, confiabilidade, melhoria regulatória, prestação de contas e transparência, todos indissociáveis da gestão por resultados.
Exemplos e palavras-chave para a prova
Resultados versus Produtos: um programa de capacitação forma 1.000 servidores (produto), mas o resultado esperado é a melhoria da qualidade dos serviços públicos. O indicador de resultado medirá a satisfação do cidadão, a redução de erros, etc.
*Eficiência versus Eficácia versus Efetividade: uma campanha de vacinação pode ser eficaz (atinge a meta de 90% da população), eficiente (custo mínimo por dose aplicada), mas não efetiva se, apesar da cobertura, a doença persiste devido a falhas na imunização.
A reforma do aparelho do Estado (PDRAE, 1995) e a EC 19/1998 são marcos históricos da introdução da eficiência como princípio constitucional e da abertura para contratualização de resultados.
Manter a coerência entre planejamento estratégico, orçamento e execução, com indicadores claros e monitoramento constante, é a essência da administração gerencial moderna. A gestão por resultados não é uma “receita”, mas uma cultura a ser construída diariamente nas organizações públicas.