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Gestão por competências – Gestão Governamental e Métodos Aplicados | Tuco-Tuco

Conceito de competência (CHA), modelo Le Boterf/Zarifian/Fleury, ciclo da gestão por competências, PNDP e Decreto 11.069/2022.

Gestão por Competências Introdução e evolução do conceito A gestão por competências é uma abordagem de administração de pessoas que se consolidou a partir da década de 1990 como resposta às limitações dos modelos tradicionais baseados em cargos. Em vez de descrever rigidamente as tarefas de um posto de trabalho e remunerar o ocupante por sua posição hierárquica, a gestão por competências busca alinhar as capacidades individuais e coletivas à estratégia organizacional, valorizando a entrega e a contribuição efetiva para os resultados. O conceito de competência migrou da psicologia e da administração para o setor público brasileiro a partir dos anos 2000, impulsionado pela necessidade de profissionalização, eficiência e orientação para resultados. A primeira normatização veio com o Decreto 5.707/2006, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento de Pessoal (PNDP) e, de forma embrionária, incorporou a noção de competências. Desde então, o arcabouço normativo evoluiu para um modelo estruturado, consolidado atualmente no Decreto 9.991/2019. Definições de competência 2.1 A tríade CHA (Conhecimentos, Habilidades e Atitudes) A definição mais difundida no Brasil decompõe a competência em três dimensões: Conhecimentos (saber): o domínio cognitivo, a informação organizada, os conceitos, as teorias, as técnicas adquiridas por estudo formal ou experiência. Ex.: conhecer a legislação previdenciária, dominar a metodologia de gerenciamento de projetos. Habilidades (saber fazer): a capacidade de aplicar o conhecimento na prática, de executar procedimentos, de operar ferramentas. Ex.: conduzir uma negociação, elaborar uma planilha orçamentária, redigir um parecer técnico. Atitudes (querer fazer): a predisposição para agir, os valores, a postura diante dos desafios. Ex.: proatividade, resiliência, comprometimento ético, disposição para trabalhar em equipe. A essa tríade costuma-se acrescentar o E de entrega ou o R de resultados (CHAE / CHAR), enfatizando que a competência só se realiza quando essas dimensões se transformam em ação concreta que agrega valor. 2.2 Abordagem francesa: Le Boterf e Zarifian A corrente francesa, muito influente nos concursos brasileiros, enfatiza a natureza dinâmica e contextual da competência: Philippe Zarifian define competência como “tomar iniciativa e assumir responsabilidade diante de situações profissionais com as quais se confronta”. A competência não é estoque de conhecimentos, mas a capacidade de mobilizá-los diante de imprevistos. Guy Le Boterf distingue “ter competência” (possuir recursos) de “ser competente” (saber agir e reagir com pertinência). A competência resulta da combinação de três eixos: a pessoa (biografia, socialização), a formação e a experiência profissional. 2.3 Contribuição norte-americana: McClelland e Spencer & Spencer David McClelland (1973), no artigo seminal Testing for competence rather than for intelligence, criticou os testes de QI como preditores de sucesso profissional e propôs a avaliação por competências observáveis. Lyle e Signe Spencer desenvolveram o modelo do iceberg: a parte visível (conhecimentos e habilidades) é mais fácil de desenvolver; a parte submersa (autoconceito, traços de personalidade e motivações) é mais profunda e prediz melhor o desempenho de longo prazo. 2.4 Definição brasileira de referência: Fleury e Fleury Maria Tereza Leme Fleury e Afonso Carlos Corrêa Fleury, em artigo clássico de 2001, propuseram a definição mais cobrada em provas: “Competência: um saber agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos e habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo.” Nessa concepção, a competência é indissociável do contexto e do reconhecimento pelos pares e pela organização. Tipologia das competências 3.1 Competências organizacionais e individuais Competências organizacionais: atributos coletivos que diferenciam a organização e lhe conferem vantagem competitiva. São as core competences de Prahalad e Hamel (1990), que as definem como o aprendizado coletivo da organização, especialmente sobre como coordenar habilidades de produção e integrar múltiplos fluxos de tecnologia. No setor público, são as capacidades que permitem ao órgão cumprir sua missão institucional (ex.: capacidade de fiscalização, capacidade de formulação de políticas). Competências individuais: combinação de CHA que o servidor mobiliza em seu trabalho. 3.2 Outras categorizações Competências essenciais (core competences): as que realmente diferenciam a organização. Hamel e Prahalad as comparam às raízes de uma árvore: delas derivam os produtos e serviços. Competências funcionais: específicas de uma área (ex.: competências jurídicas, contábeis, de TI). Competências gerenciais: próprias de quem exerce função de liderança (ex.: capacidade de desenvolver pessoas, de gerir conflitos, de tomar decisões sob pressão). Competências transversais: comuns a vários cargos ou áreas (ex.: comunicação, trabalho em equipe, ética). *Competências técnicas (hard skills) e comportamentais (soft skills). O ciclo da gestão por competências O modelo de gestão por competências é cíclico e se alimenta de retroalimentação contínua. As etapas típicas são: Mapeamento das competências necessárias: com base no planejamento estratégico, identificam-se as competências organizacionais e, a partir delas, desdobram-se as competências individuais requeridas para cada cargo ou função. Diagnóstico das competências existentes: avalia-se o repertório atual dos servidores, por meio de avaliação de desempenho, autoavaliação, avaliação 360°, testes de proficiência e entrevistas. Identificação dos gaps** (lacunas): distância entre as competências necessárias e as existentes. Os gaps são o insumo principal para o planejamento de ações de desenvolvimento. Plano de ação: recrutamento, seleção, capacitação, alocação e mobilidade interna. Captação e desenvolvimento: execução de programas de treinamento, trilhas de aprendizagem, mentorias, educação formal (mestrados, doutorados), job rotation. Avaliação de desempenho por competências: aferição do grau de entrega e do desenvolvimento das competências. Acompanhamento e retroalimentação: revisão periódica das competências mapeadas, em função de mudanças estratégicas e de contexto. Subsistemas de RH alinhados a competências A gestão por competências funciona como eixo integrador de todos os subsistemas de gestão de pessoas: Recrutamento e seleção: provas e entrevistas estruturadas para aferir competências, com uso de entrevistas comportamentais com perguntas baseadas no método STAR (Situação, Tarefa, Ação, Resultado). Treinamento e desenvolvimento (T&D): programas de capacitação desenhados para fechar os gaps identificados. O Plano de Desenvolvimento de Pessoas (PDP), consolidado no Decreto 9.991/2019, materializa esse alinhamento. Avaliação de desempenho: instrumentos que medem tanto os resultados quanto as competências demonstradas. A avaliação 360° (múltiplas fontes) é especialmente útil para captar competências comportamentais. Plano de carreira e sucessão: mapeamento de competências para identificar sucessores e preparar lideranças. Remuneração por competências: ainda pouco difundida no setor público brasileiro, mas presente em algumas gratificações de desempenho (ex.: GDPGPE, GDESN). Gestão do conhecimento: a espiral SECI de Nonaka e Takeuchi ensina como o conhecimento tácito se converte em explícito e vice-versa, nutrindo as competências organizacionais. Espiral do conhecimento — Nonaka e Takeuchi (1995) Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi propuseram o modelo SECI, que descreve como o conhecimento é criado e convertido nas organizações: Socialização (tácito → tácito): compartilhamento de experiências por interação direta (ex.: mentorias, job rotation, observação). Externalização (tácito → explícito): articulação do conhecimento tácito em conceitos, metáforas e documentos (ex.: elaborar um manual de boas práticas a partir da experiência de um servidor sênior). Combinação (explícito → explícito): integração de diferentes conhecimentos explícitos em bancos de dados, relatórios (ex.: consolidar normativos esparsos em um guia único). Internalização (explícito → tácito): incorporação do conhecimento à prática diária, tornando-o tácito novamente (ex.: treinamento seguido de aplicação prática). A gestão por competências no setor público brasileiro 7.1 Evolução normativa Decreto 5.707/2006: instituiu a primeira Política Nacional de Desenvolvimento de Pessoal (PNDP), prevendo a adequação das competências requeridas dos servidores aos objetivos institucionais. Foi o embrião da gestão por competências no serviço público federal. Decreto 9.991/2019: revogou o Decreto 5.707/2006 e estabeleceu o marco vigente da PNDP. Trouxe como obrigatoriedade a elaboração do Plano de Desenvolvimento de Pessoas (PDP), de periodicidade anual e alinhado ao planejamento estratégico de cada órgão. Introduziu conceitos como trilhas de aprendizagem, ações de desenvolvimento em serviço e definiu competência como o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes necessários ao desempenho das funções, com foco na entrega e alcance dos objetivos institucionais. Decreto 11.443/2023: institui a Política Nacional de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade no âmbito do Poder Executivo Federal e dialoga com a gestão por competências ao exigir que o PDP contemple ações de sensibilização e formação em diversidade. 7.2 Instrumentos e instituições PDP — Plano de Desenvolvimento de Pessoas: documento que cada órgão elabora anualmente, contendo o diagnóstico de competências, os gaps e as ações de desenvolvimento propostas. ENAP — Escola Nacional de Administração Pública: principal executora de capacitação por competências no âmbito federal, oferecendo desde cursos de curta duração até programas de mestrado profissional alinhados às necessidades estratégicas do Estado. Escolas de governo: conjunto de instituições (ENAP, ILB, escolas do Judiciário, estaduais e municipais) que compõem o Sistema de Escolas de Governo da União. Educação corporativa e universidades corporativas A educação corporativa supera o paradigma do treinamento pontual. Não se trata apenas de oferecer cursos, mas de gerir estrategicamente a aprendizagem contínua, integrando-a às metas organizacionais. Exemplos no setor público: Universidade Corporativa do Banco do Brasil, Universidade Petrobras (antes da privatização de ativos), Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e Academias de Polícia. O conceito de universidade corporativa pressupõe um ecossistema de aprendizagem que inclui autoinstrução, comunidades de prática, curadoria de conteúdo e parcerias com instituições de ensino superior. Comunidades de prática (Wenger) Etienne Wenger desenvolveu o conceito de comunidades de prática (CoPs): grupos de pessoas que compartilham um interesse ou uma paixão por algo que fazem e aprendem a fazê-lo melhor por meio da interação regular. No serviço público, CoPs podem ser organizadas em torno de temas como análise de dados, fiscalização de contratos ou elaboração de pareceres jurídicos, promovendo a socialização do conhecimento tácito. Capital intelectual (Stewart) Thomas Stewart propôs que o capital intelectual de uma organização é composto por três dimensões: Capital humano: competências, conhecimentos e habilidades dos indivíduos. Capital estrutural: processos, sistemas, bancos de dados, propriedade intelectual. É o que permanece na organização quando os empregados vão embora. Capital de relacionamento: rede de relações com cidadãos, fornecedores, parceiros e outras instituições. Desafios e críticas Rigidez normativa: o regime jurídico único dos servidores, com cargos definidos em lei, dificulta a flexibilização de trajetórias de carreira baseadas puramente em competências. Dificuldade de mensuração: competências comportamentais são difíceis de aferir objetivamente, e avaliações mal desenhadas podem gerar subjetivismo e favorecimento. Remuneração variável limitada: a vinculação da remuneração a competências esbarra no princípio da legalidade e na reserva de lei para a fixação de vencimentos. Risco do “checklist”: reduzir a gestão por competências a um exercício burocrático de preenchimento de planilhas, sem impacto real no desenvolvimento das pessoas e na entrega de resultados. Para a prova Fleury e Fleury: competência = saber agir responsável e reconhecido, mobilizar e integrar recursos, agregando valor econômico e social. CHA: Conhecimento (saber), Habilidade (saber fazer), Atitude (querer fazer). CHAE/R incorpora Entrega/Resultado. Hamel e Prahalad: core competences (competências essenciais). McClelland (1973): pioneiro; Le Boterf e Zarifian: abordagem francesa. PNDP atual e PDP = Decreto 9.991/2019. Nonaka e Takeuchi: espiral SECI (socialização, externalização, combinação, internalização). Wenger: comunidades de prática; Stewart: capital intelectual (humano, estrutural, de relacionamento).