Saussure e Wittgenstein - linguagem como sistema e como prática – Filosofia | Tuco-Tuco
Signo linguístico (significante/significado); arbitrariedade; valor e diferenças; língua e fala (Saussure — noções). Crítica ao ‘sentido fixo’; significado como
Saussure e Wittgenstein - linguagem como sistema e como prática
Introdução: Por que a linguagem se torna central na filosofia?
Ao longo do século XX, a filosofia passou por uma verdadeira revolução linguística. Questões tradicionais sobre o ser, o conhecimento e a ética passaram a ser reformuladas como questões sobre a linguagem. Compreender como a linguagem funciona – como ela significa, como nos permite comunicar, como estrutura nosso pensamento – tornou-se condição prévia para qualquer investigação filosófica. Dois pensadores são fundamentais nessa virada: o linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857–1913) e o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889–1951). Embora partam de tradições diferentes, ambos oferecem ferramentas essenciais para analisar a linguagem em sua complexidade.
No ENEM e nos vestibulares, os conceitos de Saussure e Wittgenstein aparecem frequentemente em questões de interpretação de texto, análise de propaganda, charges e discursos. Dominar essas noções permite ao aluno ir além do sentido literal e captar os mecanismos de produção de significado, as ambiguidades e as estratégias persuasivas.
Ferdinand de Saussure: a língua como sistema
2.1 O contexto: nasce a linguística moderna
Antes de Saussure, os estudos da linguagem eram predominantemente históricos e comparativos (filologia). Saussure propôs uma nova abordagem: estudar a língua como um sistema em si mesmo, em um dado momento (perspectiva sincrônica), em vez de apenas sua evolução no tempo (diacronia). Seu Curso de Linguística Geral (publicado postumamente em 1916 por seus alunos) tornou-se o marco fundador da linguística moderna e influenciou profundamente a filosofia, a antropologia e a teoria literária.
2.2 Língua e fala
Saussure distingue dois aspectos da linguagem:
Língua (langue): é o sistema social, abstrato e compartilhado de signos e regras que permite a comunicação. É um produto social, depositado na mente de cada falante, mas exterior ao indivíduo. Exemplo: a gramática, o vocabulário, as regras fonológicas do português.
Fala (parole): é o ato individual, concreto, de usar a língua. Cada enunciado particular, com suas variações, hesitações e criações momentâneas, pertence à fala.
Essa distinção permite a Saussure focar no estudo da língua como objeto sistemático, deixando a fala para outras disciplinas. A língua é o que torna a comunicação possível; a fala é a sua realização contingente.
2.3 O signo linguístico: significante e significado
Para Saussure, a unidade básica da língua é o signo linguístico, composto por dois elementos indissociáveis:
Significante: a imagem acústica, a forma material do signo (os sons, as letras). Não é o som físico em si, mas a representação psíquica desse som.
Significado: o conceito, a ideia associada ao significante.
O signo é a união entre um significante e um significado. Por exemplo, a palavra “árvore” (significante) evoca o conceito de árvore (significado). É importante notar que o signo não conecta uma palavra a uma coisa do mundo, mas sim a um conceito. A relação com o objeto real é posterior e mediada pelo conceito.
2.4 A arbitrariedade do signo
Uma das teses mais importantes de Saussure é a arbitrariedade do signo: não há nenhuma relação natural, necessária ou motivada entre o significante e o significado. A sequência de sons “árvore” poderia ser qualquer outra; é apenas uma convenção social. Prova disso é que diferentes línguas usam significantes distintos para o mesmo conceito: tree (inglês), arbre (francês), Baum (alemão).
A arbitrariedade não significa que o indivíduo possa escolher livremente os signos; ao contrário, eles são impostos pela comunidade linguística. É uma convenção necessária, mas não motivada.
Exceções parciais: as onomatopeias e algumas palavras expressivas podem ter certo grau de motivação, mas ainda assim são moldadas pelas convenções de cada língua (o cachorro faz “au au” no Brasil, “woof” nos EUA, “guau” na Espanha).
2.5 O valor linguístico e as diferenças
Outro conceito central é o de valor. Para Saussure, o significado de um signo não é dado isoladamente, mas por suas relações com os outros signos do sistema. A língua é um sistema de diferenças: cada termo tem seu valor porque não é os outros.
O significado de “carneiro” em português é diferente do de “mutton” em inglês, porque em inglês há também “sheep” (animal vivo). O valor é determinado pela presença ou ausência de termos vizinhos.
No plano dos significantes, a diferença entre “pato” e “rato” é que um fonema distingue as duas palavras.
Portanto, na língua só existem diferenças. Não há termos positivos, apenas oposições. Compreender uma palavra é compreender o lugar que ela ocupa na rede de oposições com outras palavras.
2.6 Sintagma e paradigma
Saussure distingue duas formas de relação entre os signos:
Relações sintagmáticas: são as combinações lineares de signos no discurso. Por exemplo, na frase “O menino chutou a bola”, as palavras se combinam em uma sequência, cada uma ocupando uma posição. Essas relações são observáveis in praesentia.
Relações paradigmáticas (ou associativas): são as relações entre um signo e outros que poderiam ocupar o mesmo lugar no sintagma. Por exemplo, no lugar de “menino”, poderiam aparecer “garoto”, “rapaz”, “criança”. Essas relações são virtuais, in absentia.
Essa distinção é fundamental para entender a estrutura da língua e as escolhas que os falantes fazem ao construir enunciados.
2.7 Implicações filosóficas do saussurianismo
A visão de Saussure influenciou o estruturalismo (Lévi-Strauss, Barthes, Foucault): a ideia de que os fenômenos sociais e culturais podem ser analisados como sistemas de signos, cujo significado deriva das relações internas, não de referentes externos. O sujeito deixa de ser origem do sentido e passa a ser efeito da estrutura.
Em interpretação de textos, o legado saussuriano ensina a prestar atenção às oposições (bem/mal, natureza/cultura, público/privado) e ao jogo de diferenças que produz sentido. Uma palavra não tem um significado fixo; ela o adquire em oposição a outras.
Ludwig Wittgenstein: o significado como uso
3.1 Primeiro Wittgenstein: a linguagem como figuração do mundo
No Tractatus Logico-Philosophicus (1921), o jovem Wittgenstein propôs uma teoria da linguagem baseada na ideia de figuração: a linguagem “desenha” a realidade, compartilhando com ela uma forma lógica. As proposições elementares são figuras de fatos atômicos. O sentido de uma proposição é sua capacidade de ser verdadeira ou falsa conforme o mundo. O que não pode ser dito claramente (a ética, a estética, o místico) deve ser silenciado.
Essa visão, influenciada pelo positivismo lógico, tem um caráter estático e referencialista: a função primordial da linguagem é descrever o mundo.
3.2 A ruptura do segundo Wittgenstein
Em Investigações Filosóficas (publicado postumamente em 1953), Wittgenstein critica radicalmente sua posição anterior e propõe uma nova compreensão da linguagem. A linguagem não tem uma essência única (figurar o mundo); ela é uma atividade complexa, composta por múltiplas práticas que ele chama de jogos de linguagem.
3.3 Crítica ao essencialismo e à busca por definições precisas
Wittgenstein argumenta que a tendência filosófica de buscar definições precisas e essências ocultas é um erro. Tomemos a palavra “jogo”. O que é um jogo? Tentamos encontrar uma característica comum a todos os jogos (tabuleiro, cartas, bola, diversão, competição). Mas sempre haverá exceções. Alguns jogos não têm vencedor, outros não têm regras fixas, outros não são divertidos. O que há, diz Wittgenstein, são semelhanças de família: uma rede complexa de semelhanças que se sobrepõem e se cruzam, como os traços fisionômicos em uma família. Não há uma essência, mas sim uma família de usos.
3.4 O significado como uso
A tese central do segundo Wittgenstein é: “o significado de uma palavra é seu uso na linguagem”. Para saber o que uma palavra significa, não devemos buscar uma imagem mental ou uma entidade abstrata; devemos observar como ela é empregada em contextos reais de comunicação. A palavra “água” pode ser usada para pedir, para descrever, para alertar, para batizar, para fazer uma oração. Em cada uso, ela adquire um significado diferente, embora haja conexões entre eles.
Essa virada do significado para o uso tem implicações profundas:
A linguagem não é um mero rótulo do mundo, mas uma ferramenta para agir.
O contexto é essencial para determinar o sentido.
As regras de uso são públicas e aprendidas na prática social, não na introspecção.
3.5 Jogos de linguagem e formas de vida
Jogos de linguagem são as inúmeras práticas em que a linguagem está entrelaçada com ações. Exemplos: ordenar, perguntar, agradecer, prometer, orar, contar piada, traduzir, dar aulas, etc. Cada jogo tem suas próprias regras (não escritas, mas aprendidas) e sua própria gramática (o modo como as palavras podem ser usadas).
Os jogos de linguagem não são isolados; eles fazem parte de formas de vida – o conjunto de atividades, costumes, instituições e práticas que constituem uma cultura. Aprender uma linguagem é aprender uma forma de vida. Por isso, a compreensão linguística exige familiaridade com o contexto sociocultural.
3.6 A impossibilidade de uma linguagem privada
Em um dos argumentos mais célebres das Investigações, Wittgenstein sustenta que não pode haver uma linguagem privada – isto é, uma linguagem cujas palavras se refiram a sensações internas (como “dor”) que só o falante pode conhecer. Se uma palavra designasse uma sensação puramente privada, não haveria critério público para verificar se está sendo usada corretamente. O próprio falante não teria como distinguir entre usar a palavra corretamente e apenas achar que usa. Portanto, até mesmo as palavras para sensações internas dependem de critérios públicos de aplicação (comportamentos, contexto, reações).
Esse argumento tem enormes consequências para a filosofia da mente: a interioridade não é um domínio inacessível; ela é constituída publicamente na linguagem.
3.7 Seguir regras e o paradoxo da interpretação
Outro tema wittgensteiniano é o seguir regras. Como sabemos se estamos seguindo uma regra corretamente? Qualquer interpretação pode ser compatível com a regra se for interpretada de certa forma. Mas seguir uma regra não é uma interpretação; é uma prática, um costume. “Seguir uma regra” é algo que aprendemos em comunidade, e a correção é determinada pelo acordo na ação, não por uma mente privada.
3.8 A filosofia como terapia
Para Wittgenstein, os problemas filosóficos surgem quando a linguagem “entra em férias” – quando usamos palavras fora de seus contextos ordinários e criamos quebra-cabeças conceituais. A tarefa da filosofia não é construir teorias grandiosas, mas terapêutica: dissolver os problemas mostrando como a linguagem funciona realmente, trazendo as palavras de volta ao seu uso cotidiano.
Comparando Saussure e Wittgenstein
| Aspecto | Saussure | Wittgenstein (2º) |
|---------|----------|-------------------|
| Objeto | A língua como sistema abstrato | A linguagem como prática social |
| Unidade | Signo (significante + significado) | Jogos de linguagem, usos |
| Significado | Determinado pelas relações no sistema (valor) | Determinado pelo uso em contexto |
| Relação com o mundo | Arbitrária, mediada pelo conceito | Integrada a formas de vida |
| Método | Análise estrutural sincrônica | Descrição de usos, semelhanças de família |
| Sujeito | Efeito da estrutura | Participante de práticas sociais |
Ambos recusam a ideia de que o significado seja uma substância mental ou uma relação direta palavra-coisa. Saussure enfatiza o sistema; Wittgenstein, o uso. As duas perspectivas são complementares: a língua fornece o sistema de possibilidades, mas o sentido efetivo se realiza no uso concreto.
Aplicações na interpretação de textos
5.1 Analisando escolhas lexicais
Ao interpretar um texto, podemos usar a noção saussuriana de valor para entender por que o autor escolheu determinada palavra em vez de outra. Que oposições estão em jogo? Que efeito de sentido produz a escolha de “invasão” em vez de “ocupação”, ou “reforma” em vez de “ajuste”?
5.2 Identificando jogos de linguagem
Um texto pertence a um gênero (notícia, editorial, charge, propaganda), que é um jogo de linguagem com regras próprias. Reconhecer o gênero ajuda a interpretar corretamente: uma charge não deve ser lida como notícia; uma propaganda não deve ser lida como informação neutra.
5.3 Desfazendo confusões conceituais
Muitas questões de prova apresentam textos que confundem diferentes usos de uma mesma palavra. A terapia wittgensteiniana nos ensina a perguntar: em que jogo de linguagem essa palavra está sendo usada? O sentido é o mesmo em todas as ocorrências?
5.4 Exemplo prático
Considere a frase: “O Brasil é um país de contrastes.”
Saussure: a palavra “contraste” adquire valor em oposição a “homogeneidade”, “igualdade”. A frase evoca oposições (rico/pobre, norte/sul, etc.) que estruturam a percepção do país.
Wittgenstein: o enunciado pode ser usado em diferentes jogos – um discurso político (para justificar políticas), um texto sociológico (para descrever), uma conversa informal (para expressar espanto). O significado varia com o uso.
Conexões com o ENEM e vestibulares
Os conceitos de Saussure e Wittgenstein são frequentemente cobrados em questões que envolvem:
Interpretação de textos verbais e multimodais: identificar o efeito de sentido de escolhas lexicais, a construção de oposições, o jogo entre o dito e o implícito.
Análise de propaganda e discurso político: como as palavras são usadas para persuadir, naturalizar certas visões, criar identidades.
Questões sobre variação linguística e preconceito linguístico: a arbitrariedade do signo e a diversidade de usos.
*Debates sobre a relação entre linguagem e pensamento: até que ponto a língua determina nossa visão de mundo. Observação: a hipótese Sapir-Whorf (determinismo linguístico) é distinta das posições de Saussure e Wittgenstein; ela não deve ser atribuída a esses autores.
Para responder corretamente, o aluno deve:
Diferenciar significante e significado, língua e fala.
Reconhecer a arbitrariedade do signo e suas implicações.
Aplicar a noção de valor como diferença.
Compreender a crítica wittgensteiniana ao essencialismo.
Utilizar a ideia de jogos de linguagem para analisar contextos comunicativos.
Leituras recomendadas
SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2006. (especialmente Introdução, capítulos I a III).
WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Petrópolis: Vozes, 1994. (especialmente §§ 1-133, 197-242).
Inwood, M. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
Benveniste, E. “Natureza do signo linguístico”, in Problemas de Linguística Geral I*. Campinas: Pontes, 1988.
Esta aula ofereceu uma análise aprofundada das contribuições de Saussure e Wittgenstein para a compreensão da linguagem, destacando suas diferenças e complementaridades, e fornecendo ferramentas para a interpretação crítica de textos.