Estratégias argumentativas e recursos linguísticos: analogia, concessão e refutação - Filosofia | Tuco-Tuco
Aula de Filosofia (Lógica e Argumentação II: retórica, persuasão e leitura crítica): Estratégias argumentativas e recursos linguísticos: analogia, concessão e refutação. Ferramentas para convencer: definição, exemplificação, analogia, causalidade, concessão, contraexemplo e refutação. Como conectivos e modalizadores alteram força do argumento. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Estratégias argumentativas e recursos linguísticos: analogia, concessão e refutação
Introdução: A argumentação como prática discursiva
Argumentar é a arte de apresentar razões para defender um ponto de vista, influenciar crenças ou orientar ações. Em um mundo saturado de informações, discursos políticos, propagandas, artigos de opinião e debates nas redes sociais, a capacidade de compreender e avaliar argumentos é essencial para a formação de um cidadão crítico. Mais do que um conjunto de regras formais, a argumentação envolve estratégias discursivas que visam tornar o discurso mais convincente, coerente e impactante.
Nesta aula, estudaremos as principais estratégias argumentativas utilizadas em textos orais e escritos, bem como os recursos linguísticos que as viabilizam. Abordaremos a definição, a exemplificação, a analogia, a causalidade, a concessão, a refutação, e os operadores argumentativos (conectivos) que estruturam o raciocínio. O domínio dessas ferramentas é fundamental para a interpretação de textos no ENEM e vestibulares, bem como para a produção de redações consistentes e persuasivas.
Estratégias argumentativas fundamentais
2.1 Definição
A definição consiste em delimitar o sentido de um conceito ou termo, estabelecendo suas características essenciais. Em um texto argumentativo, definir um termo pode servir para:
Esclarecer o objeto da discussão.
Evitar ambiguidades.
Estabelecer um ponto de partida comum com o interlocutor.
Restringir ou ampliar o significado de um conceito para favorecer a tese defendida.
Exemplo:
“Por ‘democracia’ não entendo apenas o direito de votar a cada quatro anos, mas sim um sistema que garanta a participação efetiva dos cidadãos nas decisões políticas, o respeito às minorias e a distribuição equitativa de recursos.”
Nesse caso, o autor define democracia de forma ampla, incluindo elementos que vão além do procedimento eleitoral, o que lhe permite criticar regimes que se dizem democráticos apenas por realizarem eleições.
2.2 Exemplificação
A exemplificação consiste em apresentar casos concretos, situações particulares, fatos ou dados que ilustrem a tese defendida. Os exemplos tornam o argumento mais palpável, facilitam a compreensão e conferem credibilidade ao discurso.
Tipos de exemplos:
Exemplos históricos: fatos ocorridos no passado que servem como lição ou evidência.
Exemplos cotidianos: situações comuns que o auditório pode reconhecer em sua experiência.
Dados estatísticos: números que demonstram a magnitude de um fenômeno.
Casos hipotéticos: situações imaginadas para testar a coerência de um princípio.
Exemplo:
“A redução da maioridade penal não resolve o problema da violência. Na cidade X, onde a medida foi adotada, os índices de criminalidade juvenil permaneceram inalterados, enquanto o sistema prisional ficou ainda mais superlotado.”
Aqui, o exemplo concreto da cidade X serve como evidência contra a tese da redução da maioridade.
Cuidados:
O exemplo deve ser relevante e representativo.
Um único exemplo não prova uma tese universal, mas pode ilustrá-la ou refutá-la.
Exemplos anedóticos (casos isolados) têm pouco peso argumentativo se não forem acompanhados de dados mais amplos.
2.3 Analogia
A analogia é uma comparação entre situações, objetos ou relações diferentes, mas que compartilham alguma semelhança estrutural. O argumento analógico parte do princípio de que, se duas coisas são semelhantes em certos aspectos, é provável que o sejam também em outros.
Estrutura da analogia:
Identifica-se uma relação conhecida (fonte).
Aplica-se essa relação ao caso em discussão (alvo).
Conclui-se que, se a relação vale para a fonte, deve valer também para o alvo.
Exemplo clássico:
“Assim como o corpo precisa de exercícios físicos para se manter saudável, a mente precisa de desafios intelectuais para não atrofiar.”
A relação entre exercício e saúde corporal é transferida para o domínio mental.
Força e limites da analogia:
A analogia é persuasiva quando as semelhanças são relevantes e as diferenças não comprometem a comparação.
É uma estratégia comum em argumentos jurídicos (aplicação de precedentes), científicos (modelos) e filosóficos.
Pode ser falaciosa se as diferenças entre os casos comparados forem mais importantes que as semelhanças (analogia falsa).
Exemplo de analogia falsa:
“Assim como um relógio tem um relojoeiro, o universo tem um criador.”
A analogia entre um artefato humano (o relógio) e o cosmos é questionável, pois não sabemos se o universo é análogo a um mecanismo.
2.4 Causalidade
O argumento causal estabelece uma relação de causa e efeito entre fenômenos. Afirma-se que um evento (causa) é responsável por produzir outro (efeito), ou que uma ação trará determinadas consequências.
Estrutura:
Se A, então B (ou A causa B).
Portanto, para obter (ou evitar) B, devemos agir sobre A.
Exemplo:
“O aumento da temperatura média do planeta (causa) tem provocado o derretimento das calotas polares e a elevação do nível do mar (efeitos). Logo, para evitar catástrofes futuras, precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa.”
Cuidados:
Nem toda correlação implica causalidade. Duas variáveis podem variar juntas sem que uma seja causa da outra (correlação espúria).
É preciso considerar a possibilidade de causas múltiplas e efeitos colaterais.
A direção da causalidade pode ser inversa (B causar A).
Exemplo de correlação espúria:
“O consumo de sorvete aumenta no verão, e também aumentam os afogamentos. Logo, sorvete causa afogamento.”
Na verdade, ambas as variáveis são causadas pelo calor (mais pessoas vão à praia).
2.5 Concessão
A concessão é uma estratégia argumentativa na qual o orador reconhece parcialmente a validade de um argumento contrário, mas mantém sua posição. Ao conceder um ponto ao adversário, o orador demonstra equilíbrio, honestidade intelectual e evita parecer dogmático. A concessão fortalece o ethos e prepara o terreno para a refutação.
Estrutura típica:
“Embora seja verdade que X (argumento contrário), ainda assim Y (tese principal) se sustenta porque Z.”
Ou:
“É inegável que A tem razão em tal ponto. No entanto, isso não invalida a necessidade de considerar também B.”
Exemplo:
“Reconheço que as cotas raciais podem gerar controvérsias e que o ideal seria que todos tivessem as mesmas oportunidades desde o início. No entanto, enquanto persistirem as desigualdades históricas e estruturais, as cotas são um instrumento necessário para promover a justiça social.”
A concessão torna o argumento mais forte porque mostra que o autor está ciente das objeções e as leva a sério.
2.6 Refutação
A refutação é o ato de contestar, negar ou invalidar um argumento oposto. Ela pode ser feita de várias maneiras:
Refutação por evidência: apresentar fatos ou dados que contradizem a tese adversária.
Refutação lógica: mostrar que o argumento adversário é inconsistente, contraditório ou mal estruturado.
Refutação por consequências indesejáveis: mostrar que a tese adversária leva a conclusões absurdas ou inaceitáveis.
Refutação por redução ao absurdo (reductio ad absurdum): aceitar a tese adversária e deduzir dela consequências logicamente impossíveis ou moralmente repugnantes.
Exemplo de refutação por evidência:
“O adversário afirma que a vacina causa autismo. No entanto, dezenas de estudos envolvendo milhões de crianças não encontraram qualquer associação entre vacinas e autismo, e o estudo original que sugeriu essa ligação foi retratado por fraude.”
Exemplo de redução ao absurdo:
“Se toda forma de conhecimento fosse reduzida à ciência, como querem os cientificistas, então a ética, a arte e a filosofia seriam consideradas sem sentido. Mas isso é absurdo, pois essas áreas são fundamentais para a vida humana.”
A refutação eficaz não apenas derruba o argumento contrário, mas também fortalece a própria tese, demonstrando que o autor compreendeu as objeções e refutou suas bases.mento contrário, mas também fortalece a posição do orador.
Recursos linguísticos da argumentação
3.1 Conectivos e operadores argumentativos
Os conectivos (ou operadores argumentativos) são palavras ou expressões que estabelecem relações lógicas entre as partes do texto, orientando a interpretação do leitor e explicitando a estrutura do raciocínio. Eles são essenciais para a coesão e a coerência textuais.
Principais tipos de conectivos:
Adição: e, também, além disso, ademais, outrossim, não só... mas também.
> “O candidato é competente e tem experiência.”
Oposição/Contraste: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, embora, apesar de.
> “O projeto é ambicioso, porém carece de financiamento.”
Causa e consequência: porque, pois, porquanto, já que, uma vez que, visto que, portanto, logo, por conseguinte, consequentemente, assim.
> “Como choveu muito, as ruas alagaram.” / “Estudei muito, portanto passei.”
Condição: se, caso, desde que, contanto que, a menos que, salvo se.
> “Se o governo investir em educação, os indicadores sociais melhorarão.”
Finalidade: para que, a fim de que, com o propósito de.
> “O governo criou programas sociais para que a pobreza fosse reduzida.”
Conformidade: conforme, segundo, consoante, de acordo com.
> “Segundo os dados do IBGE, a população está envelhecendo.”
Concessão: embora, ainda que, mesmo que, apesar de, se bem que.
> “Embora tenha estudado, não passou no concurso.”
Conclusão: portanto, logo, assim, desse modo, em suma, por isso.
> “O projeto é inviável financeiramente; portanto, deve ser revisto.”
Explicação: por exemplo, isto é, ou seja, a saber, em outras palavras.
> “O projeto visa reduzir a desigualdade, ou seja, promover justiça social.”
Comparação: como, assim como, tal qual, mais... que, menos... que, tão... quanto.
> “O conhecimento é como uma ferramenta: quanto mais se usa, mais se aperfeiçoa.”
Tempo: quando, enquanto, logo que, assim que, antes que, depois que.
> “Quando a economia cresce, o emprego aumenta.”
3.2 Modalizadores
Os modalizadores são palavras ou expressões que indicam a atitude do enunciador em relação ao conteúdo do enunciado. Eles expressam graus de certeza, possibilidade, obrigação, desejo, etc., e ajudam a construir o ethos do orador.
Tipos de modalizadores:
Epistêmicos (certeza, probabilidade): certamente, sem dúvida, evidentemente, obviamente, provavelmente, possivelmente, talvez, quem sabe.
> “Certamente, a medida trará benefícios.” / “Talvez a medida não seja suficiente.”
Deônticos (obrigação, permissão): é necessário, é preciso, deve, pode, é proibido, é permitido.
> “É preciso que o governo aja com urgência.” / “Não se deve confundir liberdade com libertinagem.”
Avaliativos (juízos de valor): infelizmente, felizmente, lamentavelmente, curiosamente, estranhamente, justamente.
> “Infelizmente, a violência urbana continua a crescer.” / “Curiosamente, os dados mostram o oposto do esperado.”
Delimitadores: em geral, na maioria dos casos, sob certas condições, relativamente, praticamente.
> “Em geral, a população apoia a medida.”
O uso de modalizadores é importante para evitar generalizações absolutas e para expressar nuances, o que fortalece a credibilidade do argumento.
3.3 Figuras de linguagem com função argumentativa
Algumas figuras de linguagem são particularmente úteis na argumentação:
Metáfora: cria uma analogia implícita que pode tornar o argumento mais vívido.
> “A corrupção é um câncer que corrói a sociedade.” (a metáfora sugere gravidade e necessidade de extirpação).
Ironia: diz o contrário do que se quer significar, geralmente com intenção crítica.
> “Que bela forma de resolver o problema: jogar dinheiro público no ralo.” (ironia denuncia ineficiência).
Hipérbole: exagero para enfatizar uma ideia.
> “Já esperei uma eternidade por essa resposta.” (enfatiza a demora).
Antítese: aproximação de opostos para realçar um contraste.
> “A cidade que prometia progresso gerou mais miséria; a paz que deveria reinar deu lugar ao medo.”
Paralelismo: repetição de estruturas sintáticas para criar ritmo e ênfase.
> “Não queremos mais fome, não queremos mais violência, não queremos mais desigualdade.”
Estratégias de refutação e contra-argumentação
Uma argumentação sólida não se limita a expor os próprios argumentos; ela também antecipa e responde às objeções. As principais estratégias de refutação são:
4.1 Refutação por evidência contrária
Consiste em apresentar fatos, dados ou exemplos que contradizem diretamente a tese adversária.
“O oponente afirma que a política de cotas diminui a qualidade das universidades. No entanto, estudos mostram que os alunos cotados têm desempenho acadêmico semelhante aos não cotados após o primeiro ano, e muitos se destacam.”
4.2 Refutação por inconsistência interna
Mostrar que a tese adversária contém contradições lógicas ou que seus pressupostos são incompatíveis entre si.
“O argumento de que o Estado não deve intervir na economia, mas ao mesmo tempo deve proteger a indústria nacional com tarifas alfandegárias, é contraditório: a proteção já é uma forma de intervenção.”
4.3 Refutação por consequências indesejáveis
Demonstrar que, se a tese adversária for aceita, ela leva a consequências práticas inaceitáveis ou absurdas.
“Se aceitarmos que a liberdade de expressão é absoluta e não admite limites, então teríamos de tolerar discursos que incitam o ódio racial e a violência, o que destruiria a própria base da convivência democrática.”
4.4 Refutação por redução ao absurdo (reductio ad absurdum)
Tomar a tese adversária, extrair dela todas as consequências lógicas e mostrar que alguma delas é impossível ou contraditória.
“O relativista diz que todas as opiniões são igualmente válidas. Se isso é verdade, então a opinião de que o relativismo é falso também é válida, o que gera uma contradição.”
4.5 Refutação por apelo à autoridade
Contrapor à tese adversária a opinião de especialistas reconhecidos ou o consenso científico. Cuidado: esse recurso só é válido se a autoridade for realmente competente no assunto e se houver consenso.
“O candidato nega as mudanças climáticas, mas o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne milhares de cientistas, afirma que o aquecimento global é real e causado pela ação humana.”
Análise de um texto argumentativo
Vamos aplicar os conceitos estudados a um pequeno texto argumentativo:
“Muitos defendem a redução da maioridade penal como solução para a violência. Argumentam que jovens de 16 e 17 anos já têm discernimento para responder por seus atos e que a impunidade os encoraja a delinquir. Embora seja verdade que alguns jovens nessa faixa etária tenham plena consciência de seus atos, essa medida isolada não resolverá o problema. Primeiro, porque a maioria dos atos infracionais é cometida por adultos; segundo, porque a experiência de países que adotaram a redução mostra que os índices de violência não caíram significativamente. Além disso, enclausurar jovens em prisões superlotadas, muitas vezes comandadas por facções criminosas, pode transformá-los em criminosos ainda mais perigosos. Portanto, em vez de reduzir a maioridade penal, deveríamos investir em educação, geração de emprego e políticas de reintegração social.”
Análise:
Tese: A redução da maioridade penal não é a solução para a violência.
Estratégias:
- Concessão: “Embora seja verdade que alguns jovens...”. O autor reconhece o argumento contrário.
- Refutação por evidência: “a maioria dos atos infracionais é cometida por adultos”.
- Refutação por evidência (experiência internacional): “países que adotaram a redução mostram que os índices não caíram”.
- Refutação por consequências indesejáveis: “enclausurar jovens pode transformá-los em criminosos ainda mais perigosos”.
- Contraproposta: investir em educação, emprego, reintegração.
Conectivos: “embora”, “primeiro”, “segundo”, “além disso”, “portanto”.
Falácias a evitar
Nem toda argumentação é válida. Alguns raciocínios parecem persuasivos, mas são logicamente falhos. Conhecer as falácias ajuda a evitar erros e a identificar manipulações.
Falácias mais comuns:
Ad hominem: atacar a pessoa em vez do argumento.
> “Não devemos ouvir o ministro, pois ele foi corrupto no passado.” (mesmo que tenha sido corrupto, seu argumento pode ser válido).
Apelo à autoridade irrelevante: citar uma autoridade que não é especialista no assunto.
> “Um famoso ator disse que esta marca de shampoo é a melhor.” (o ator não é especialista em cabelos).
Falsa causa (post hoc ergo propter hoc): supor que, porque A aconteceu antes de B, A causou B.
> “Depois que o prefeito assumiu, a violência aumentou; logo, ele é o culpado.” (pode haver outros fatores).
Generalização apressada: concluir algo sobre um grupo com base em poucos casos.
> “Conheci dois argentinos mal-educados; portanto, todos os argentinos são mal-educados.”
Falso dilema: apresentar apenas duas opções como se fossem as únicas possíveis.
> “Ou você apoia a redução da maioridade penal, ou é conivente com a criminalidade.” (há outras opções).
Apelo à emoção: manipular as emoções para desviar a atenção dos argumentos.
> “Pense nas crianças inocentes que sofrem com a violência. Como você pode ser contra medidas mais duras?” (apelo emocional sem dados).
Petição de princípio: assumir como verdade aquilo que se quer provar.
> “Deus existe, pois a Bíblia, que é a palavra de Deus, assim o afirma.” (a Bíblia só é autoridade se Deus existe).
Espantalho: distorcer o argumento adversário para torná-lo mais fácil de atacar.
> “Os que defendem a preservação ambiental querem paralisar o desenvolvimento econômico e nos fazer viver em cavernas.”
Exercícios:
Em “X; portanto, Y”, a função de “portanto” é sinalizar:
Uma analogia é mais forte quando:
Quando o texto oferece um exemplo para ilustrar uma tese, o erro é concluir que:
A estrutura “Embora haja dificuldades, a política é necessária” exemplifica principalmente:
Observe o trecho a seguir:
'A literatura brasileira, em geral, tende a refletir as transformações sociais do país.'
Com base no uso dos modalizadores 'em geral' e 'tende a', assinale a alternativa que está em conformidade com o tipo de afirmação que o trecho apresenta:
Ao escrever um artigo contra a privatização do sistema de saneamento básico, o autor inicia sua defesa afirmando: 'É inegável que a atual gestão estatal apresenta ineficiências burocráticas e que o setor privado possui notável agilidade em investimentos de curto prazo. No entanto, a água é um recurso vital à saúde pública, cujo acesso não pode ficar subordinado unicamente à lucratividade.' Do ponto de vista da teoria da argumentação, qual é o papel desempenhado pela técnica da concessão nesse trecho?
Um parlamentar defende que a liberdade de expressão na internet deve ser absoluta, imune a qualquer moderação jurídica. Seu adversário rebate: 'Se acatarmos a premissa de que a liberdade de expressão não admite quaisquer freios legais, seremos forçados por coerência a tolerar a apologia explícita ao terrorismo infantil e instruções públicas de como fabricar explosivos, consequências que destruiriam a segurança da própria sociedade.' Qual é a estratégia de refutação empregada pelo adversário nesse debate?
Em um tribunal, o promotor de justiça argumenta comparando o réu, acusado de desviar fundos de uma organização assistencial, a um lobo que foi encarregado de cuidar de um rebanho de ovelhas indefesas. Qual é a finalidade estrutural e o principal limite dessa estratégia argumentativa embasada na analogia?
Em argumentações sólidas, as escolhas lexicais não cumprem papel neutro. Compare as seguintes frases: I) "A nova regulamentação possivelmente reduzirá o impacto ambiental neste decênio." II) "É imperativo que a nova regulamentação reduza o impacto ambiental neste decênio." Avaliando a mecânica dos elementos linguísticos, qual é a principal diferença de função entre os modalizadores utilizados nas duas frases?
O rumo do raciocínio analítico depende fortemente dos operadores argumentativos que unem as ideias. Considere o excerto: 'O projeto de revitalização do centro histórico angariou vultosos investimentos da iniciativa estrangeira nos últimos meses; contudo, deflagrou uma gentrificação implacável, culminando na expulsão dos moradores locais mais pobres.' Do ponto de vista estrito da arquitetura do parágrafo, qual é a finalidade retórica do operador 'contudo'?
Em disputas retóricas, redefinir os limites de uma palavra é um recurso comum. Em um simpósio sobre evasão escolar, uma professora inicia sua fala declarando: 'Não tratarei como 'evasão' apenas o aluno que abandonou o prédio da escola, mas classificarei como evasão também o aluno que, mesmo sentado diariamente na carteira, foi deixado à margem da aprendizagem por metodologias defasadas.' De acordo com a teoria do discurso, o que essa reconstrução conceitual franqueia à palestrante?
A relação de causa e efeito é uma poderosa estratégia de persuasão. Considere esta propaganda municipal: 'Nossos relatórios atestam que, desde o mês passado, quando instalamos novos holofotes na orla da praia, os acidentes de trânsito em toda a metrópole caíram vertiginosamente em 12%. Fica claro que nosso projeto de iluminação litorânea foi o responsável direto por salvar as vidas no trânsito da cidade.' Sob escrutínio metodológico, qual é o déficit analítico que macula essa argumentação causal?
Na defesa da implantação da semana de trabalho de quatro dias no mundo corporativo, um palestrante cita o caso de uma pequena fábrica de tecidos na Eslovênia que adotou a medida e aumentou seus lucros consolidados em 40%. Do ponto de vista lógico e argumentativo, qual é a principal fragilidade dessa estratégia baseada unicamente na exemplificação desse caso?
Durante um debate, um ativista afirma: 'É uma verdade absoluta e incontestável que todas as crenças humanas são puramente relativas e subjetivas, não existindo nenhuma afirmação no universo que possa ser considerada universalmente verdadeira.' Seu oponente responde apontando que a própria estrutura dessa afirmação anula a tese defendida pelo ativista. Qual estratégia de refutação o oponente utilizou?
Leia o trecho de um artigo de opinião: 'As câmeras de vigilância instaladas nos corredores das escolas violam gravemente o direito à privacidade dos alunos, garantido pela Constituição do nosso país. Além disso, os custos de manutenção mensal desses equipamentos superam em muito os eventuais prejuízos causados pelos pequenos furtos que o governo visa coibir. Portanto, o projeto de monitoramento estudantil deve ser arquivado imediatamente pelo conselho responsável.' Na estrutura lógica do texto, qual é a função argumentativa e exegética do conectivo 'portanto'?
Em um debate sobre a aprovação de uma nova carga tributária, um parlamentar discursa: 'Reconheço que o aumento dos impostos neste momento gera um peso indesejado para as pequenas empresas e que o ideal seria não onerar ainda mais o setor produtivo. No entanto, enquanto tivermos um déficit tão alarmante na saúde pública, essa é a única ferramenta viável para evitar o colapso dos hospitais'. Identifique a estratégia argumentativa utilizada no trecho inicial e sua principal finalidade no discurso.
Analise os dois enunciados a seguir, que abordam o mesmo tema, mas utilizam recursos linguísticos diferentes para direcionar a força do argumento: I. 'A aprovação da reforma educacional possivelmente trará benefícios na avaliação dos alunos'. II. 'A aprovação da reforma educacional deve trazer benefícios na avaliação dos alunos'. A diferença de sentido e persuasão entre eles ocorre pelo uso dos modalizadores. Assinale a alternativa correta sobre esse recurso.
Em uma entrevista, um debatedor afirma que "qualquer forma de taxação por parte do Estado é, na essência, um roubo". O entrevistador responde: "Se aceitarmos a sua premissa de que qualquer taxa estatal é um roubo, então a cobrança da prefeitura para instalar iluminação pública na sua rua é um crime contínuo, e nós deveríamos chamar a polícia para prender o prefeito por clarear as calçadas". Qual estratégia de refutação foi utilizada pelo entrevistador?
Considere o seguinte argumento publicado em uma coluna de jornal local: 'Desde que a prefeitura instalou o novo semáforo no cruzamento principal, as vendas de guarda-chuvas nas lojas da região aumentaram quase 30%. Fica claro, portanto, que a instalação desse semáforo impulsionou o comércio de artigos de chuva na nossa cidade'. Em termos de avaliação crítica do discurso, qual é o erro grave na estratégia de causalidade apresentada?
Um analista escreve o seguinte artigo de opinião: 'Administrar a economia de um país é exatamente como administrar o orçamento de uma família comum. Se um pai de família não pode gastar mais do que ganha sem ir à falência, o Estado nacional também não pode ter déficit em nenhuma hipótese'. Por que essa estratégia argumentativa pode ser facilmente invalidada e refutada em um debate econômico?
O uso de operadores argumentativos altera o foco e a intenção principal do autor. Leia os exemplos: I. 'Embora o projeto de rodovias tenha um custo financeiro elevado, os benefícios logísticos a longo prazo justificam o investimento'. II. 'O projeto de rodovias tem grandes benefícios logísticos a longo prazo, mas o custo financeiro é elevado'. Identifique a diferença retórica gerada pelos conectivos escolhidos nas orações acima.
Em um tribunal do júri, um advogado se pronuncia para defender seu cliente: 'Para que uma atitude configure legalmente um assassinato doloso, a nossa lei exige a presença clara de premeditação fria e intenção criminosa calculada. Meu cliente, contudo, agiu em uma fração de segundo, sob pânico extremo e desespero, apenas para proteger a própria vida. Logo, o ocorrido não foi um assassinato, mas um instinto de defesa'. Qual é a principal estratégia argumentativa do advogado?
Um político em campanha sobe ao palanque e diz: 'Nós sabemos que o aparelho estatal é inteiramente ineficiente, corrupto por natureza e historicamente incapaz de administrar qualquer serviço público de forma útil à população. Por isso, defendo que esse mesmo Estado mantenha o controle absoluto, centralizado e exclusivo sobre nossas Forças Armadas para assegurar nossa sobrevivência'. Como um oponente poderia refutar rapidamente esse discurso baseando-se em lógica textual?
Em meio a um discurso focado em direitos civis, uma ativista diz aos jornalistas: 'Nós não aceitaremos mais conviver com a fome nas nossas ruas. Não aceitaremos mais o atraso roubando as oportunidades dos nossos jovens. Não aceitaremos mais o completo abandono dos bairros periféricos'. Qual recurso retórico e de organização de linguagem é o principal vetor para dar força e cadência a essa fala?
Em uma reunião sobre normas de trânsito, discute-se o uso obrigatório do cinto de segurança em ônibus de viagem. Um passageiro se pronuncia contra a lei da seguinte forma: 'Um vizinho meu sofreu um acidente de carro gravíssimo no mês passado e só escapou vivo porque foi ejetado para fora do veículo. Se ele estivesse usando o cinto de segurança, ficaria preso nas ferragens, o carro explodiu logo depois e ele teria morrido'. Sob a ótica da argumentação crítica e baseada em evidências, qual o problema central dessa fala?