Austin, Searle, Grice - Pragmática e atos de fala – Filosofia | Tuco-Tuco
Atos de fala (locucionário/ilocucionário/perlocucionário — noções); performativos; condições de felicidade; implicaturas e máxima conversacional (Grice — noções
Austin, Searle, Grice - Pragmática e atos de fala
Introdução: O que é pragmática?
A pragmática é o ramo da linguística e da filosofia da linguagem que estuda o uso da linguagem em contexto, ou seja, a relação entre os signos linguísticos e seus usuários, as intenções comunicativas e os efeitos produzidos nos interlocutores. Diferentemente da semântica, que se ocupa do significado literal das palavras e frases, a pragmática investiga o que os falantes querem dizer ao proferir determinadas expressões em situações concretas, e como os ouvintes interpretam essas intenções.
O desenvolvimento da pragmática no século XX está intimamente ligado à filosofia da linguagem ordinária, especialmente aos trabalhos de J.L. Austin, John Searle e H.P. Grice. Esses autores mostraram que a linguagem não serve apenas para descrever o mundo, mas também para realizar ações – prometer, ordenar, pedir, declarar, advertir – e para comunicar mais do que está literalmente dito. Compreender esses mecanismos é fundamental para interpretar textos, discursos, propagandas e interações cotidianas com profundidade.
No ENEM e nos vestibulares, a pragmática é frequentemente cobrada em questões que envolvem ironia, subentendidos, pressupostos, efeitos de sentido em charges, propaganda, discursos políticos e diálogos. Dominar seus conceitos permite ao aluno ir além da superfície textual e captar as camadas implícitas da comunicação.
Antecedentes: a virada linguística e a crítica ao verificacionismo
2.1 O positivismo lógico e o princípio da verificabilidade
No início do século XX, o Círculo de Viena (positivismo lógico) defendia que uma proposição só tem significado se for passível de verificação empírica. Enunciados como “Deus existe” ou “a alma é imortal” seriam, nessa perspectiva, desprovidos de sentido, pois não podem ser testados. A linguagem era vista principalmente como ferramenta para descrever fatos.
2.2 Wittgenstein e os jogos de linguagem
O segundo Wittgenstein, em Investigações Filosóficas, rompe com essa visão ao mostrar que a linguagem tem múltiplas funções – descrever, perguntar, agradecer, ordenar, brincar – que ele chama de jogos de linguagem. Cada jogo tem suas próprias regras, e o significado de uma palavra é seu uso em contextos específicos. Essa abordagem abre caminho para a pragmática, pois enfatiza a ação e o contexto.
2.3 Austin e a descoberta dos performativos
J.L. Austin (1911–1960) deu um passo decisivo ao perceber que muitos enunciados não descrevem estados de coisas, mas realizam ações. Ele chamou esses enunciados de performativos. Exemplos clássicos:
“Eu declaro aberta a sessão.” (proferido pelo presidente da assembleia)
“Eu prometo pagar a dívida.”
“Batizo este navio com o nome Rainha Elizabeth.”
“Aceito esta mulher como minha legítima esposa.” (no casamento)
Nesses casos, ao proferir a frase, o falante está fazendo algo, não apenas dizendo algo. O enunciado performativo é a própria ação. Austin notou que esses enunciados não são verdadeiros ou falsos, mas podem ser felizes ou infelizes – dependendo de certas condições (que ele chamou de condições de felicidade).
A teoria dos atos de fala de Austin
Austin desenvolveu uma teoria geral dos atos de fala, distinguindo três dimensões em cada enunciado:
3.1 Ato locucionário
É o ato de dizer algo – a emissão de sons, palavras, com uma certa estrutura gramatical e um significado referencial. Corresponde ao conteúdo proposicional da frase. Exemplo: ao dizer “Está chovendo”, o ato locucionário é o proferimento dessa frase com seu significado literal.
3.2 Ato ilocucionário
É o ato que realizamos ao dizer algo – a força ou intenção comunicativa que atribuímos ao enunciado. Austin distingue diferentes forças ilocucionárias: afirmar, perguntar, ordenar, prometer, ameaçar, aconselhar, batizar, etc. O mesmo conteúdo proposicional pode ter forças ilocucionárias diferentes:
“Você vai sair.” (afirmação)
“Você vai sair?” (pergunta)
“Saia!” (ordem)
3.3 Ato perlocucionário
É o efeito produzido no ouvinte pelo ato de fala – convencer, assustar, irritar, persuadir, etc. O ato perlocucionário depende das circunstâncias e da reação do interlocutor. Por exemplo, ao dizer “Há um touro no pasto”, posso assustar alguém (efeito perlocucionário), independentemente de minha intenção ilocucionária (que pode ser apenas informar).
A distinção entre ato ilocucionário e perlocucionário é crucial: o ilocucionário é a ação realizada na fala, segundo convenções sociais; o perlocucionário são as consequências dessa ação sobre sentimentos, pensamentos ou ações do ouvinte.
Performativos e condições de felicidade
Os enunciados performativos, segundo Austin, estão sujeitos a condições de felicidade (felicity conditions) para serem bem-sucedidos. Essas condições incluem:
Procedimento convencional aceito: deve existir um procedimento reconhecido com efeito convencional.
Circunstâncias e pessoas apropriadas: o procedimento deve ser executado pelas pessoas certas, nas circunstâncias certas. Por exemplo, só um juiz pode declarar alguém culpado em um tribunal.
Execução correta e completa: o procedimento deve ser executado de forma correta e completa.
Intenções e sentimentos: em alguns casos, os participantes devem ter as intenções e sentimentos requeridos (por exemplo, ao prometer, deve-se ter a intenção de cumprir).
Se alguma condição é violada, o ato é infeliz – pode ser nulo (como um casamento realizado por quem não tem autoridade) ou abusivo (como uma promessa sem intenção de cumprir).
Austin mostrou que, afinal, todos os enunciados (inclusive os descritivos) têm uma dimensão performativa, pois ao afirmar algo também realizamos o ato de asserir. Assim, a distinção inicial entre performativos e constatativos se dissolve, e toda fala é, em certo sentido, ação.
A sistematização de Searle: atos de fala e regras constitutivas
John Searle (1932– ) discípulo de Austin, desenvolveu uma teoria mais sistemática dos atos de fala. Para Searle, falar uma linguagem é engajar-se em uma forma de comportamento governado por regras. As regras podem ser regulativas (regulam atividades pré-existentes, como regras de etiqueta) ou constitutivas (criam a própria atividade, como as regras do xadrez). A linguagem é governada por regras constitutivas.
Searle propõe uma classificação dos atos ilocucionários em cinco categorias principais, baseadas no propósito ilocucionário (ou ponto ilocucionário):
5.1 Assertivos (ou representativos)
Comprometem o falante com a verdade da proposição expressa. Exemplos: afirmar, concluir, descrever, relatar. O ponto ilocucionário é representar como as coisas são.
5.2 Diretivos
Tentativas do falante de levar o ouvinte a fazer algo. Exemplos: ordenar, pedir, suplicar, convidar, aconselhar. O ponto ilocucionário é dirigir o comportamento do ouvinte.
5.3 Comissivos
Comprometem o falante a realizar alguma ação futura. Exemplos: prometer, jurar, oferecer-se, ameaçar. O ponto ilocucionário é criar uma obrigação para o falante.
5.4 Expressivos
Expressam o estado psicológico do falante em relação a uma situação. Exemplos: agradecer, desculpar-se, dar os pêsames, felicitar. O ponto ilocucionário é expressar sentimentos e atitudes.
5.5 Declarativos
Produzem uma mudança na realidade institucional pelo simples fato de serem proferidos. Exemplos: declarar guerra, batizar, excomungar, demitir um funcionário. O ponto ilocucionário requer uma instituição extralinguística (igreja, Estado, empresa) e autoridade do falante.
Searle também analisa a estrutura dos atos de fala em termos de conteúdo proposicional e força ilocucionária, e enfatiza o papel das intenções do falante e das convenções sociais na comunicação.
A implicatura conversacional de Grice
H.P. Grice (1913–1988) introduziu uma distinção fundamental entre o que é dito e o que é implicado (comunicado indiretamente) em uma conversa. Sua teoria das implicaturas revolucionou a pragmática.
6.1 O princípio de cooperação
Grice propõe que a comunicação humana é governada por um princípio de cooperação: faça sua contribuição conversacional tal como é exigida, no momento em que ocorre, pelo propósito ou direção do intercâmbio conversacional em que você está engajado.
Esse princípio se desdobra em quatro máximas conversacionais:
Máxima da Quantidade: dê a informação necessária (nem mais, nem menos).
1. Faça sua contribuição tão informativa quanto requerido.
2. Não faça sua contribuição mais informativa do que o requerido.
Máxima da Qualidade: tente fazer sua contribuição verdadeira.
1. Não diga o que acredita ser falso.
2. Não diga aquilo para o que não tem evidência adequada.
Máxima da Relação: seja relevante.
Máxima do Modo: seja claro.
1. Evite obscuridade de expressão.
2. Evite ambiguidade.
3. Seja breve (evite prolixidade desnecessária).
4. Seja ordenado.
Essas máximas descrevem o comportamento comunicativo racional esperado. Mas, na prática, os falantes frequentemente as violam de forma ostensiva para gerar implicaturas.
6.2 Implicatura conversacional
Uma implicatura é algo que o falante comunica sem dizer explicitamente. Ela surge quando o ouvinte, assumindo que o falante está cooperando, infere uma informação adicional para tornar a fala coerente com as máximas.
Exemplo clássico:
A: “O que você achou do novo professor?”
B: “Ele usa gravatas muito bonitas.”
Aparentemente, B violou a máxima da relevância (não respondeu à pergunta). Mas, supondo que B esteja cooperando, A infere que B não quer ou não pode avaliar o professor como docente, talvez porque a opinião seja negativa e ele evite expressá-la. A implicatura é: “Não tenho nada de bom a dizer sobre ele como professor.”
Outro exemplo:
A: “Você quer ir ao cinema?”
B: “Estou com dor de cabeça.”
B viola a máxima da relevância (não responde diretamente), mas A infere que B não quer ir, pois a dor de cabeça é uma justificativa para recusar.
6.3 Implicatura convencional versus conversacional
Grice distingue implicaturas convencionais (ligadas ao significado de certas palavras, como “mas”, “portanto”, “até”) e conversacionais (derivadas do contexto e das máximas). As implicaturas conversacionais têm propriedades importantes:
Cancelabilidade: podem ser explicitamente canceladas sem contradição. (Ex.: “Ele usa gravatas bonitas, mas isso não significa que seja mau professor; na verdade, é excelente.”)
Destacabilidade: podem ser eliminadas ao reformular a frase sem alterar o conteúdo proposicional (diferentemente das implicaturas convencionais, que dependem de palavras específicas).
Calculabilidade: podem ser inferidas a partir do significado literal e das máximas.
6.4 Aplicações da teoria de Grice
A teoria de Grice é amplamente utilizada para analisar ironia, metáfora, humor, discursos políticos e publicidade. Na ironia, por exemplo, o falante viola a máxima da qualidade (diz algo obviamente falso) para implicar o oposto. Na metáfora, a violação da máxima da qualidade (literalmente falsa) gera uma interpretação figurada.
Pressupostos e subentendidos
Além das implicaturas, a pragmática distingue outras formas de conteúdo implícito:
7.1 Pressupostos
Pressupostos são informações dadas como já conhecidas ou óbvias, que permanecem verdadeiras mesmo quando a frase é negada ou questionada. Por exemplo:
“O atual rei da França é careca.” pressupõe que existe um atual rei da França.
“João parou de fumar.” pressupõe que João fumava antes.
Os pressupostos são acionados por certas palavras (gatilhos): verbos factivos (saber, lamentar), descrições definidas, verbos de mudança de estado (parar, começar), etc. Eles são parte do significado implícito que o falante assume como compartilhado.
7.2 Subentendidos
Subentendidos são sentidos implícitos que dependem fortemente do contexto e da intenção do falante, mas não são pressupostos. Por exemplo, em “Está quente aqui”, subentende-se um pedido para abrir a janela, dependendo da situação.
Aplicações em interpretação de textos
Os conceitos da pragmática são ferramentas poderosas para analisar textos de diversos gêneros:
Propaganda: usa atos diretivos (ordem disfarçada de convite), pressupostos (para fazer afirmações sem prová-las), implicaturas (para sugerir superioridade do produto sem afirmá-la).
Discurso político: frequente uso de implicaturas para atacar adversários sem acusação direta, pressupostos para naturalizar certas ideias, atos comissivos (promessas) para gerar expectativas.
Charges e cartuns: dependem fortemente de implicaturas e subentendidos para produzir humor e crítica.
Diálogos em obras literárias: a caracterização de personagens e conflitos se dá pelo que eles dizem e pelo que deixam de dizer.
Redes sociais: ironia, sarcasmo, duplo sentido são frequentes; a pragmática ajuda a desvendar intenções.
Exemplos comentados
Exemplo 1: Propaganda
Slogan: “Brastemp – o próximo nível.”
Ato ilocucionário: assertivo? Diretivo? Na verdade, é um assertivo (afirma que a marca representa o próximo nível), mas também comissivo (implicitamente promete qualidade superior).
Pressuposto: há níveis, e a Brastemp está além do comum.
Implicatura: quem compra Brastemp está à frente, é moderno, exigente.
Exemplo 2: Conversa cotidiana
A: “Você viu meu celular?”
B: “A última vez que usei, estava na sala.”
B viola a máxima da quantidade? Na verdade, fornece informação relevante (localização aproximada), mas deixa implícito que não sabe onde está agora. A implicatura é que o celular pode estar na sala.
Exemplo 3: Discurso político
“O candidato adversário fala muito sobre ética, mas sua assessoria responde a processos na justiça.”
O “mas” (implicatura convencional) contrasta a fala com os fatos, sugerindo hipocrisia.
A afirmação sobre a assessoria (se verdadeira) implica, por implicatura, que o candidato não é tão ético quanto prega.
Conexões com o ENEM e vestibulares
A pragmática é frequentemente cobrada em questões que envolvem:
Identificação de ironia, humor, duplo sentido em textos verbais e multimodais.
Reconhecimento de pressupostos em enunciados (o que está dado como verdade).
Análise de intenções comunicativas em diálogos, propagandas, discursos.
Distinção entre conteúdo explícito e implícito.
Efeitos de sentido produzidos por certas escolhas linguísticas.
Para responder corretamente, o aluno deve:
Identificar o ato ilocucionário predominante.
Perceber se há violação de máximas e que implicatura pode ser extraída.
Diferenciar pressupostos de subentendidos.
Relacionar esses elementos à intenção global do texto.
Esta aula ofereceu uma análise aprofundada da pragmática e da teoria dos atos de fala, desde as contribuições fundadoras de Austin até as sistematizações de Searle e as implicaturas de Grice, fornecendo ferramentas para a interpretação crítica de textos e discursos.