Ailton Krenak - A Cosmopolítica do Pluriverso - Filosofia | Tuco-Tuco
Aula de Filosofia (Outros filósofos importantes de se conhecer): Ailton Krenak - A Cosmopolítica do Pluriverso. Aula de Filosofia. A filosofia de Krenak promove uma crítica profunda ao dualismo ocidental, rejeitando a separação entre humanidade e natureza para defender a Terra como um organismo vivo e consciente. Suas obras principais, como Ideias para adiar o fim do mundo e Futuro ancestral, propõem uma temporalidade em espiral que valoriza os saberes tradicionais frente ao consumismo e ao colapso ecológico. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.
Pluriverso e Resistência: A Cosmopolítica na Filosofia de Ailton Krenak
Seção 1: Trajetória Histórica, Biopolítica e Ativismo de Ailton Krenak
Para compreender a filosofia de Ailton Krenak, é fundamental situá-la em sua experiência de vida e na resistência histórica de seu povo contra a violência colonial e o avanço da fronteira econômica.
Origem e Deslocamento Forçado: Nascido em 1953 no município de Itabirinha de Mantena (vale do rio Doce, em Minas Gerais), Krenak viveu na pele as violentas incursões e desapropriações de terras indígenas. Na década de 1960, devido a pressões territoriais intensas, sua família foi forçada a migrar para o Paraná, estabelecendo-se perto da fronteira com o Paraguai, e posteriormente migrou para a metrópole de São Paulo.
Mediação Discursiva: Em São Paulo, Krenak concluiu a educação básica e graduou-se em comunicação social. Essa formação técnica permitiu-lhe dominar ferramentas de linguagem e comunicação indispensáveis para atuar como mediador, traduzindo as demandas territoriais e cosmológicas dos povos originários para os espaços institucionais da sociedade hegemônica. Sua atuação na esfera pública projetou-se no final da década de 1970. Nos anos 1980, utilizou estrategicamente o rádio para dar visibilidade às pautas indígenas, coordenando o Programa de Índio na Rádio USP.
Articulação Coletiva: No plano organizacional, Krenak participou ativamente da fundação da União dos Povos Indígenas (UNI) em 1980. Em 1987, articulou a Aliança dos Povos da Floresta ao lado do líder seringueiro Chico Mendes. Essa aliança foi um marco histórico de articulação política, unindo as lutas de populações indígenas, ribeirinhas e extrativistas contra a destruição socioambiental e o desmatamento na Amazônia, demonstrando que as lutas pela terra e pela floresta eram indissociáveis.
A Performance Cívica de 1987: O momento de maior impacto nacional e internacional de Krenak ocorreu em 4 de setembro de 1987, durante os debates da Assembleia Nacional Constituinte. Ao discursar na tribuna em defesa dos direitos indígenas, Krenak realizou uma intervenção de forte impacto estético e político: pintou o rosto com a pasta preta do jenipapo enquanto denunciava o massacre e o retrocesso legal promovidos contra as comunidades originárias.
Conquista Constitucional: Essa performance foi decisiva para mobilizar a opinião pública e garantir a aprovação do Capítulo VIII (Título VIII) da Constituição Federal de 1988. Esse capítulo rompeu com o histórico assimilacionista do Estado brasileiro (que até então tratava o indígena como uma categoria de transição a ser integrada à sociedade branca) e garantiu, legalmente, a proteção às suas identidades coletivas, formas de organização social e direitos originários sobre suas terras ancestrais.
Consolidação Intelectual: Posteriormente, Krenak atuou na Conferência Eco-92 no Rio de Janeiro e exerceu funções públicas como Assessor Especial para Assuntos Indígenas do Governo de Minas Gerais (2003–2010). Seu reconhecimento intelectual consolidou-se com a concessão de títulos de doutor honoris causa por instituições de prestígio, como a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2023, tornou-se o primeiro escritor de origem indígena a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL).
Seção 2: A Crítica ao Dualismo Moderno e a Ontologia da Terra
O núcleo ontológico da filosofia krenakiana repousa na desconstrução da divisão ocidental clássica entre "natureza" e "cultura".
A Separação Abstrata: O pensamento moderno ocidental, estruturado a partir de filósofos racionalistas e empiristas dos séculos XVII e XVIII — como René Descartes e Francis Bacon —, estabeleceu que o ser humano é uma criatura dotada de razão puramente separada e superior ao mundo biofísico. Sob esse viés científico-racionalista, o homem tem a missão de dominar o mundo natural. Krenak argumenta que essa separação produziu um processo de "dessacralização da natureza".
A Natureza como Recurso: Ao retirar o estatuto sagrado e vivo do meio físico, a modernidade transformou a biosfera em um estoque inerte de matéria-prima a ser exaurido pela acumulação capitalista. A paisagem, as florestas, os minerais e as águas são reduzidos a objetos utilitários, recursos econômicos a serem explorados e descartados quando conveniente. Krenak pontua que o colonialismo não é um evento encerrado no passado, mas uma lógica contínua de exploração que segue operando por meio desse pragmatismo técnico e extrativista.
A Terra como Organismo Vivo (Gaia): Em oposição à visão extrativista, Krenak propõe que a Terra seja percebida como um organismo vivo, consciente e dotado de subjetividade, ao qual os seres humanos pertencem (e não o contrário). Há um "continuum" corpóreo-espacial que nos une à biosfera: o nosso corpo biológico não está isolado; ele é constituído do mesmo barro, água e minerais que formam as montanhas, as florestas e os rios. Quimicamente, somos compostos pelos mesmos elementos da natureza — sendo cerca de 70% de água. Agredir a Terra é agredir a si mesmo.
Personificação dos Entes Naturais: Para o pensamento krenakiano, elementos da paisagem física não são recursos inanimados, mas parentes e ancestrais dotados de personalidade.
A Serra Tacu Craque: Localizada junto às terras do povo Krenak, a serra possui nome, personalidade e se comunica. Os Krenak observam nela os sinais de chuva, sol e vento como se dialogassem com um semelhante.
O Rio Watu: O rio Doce é chamado de Watu e é tratado como o avô do povo Krenak. Quando, em 5 de novembro de 2015, a barragem de rejeitos de mineração da Samarco/Vale/BHP rompeu em Mariana, despejando toneladas de lama tóxica sobre a bacia do rio Doce, os Krenak não diagnosticaram o ocorrido apenas como um "passivo ambiental" ou um "acidente". Para eles, tratou-se de um crime de morte contra seu próprio ancestral, o avô Watu. Esse episódio ilustra a violência física e simbólica que o capitalismo impõe ao destruir seres de relação e parentesco ecológico.
Seção 3: O "Clube Exclusivo" da Humanidade e a Produção de Ausências
Outra crítica central da filosofia de Ailton Krenak é direcionada ao conceito universal de "humanidade" construído pela modernidade eurocêntrica e colonial.
A Ilusão da Humanidade Homogênea: Embora documentos jurídicos globais (como a Declaração Universal dos Direitos Humanos) pressuponham uma igualdade formal e universal para todos os seres humanos, Krenak argumenta que essa humanidade abstrata e singular é uma ficção mercantil construída para fins de dominação. O projeto civilizatório moderno erigiu um sujeito universal abstrato que é essencialmente branco, ocidental, urbano, corporativo e sintonizado com os interesses financeiros de grandes corporações multinacionais.
O Clube dos Humanos vs. a Sub-humanidade: Essa ficção opera uma divisão violenta na população global, separando-a em dois grandes blocos:
1. O Clube Selete dos Humanos: Composto por cerca de 10% da população do planeta, que usufrui de privilégios econômicos, direitos garantidos, saneamento e alta tecnologia. Esses sujeitos estão isentos das violências que eles mesmos geram, vivendo em cidades fortificadas, distantes da terra física de onde extraem seus recursos.
2. A Sub-humanidade: Composta pelos 90% restantes (que incluem povos indígenas, ribeirinhos, caiçaras, quilombolas e a imensa massa de trabalhadores pobres). Essa parcela da população é destituída de infraestrutura básica, forçada a trabalhar de forma extenuante e colocada à margem dos direitos reais. Ela só é aceita no sistema na condição de mão de obra barata ou insumo industrial. Além disso, toda a diversidade biológica do planeta que não atende a propósitos comerciais é igualmente descartada e largada à margem da consideração ética.
O Plasma do Consumo: O capitalismo de mercado atua de forma a homogeneizar todas as singularidades sociais. Ele precisa unificar hábitos, desejos e necessidades para transformar a população mundial em um imenso plasma de consumidores integrados. Sob essa perspectiva, em vez de cidadãos plenos e diversos, as pessoas são domesticadas para agir primordialmente como clientes e consumidores desde a infância. O consumo toma o lugar da cidadania e da soberania cultural.
A Produção de Ausências e a "Humanidade Zumbi": Ao converter a existência em um processo puramente utilitário de produção, trabalho e consumo, as sociedades urbanas modernas sofrem uma "erosão da vida". A modernidade gera uma profunda intolerância em relação àqueles que ainda conseguem experimentar a fruição simples da vida — o cantar, o dançar, o sonhar e o contemplar. Somos convocados a integrar uma "humanidade zumbi" que prega o fim do mundo como destino inevitável, incentivando a apatia de que não há nada a ser feito a não ser consumir e trabalhar até o colapso final. É uma forma de nos fazer desistir dos nossos próprios sonhos.
Leituras de Apoio e Análise de Fragmentos (Para Discussão em Sala)
Fragmento 1: Sobre a divisão humana e a sub-humanidade
"Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante ao longo da história os humanos aliás esse clube exclusivo da humanidade que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições foram devastando tudo ao seu redor é como se estivessem elegido uma casta à humanidade e todos que estão fora dela são a suhumanidade não são os caiçaras quilombolos e povos indígenas mas toda a vida que deliberadamente largamos a margem do caminho".
Fragmento 2: Sobre a produção de ausências e o comportamento apático
"O nosso tempo é especialista em criar ausências do sentido de viver em sociedade do próprio sentido da experiência da vida isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo de dançar e de cantar e está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança canta Faz Chover o tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer tanta fruição da vida".
Seção 4: A Trilogia da Insurgência — Desconstruindo a Produtividade e o Desenvolvimento
A produção intelectual recente de Ailton Krenak alcançou ampla repercussão nacional e internacional a partir de três ensaios publicados sequencialmente: Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020) e Futuro ancestral (2022). Essas obras são, em sua essência, transcrições e organizações de intervenções orais, como palestras, lives, entrevistas e debates realizados pelo pensador. Essa escolha metodológica preserva o caráter rítmico, performático e relacional da oralitura e da tradição oral indígena.
*Ideias para adiar o fim do mundo (2019): Neste ensaio, Krenak reflete sobre a iminência de um colapso ecológico global decorrente do divórcio entre a humanidade e o planeta. Ele enfatiza que a experiência do "fim do mundo" não constitui um evento inédito para as comunidades originárias. Desde o início das invasões coloniais nas Américas, os povos indígenas testemunham a destruição sistemática de seus mundos sociais, ecológicos e espirituais. Diante da marcha coletiva rumo ao abismo promovida pela modernidade, Krenak sugere que o colapso civilizatório atual pode ser adiado pela capacidade de narrar histórias e inventar outros mundos possíveis*. O ato de compartilhar visões e cantos tradicionais atua como um desvio ético que suspende a urgência utilitarista do mercado e preserva a pluridiversidade cosmológica.
**A vida não é útil (2020):* Gestado sob o impacto direto da pandemia de COVID-19, este livro denuncia o "estado de coma consensual" no qual as sociedades contemporâneas se encontram mergulhadas desde a imposição do projeto colonial-moderno. Krenak questiona a submissão total da existência humana aos parâmetros de utilidade econômica, eficácia administrativa e produtividade. Ele mobiliza de forma crítica as ideias de Michel Foucault em Vigiar e Punir, apontando como o pensamento ocidental moderno concebe que o ser humano só tem valor ou "saúde" quando é produtivo dentro da engrenagem capitalista. Em oposição a esse produtivismo degradante, Krenak assevera que a vida não possui uma finalidade produtiva ou um destino utilitário; a vida é fruição poética, contemplação estética e integração com o todo. Trata-se de uma "dança cósmica" que a racionalidade moderna tenta reduzir a uma "coreografia utilitária e ridícula" focada em acúmulo financeiro e destruição material.
**Futuro ancestral (2022):* Composto com a colaboração de Rita Carelli, o ensaio desafia o conceito ocidental de progresso linear e a temporalidade que projeta o futuro como um horizonte abstrato e vazio. Ambas as ilusões do porvir — o pânico apocalíptico e a salvação mágica pela tecnologia — desviam o foco ético do momento presente e das relações concretas com a biosfera. Krenak defende que as respostas para a sustentabilidade da vida já se encontram ativas nas memórias da terra e nos saberes profundos dos antepassados.
Seção 5: Cosmologias em Espiral e a "Florestania"
O pensamento de Ailton Krenak propõe uma reorganização radical de nossas percepções de tempo, espaço e engajamento sociopolítico.
Temporalidade Linear versus Temporalidade em Espiral: A modernidade ocidental opera sob uma teleologia temporal linear, representada por uma flecha que avança do passado (visto como atraso ou obsolescência) em direção ao futuro (visto como progresso e desenvolvimento tecnológico ilimitados). Krenak contrapõe a esse modelo uma temporalidade em espiral ou circular. Sob essa perspectiva cosmológica, o tempo não caminha em linha reta rumo à destruição inevitável, mas se move em ciclos onde os saberes profundos e os ciclos naturais sustentam e regeneram a vida presente. Os rios, as florestas e os seres não humanos, ao existirem no aqui e agora, reativam continuamente a herança ancestral. O futuro, portanto, não está adiante como uma projeção vazia, mas atrás de nós, como a memória e a sabedoria acumuladas que orientam o nosso caminhar sobre o solo presente.
Cidadania versus Florestania: Outra importante inovação conceitual é a diferenciação crítica entre a cidadania ocidental convencional e a noção de florestania. A cidadania moderna, herdada dos modelos da polis grega e do urbanismo romano, estruturou-se historicamente sobre a exclusão da natureza. Para que o sujeito da polis exerça seus direitos civis e políticos, exige-se a domesticação ou a higienização do espaço natural por meio do asfalto, do concreto e da canalização de águas.
Em contrapartida, Krenak formula a noção de florestania (a fusão entre floresta e cidadania). A florestania propõe uma pactuação político-existencial que se estabelece não pela imposição da urbanidade artificial sobre a selva, mas pelo respeito aos modos coletivos de organização da floresta. Esse conceito encontra lastro histórico na Aliança dos Povos da Floresta, organizada por Krenak e Chico Mendes na década de 1980. Ao unirem as pautas de comunidades tradicionais e seringueiros contra o desmatamento, eles pleiteavam o direito de permanecer na floresta sem submeter-se ao parcelamento privado da terra promovido pelo Estado: "não queriam estacas nem lotes, queriam a fluidez do rio, a continuidade do bosque". A florestania descentraliza o ser humano e reinsere a paisagem ecológica no centro da comunidade ético-jurídica.
Seção 6: Ecologia de Saberes e Diálogos de Resistência
O pensamento de Ailton Krenak insere-se em uma ampla rede de produção epistemológica contra-hegemônica do Sul Global, estabelecendo pontes com a antropologia contemporânea e outras lideranças dos povos originários.
O Diálogo com o Perspectivismo Ameríndio: A crítica de Krenak ao dualismo encontra eco teórico nas formulações conceituais de Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima sobre o perspectivismo ameríndio. Essa matriz descreve uma chave cosmológica comum a diversos povos da Amazônia, segundo a qual os seres vivos partilham de uma humanidade espiritual latente. As distinções entre as espécies de seres não são dadas pela ausência ou presença de alma ou racionalidade (as quais todos os entes possuem em comum), mas pelas particularidades dos corpos físico-sensoriais que habitam.
Sob o paradigma do multinaturalismo, a cultura é a base comum e compartilhada por todas as espécies, ao passo que a diversidade reside na corporeidade de cada ente. Krenak utiliza o potencial de descolonização do perspectivismo para sustentar que as serras, os rios e as florestas são sujeitos dotados de ponto de vista, agência e afetos, exigindo que o convívio humano com o meio ambiente seja pautado pela reciprocidade diplomática e pelo respeito mútuo, expandindo o estatuto de cidadania ao pluriverso ecológico.
O Diálogo com Davi Kopenawa: A contestação de Krenak à fúria produtivista e ao neoliberalismo econômico converge com a crítica cosmológica de Davi Kopenawa, xamã e líder Yanomami, coautor de A queda do céu. Kopenawa analisa criticamente a sociedade ocidental não indígena sob o conceito de "povo da mercadoria". Ele aponta que a obsessão industrial pelo ouro, minérios e desmatamento evoca forças patogênicas e epidemias que adoecem os corpos e rompem o equilíbrio invisível que sustenta o céu. Ambos os pensadores coincidem na premissa de que o modelo extrativista-capitalista constitui uma ameaça biofísica direta à sobrevivência da vida planetária.
O Diálogo com Sandra Benites: No âmbito educacional, a crítica de Krenak às instituições hegemônicas modernas, em especial à escola convencional, sintoniza-se com as investigações de Sandra Benites (Ara Rete), ativista e antropóloga Guarani Nhandewa. Benites desenvolve uma crítica profunda à estrutura escolar imposta pelo Estado aos territórios tradicionais. Ela defende a valorização do conhecimento das mulheres guarani (kunhangue arandu) e a aplicação prática do bem-viver (teko porã), combatendo a domesticação existencial e cognitiva promovida pelo currículo escolar tradicional eurocêntrico.
Seção 7: Práticas Estéticas e Culturais como Intervenção Cosmopolítica
Na práxis de Ailton Krenak, a arte, a expressão cultural e a curadoria estética não são acessórios ilustrativos de sua atuação política, mas sim táticas fundamentais para descolonizar a sensibilidade e disputar os imaginários sociais da modernidade.
A Reencenação de O Guarani (2023): Em 2023, Krenak colaborou com a diretora de teatro Cibele Forjaz na reencenação da ópera O Guarani, clássico composto por Carlos Gomes em 1870 com base no romance romântico homônimo de José de Alencar. Na montagem original oitocentista, o indígena Peri é retratado de acordo com as convenções do romantismo indianista oficial, sob o prisma do bom selvagem domesticado que renuncia voluntariamente às suas origens, cultura e território para se integrar de forma submissa à civilização cristã e imperial.
Na releitura cênica de 2023, a ópera foi reconstruída por meio da incorporação ativa de atores, cantores e músicos indígenas no palco. Essa intervenção estética desconstruiu a herança colonial oitocentista, convertendo a representação romântica em uma manifestação viva de saberes tradicionais insurgentes. O espetáculo reconfigurou o palco erudito em uma arena de visibilidade cosmopolítica, onde a oralidade e a presença nativa questionaram os mitos de fundação do Estado-nação brasileiro.
A Crítica Cênica e Espacial nos Escritos Seminais: Essa perspectiva de combate por vias artísticas e narrativas reverbera nos textos produzidos por Krenak desde o final da década de 1990. Em sua contribuição para a antologia A outra margem do Ocidente (1999), intitulada O eterno retorno do encontro, o autor analisa criticamente as narrativas oficiais sobre o descobrimento e a colonização das Américas, ressaltando o caráter contínuo e inacabado da exploração e do contato interétnico violento. Já em O lugar onde a Terra descansa (2000), Krenak problematiza as espacialidades impostas pelo urbanismo ocidental, propondo uma reapreximação afetiva com a paisagem natural e a valorização das geografias originárias.
Leituras de Apoio e Análise de Fragmentos (Para Discussão em Sala)
Fragmento 3: Sobre o desastre do Watu (Rio Doce) e o avô ancestral
"Para os Krenak, o rio Doce, que nós chamamos de Watu, é o nosso avô. Ele é uma pessoa, tem sentimentos, canta e nos protege. Quando jogaram aquela lama de mineração em cima dele, em 2015, não foi só um desastre ecológico ou um 'passivo ambiental' corporativo. Foi o assassinato do nosso avô. Imagine ver o seu próprio avô ser envenenado e sufocado por lama tóxica na sua frente. É essa a violência que a lógica do progresso capitalista comete todos os dias contra a Terra".
Fragmento 4: Sobre o conceito de florestania
"O que movia o encontro desses povos na Aliança dos Povos da Floresta não era simplesmente a reivindicação de lotes de terra ou a busca pela cidadania urbana. O termo que cunhamos, florestania, pressupõe a floresta como sujeito. Os seringueiros de Chico Mendes e as comunidades indígenas não queriam estacas ou cercas privadas, mas sim a fluidez do rio e a continuidade do bosque comum. É a desconstrução da propriedade privada em prol do comum".
Exercícios:
A Aliança dos Povos da Floresta, idealizada em 1987 por Ailton Krenak e Chico Mendes, representou um marco histórico de articulação política ao unificar as demandas de comunidades indígenas e populações extrativistas, fundamentando-se na premissa de que a preservação socioambiental da Amazônia é indissociável da garantia dos direitos territoriais originários.
A intervenção político-estética de Ailton Krenak na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, caracterizada pelo ato de pintar o rosto com a pasta de jenipapo, foi determinante para consolidar a perspectiva assimilacionista no ordenamento jurídico nacional, assegurando que o Estado brasileiro continuasse a tratar os povos originários sob uma categoria de transição rumo à homogeneização social.
A crítica de Ailton Krenak ao pensamento ocidental moderno atinge o dualismo antropocêntrico estruturado a partir do racionalismo e do empirismo dos séculos XVII e XVIII, apontando que a cisão categórica entre natureza e cultura promoveu uma dessacralização do mundo biofísico, transformando a biosfera em um estoque inerte de insumos destinados à exaustão e acumulação capitalista.
Na ontologia do povo Krenak, o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Mariana no ano de 2015 transcende a categoria técnico-jurídica de passivo ambiental ou acidente ecológico, sendo caracterizado como um crime de morte contra um ancestral vivo e consciente da comunidade, o avô Watu, o rio Doce.
O conceito universal de humanidade questionado pela filosofia krenakiana constitui uma estrutura formalmente homogênea que logrou êxito em incluir de maneira equânime e simétrica todas as populações originárias, quilombolas e tradicionais no usufruto pleno das prerrogativas econômicas e tecnológicas da modernidade.
No ensaio A vida não é útil, Ailton Krenak dialoga com as críticas sobre a docilização dos corpos na engrenagem capitalista, arguindo que o modelo colonial-moderno reduz a existência humana a parâmetros estritos de utilidade econômica e produtividade, reprimindo formas de fruição existencial baseadas no cantar, no dançar e no contemplar.
Na obra Futuro ancestral, a temporalidade defendida assume uma perspectiva linear e teleológica progressista, sustentando que os desafios socioambientais do presente devem ser solucionados por meio de projeções abstratas voltadas à governança tecnológica corporativa e ao desenvolvimento mercantil de novos mercados verdes.
O conceito de florestania fundamenta-se na extensão dos direitos políticos clássicos da polis grega e do urbanismo romano aos ambientes florestais, defendendo que a preservação ecológica depende da imposição da infraestrutura de asfalto, concreto e parcelamento privado de lotes sobre os territórios indígenas.
A aproximação conceitual entre a filosofia de Ailton Krenak e o perspectivismo ameríndio expressa-se no paradigma do multinaturalismo, segundo o qual todas as espécies e entes da paisagem compartilham uma matriz cultural e espiritual comum, diferindo essencialmente pelas particularidades de suas corporeidades físicas.
Complete a frase: A aprovação do Capítulo VIII da Constituição Federal de 1988 representou um marco histórico na defesa dos direitos originários ao romper expressamente com o histórico _____ do Estado brasileiro.
Complete a frase: Sob o viés científico-racionalista da modernidade ocidental, a retirada do estatuto sagrado e vivo do meio físico produziu um violento processo de _____ da natureza, transformando a biosfera em estoque inerte de matéria-prima.
Complete a frase: Diante do rompimento da barragem de rejeitos em Mariana no ano de 2015, o povo Krenak interpretou o desastre ecológico na bacia do Rio Doce não como mero passivo ambiental, mas como um crime de morte contra seu próprio _____.
Complete a frase: Para Krenak, o capitalismo de mercado atua homogeneizando as singularidades sociais e domesticando os indivíduos para que ajam primordialmente como _____ desde a infância, substituindo o exercício pleno da cidadania.
Complete a frase: No ensaio _____ , Krenak mobiliza criticamente o pensamento de Michel Foucault para denunciar como a engrenagem capitalista ocidental condiciona o valor e a saúde do ser humano à sua produtividade econômica.
Complete a frase: Em oposição à teleologia temporal linear e progressiva do ocidente moderno, a filosofia ameríndia propõe uma temporalidade em _____ em que o futuro é orientado pela memória e sabedoria acumuladas no passado.
Complete a frase: A noção de _____ formulada por Krenak descentraliza o ser humano do cenário político e contrapõe-se à cidadania urbana convencional ao reinserir a paisagem ecológica e o respeito aos modos coletivos da mata no centro da comunidade ética.
Complete a frase: Sob o paradigma antropológico do _____ , articulado na ecologia de saberes de Krenak, a cultura é entendida como a base comum compartilhada por todas as espécies, enquanto a real diversidade reside nas particularidades dos corpos.