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Adam Smith - Filosofia | Tuco-Tuco

Aula de Filosofia (Duas figuras essenciais do Liberalismo: Adam Smith e Tocqueville): Adam Smith. Adam Smith como filósofo da economia e da moral. Estude gratuitamente para vestibular e ENEM no Tuco-Tuco.

A Filosofia de Adam Smith Antes de ser lembrado como o "pai da economia moderna", Adam Smith (1723–1790) foi, acima de tudo, um professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow, figura central do Iluminismo escocês e amigo próximo de David Hume. Sua visão do mundo não se baseava na ideia de que os humanos são máquinas frias de calcular lucros (o famoso Homo economicus), mas sim seres profundamente sociais e empáticos. Toda a base do seu pensamento filosófico está em sua obra-prima de 1759, A Teoria dos Sentimentos Morais — publicada 17 anos antes de A Riqueza das Nações. Smith considerava a Teoria dos Sentimentos Morais sua obra mais importante, e a revisou até a sexta e última edição, publicada poucos meses antes de sua morte, em 1790. A filosofia moral de Smith sustenta-se em alguns pilares centrais: O Princípio da Simpatia Smith começa sua obra rejeitando a ideia de que o ser humano é movido apenas pelo egoísmo — posição associada a Thomas Hobbes e, de forma ainda mais direta, a Bernard Mandeville, cuja Fábula das Abelhas (1714) defendia que os vícios privados produziam benefícios públicos. É contra esses "sistemas licenciosos", como os chamava, que Smith abre seu livro. Para ele, o fundamento da moralidade é a "simpatia" — uma palavra que, no século XVIII, tinha um sentido muito mais próximo do que hoje chamamos de empatia. É a nossa capacidade inata e imaginativa de nos colocarmos no lugar do outro e sentirmos um reflexo do que ele sente. Smith argumentava que até mesmo a pessoa mais egoísta do mundo sente algum prazer em ver a felicidade alheia e sofre um desconforto natural ao presenciar a miséria de alguém. O Espectador Imparcial Esta é a ideia mais brilhante e central da ética de Smith. Como decidimos se uma ação nossa é boa ou ruim? Smith diz que nós regulamos nossa conduta imaginando um "juiz" interno — o Espectador Imparcial, também descrito por ele como "o homem dentro do peito" (the man within the breast). Quando estamos prestes a agir, nós nos dividimos mentalmente: somos o agente e, ao mesmo tempo, um Espectador Imparcial (um observador neutro, justo e que não está cegado pelos nossos interesses pessoais). Nós nos perguntamos: "O que uma pessoa imparcial e bem-informada pensaria dessa minha atitude?" A moralidade, portanto, não desce dos céus como uma lista de regras divinas, nem é puramente ditada pelas leis do Estado. Ela surge de baixo para cima, da convivência diária. A sociedade age como um espelho onde ajustamos nosso próprio comportamento até que ele seja aprovável por esse observador neutro. O Desejo de Ser "Amável" Smith argumenta que a natureza humana possui dois grandes impulsos sociais interligados que nos impedem de sermos monstros egoístas: O desejo de ser amado: Queremos aprovação, respeito e admiração social. O desejo de ser amável (digno de aprovação): Não queremos apenas a aprovação superficial; queremos merecer esse respeito de fato. A falsa glória (ser elogiado por algo que você não fez) traz um peso na consciência, pois o Espectador Imparcial dentro de nós sabe a verdade. As Quatro Virtudes Fundamentais Para que a sociedade funcione, o nosso Espectador Imparcial nos guia em direção a quatro virtudes que equilibram as relações humanas. Smith as sistematizou de forma definitiva na seção "Do Caráter da Virtude", acrescentada à sexta edição da obra, em 1790: Prudência: A virtude do cuidado consigo mesmo — zelar pela própria saúde, fortuna e reputação. É o impulso moralmente aprovado de buscar o próprio bem-estar, desde que dentro dos limites da justiça. Justiça: A virtude "negativa", baseada em não causar danos à vida, à propriedade ou às promessas feitas aos outros. É o pilar que sustenta o edifício social; se desmoronar, a sociedade acaba. Beneficência: A virtude "positiva", o ato de fazer o bem voluntariamente. Ela torna a sociedade bela e acolhedora (como o "ornamento" do edifício), mas, ao contrário da justiça, não pode ser exigida à força. Autodomínio: A capacidade de domar nossas próprias paixões, medos e raivas, agindo de forma moderada para que os outros consigam "simpatizar" com nossos sentimentos sem se assustarem com nossos excessos. Smith considerava o autodomínio uma virtude especial, da qual "todas as outras virtudes parecem tirar o seu principal brilho", pois é ela que nos permite, na prática, agir conforme a prudência, a justiça e a beneficência. "Por mais egoísta que se suponha o homem, há evidentemente alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte de outros, e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo, embora não extraia disso nada além do prazer de vê-la." — Adam Smith, na frase de abertura de A Teoria dos Sentimentos Morais. Em suma, a filosofia de Adam Smith revela que a ordem social se sustenta não porque somos forçados por leis severas, mas porque somos psicologicamente programados para buscar conexão, aprovação e harmonia moral com as pessoas ao nosso redor. "A Riqueza das Nações" Publicado em 1776, Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações é frequentemente reduzido a um manual de regras econômicas. Mas, na sua essência, é uma grande obra de filosofia social e institucional. O objetivo de Adam Smith não era ensinar comerciantes a lucrar, mas sim investigar como uma sociedade formada por milhões de estranhos consegue cooperar e prosperar sem precisar de uma autoridade central ditando cada passo. Filosoficamente, o livro de Smith subverteu a maneira como o mundo ocidental entendia a sociedade, o Estado e o ser humano. Ele fez isso através de quatro grandes rupturas: 5.1. A Redefinição Democrática de "Riqueza" Antes de Smith, o modelo vigente era o Mercantilismo. Acreditava-se que a riqueza de um país era o tamanho das reservas de ouro e prata no cofre do Rei. Para acumular esse ouro, os governos fechavam fronteiras e davam monopólios aos "amigos do rei". A grande revolução filosófica de Smith foi afirmar que o ouro é inútil por si só. Para ele, a verdadeira riqueza de uma nação é o padrão de vida de sua população, especialmente dos mais pobres. Um país é rico se o seu povo tem acesso abundante a comida, roupas e moradia. Essa visão deslocou o centro da economia: tirou o foco do Estado e do Soberano e o colocou no consumidor e no cidadão comum. 5.2. A Divisão do Trabalho como Vínculo Social Logo no primeiro capítulo, Smith usa o famoso exemplo da fábrica de alfinetes. Um homem sozinho talvez fizesse um alfinete por dia. Dez homens, dividindo as tarefas (um corta o arame, o outro afia, o outro coloca a cabeça), fazem mais de 48 mil por dia. Mas a lição de Smith aqui não é apenas sobre produtividade fabril, é sobre interdependência humana. A divisão do trabalho significa que ninguém mais consegue produzir tudo o que precisa para sobreviver. Nós nos tornamos especialistas em uma pequena função e, por causa disso, passamos a depender da cooperação pacífica de milhares de outras pessoas ao redor do globo. O mercado é a gigantesca teia social que une essa cooperação. 5.3. O "Sistema de Liberdade Natural" Filósofos anteriores acreditavam que a ordem social precisava ser imposta de cima para baixo pela força da lei ou da religião (a "ordem desenhada"). Smith introduziu a ideia de ordem espontânea. Ele argumentou que, se você remover os privilégios, os monopólios e a coerção, a interação livre entre pessoas comuns buscando melhorar suas próprias vidas gerará uma ordem muito mais complexa e eficiente do que qualquer burocrata conseguiria planejar. O "Sistema de Liberdade Natural" defende que o indivíduo é o melhor juiz dos seus próprios interesses, não o Estado. 5.4. O Ceticismo em Relação aos "Capitalistas" Há um grande mito de que Adam Smith era um defensor cego dos grandes empresários. Na verdade, A Riqueza das Nações é um livro pró-mercado, mas frequentemente anti-capitalista (no sentido de grandes corporações monopolistas). Smith advertia repetidamente que comerciantes e donos de indústrias estão sempre tentando fraudar o público ou se unir para aumentar os preços artificialmente. | O que Smith defendia | O que Smith atacava | |---|---| | A livre concorrência e o livre comércio | Os subsídios do governo a indústrias amigas | | A mobilidade dos trabalhadores | Os cartéis e monopólios comerciais | | O consumo acessível para os mais pobres | As tarifas de importação que encareciam os produtos | Além disso, Smith via um perigo moral na própria divisão do trabalho que ele elogiava. Ele alertou que passar a vida inteira apertando o mesmo parafuso (ou repetindo a mesma tarefa simples) tornaria o trabalhador "tão estúpido e ignorante quanto é possível a uma criatura humana se tornar". Para combater essa alienação, Smith defendeu, no Livro V de A Riqueza das Nações, que o Estado tinha a obrigação de facilitar e incentivar a educação básica da classe trabalhadora, propondo uma pequena escola em cada paróquia, onde as crianças pudessem aprender a ler, escrever e contar por uma taxa tão módica que até um trabalhador comum pudesse pagá-la, com o professor sendo remunerado apenas em parte pelo Estado — não uma escola totalmente gratuita, mas fortemente subsidiada, para que o mestre não perdesse o incentivo de fazer bem o seu trabalho. Ainda assim, para os padrões de 1776, era uma proposta notavelmente avançada. A aparente contradição no seu pensamento Durante muito tempo, estudiosos alemães do século XIX (ligados à Escola Histórica Alemã) debateram o que chamaram de "Das Adam Smith Problem" (O Problema Adam Smith): como o autor que em 1759 disse que o ser humano é movido pela simpatia e empatia pôde escrever, em 1776, que o motor da sociedade é o interesse próprio? Pareciam dois autores diferentes. Hoje, a filosofia e a economia modernas concordam que não há contradição alguma. A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações não são visões opostas da natureza humana, mas sim descrições de como agimos em esferas diferentes da vida. A conexão entre essas duas ideias se dá através de três pontos fundamentais: 6.1. Esferas Diferentes para Relações Diferentes Smith entendia que nossa capacidade de "simpatia" (empatia) tem um limite natural. É como uma fogueira: aquece muito quem está perto, mas não chega a quem está longe. Na esfera íntima (família, amigos, vizinhos): A simpatia e a beneficência dominam. Nós ajudamos nossos entes queridos por amor e empatia, não esperando lucro. Na esfera pública/mercado (desconhecidos): Em uma sociedade complexa, você precisa do trabalho de milhares de pessoas que nunca viu para ter o seu jantar. Como você não consegue ter uma conexão íntima de "simpatia" com o padeiro, o fazendeiro e o transportador, você apela para o interesse próprio deles. Como Smith famosamente escreveu, não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas sim do interesse que cada um deles tem em cuidar do próprio negócio. O mercado é o mecanismo que usamos para cooperar pacificamente com estranhos. 6.2. O Interesse Próprio é a "Prudência", não a Ganância Em A Riqueza das Nações, o interesse próprio não significa egoísmo cruel, ganância ou passar por cima dos outros. Na filosofia moral de Smith, cuidar de si mesmo e buscar melhorar de vida é uma virtude chamada Prudência — a mesma virtude já apresentada na Teoria dos Sentimentos Morais. O Espectador Imparcial (o juiz interno da primeira obra) aprova totalmente que você busque o lucro, trabalhe duro e queira enriquecer, desde que você não viole a justiça. Se o seu interesse próprio se transformar em fraude, roubo, escravidão ou monopólio, o Espectador Imparcial condena a ação, pois ela fere os direitos alheios. O mercado de Smith tem regras morais severas. 6.3. A "Mão Invisível" Precisa da Bússola Moral A "mão invisível" é a ideia de que indivíduos buscando seu próprio benefício acabam, sem intenção, promovendo o bem-estar de toda a sociedade (gerando empregos, inovações e produtos melhores e mais baratos). Um detalhe frequentemente cobrado em provas: a expressão "mão invisível" é usada por Smith apenas três vezes em toda a sua obra publicada — uma em A Teoria dos Sentimentos Morais, uma em A Riqueza das Nações e uma em seu ensaio póstumo sobre a história da astronomia. Smith nunca escreveu "a mão invisível" como um conceito sistemático e central; trata-se de uma metáfora pontual que a tradição econômica posterior (sobretudo no século XX) transformou em símbolo de todo o seu pensamento. Essa mão invisível só funciona, contudo, se estiver operando sobre a fundação moral descrita em A Teoria dos Sentimentos Morais: | | A Teoria dos Sentimentos Morais (1759) | A Riqueza das Nações (1776) | |---|---|---| | Foco de Estudo | Psicologia social e formação ética | Relações de troca, produção e mercado | | Motor da Ação | Simpatia (empatia) | Interesse próprio (prudência) | | O que evita o caos? | O Espectador Imparcial (juiz interno) | A concorrência e a Justiça (leis) | | Virtude Central | Beneficência e Autodomínio | Prudência e Justiça | Para Smith, o mercado livre é um jogo maravilhoso de cooperação em larga escala, mas só funciona se os jogadores tiverem uma base moral forte. Se os comerciantes formam cartéis para enganar os consumidores, ou se usam o governo para destruir os concorrentes, o livre mercado é corrompido. A simpatia cria o terreno da justiça e da confiança; o interesse próprio constrói a casa em cima desse terreno. Exercícios: Complete a frase: O interesse próprio na filosofia moral de Smith é sinônimo de Prudência, sendo perfeitamente aprovado pelo Espectador Imparcial desde que a ação do indivíduo não venha a violar a _____. Na filosofia de Adam Smith, a obra 'A Teoria dos Sentimentos Morais', publicada antes de 'A Riqueza das Nações', era considerada pelo próprio autor como o seu trabalho mais importante, tendo sido revisada e modificada de forma contínua até a sua sexta e última edição, lançada em 1790. Ao formular o princípio da simpatia como base da moralidade, Adam Smith alinhou-se integralmente às teses de Bernard Mandeville na 'Fábula das Abelhas', concordando que os vícios privados são os motores indispensáveis para a produção de benefícios públicos e para a harmonia das relações sociais. O conceito de Espectador Imparcial na ética de Adam Smith funciona como um juiz interno pelo qual o indivíduo regula sua conduta de forma reflexiva, indicando que a moralidade emerge de baixo para cima na convivência social, e não exclusivamente de imposições estatais ou dogmas divinos. Complete a frase: Na esfera pública ou de mercado, que envolve desconhecidos com os quais não conseguimos estabelecer uma conexão íntima de simpatia, o motor da cooperação pacífica baseia-se no _____. Complete a frase: Smith começa sua obra rejeitando a ideia de que o ser humano é movido apenas pelo egoísmo — posição associada a Thomas Hobbes e, de forma ainda mais direta, a Bernard Mandeville, cuja obra _____ defendia que os vícios privados produziam benefícios públicos. Complete a frase: Como decidimos se uma ação nossa é boa ou ruim? Smith diz que nós regulamos nossa conduta imaginando um juiz interno — o _____, também descrito por ele como o homem dentro do peito. Complete a frase: Smith argumenta que a natureza humana possui dois grandes impulsos sociais interligados que nos impedem de sermos monstros egoístas: o desejo de ser amado e o desejo de ser _____. Complete a frase: Smith considerava o _____ uma virtude especial, da qual todas as outras virtudes parecem tirar o seu principal brilho, pois é ela que nos permite, na prática, agir conforme a prudência, a justiça e a beneficência. Complete a frase: Antes de Smith, o modelo vigente era o _____, no qual se acreditava que a riqueza de um país era o tamanho das reservas de ouro e prata no cofre do Rei. Complete a frase: Para combater a alienação decorrente da divisão do trabalho, Smith propôs no Livro V de A Riqueza das Nações que o Estado deveria facilitar e incentivar a educação básica por meio de uma escola em cada paróquia cobrando uma _____. Complete a frase: Smith introduziu a ideia de _____, argumentando que, se você remover os privilégios, os monopólios e a coerção, a interação livre entre pessoas comuns buscando melhorar suas próprias vidas gerará uma ordem complexa e eficiente. Complete a frase: Um detalhe frequentemente cobrado em exames é que a expressão mão invisível é usada por Adam Smith apenas _____ em toda a sua obra publicada. De acordo com a sistematização das virtudes na 'Teoria dos Sentimentos Morais', o autodomínio possui uma posição de destaque por permitir o controle das paixões e excessos, sendo a virtude da qual as demais — como a prudência, a justiça e a beneficência — parecem extrair seu brilho principal. A grande ruptura filosófica promovida por 'A Riqueza das Nações' consistiu em consolidar a visão mercantilista clássica de que a verdadeira riqueza de um Estado reside na manutenção de um superávit comercial rígido e no acúmulo de ouro e prata nos cofres do Soberano. A divisão do trabalho discutida na obra econômica de Adam Smith, para além do incremento técnico de produtividade fabril, possui uma dimensão de vínculo social que gera interdependência generalizada entre indivíduos que não se conhecem em uma sociedade de mercado. O 'Sistema de Liberdade Natural' proposto por Adam Smith sustenta que a harmonia do mercado e o progresso econômico dependem de um planejamento institucional centralizado, capaz de desenhar a ordem social de cima para baixo de modo a guiar os interesses dos comerciantes. A metáfora da 'mão invisível' constitui o conceito analítico mais exaustivamente repetido e estruturado por Adam Smith ao longo de quase todos os capítulos de suas duas principais obras conceituais, servindo de base mecânica para a sua teoria de preços. Apesar de elogiar a divisão do trabalho, Adam Smith identificou o risco de ela provocar a alienação e o estancamento intelectual do operário, propondo como reparação que o Estado subsidiasse a educação básica paroquial por meio de um modelo de copagamento módico. O debate historiográfico conhecido como 'Das Adam Smith Problem' foi solucionado definitivamente pela filosofia moderna ao demonstrar a existência de uma contradição lógica irreconciliável entre o altruísmo ético de sua primeira obra e o egoísmo econômico radical de sua segunda obra.