Anomia e strain: Merton e as respostas adaptativas ao descompasso entre metas e meios - Criminologia | Tuco-Tuco
Aula de Criminologia (Teorias Sociológicas II: Anomia, strain, subcultura e criminalidade como adaptação): Anomia e strain: Merton e as respostas adaptativas ao descompasso entre metas e meios. Anomia (noções) como enfraquecimento normativo e tensão estrutural. Strain mertoniano: metas culturais de sucesso x meios legítimos. Modos de adaptação: conformidade, inovação, ritualismo, retraimento e rebelião. Como o crime pode ser 'inovação' sob restrição de oportunidades. Cuidados: não determinismo e diversidade de respostas. Estude gratuitamente para concursos públicos e OAB no Tuco-Tuco.
Anomia e strain (Merton): quando o problema é o descompasso entre metas e meios
1) Introdução: da pergunta “quem é o criminoso?” para “que estrutura social produz o crime?”
Até meados do século XX, as teorias criminológicas concentravam-se em duas grandes questões: as características individuais que levam alguém a delinquir (positivismo) ou os processos de aprendizagem e associação que explicam a transmissão de valores criminosos (teorias da aprendizagem). A Escola de Chicago, por sua vez, chamara a atenção para a importância do território e da desorganização social.
Faltava, no entanto, uma teoria que explicasse como a própria estrutura social, em seu funcionamento normal, poderia gerar pressões para o cometimento de crimes. Essa lacuna foi preenchida pela teoria da anomia (ou do strain), desenvolvida pelo sociólogo americano Robert K. Merton (1910-2003) em um ensaio seminal de 1938, intitulado “Estrutura social e anomia”.
Merton inverteu a pergunta tradicional: em vez de indagar por que certos indivíduos se desviam, ele perguntou como a própria organização social pode produzir desvios ao criar tensões entre os objetivos culturalmente valorizados e os meios legítimos disponíveis para alcançá-los. O crime, nessa perspectiva, não é resultado de patologia individual ou de falhas de socialização, mas uma resposta adaptativa a contradições inerentes à estrutura social.
2) A origem do conceito: a anomia em Durkheim
Antes de Merton, o conceito de anomia havia sido introduzido na sociologia por Émile Durkheim (1858-1917). Para Durkheim, anomia designava um estado de enfraquecimento ou ausência de normas em uma sociedade ou grupo. Em suas obras “Da divisão do trabalho social” (1893) e “O suicídio” (1897), ele mostrou que períodos de rápidas transformações econômicas ou de crise podem gerar uma situação em que as regras tradicionais perdem sua força, sem que novas normas tenham se consolidado. Nesse vazio normativo, os indivíduos ficam desorientados, suas aspirações tornam-se ilimitadas e aumentam as taxas de suicídio (especialmente o suicídio anômico) e de outros comportamentos desviantes.
Durkheim, no entanto, não desenvolveu uma teoria sistemática do crime. Coube a Merton retomar o conceito e adaptá-lo à análise da sociedade americana de seu tempo, marcada pela ênfase no sucesso material e pela desigualdade de oportunidades.
3) A teoria do strain de Robert Merton
3.1 Pressupostos: metas culturais e meios institucionalizados
Merton parte de uma distinção fundamental entre dois elementos de qualquer estrutura social:
Metas culturais: objetivos, propósitos e interesses definidos culturalmente como legítimos para todos os membros da sociedade. Na sociedade americana (e, por extensão, nas sociedades capitalistas ocidentais), a meta cultural dominante é o sucesso material, frequentemente simbolizado pela riqueza, pelo consumo e pelo status elevado. Essa meta é intensamente difundida e internalizada por todos, independentemente de sua posição social.
Meios institucionalizados: as formas legítimas e aceitas de alcançar essas metas. Incluem a educação formal, o trabalho honesto, o esforço pessoal, a poupança, o empreendedorismo. São os “caminhos certos” para o sucesso.
Em uma sociedade bem integrada, haveria um equilíbrio entre as metas e os meios: todos teriam acesso, em alguma medida, aos meios legítimos para perseguir as metas culturalmente valorizadas. No entanto, Merton observou que isso não ocorre na prática. As metas são universalmente difundidas, mas os meios são desigualmente distribuídos. Pessoas de classes baixas, minorias étnicas, moradores de regiões empobrecidas enfrentam barreiras estruturais (falta de escolas de qualidade, discriminação, pobreza) que dificultam ou impedem o acesso aos meios legítimos.
3.2 A tensão (strain) e as respostas adaptativas
Essa discrepância entre a ênfase cultural no sucesso e a limitação estrutural dos meios gera uma tensão (strain) que pressiona os indivíduos a buscar formas alternativas de alcançar as metas. Merton identificou cinco modos de adaptação individual a essa tensão, que variam conforme o indivíduo aceita ou rejeita as metas culturais e os meios institucionalizados.
| Modo de adaptação | Metas culturais | Meios institucionalizados |
|-------------------|-----------------|---------------------------|
| 1. Conformidade | Aceita | Aceita |
| 2. Inovação | Aceita | Rejeita |
| 3. Ritualismo | Rejeita | Aceita |
| 4. Retraimento | Rejeita | Rejeita |
| 5. Rebelião | Rejeita/substitui | Rejeita/substitui |
3.2.1 Conformidade
É a resposta mais comum e esperada. O indivíduo aceita tanto as metas culturais quanto os meios legítimos. Ele trabalha, estuda, poupa e, se tiver sucesso, alcança a riqueza de forma honesta. Se não tiver sucesso, continua tentando, sem abandonar os meios convencionais. A conformidade é o que mantém a estabilidade social.
3.2.2 Inovação
O indivíduo aceita as metas culturais (quer o sucesso material), mas rejeita os meios institucionalizados, por considerá-los inacessíveis ou insuficientes. Para alcançar o sucesso, ele lança mão de meios ilegítimos: crime, corrupção, fraudes, tráfico de drogas, etc. Este é o modo de adaptação tipicamente criminógeno. Merton enfatiza que o inovador não rejeita os valores da sociedade; pelo contrário, ele os internalizou tão profundamente que está disposto a violar as regras para realizá-los.
Exemplo: um jovem de periferia que, sem acesso a educação de qualidade e a empregos bem remunerados, opta pelo tráfico de drogas para obter dinheiro e status. Ele não quer derrubar a sociedade capitalista; quer participar dela, consumir, ter reconhecimento.
3.2.3 Ritualismo
O indivíduo rejeita as metas culturais (desiste de buscar o sucesso material), mas continua a seguir os meios institucionalizados de forma mecânica. É o funcionário público que cumpre seu expediente sem ambição, o trabalhador que faz o seu trabalho mas não busca promoção, o pequeno comerciante que toca seu negócio sem grandes expectativas. O ritualista “abaixa suas aspirações” para evitar a frustração. Esse modo não gera criminalidade, mas sim apatia e conformismo.
3.2.4 Retraimento
O indivíduo rejeita tanto as metas quanto os meios. É o modo de adaptação dos “desistentes”: moradores de rua, dependentes químicos crônicos, pessoas que vivem à margem da sociedade, sem participar de suas instituições. O retraimento pode levar a comportamentos como o uso abusivo de drogas, a mendicância, o alcoolismo. Embora não seja crime em si, pode estar associado a delitos de sobrevivência (pequenos furtos) ou a infrações administrativas (contravenção de vadiagem, por exemplo).
3.2.5 Rebelião
O indivíduo rejeita as metas e os meios vigentes e propõe sua substituição por novas metas e novos meios. É o modo dos revolucionários, dos ativistas políticos, dos que buscam transformar a sociedade. A rebelião pode envolver atos ilegais (como a desobediência civil ou ações de grupos radicais), mas sua motivação é política e ideológica, não meramente adaptativa.
3.3 A inovação como resposta típica da criminalidade
Para a criminologia, o modo de adaptação mais relevante é a inovação. Merton mostra que o crime não é produto de uma cultura criminosa autônoma, mas sim da pressão estrutural exercida sobre aqueles que, tendo internalizado as metas de sucesso, encontram-se bloqueados no acesso aos meios legítimos.
Isso explica por que as taxas de criminalidade são mais altas nas classes baixas: não porque os pobres sejam intrinsecamente mais imorais, mas porque sofrem mais intensamente a tensão entre as metas culturais e os meios disponíveis. Também explica por que a criminalidade diminui em períodos de pleno emprego e aumento da mobilidade social: quando os meios legítimos se expandem, a pressão para inovar ilegitimamente diminui.
4) Aplicações e exemplos contemporâneos
A teoria de Merton continua extremamente atual para compreender diversos fenômenos criminais:
Crimes patrimoniais (furtos, roubos, estelionatos): cometidos por pessoas que buscam obter recursos materiais diante da falta de oportunidades legítimas.
Tráfico de drogas: para muitos jovens de periferia, o tráfico oferece uma via rápida de acesso a dinheiro e status, em contraste com o emprego formal de baixa remuneração e pouca perspectiva.
Crimes de colarinho branco: embora Merton tenha focado nas classes baixas, sua teoria também pode explicar a criminalidade de executivos e empresários que, já tendo acesso a meios legítimos, buscam um sucesso ainda maior por meio de fraudes, sonegação, corrupção. Nesse caso, a pressão vem da própria cultura capitalista, que exige acumulação incessante.
Criminalidade em contextos de desigualdade extrema: países com altos índices de desigualdade tendem a apresentar maiores taxas de crimes contra o patrimônio, justamente porque a ênfase no consumo é difundida por todos, mas o acesso aos meios legítimos é drasticamente desigual.
5) Críticas e limites da teoria de Merton
Nenhuma teoria está imune a críticas. A abordagem de Merton recebeu várias objeções ao longo das décadas:
5.1 Foco excessivo nas classes baixas
Merton desenvolveu sua teoria para explicar a criminalidade comum (furtos, roubos), mas não dá conta satisfatoriamente dos crimes de colarinho branco e dos crimes cometidos por pessoas de classes altas. Nestes casos, a pressão não vem da falta de meios, mas sim da ambição desmedida ou da cultura organizacional. Críticos apontam que a teoria do strain precisaria ser complementada para explicar esses fenômenos.
5.2 Pressuposto de consenso cultural
Merton supõe que todos compartilham as mesmas metas culturais (sucesso material). No entanto, em sociedades complexas e multiculturais, existem diferentes sistemas de valores. Alguns grupos podem rejeitar a meta do sucesso material e priorizar outros objetivos (religiosos, comunitários, artísticos). Nesses casos, a pressão do strain seria menor.
5.3 Ignora a agência e a diversidade de respostas
A teoria pode dar a impressão de que a resposta à tensão é mecânica: dado o bloqueio, o indivíduo inevitavelmente inova. Na realidade, muitas pessoas em situação de pobreza não cometem crimes, mesmo sob forte pressão. Fatores como vínculos familiares, redes de apoio, religião, valores internalizados, oportunidades legítimas concretas (mesmo que poucas) e até características individuais influenciam a escolha. Merton reconhecia isso, mas sua teoria não explica a variação individual.
5.4 Desconsidera o papel do controle social e da rotulação
A teoria do strain não explica por que, diante da mesma pressão, alguns recorrem à inovação e outros ao ritualismo ou ao retraimento. Tampouco considera como a reação social (labeling) pode influenciar as trajetórias. Um jovem que furta pode ser rotulado como criminoso, o que fecha ainda mais as oportunidades legítimas e o empurra para a inovação persistente.
5.5 Dificuldade de testagem empírica
Medir a “tensão” e a internalização das metas é complexo. Estudos quantitativos muitas vezes usam proxies como pobreza, desemprego, desigualdade, mas esses indicadores não captam diretamente a percepção subjetiva da tensão.
6) Desdobramentos: o strain generalizado (Agnew)
A partir das críticas, Robert Agnew desenvolveu, nos anos 1980 e 1990, uma versão ampliada da teoria, conhecida como strain generalizado (general strain theory). Essa teoria, que será objeto da próxima aula, incorpora outras fontes de tensão além do bloqueio de metas: a remoção de estímulos positivos (perda de entes queridos, término de relacionamento) e a apresentação de estímulos negativos (violência, abuso, discriminação). Agnew também dá mais atenção às emoções (raiva, frustração) e aos fatores que influenciam a resposta à tensão (coping, apoio social, controle).
7) Conexões com a realidade brasileira
A teoria de Merton é particularmente útil para compreender a criminalidade no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo. A sociedade brasileira, por meio da mídia e da publicidade, difunde intensamente os valores de consumo e sucesso material. Ao mesmo tempo, o acesso à educação de qualidade, ao emprego formal e à mobilidade social é extremamente desigual, especialmente para negros, moradores de periferia e populações rurais.
Essa combinação gera uma enorme tensão estrutural, que se manifesta em altas taxas de crimes patrimoniais, no envolvimento de jovens com o tráfico de drogas e na perpetuação da violência. As políticas de transferência de renda (como o Bolsa Família, programa de transferência de renda atualmente em vigor no Brasil) e de inclusão educacional podem ser vistas como tentativas de aliviar essa tensão, ampliando os meios legítimos para as camadas mais pobres.
8) Implicações para políticas públicas
A teoria do strain sugere que a redução da criminalidade não pode ser alcançada apenas com repressão policial e aumento de penas. É preciso atuar sobre a estrutura de oportunidades, ampliando o acesso legítimo às metas culturais. Isso envolve:
Investimento em educação de qualidade, desde a primeira infância até o ensino superior.
Políticas de geração de emprego e renda, especialmente para jovens.
Redução da desigualdade social por meio de políticas fiscais progressivas, programas de transferência de renda e proteção social.
Combate à discriminação racial e de gênero, que bloqueia o acesso de grupos inteiros aos meios legítimos.
Fortalecimento de redes de apoio comunitário e familiar, que podem atenuar a percepção da tensão e oferecer suporte para respostas não criminosas.
A criminologia, ao apontar as raízes estruturais do crime, desloca o debate do campo puramente penal para o campo das políticas sociais. O operador do direito deve estar atento a essa dimensão, seja ao atuar na formulação de políticas, seja ao julgar casos concretos, reconhecendo que a mera punição, desacompanhada de transformações sociais, tende a ser ineficaz e injusta.
9) Síntese
A teoria da anomia e do strain de Robert Merton representa um marco na criminologia, ao demonstrar que o crime pode ser uma resposta “normal” a pressões estruturais, e não um produto de patologias individuais. Ao distinguir entre metas culturais e meios institucionalizados, e ao identificar os cinco modos de adaptação, Merton ofereceu um poderoso instrumento analítico para compreender as relações entre desigualdade, cultura e criminalidade.
Apesar das críticas e limitações, sua teoria continua extremamente influente e atual, especialmente em contextos de alta desigualdade como o brasileiro. Ela nos lembra que a prevenção do crime passa, necessariamente, pela construção de uma sociedade mais justa, onde as metas de sucesso não sejam inatingíveis para grande parte da população.
A próxima aula avançará sobre os desdobramentos contemporâneos da teoria, especialmente o strain generalizado de Robert Agnew, que incorpora novas fontes de tensão e dá conta de uma gama mais ampla de comportamentos desviantes.
Exercícios:
No strain de Merton, a fonte estrutural da pressão criminógena é sobretudo:
Em sentido sociológico, anomia se relaciona mais a:
A categoria de 'inovação' em Merton corresponde a:
Uma formulação correta sobre strain é que ele:
Em Merton, 'rebelião' se distingue porque:
Complete a frase: Na perspectiva de Robert Merton, o modo de adaptação individual que aceita as metas de sucesso material, mas recorre a meios ilegais para atingi-las, é a _____.
Complete a frase: Antes de Merton, Émile Durkheim utilizou o termo anomia para descrever um estado de _____ normativo que ocorre em períodos de crises ou rápidas mudanças sociais.
Complete a frase: Merton distingue dois elementos da estrutura social, sendo as _____ definidas como os objetivos e propósitos considerados legítimos para todos os cidadãos.
Complete a frase: O descompasso entre a internalização das metas de sucesso e a falta de acesso a meios legítimos para as camadas desfavorecidas gera uma _____, que atua como pressão ao crime.
Complete a frase: O modo de adaptação que garante a estabilidade social, no qual o indivíduo aceita tanto os objetivos de sucesso quanto os meios institucionalizados de vida, é a _____.
Complete a frase: Merton identifica a resposta criminógena por excelência como a inovação, pois o indivíduo não rejeita os valores da sociedade, mas sim o seu _____ .
Complete a frase: No modo de adaptação denominado _____, o indivíduo desiste de buscar o sucesso material, mas mantém uma adesão rígida e quase mecânica às normas burocráticas.
Complete a frase: Caracterizado pela rejeição simultânea das metas de sucesso e dos meios legítimos de vida, o modo de adaptação dos que vivem à margem da sociedade é o _____ .
Complete a frase: Ao contrário das demais adaptações, a _____ implica a rejeição das metas e meios atuais em favor da proposição de uma nova ordem política e social.
Complete a frase: Para reduzir a criminalidade sob a ótica da anomia, o Estado deve promover reformas na _____, garantindo que as camadas pobres tenham chances reais de sucesso.