Aula de Ciências Contábeis Aplicadas ao Setor Público (Receita Pública): Transferências Intergovernamentais. Aula de Ciências Contábeis para estudantes que se preparam para concursos públicos. Estude gratuitamente para concursos públicos e OAB no Tuco-Tuco.
Transferências Intergovernamentais
O sistema de transferências como espinha dorsal do federalismo fiscal brasileiro
O Brasil é uma federação com profunda assimetria fiscal vertical: a União concentra a maior parte da capacidade arrecadatória (IR, IPI, contribuições federais), enquanto os Municípios — responsáveis por prestação direta de serviços à população — têm base tributária própria limitada (ISS, IPTU, ITBI). O sistema de transferências é o mecanismo que redistribui a arrecadação concentrada para os entes que prestam os serviços.
Essa redistribuição ocorre em dois grandes regimes, com natureza jurídico-contábil completamente diferente:
| Regime | Características | Exemplos |
|---|---|---|
| Transferências constitucionais/legais obrigatórias | Decorrem de norma (CF ou lei) que fixa a obrigação de repassar — o ente transferidor não tem discricionariedade; o beneficiário tem direito subjetivo ao recebimento | FPM, FPE, ITR, ICMS (estado → município), IPVA (estado → município), FUNDEB, SUS |
| Transferências voluntárias | Decorrem de ato de vontade do transferidor — convênios, contratos de repasse, termos de fomento; o beneficiário não tem direito garantido antes do acordo | Convênios do FNDE para escola, repasses do Ministério da Saúde para ações específicas, convênios de segurança pública |
Transferências constitucionais obrigatórias: a repartição da CF/88
2.1. Fundos de participação (CF, arts. 159, I)
| Fundo | Base de cálculo | Destinação |
|---|---|---|
| FPE (Fundo de Participação dos Estados) | 21,5% do IR + IPI (produto arrecadado pela União) | Estados e DF, pela fórmula do LC 62/1989 (inverso do PIB per capita) |
| FPM (Fundo de Participação dos Municípios) | 23,5% do IR + IPI (10% no 1º decêndio de dezembro — LC 91/97; 1% em julho — EC 55) | Municípios pela fórmula população × inverso da renda |
| FPEx (Fundo de Exportação) | 10% do IPI sobre exportações (art. 159, II) | Estados e DF pela proporção das exportações |
Os fundos são entregues diretamente pela STN às contas dos entes beneficiários, sem passar pelo orçamento dos estados intermediários. O reconhecimento no ente beneficiário segue a Aula 10.4: VPA quando os requisitos são implementados (a cada decêndio de repasse).
2.2. Repartição direta de impostos
| Imposto | Repartição direta | Base constitucional |
|---|---|---|
| IR sobre rendimentos pagos por estados/municípios | 100% para o ente pagador | CF, arts. 157, I e 158, I |
| ITR (sobre imóveis rurais) | 50% para o Município da localização (ou 100% se o município fizer a fiscalização) | CF, art. 158, II e § único |
| IOF sobre ouro como ativo financeiro | 70% para o Estado de origem; 30% para o Município | CF, art. 153, § 5º |
| ICMS | 25% para os Municípios do Estado arrecadador | CF, art. 158, IV (¾ por local de consumo; ¼ pelo estado) |
| IPVA | 50% para os Municípios do Estado arrecadador | CF, art. 158, III (pelo local de licenciamento) |
| CIDE combustíveis | 29% para os Estados (que repassam 25% aos Municípios) | CF, art. 159, III |
⚠️ As proporções são decoreba obrigatória — e as bancas testam cada uma. O ponto mais cobrado: o ICMS repassa 25% para os Municípios (¾ por valor adicionado no município; ¼ conforme critérios do estado); o IPVA repassa 50% para o Município de licenciamento. Confundir os percentuais é erro frequente.
2.3. FUNDEB: a transferência com dedução na origem
O FUNDEB (Lei 14.113/2020) é um fundo de natureza contábil — não há depósito físico único. Opera por:
Dedução na origem: o Estado retém 20% das principais receitas de impostos próprios e das transferências constitucionais recebidas — ICMS, IPVA, IPI-exportação, ITR, FPM, FPE, ITCMD;
Complementação da União: se o valor por aluno do estado for inferior ao mínimo nacional, a União complementa (VAAT — Valor Aluno Ano Total; VAAF — Valor Aluno Ano Fundeb);
Redistribuição: os recursos são redistribuídos entre Estado e Municípios proporcionalmente às matrículas na rede pública de cada ente;
Vinculação de 70%: no mínimo 70% dos recursos devem ir para remuneração de profissionais do magistério em efetivo exercício.
Do ponto de vista contábil (Aula 5.5 e 10.4): o ente paga uma VPD de transferência concedida (a sua contribuição ao FUNDEB) e recebe uma VPA de transferência corrente (sua cota redistribuída). O resultado líquido patrimonial pode ser positivo ou negativo, dependendo de o ente ser "ganhador" ou "perdedor" no FUNDEB.
2.4. SUS: transferências fundo a fundo
As transferências do SUS do Ministério da Saúde para os estados e municípios operam no modelo fundo a fundo: do Fundo Nacional de Saúde (FNS) para os Fundos Estaduais e Municipais de Saúde. Cada bloco de financiamento (Atenção Básica, Média e Alta Complexidade, Vigilância em Saúde etc.) tem suas regras específicas de repasse.
A restrição de uso (os recursos devem ser aplicados em saúde — EC 29/2000 e LC 141/2012) sem cláusula de devolução enquadra a maioria dos repasses do SUS como receita com restrição (VPA imediata — Aula 10.4) — não como receita com condição (que geraria passivo). O controle de aplicação é feito pela Vigilância Sanitária e pelos conselhos de saúde, não pela devolução automática.
Transferências voluntárias: o regime da LRF
3.1. Conceito e distinção
LRF, art. 25: "Para efeito desta Lei Complementar, entende-se por transferência voluntária a entrega de recursos correntes ou de capital a outro ente da Federação, a título de cooperação, auxílio ou assistência financeira, que não decorra de determinação constitucional, legal ou os destinados ao Sistema Único de Saúde."
A definição exclui expressamente as transferências obrigatórias (constitucionais, legais) e o SUS. O que resta é o universo de convênios, contratos de repasse, termos de fomento e instrumentos similares em que o ente transferidor tem discricionariedade.
3.2. Condições para realizar transferências voluntárias (art. 25, §§ 1º e 2º)
O ente transferidor só pode realizar a transferência se o beneficiário:
Estiver em dia com a prestação de contas de transferências anteriores recebidas do mesmo transferidor;
Observar os limites constitucionais relativos à educação e saúde;
Estiver dentro dos limites de dívida consolidada e operações de crédito fixados pela LRF;
Cumprir os requisitos fiscais da LRF (limites de despesa de pessoal, entre outros).
Além disso, a contrapartida é regra geral (o beneficiário contribui com parcela dos recursos para o objeto), exceto para os Municípios com até 50.000 habitantes, para os quais a contrapartida pode ser dispensada.
3.3. As vedações do art. 25, § 3º
"É vedada a utilização de recursos transferidos em finalidade diversa da pactuada."
E o corolário do art. 26: qualquer assistência financeira a outro ente deve ser autorizada pelo Senado Federal quando superar determinado valor ou prazo, conforme regulamentação.
3.4. Transferências voluntárias e o reconhecimento (Aula 10.4 aplicada)
Cada instrumento de transferência voluntária precisa ser classificado como condição ou restrição (NBC TSP 17 — Aula 10.4):
Com condição de devolução (cláusula expressa de reembolso em caso de não aplicação): passivo no recebimento; VPA pelo cumprimento das etapas;
Com restrição de uso apenas (aplicar na finalidade, sem cláusula de devolução automática): VPA imediata no recebimento; controle pela DDR e pela prestação de contas.
Na prática dos convênios federais, a maioria tem cláusula de devolução do saldo não aplicado e, em muitos casos, de restituição em caso de irregularidade — o que tende a enquadrá-los como "com condição" para fins contábeis.
As transferências no contexto dos demonstrativos
4.1. No Balanço Orçamentário (BO)
As transferências correntes recebidas integram a receita corrente realizada (origem 1.7). As transferências de capital recebidas integram a receita de capital realizada (origem 2.4). O BO não distingue obrigatórias de voluntárias — essa distinção aparece nas notas ou no demonstrativo por origem específica.
4.2. Na DVP
VPA pelo recebimento das transferências (grupo 4.5 — transferências e delegações recebidas);
VPD pela contribuição ao FUNDEB e outras transferências concedidas (grupo 3.5 — transferências e delegações concedidas).
O valor líquido (VPA recebida − VPD concedida) reflete a posição do ente como ganhador ou perdedor líquido no sistema de transferências.
4.3. No RREO
O RREO evidencia, por bloco de financiamento (função/subfunção), a execução das receitas de transferências — permitindo verificar se os recursos vinculados (saúde, educação) estão sendo arrecadados e aplicados nos mínimos constitucionais.
Transferências diretas a pessoas
Além das transferências intergovernamentais, o sistema público inclui transferências diretas a pessoas físicas — que têm tratamento contábil e orçamentário específico:
| Programa | Natureza | Classificação orçamentária |
|---|---|---|
| Bolsa Família / Auxílio Brasil | Benefício social direto | Corrente — Transferências a pessoas físicas (3.9 ou 3.2 conforme a estrutura) |
| BPC (LOAS — Benefício de Prestação Continuada) | Benefício assistencial (LOAS, art. 203 CF) | Corrente — Benefícios previdenciários e assistenciais (3.2) |
| Aposentadorias e pensões (RPPS) | Benefício previdenciário | Corrente — 3.2 |
| Seguro-desemprego | Benefício trabalhista | Corrente — 3.x |
Do ponto de vista patrimonial, as transferências a pessoas físicas geram VPD quando incorridas (mês de competência), independente do pagamento — a mesma lógica dos benefícios previdenciários (Aula 9.3).
A vedação de transferências voluntárias como sanção da LRF
A LRF usa a suspensão das transferências voluntárias como principal instrumento de sanção ao descumprimento de obrigações fiscais:
| Descumprimento | Sanção de transferência voluntária |
|---|---|
| Não enviar contas no prazo (art. 51, §2º) | Vedação de receber transferências voluntárias |
| Ultrapassar limite de despesa de pessoal (art. 23) | Vedação de receber transferências voluntárias |
| Não publicar RREO ou RGF (art. 51, §2º) | Vedação de receber transferências voluntárias |
| Inscrever RP além da disponibilidade (art. 42, em final de mandato) | Pode levar à vedação indireta por irregularidade apurada pelo TC |
A efetividade dessa sanção depende da verificação ativa pelo ente transferidor (tipicamente a União ou o Estado) antes de liberar cada parcela — o que os sistemas de controle (SICONFI, CAUC — Cadastro Único de Exigências para Transferências Voluntárias) operacionalizam.
Questões comentadas (estilo das principais bancas)
Questão 1 (estilo Cebraspe — Certo/Errado). O Fundo de Participação dos Municípios, constituído por 23,5% da arrecadação federal do Imposto de Renda e do IPI, é distribuído aos Municípios proporcionalmente às suas populações e é reconhecido como variação patrimonial aumentativa no ente beneficiário à medida que os repasses decendiais são creditados.
Gabarito: ERRADO. Dois pontos: (a) o FPM é distribuído por fórmula que combina população com faixas de renda per capita inversa — não simplesmente proporcional à população (isso seria o simples; a fórmula é mais complexa, com coeficientes tabelados); (b) pela competência, a VPA deveria ser reconhecida quando os requisitos são implementados (com o direito ao decêndio estabelecido), não necessariamente "à medida que os repasses são creditados" (que seria reconhecimento na arrecadação). O enunciado mistura dois erros sutis que, individualmente, cada candidato pode aceitar como correto.
Questão 2 (estilo Cebraspe — Certo/Errado). Nos termos da LRF, considera-se transferência voluntária a entrega de recursos correntes ou de capital a outro ente da Federação, a título de cooperação, auxílio ou assistência financeira, não incluída nessa definição a entrega de recursos decorrente de determinação constitucional ou legal, bem como os destinados ao Sistema Único de Saúde.
Gabarito: CERTO. Art. 25 da LRF em literalidade, com as três exclusões: obrigação constitucional, obrigação legal e recursos para o SUS.
Questão 3 (estilo FGV — múltipla escolha). Quanto à repartição constitucional do IPVA, é correto afirmar que:
(A) 100% pertence ao Estado arrecadador;
(B) 50% pertence ao Município onde o veículo está licenciado e 50% ao Estado arrecadador;
(C) 25% é repassado ao Município onde o veículo é utilizado e 75% ao Estado;
(D) 30% ao Município e 70% ao Estado, conforme a LRF;
(E) 50% ao Município e 50% à União, para o FPE.
Gabarito: B. CF, art. 158, III: 50% do IPVA para o Município de licenciamento (não de uso ou residência — o licenciamento é o critério). Os outros 50% ficam com o Estado.
Questão 4 (estilo FCC — múltipla escolha). Para realizar transferências voluntárias a outro ente, o ente transferidor deve verificar, entre outras condições, que o beneficiário:
(A) tenha aprovado lei de responsabilidade fiscal própria equivalente à LC 101/2000;
(B) esteja em dia com a prestação de contas de transferências voluntárias anteriormente recebidas do mesmo transferidor, respeite os limites constitucionais de saúde e educação e observe os limites de dívida e operações de crédito da LRF;
(C) tenha obtido aprovação do TCU nas últimas contas prestadas;
(D) disponha de controle interno certificado por entidade privada de auditoria;
(E) não possua qualquer parcelamento de dívida com a União.
Gabarito: B. As condições do art. 25, §1º da LRF: prestação de contas em dia + limites de saúde/educação + limites de dívida/operações de crédito. (A), (C), (D) e (E) são condições não previstas no art. 25.
Questão 5 (estilo Cebraspe — Certo/Errado). O Município que não publicou o Relatório Resumido da Execução Orçamentária no prazo legal fica impedido de receber transferências voluntárias da União e do Estado ao qual pertence, mas não fica impedido de contratar operações de crédito com instituições financeiras privadas.
Gabarito: ERRADO. A sanção do art. 51, §2º da LRF abrange tanto a vedação de transferências voluntárias quanto a vedação de contratar operações de crédito, exceto as destinadas ao refinanciamento do principal da dívida mobiliária. Ambas as vedações aplicam-se conjuntamente.
Questão 6 (estilo Avalia/Cesgranrio — múltipla escolha). Um município recebe repasse do Fundo Municipal de Saúde de R$ 1.200.000 proveniente do SUS, com destinação vinculada à atenção básica mas sem cláusula de devolução em caso de não aplicação. O tratamento contábil adequado no recebimento é:
(A) D Caixa 1.200.000 × C Obrigação condicional (passivo) 1.200.000, com VPA reconhecida à medida da aplicação;
(B) D Caixa 1.200.000 × C VPA — Transferências correntes 1.200.000, com controle do uso pela disponibilidade por destinação de recursos (DDR);
(C) D Caixa 1.200.000 × C Receita diferida (passivo) 1.200.000;
(D) registro exclusivamente nas contas de controle (7/8), sem efeito patrimonial imediato;
(E) D Caixa 1.200.000 × C VPD 1.200.000, pela obrigação de prestar contas.
Gabarito: B. Restrição de uso sem cláusula de devolução = VPA imediata + controle pela DDR. Se houvesse cláusula de devolução integral, seria passivo condicional (alternativa A). A distinção condição × restrição da Aula 10.4 em sua aplicação direta ao SUS.
Questão 7 (estilo FGV — múltipla escolha). O FUNDEB opera como fundo de natureza contábil, retendo percentual das principais receitas de impostos e transferências de estados e municípios e redistribuindo proporcionalmente às matrículas. O Município que contribui com mais recursos ao FUNDEB do que recebe de volta registra:
(A) VPA líquida, pois toda transferência é receita;
(B) VPD de transferência concedida (contribuição ao FUNDEB) maior que a VPA de transferência recebida (cota redistribuída), resultando em efeito patrimonial líquido negativo para esse Município — ele é "perdedor líquido" no fundo;
(C) resultado patrimonial nulo, pois as transferências dentro do FUNDEB se compensam automaticamente;
(D) VPD apenas quando os recursos do FUNDEB são pagos aos professores;
(E) nenhum efeito, pois o FUNDEB não é receita orçamentária.
Gabarito: B. O Município "perdedor" no FUNDEB tem VPD de contribuição (grupo 3.5) maior que a VPA de recebimento (grupo 4.5), resultando em impacto líquido negativo no resultado patrimonial. Esse é o mecanismo de redistribuição: os municípios com mais alunos em proporção à receita de impostos são os beneficiados; os com menos matrículas relativas contribuem mais do que recebem.