Estoques no Setor Público - Ciências Contábeis Aplicadas ao Setor Público | Tuco-Tuco
Aula de Ciências Contábeis Aplicadas ao Setor Público (Controle Interno; Depreciação, Amortização e Exaustão; Avaliação e Mensuração de Ativos e Passivos): Estoques no Setor Público. Aula de Ciências Contábeis para estudantes que se preparam para concursos públicos. Estude gratuitamente para concursos públicos e OAB no Tuco-Tuco.
Estoques no Setor Público
Conceito e o inventário público típico
Estoques são ativos: (a) em forma de materiais ou suprimentos a serem consumidos no processo de produção ou na prestação de serviços; (b) mantidos para venda ou distribuição no curso normal das operações; ou (c) em processo de produção para venda ou distribuição. Base: NBC TSP 04 e MCASP.
O que muda no setor público é o perfil do estoque — e ele orienta as regras especiais desta aula:
| Categoria | Exemplos públicos |
|---|---|
| Materiais de consumo (almoxarifado) | Expediente, limpeza, peças, combustíveis |
| Materiais para distribuição gratuita | Medicamentos, merenda escolar, livros didáticos, vacinas, cestas básicas |
| Materiais para prestação de serviços | Insumos hospitalares, materiais de manutenção |
| Produtos/mercadorias (entidades que vendem) | Publicações oficiais, produtos de estatais dependentes |
| Estoques estratégicos/reguladores | Estoques públicos de alimentos |
💡 O consumo de estoques como VPD independente da execução orçamentária (a despesa orçamentária ocorre na compra; a VPD, no consumo) foi exaustivamente construído nas Aulas 4.2 a 5.5 — esta aula pressupõe aquele circuito e foca a mensuração.
Mensuração inicial: o custo
2.1. O que entra no custo
O custo dos estoques compreende todos os custos de aquisição, de transformação e outros incorridos para trazê-los à sua condição e localização atuais:
| Compõem o custo de aquisição | Não compõem (são VPD do período) |
|---|---|
| Preço de compra | Descontos comerciais e abatimentos (deduzem o custo) |
| Tributos não recuperáveis | Desperdícios/perdas anormais |
| Frete, transporte, seguro e manuseio diretamente atribuíveis | Armazenagem não necessária ao processo (estocagem entre fases produtivas necessária: entra) |
| Outros custos diretamente atribuíveis | Despesas administrativas não atribuíveis e despesas de venda |
Exemplo: medicamentos por 100.000; frete 4.000; tributo não recuperável 6.000; desconto comercial 2.000 → custo = 108.000.
2.2. Aquisição sem contraprestação
Estoques recebidos em doação ou por transação sem contraprestação (transferências de bens, apreensões destinadas a uso): mensuração inicial pelo valor justo na data da aquisição (a mesma regra dos ativos doados — Aulas 5.6 e 5.5), com VPA correspondente.
Mensuração subsequente: a regra e a exceção pública
3.1. Regra geral
Estoques são mensurados pelo menor valor entre o custo e o valor realizável líquido (VRL).
VRL = preço de venda estimado no curso normal das operações menos os custos estimados de conclusão e os necessários para realizar a venda (a base de saída, específica da entidade — Aula 5.6). Se o VRL cair abaixo do custo (obsolescência, danos, queda de preços), reconhece-se ajuste para perdas (VPD 3.6; reversível até o limite do custo original quando as condições mudarem — VPA 4.6, a mecânica da Aula 5.5).
3.2. A exceção-assinatura da NBC TSP 04 (a regra mais cobrada da aula)
Os estoques mantidos para distribuição gratuita ou por valor irrisório, ou para consumo no processo de produção de bens a serem distribuídos gratuitamente ou por valor irrisório, são mensurados pelo menor valor entre o custo e o CUSTO CORRENTE DE REPOSIÇÃO.
O porquê (adorado em discursivas): merenda, medicamentos e livros didáticos não têm preço de venda — o VRL é inaplicável (seria zero, aniquilando o estoque). A referência passa a ser o custo de reposição (quanto custaria repor o potencial de serviços hoje — a base de entrada da Aula 5.6): se o item pode ser reposto por menos (preços caíram), ajusta-se para baixo; o potencial de serviços do estoque é o que se mede.
| Destino do estoque | Teto da mensuração subsequente |
|---|---|
| Venda no curso normal | VRL |
| Distribuição gratuita/valor irrisório (ou consumo na produção destes) | Custo corrente de reposição |
⚠️ Pegadinha certa em prova: aplicar VRL a medicamentos da rede pública ("VRL zero → baixar o estoque") ou custo de reposição a mercadorias vendáveis. O destino do estoque escolhe a régua.
Métodos de custeio (fórmulas de atribuição do custo)
4.1. O cardápio e a regra brasileira
| Método | Quando | Status no setor público |
|---|---|---|
| Custo específico | Itens não intercambiáveis ou segregados para projetos específicos | Obrigatório para esses itens |
| Média ponderada (custo médio) | Itens intercambiáveis | A regra legal brasileira: Lei 4.320, art. 106, III — bens de almoxarifado pelo preço médio ponderado das compras (Aula 5.6) |
| PEPS (FIFO) | Itens intercambiáveis | Admitido pela NBC TSP 04; na prática pública, cede à regra do art. 106 |
| UEPS (LIFO) | — | Vedado pelas normas |
A entidade deve usar o mesmo critério para estoques de mesma natureza e uso (consistência — Aula 6.1).
4.2. Ficha de estoque resolvida (média ponderada móvel × PEPS)
Movimentação: EI 100 un. a 10,00 (1.000). Compra 1: 200 un. a 13,00 (2.600). Requisição/consumo: 220 un. Compra 2: 100 un. a 14,00 (1.400). Consumo: 120 un.
Média ponderada móvel:
| Evento | Cálculo | Saldo |
|---|---|---|
| EI | — | 100 un. × 10,00 = 1.000 |
| Compra 1 | (1.000 + 2.600) ÷ 300 = 12,00 | 300 un. × 12,00 = 3.600 |
| Consumo 220 | 220 × 12,00 = 2.640 (VPD) | 80 un. × 12,00 = 960 |
| Compra 2 | (960 + 1.400) ÷ 180 = 13,11 | 180 un. × 13,11 = 2.360 |
| Consumo 120 | 120 × 13,11 = 1.573 (VPD) | 60 un. = 787 |
PEPS (comparativo): 1º consumo = 100×10 + 120×13 = 2.560; 2º consumo = 80×13 + 40×14 = 1.600; EF = 60×14 = 840.
Leitura de prova: com preços em alta, o PEPS gera consumo menor e estoque final maior que a média — a comparação conceitual clássica (e a razão histórica da vedação ao UEPS, que faria o inverso).
Casos específicos do setor público (o repertório fino)
Distribuição gratuita efetivada (entrega da merenda, dispensação do medicamento): baixa do estoque contra VPD (grupo 3.3/3.5 conforme a estruturação — o "consumo" público por excelência);
Estoques estratégicos e reguladores: mensuração pelas regras gerais, com atenção a perdas e validade (ajustes tempestivos — oportunidade, Aula 5.2);
Bens apreendidos: quando incorporados ao patrimônio para uso/distribuição, reconhecem-se a valor justo (VPA); enquanto meros depósitos de terceiros, ficam em controle;
Materiais recebidos de outros entes (ex.: medicamentos do Ministério da Saúde a municípios): estoque a valor justo/valor de repasse com VPA de transferência recebida — e VPD na distribuição;
Perdas em inventário (faltas) e sobras: o par VPD/VPA da Aula 5.5, agora com endereço de mensuração (avaliadas ao custo médio corrente da ficha);
Prazo de validade vencido (medicamentos): baixa por perda (VPD 3.6) — desperdício anormal jamais "vira" custo de outros estoques.
Divulgação
Notas exigidas (NBC TSP 04 — amarração com a Aula 6.8): políticas de mensuração adotadas, inclusive as fórmulas de custeio; valor contábil total e por categoria apropriada à entidade; montante de estoques reconhecido como VPD no período (consumo/distribuição); valor de ajustes para perdas reconhecidos e revertidos, com as circunstâncias das reversões; e o valor contábil de estoques dados em garantia de passivos.
Mapa mental da aula (síntese)
Questões comentadas (estilo das principais bancas)
Questão 1 (estilo Cebraspe — Certo/Errado). Os estoques mantidos para distribuição gratuita, como medicamentos e merenda escolar, bem como os destinados ao consumo no processo de produção de bens a serem distribuídos gratuitamente, são mensurados pelo menor valor entre o custo e o custo corrente de reposição.
Gabarito: CERTO. A regra-assinatura da NBC TSP 04 — em sua literalidade completa, incluindo os insumos da produção de bens gratuitos.
Questão 2 (estilo Cebraspe — Certo/Errado). Integram o custo de aquisição dos estoques o preço de compra, os tributos recuperáveis, os fretes e seguros de transporte e os descontos comerciais obtidos.
Gabarito: ERRADO. Dois intrusos: tributos recuperáveis ficam fora (só os não recuperáveis entram) e descontos comerciais deduzem o custo (não o integram).
Questão 3 (estilo FGV — múltipla escolha). Nos termos da Lei nº 4.320/1964 e da prática consolidada no MCASP, os bens de almoxarifado das entidades públicas são avaliados:
(A) pelo método UEPS, que melhor reflete os custos correntes;
(B) pelo preço médio ponderado das compras;
(C) pelo custo específico, vedados os demais métodos;
(D) pelo valor justo na data do balanço;
(E) pelo PEPS, por exigência da NBC TSP 04.
Gabarito: B. Art. 106, III — a regra legal brasileira, harmonizada com a NBC TSP 04 (que admite média e PEPS e veda o UEPS).
Questão 4 (estilo FCC — múltipla escolha). A ficha de estoque de um material apresentou: estoque inicial de 100 unidades a R$ 10,00; compra de 200 unidades a R$ 13,00; consumo de 220 unidades. Pelo método da média ponderada móvel, o valor do consumo e o saldo final são, respectivamente:
(A) R$ 2.640,00 e R$ 960,00;
(B) R$ 2.560,00 e R$ 1.040,00;
(C) R$ 2.860,00 e R$ 740,00;
(D) R$ 2.200,00 e R$ 1.400,00;
(E) R$ 2.640,00 e R$ 1.040,00.
Gabarito: A. Média após a compra = 3.600 ÷ 300 = 12,00 → consumo = 220 × 12 = 2.640; saldo = 80 × 12 = 960. A letra (B) traz o resultado do PEPS — o distrator metodológico padrão.
Questão 5 (estilo Cebraspe — Certo/Errado). Constatado que o custo de determinado lote de mercadorias destinadas à venda supera o seu valor realizável líquido, a entidade deve reconhecer ajuste para redução ao valor realizável, a débito de variação patrimonial diminutiva, sendo admitida a reversão do ajuste, limitada ao custo original, caso as circunstâncias que o motivaram deixem de existir.
Gabarito: CERTO. A regra geral (menor entre custo e VRL) com a mecânica completa do ajuste e da reversão limitada — o pacote do item 3.1.
Questão 6 (estilo Avalia/Cesgranrio — múltipla escolha). Um lote de vacinas adquirido por R$ 500.000 destina-se à aplicação gratuita na rede municipal. Na data do balanço, o mesmo lote poderia ser reposto, junto aos fornecedores, por R$ 440.000. A mensuração adequada do estoque e o registro do ajuste são:
(A) R$ 500.000, sem ajuste, por se tratar de bem sem valor de venda;
(B) zero, pois o valor realizável líquido de bens gratuitos é nulo;
(C) R$ 440.000, com ajuste de R$ 60.000 reconhecido como VPD, aplicando-se o menor valor entre o custo e o custo corrente de reposição;
(D) R$ 470.000, pela média entre custo e reposição;
(E) R$ 440.000, com o ajuste registrado em ajuste de avaliação patrimonial.
Gabarito: C. O caso-modelo da exceção pública: a régua é o custo de reposição (440 < 500 → ajuste de 60, VPD). A letra (B) é exatamente o absurdo que a regra veio evitar; (E) confunde ajuste de estoque com AAP.
Questão 7 (estilo FGV — múltipla escolha). Sobre situações específicas de estoques no setor público, é correto afirmar:
(A) medicamentos com prazo de validade vencido devem ter seu custo incorporado ao dos lotes remanescentes;
(B) a entrega da merenda escolar às unidades de ensino, com o consumo correspondente, enseja baixa do estoque contra variação patrimonial diminutiva, independentemente de nova execução orçamentária;
(C) estoques recebidos em doação são registrados por valor simbólico;
(D) as sobras apuradas em inventário físico são registradas a débito de VPD;
(E) os estoques estratégicos são dispensados de ajustes por perdas.
Gabarito: B. O circuito consolidado desde a Aula 4.2: a despesa orçamentária ocorreu na aquisição; a distribuição/consumo é VPD puramente patrimonial. (A) perda anormal jamais vira custo; (C) doação = valor justo com VPA; (D) sobra é VPA; (E) não há dispensa.