Planejamento e gestão estratégica: níveis, BSC e Mapa Estratégico - Administração Pública | Tuco-Tuco
Aula de Administração Pública (Gestão Governamental I — Estratégia, Pessoas, Projetos e Processos): Planejamento e gestão estratégica: níveis, BSC e Mapa Estratégico. Conceito de estratégia, níveis de planejamento (estratégico/tático/operacional), Balanced Scorecard de Kaplan & Norton, mapa estratégico e adaptação ao setor público. Estude gratuitamente para concursos públicos e OAB no Tuco-Tuco.
Planejamento e Gestão Estratégica no Setor Público
Conceitos Fundamentais: Estratégia, Planejamento e Gestão Estratégica
A estratégia é o caminho escolhido pela organização para sair da situação presente e alcançar uma situação futura desejada, considerando os recursos disponíveis e os desafios do ambiente. Trata-se de um conceito de origem militar (do grego strategos, "a arte do general") que migrou para o mundo corporativo e, posteriormente, para a administração pública.
Henry Mintzberg é um dos principais teóricos contemporâneos da estratégia. Em seu artigo The Strategy Concept I: Five Ps for Strategy, publicado na California Management Review em 1987, Mintzberg propõe cinco definições complementares para o conceito de estratégia, conhecidas como os 5 Ps:
Plan (plano): a estratégia como um curso de ação conscientemente pretendido, elaborado antes das situações a que se aplica;
Ploy (manobra): a estratégia como artifício específico para superar um oponente;
Pattern (padrão): a estratégia como consistência de comportamento ao longo do tempo, independentemente de ter sido pretendida ou não;
Position (posição): a estratégia como a localização de determinados produtos em determinados mercados;
Perspective (perspectiva): a estratégia como a maneira fundamental de a organização enxergar o mundo.
A distinção entre plan (o curso de ação deliberado) e pattern (o padrão que emerge da prática) é central na obra de Mintzberg: ela fundamenta a diferença entre a estratégia deliberada e a estratégia emergente.
Em obra posterior — Strategy Safari (1998), escrita com Bruce Ahlstrand e Joseph Lampel —, Mintzberg identifica dez escolas de pensamento estratégico, agrupadas em escolas prescritivas (Design, Planejamento e Posicionamento) e descritivas (Empreendedora, Cognitiva, Aprendizado, Poder, Cultural, Ambiental e Configuração). A obra é referência obrigatória para a compreensão crítica do campo da estratégia.
As Quatro Formas de Estratégia em Mintzberg
Um ponto recorrente em provas de alto nível é a tipologia das estratégias segundo Mintzberg e Waters (1985):
Estratégia pretendida (intended): aquela que foi formulada e intencionada pela organização;
Estratégia deliberada (deliberate): parcela da estratégia pretendida que foi efetivamente realizada;
Estratégia emergente (emergent): padrão de comportamento que se consolida na prática sem ter sido previamente pretendido — surge da adaptação cotidiana e do aprendizado organizacional;
Estratégia realizada (realized): o resultado final; combinação do que foi deliberado com o que emergiu. Mintzberg demonstra que a estratégia realizada raramente coincide com a pretendida.
Essa tipologia tem implicação direta na crítica ao planejamento formal excessivamente rígido: ao ignorar a estratégia emergente, as organizações desperdiçam aprendizados valiosos gerados pela prática.
O Planejamento como Função Administrativa
O planejamento é a primeira das funções administrativas clássicas — planejar, organizar, dirigir e controlar (ciclo PODC) —, e sua importância é tal que, sem planejamento, a organização opera de forma reativa, sem rumo claro. O planejamento reduz a incerteza, alinha esforços coletivos, racionaliza o uso de recursos e fornece parâmetros para o controle e a avaliação de desempenho.
A gestão estratégica é o processo contínuo e sistemático que integra formulação, implementação, monitoramento e revisão da estratégia organizacional. Não se confunde com o mero plano (documento estático); a gestão estratégica pressupõe que a estratégia é viva, dinâmica, permanentemente testada pelas circunstâncias e ajustada conforme o aprendizado organizacional. O ciclo de gestão estratégica pode ser traduzido pelo modelo PDCA (Plan-Do-Check-Act):
Plan: formulação da estratégia, definição de objetivos, indicadores e metas;
Do: implementação das ações e iniciativas planejadas;
Check: monitoramento dos resultados por meio de indicadores de desempenho;
Act: avaliação e correção de rumo — revisão da estratégia à luz dos resultados obtidos.
A ausência dos estágios Check e Act é a causa mais frequente do planejamento ritualístico: o plano existe no papel, mas ninguém mede se as metas foram alcançadas nem ajusta o curso.
A Constituição Federal de 1988 consagra o planejamento como princípio fundamental da administração pública. O art. 174 estabelece que o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. O art. 37, caput, com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 19/1998, incluiu a eficiência entre os princípios constitucionais da administração pública, princípio que impõe o dever de planejar racionalmente as ações estatais.
Os Três Níveis de Planejamento
A doutrina administrativa clássica organiza o planejamento em três níveis hierarquicamente articulados, que se desdobram em cascata: cada plano operacional contribui para metas táticas, que por sua vez sustentam os objetivos estratégicos. A ausência de alinhamento entre esses níveis gera dois fenômenos patológicos: o ativismo (execução intensa sem direção estratégica) e o estrategismo (planos sofisticados que nunca saem do papel).
Planejamento Estratégico: é o nível institucional, de longo prazo (3 a 10 anos, a depender da organização). Define a visão de futuro, a missão, os valores e os grandes objetivos da organização. É decidido pela alta administração e lida predominantemente com o ambiente externo: cenários políticos, econômicos, sociais, tecnológicos e as tendências que impactam a organização. As decisões estratégicas envolvem alta incerteza, são pouco estruturadas e têm impacto duradouro. Exemplos no setor público: o Plano Estratégico Institucional (PEI) de um órgão, o Plano Nacional de Educação (PNE), a Estratégia Nacional de Defesa (END) e a própria Dimensão Estratégica do PPA.
Planejamento Tático: é o nível departamental ou de área, de médio prazo (1 a 3 anos). Traduz as diretrizes estratégicas em planos específicos para cada unidade organizacional (diretoria, coordenadoria, superintendência). Define metas setoriais, projetos e responsáveis, alocando recursos para atingir os objetivos estratégicos. As decisões táticas são mais estruturadas e previsíveis que as estratégicas, mas ainda envolvem certo grau de incerteza. Exemplos: Plano Diretor de Tecnologia da Informação (PDTIC), Plano de Logística Sustentável (PLS), Plano Anual de Capacitação e o Plano de Contratações Anual (PCA).
Planejamento Operacional: é o nível de execução, de curto prazo (até 1 ano). Transforma os planos táticos em tarefas, rotinas, cronogramas e orçamentos detalhados. Define quem faz, quando faz, com que recursos e como faz. As decisões operacionais são altamente estruturadas, com baixo grau de incerteza e impacto limitado no tempo. Exemplos: cronograma de execução de uma obra, roteiro de fiscalização, escala de plantão, calendário de manutenção preventiva.
Quadro comparativo dos três níveis:
| Dimensão | Estratégico | Tático | Operacional |
|---|---|---|---|
| Prazo | Longo (3 a 10 anos) | Médio (1 a 3 anos) | Curto (até 1 ano) |
| Abrangência | Toda a organização | Área/departamento | Atividade/tarefa |
| Decisor | Alta administração | Gerentes/diretores | Supervisores/chefes |
| Risco/Incerteza | Alto | Médio | Baixo |
| Flexibilidade | Grande | Média | Pequena |
| Pergunta-chave | O que fazer e por quê? | Como fazer? | Quem, quando e com quê? |
Identidade Organizacional: Missão, Visão, Valores e Negócio
Antes de formular qualquer estratégia, a organização precisa definir claramente sua identidade, respondendo a quatro perguntas fundamentais:
Missão: é a razão de existir da organização no presente. Define o propósito, a finalidade última para a qual a organização foi criada e a quem ela serve. A missão deve ser concisa, inspiradora e compreensível para todos os públicos. Uma boa missão responde às perguntas: quem somos? O que fazemos? Para quem fazemos? Exemplo: a missão do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) é "transformar a gestão pública para gerar mais valor para a sociedade".
Visão: é a imagem do futuro desejado, a posição que a organização pretende ocupar em determinado horizonte temporal. A visão deve ser ambiciosa, desafiadora, mas factível, servindo como farol que orienta os esforços de todos. Exemplo: "Ser referência em excelência na prestação de serviços públicos até 2030".
Valores: são os princípios éticos e morais que orientam a conduta da organização e de seus integrantes. Expressam a cultura organizacional desejada e os limites dentro dos quais a estratégia será executada. Valores típicos no setor público: integridade, transparência, impessoalidade, compromisso com o cidadão, respeito à diversidade.
Negócio: conceito originário do setor privado, define o âmbito de atuação da organização — o que ela entrega ao seu público-alvo. No setor público, o negócio é frequentemente definido em termos de políticas públicas e serviços prestados. Exemplo: "Regulação e fiscalização do mercado de valores mobiliários".
Macete para a prova: Missão = presente (razão de ser); Visão = futuro (onde quer chegar); Valores = princípios éticos; Negócio = escopo de atuação.
Análise de Ambiente: SWOT/FOFA
Ferramenta de diagnóstico estratégico obrigatória no ciclo do planejamento, a Análise SWOT (ou FOFA, na versão em português) sistematiza o levantamento de quatro dimensões:
Forças (Strengths): recursos, capacidades e vantagens internas da organização — o que ela faz bem;
Fraquezas (Weaknesses): limitações, lacunas e deficiências internas que precisam ser superadas;
Oportunidades (Opportunities): fatores externos favoráveis que podem ser aproveitados;
Ameaças (Threats): fatores externos desfavoráveis que impõem riscos aos objetivos organizacionais.
As Forças e Fraquezas são variáveis internas e controláveis; as Oportunidades e Ameaças são variáveis externas e não controláveis. O planejamento estratégico cruza essas dimensões para formular respostas: potencializar forças sobre oportunidades, proteger fraquezas de ameaças e converter fraquezas em forças.
No setor público, a análise de ambiente externo costuma utilizar a ferramenta PESTEL (Político, Econômico, Social, Tecnológico, Ecológico e Legal) para mapear os macrofatores que condicionam a atuação governamental.
Balanced Scorecard (BSC) de Kaplan e Norton
O Balanced Scorecard foi criado por Robert S. Kaplan e David P. Norton e apresentado ao mundo no artigo "The Balanced Scorecard — Measures that Drive Performance", publicado na Harvard Business Review em janeiro-fevereiro de 1992. A pesquisa que deu origem ao BSC foi motivada pela percepção de que os sistemas de medição de desempenho das empresas estavam excessivamente focados em indicadores financeiros, que refletem apenas o passado e são inadequados para orientar a criação de valor futuro.
O BSC propõe um conjunto equilibrado (balanced) de indicadores financeiros e não financeiros, organizados em quatro perspectivas que mantêm entre si uma relação de causa e efeito, de baixo para cima. A lógica subjacente é: investimentos em pessoas e sistemas (aprendizado e crescimento) geram melhorias nos processos internos, que por sua vez aumentam a satisfação dos clientes, o que finalmente se traduz em resultados financeiros superiores.
As Quatro Perspectivas Clássicas do BSC
Perspectiva Financeira (topo no setor privado): responde à pergunta "como devemos ser vistos pelos acionistas?". Os objetivos financeiros representam a meta final da estratégia empresarial: crescimento, lucratividade, geração de valor. Indicadores típicos: retorno sobre o investimento (ROI), margem operacional, receita, EVA (Economic Value Added).
Perspectiva do Cliente: responde à pergunta "como devemos ser vistos pelos nossos clientes?". Identifica os segmentos de mercado-alvo e a proposta de valor que a organização oferece. Indicadores típicos: satisfação, fidelização, participação de mercado, aquisição de novos clientes.
Perspectiva dos Processos Internos: responde à pergunta "em quais processos devemos ser excelentes?". Identifica os processos críticos nos quais a organização precisa ter excelência para entregar a proposta de valor aos clientes: inovação, operações, gestão de clientes, processos regulatórios e sociais.
Perspectiva de Aprendizado e Crescimento (base): responde à pergunta "como sustentaremos nossa capacidade de mudar e melhorar?". Refere-se aos ativos intangíveis da organização: competências das pessoas, sistemas de informação, cultura organizacional, alinhamento e trabalho em equipe.
Para cada objetivo estratégico, dentro de cada perspectiva, definem-se quatro elementos que compõem o sistema de gestão do BSC:
Indicadores (métricas): como o objetivo será medido?
Metas: qual o valor a ser alcançado em determinado prazo?
Iniciativas (projetos/ações): o que será feito para atingir a meta?
Responsáveis: quem responde por cada iniciativa?
Indicadores de Resultado e de Tendência
O BSC distingue dois tipos fundamentais de indicadores:
Indicadores de resultado (lagging indicators): medem o que já aconteceu; refletem o desempenho passado. Exemplo: receita do exercício, índice de satisfação do cliente apurado ao final do ano.
Indicadores de tendência (leading indicators): medem fatores que antecipam resultados futuros; permitem ação corretiva antes que o problema se consolide. Exemplo: horas de treinamento por servidor, número de processos revisados preventivamente.
Um BSC robusto deve equilibrar indicadores dos dois tipos: os de resultado avaliam se a estratégia funcionou; os de tendência sinalizam se ela está funcionando.
Mapa Estratégico
Em 2000, Kaplan e Norton publicaram The Strategy-Focused Organization, e em 2004, Strategy Maps, obras que consolidaram o mapa estratégico como a ferramenta visual central do BSC. O mapa estratégico é a representação gráfica dos objetivos das quatro perspectivas conectados por relações verticais de causa e efeito. Ele conta a "história da estratégia" em uma única página, permitindo que todos na organização compreendam como seus esforços contribuem para os objetivos maiores.
O mapa estratégico segue a arquitetura de baixo para cima: os objetivos de aprendizado e crescimento sustentam os objetivos de processos internos, que por sua vez geram resultados para os clientes e, finalmente, para os acionistas (no setor privado) ou para a sociedade (no setor público).
Adaptação do BSC ao Setor Público
A transposição do BSC para o setor público exige adaptações significativas, pois a finalidade precípua do Estado não é gerar lucro, mas produzir valor público para a sociedade. O Decreto nº 9.203/2017 define valor público como "produtos e resultados gerados, preservados ou entregues pelas atividades de uma organização que representem respostas efetivas e úteis às necessidades ou às demandas de interesse público" (art. 2º, II).
A principal adaptação consiste em inverter a hierarquia das perspectivas: a perspectiva do cidadão/sociedade é alçada ao topo do mapa estratégico, enquanto a perspectiva financeira é reposicionada como perspectiva habilitadora (meio), ao lado de aprendizado e crescimento.
A adaptação mais difundida no Brasil, chancelada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e pela Secretaria de Gestão (SEGES/MGI), sugere a seguinte estrutura:
Perspectiva da Sociedade/Cidadão (topo): quais resultados de valor público queremos gerar?
Perspectiva dos Processos Internos: quais processos sustentam esses resultados?
Perspectiva de Aprendizado e Crescimento: pessoas, sistemas, cultura.
Perspectiva de Recursos/Financeira (base): orçamento e recursos necessários.
Casos emblemáticos de BSC no setor público brasileiro incluem o Mapa Estratégico do TCU, o plano estratégico do Superior Tribunal de Justiça (STJ), cujo planejamento 2021–2026 adotou o BSC como metodologia, e o plano estratégico do Conselho da Justiça Federal (CJF). O STJ, a partir de 2004, deu um salto qualitativo ao adotar formalmente o BSC, alinhando sua estratégia ao modelo de gestão preconizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Os Cinco Princípios da Organização Orientada à Estratégia
Em The Strategy-Focused Organization (2000), Kaplan e Norton identificaram cinco princípios comuns às organizações bem-sucedidas na implementação da estratégia:
Traduzir a estratégia em termos operacionais: a estratégia não pode permanecer como um documento abstrato e genérico; deve ser desdobrada em mapas estratégicos, indicadores, metas e iniciativas que orientem a ação cotidiana de cada unidade.
Alinhar a organização à estratégia: as unidades de negócio, os departamentos e as equipes devem ter seus próprios scorecards alinhados ao scorecard corporativo, criando sinergia e evitando que cada área "puxe para seu lado".
Tornar a estratégia tarefa de todos: a estratégia deve ser comunicada intensamente a todos os níveis, e cada pessoa deve compreender como seu trabalho contribui para os objetivos estratégicos. Instrumentos como BSC pessoal e remuneração variável vinculada a metas estratégicas reforçam esse princípio.
Converter a estratégia em processo contínuo: a gestão estratégica não é um evento anual; é um processo permanente que integra planejamento, orçamento, execução, monitoramento e aprendizado. As revisões periódicas da estratégia (reuniões de strategy review) são essenciais para testar hipóteses e corrigir rotas.
Mobilizar mudança via liderança executiva: a transformação estratégica exige patrocínio ativo e visível da alta administração. Os líderes devem comunicar a visão, remover obstáculos, alocar recursos e modelar os comportamentos desejados. Sem liderança comprometida, o BSC se reduz a um exercício burocrático de preenchimento de planilhas.
OKR — Objectives and Key Results
Metodologia originária do setor de tecnologia (criada por Andy Grove na Intel e popularizada pelo Google), os OKRs vêm sendo crescentemente adotados na gestão pública brasileira, inclusive referenciados em planejamentos estratégicos de órgãos federais.
Cada OKR é composto de dois elementos:
Objetivo (Objective): declaração qualitativa, inspiradora e ambiciosa do que se pretende alcançar. Exemplo: "Tornar o atendimento ao cidadão referência em agilidade e qualidade".
Resultados-Chave (Key Results): entre 2 e 5 métricas quantitativas e verificáveis que indicam se o objetivo foi alcançado. Exemplo: "Reduzir o tempo médio de resposta a solicitações de 15 para 5 dias úteis até dezembro".
Os OKRs distinguem-se do BSC pela maior frequência de revisão (trimestral vs. anual) e pela natureza deliberadamente ambiciosa das metas (moonshots): alcançar 70% do key result já é considerado sucesso. Enquanto o BSC é uma metodologia abrangente de gestão da estratégia, os OKRs são mais enxutos e focados na execução de ciclos curtos.
O PPA, a LDO e a LOA como Expressão do Planejamento Público
O art. 165 da Constituição Federal de 1988 estabelece o tripé orçamentário brasileiro, que materializa os três níveis de planejamento no âmbito da administração pública federal, estadual e municipal:
Art. 165. Leis de iniciativa do Poder Executivo estabelecerão: I - o plano plurianual; II - as diretrizes orçamentárias; III - os orçamentos anuais.
O Plano Plurianual (PPA), previsto no art. 165, §1º, tem vigência de quatro anos (do segundo ano do mandato presidencial ao primeiro ano do mandato seguinte), e estabelece, de forma regionalizada, as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas a programas de duração continuada. O PPA corresponde ao nível estratégico do planejamento governamental.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), prevista no art. 165, §2º, tem vigência anual e orienta a elaboração da lei orçamentária anual, dispõe sobre as alterações na legislação tributária e estabelece a política de aplicação das agências financeiras oficiais de fomento. A LDO exerce a função de ponte tática entre o PPA e a LOA, operacionalizando as prioridades estratégicas para o exercício seguinte. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LC nº 101/2000) ampliou o conteúdo da LDO, exigindo o Anexo de Metas Fiscais e o Anexo de Riscos Fiscais.
A Lei Orçamentária Anual (LOA), prevista no art. 165, §5º, tem vigência anual e compreende três orçamentos: o orçamento fiscal, o orçamento de investimento das empresas estatais e o orçamento da seguridade social. A LOA corresponde ao nível operacional do planejamento, detalhando as receitas previstas e as despesas fixadas para o exercício financeiro.
O PPA 2024–2027 (Lei nº 14.802, de 10 de janeiro de 2024) inovou ao estruturar-se explicitamente em três dimensões articuladas. A Dimensão Estratégica (Anexo I da lei) é composta pela Visão de Futuro, Valores, Diretrizes, Eixos Temáticos, Objetivos Estratégicos, Indicadores-Chave Nacionais e Metas. A Dimensão Tática é materializada nos Programas Finalísticos e de Gestão, com objetivos específicos, entregas, indicadores e metas. A Dimensão Operacional corresponde às ações orçamentárias e não orçamentárias que viabilizam a execução dos programas.
Governança Pública e Planejamento Estratégico
O Decreto nº 9.203, de 22 de novembro de 2017, que dispõe sobre a política de governança da administração pública federal direta, autárquica e fundacional, define governança pública como o "conjunto de mecanismos de liderança, estratégia e controle postos em prática para avaliar, direcionar e monitorar a gestão, com vistas à condução de políticas públicas e à prestação de serviços de interesse da sociedade" (art. 2º, I).
O art. 5º do decreto elenca três mecanismos para o exercício da governança pública:
I — Liderança: conjunto de práticas de natureza humana ou comportamental exercida nos principais cargos das organizações, para assegurar as condições mínimas para o exercício da boa governança;
II — Estratégia: a definição de diretrizes, objetivos, planos e ações, além de critérios de priorização e alinhamento entre organizações e partes interessadas, para que os serviços e produtos da organização alcancem o resultado pretendido;
III — Controle: processos estruturados para mitigar riscos com vistas ao alcance dos objetivos institucionais e para garantir a execução ordenada, ética, econômica, eficiente e eficaz das atividades.
O art. 6º do decreto impõe à alta administração o dever de implementar mecanismos de governança que incluam formas de acompanhamento de resultados, soluções para melhoria do desempenho e instrumentos de promoção do processo decisório fundamentado em evidências.
A relação entre governança e planejamento estratégico é visceral: sem planejamento estratégico robusto, o mecanismo de estratégia da governança pública fica esvaziado, e a organização perde a capacidade de direcionar suas ações para a geração de valor público.
Referencial Básico de Governança do TCU
O TCU publicou o Referencial Básico de Governança Aplicável a Órgãos e Entidades da Administração Pública (cuja versão mais difundida é de 2014, com atualizações posteriores), que organiza a governança pública em oito mecanismos agrupados em três componentes: liderança, estratégia e controle. O referencial serve de parâmetro para auditorias operacionais do TCU e orienta a autoavaliação de governança por parte dos órgãos federais. É diretamente baseado em boas práticas internacionais (IFAC, COSO, ISO 31000) e alinhado ao Decreto nº 9.203/2017.
Eficiência, Eficácia e Efetividade
Tríade fundamental para concursos e para a compreensão do planejamento orientado a resultados:
Eficiência: relação entre os resultados obtidos e os recursos consumidos. Fazer mais com menos; minimizar custos para determinado nível de produção. Vincula-se ao processo (como se faz). Exemplo: reduzir o custo unitário de um serviço público mantendo a qualidade.
Eficácia: grau de alcance dos objetivos e metas preestabelecidas, independentemente dos recursos utilizados. Fazer a coisa certa; atingir o resultado planejado. Vincula-se ao produto (o que se entrega). Exemplo: cumprir 100% das metas de vacinação estipuladas.
Efetividade: impacto real e duradouro gerado na sociedade pelos produtos e serviços entregues. É a dimensão do resultado final (outcome), não apenas do produto (output). Vincula-se ao valor público gerado. Exemplo: a vacinação reduziu a mortalidade infantil por determinada doença em 40%.
A distinção entre output (produto entregue pelo Estado) e outcome (impacto gerado na realidade social) é central na gestão por resultados: é possível ser eficaz (entregar o produto planejado) e, ainda assim, inefetivo (não gerar o impacto esperado na sociedade).
Armadilhas, Críticas e Desafios
A implementação do planejamento estratégico e do BSC enfrenta obstáculos recorrentes, tanto no setor privado quanto no público:
Confundir planejamento com orçamento: o orçamento é instrumento financeiro de implementação; o plano estratégico vem antes e deve orientar a alocação orçamentária, não o contrário. A cultura de "orçar primeiro, planejar depois" é patologia persistente no setor público.
Tratar o plano como produto, não como processo: o documento formal do plano é apenas a ponta do iceberg. Planejar é atividade contínua de pensar o futuro, revisitar premissas, testar hipóteses e aprender com resultados. O plano que "fica na gaveta" é sintoma de planejamento ritualístico.
Excesso de formalismo sem aprendizado: a chamada escola do Planejamento (na tipologia de Mintzberg) tende a gerar planos excessivamente detalhados, rígidos e descolados da realidade. A estratégia emergente — aquela que surge da prática cotidiana, sem ter sido deliberadamente planejada — é frequentemente ignorada ou combatida, em vez de incorporada.
Falta de desdobramento: os objetivos estratégicos permanecem genéricos e abstratos porque não são traduzidos em metas táticas e planos operacionais com responsáveis claros.
Ausência de indicadores e revisão periódica: faltam o Check e o Act do PDCA. Sem medir resultados e ajustar rotas, o planejamento se degenera em peça de ficção.
Armadilha do curto prazo: a pressão por resultados imediatos, típica do ciclo político-eleitoral, conspira contra o planejamento de longo prazo. Políticas públicas estruturais, cujos resultados só amadurecem em anos ou décadas, são frequentemente preteridas em favor de ações de visibilidade imediata.
Julgado Estruturante do STF sobre Planejamento e Orçamento
RE 592.581/RS (Tema 220 de Repercussão Geral). O Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, fixou a seguinte tese:
"É lícito ao Judiciário impor à Administração Pública obrigação de fazer, consistente na promoção de medidas ou na execução de obras emergenciais em estabelecimentos prisionais para dar efetividade ao postulado da dignidade da pessoa humana e assegurar aos detentos o respeito à sua integridade física e moral, nos termos do que preceitua o art. 5º, XLIX, da Constituição Federal, não sendo oponível à decisão o argumento da reserva do possível nem o princípio da separação dos poderes."
O acórdão consagrou três diretrizes relevantes para o direito administrativo e o planejamento público: (1) os direitos fundamentais dos presos têm eficácia plena e aplicabilidade imediata, não se tratando de meras normas programáticas; (2) o argumento da reserva do possível não pode ser invocado para obstaculizar a efetivação de direitos fundamentais em condições de completo abandono pelo Poder Executivo; (3) o princípio da separação dos poderes não impede a intervenção judicial quando há omissão massiva e sistemática da Administração em garantir direitos constitucionais. A decisão reforça que o planejamento orçamentário é dever constitucional, mas não pode ser utilizado como escudo para perpetuar situações de violação grave de direitos.
(RE 592.581/RS, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, j. 13/08/2015, DJe 01/02/2016.)
ADPF 347 — O Estado de Coisas Inconstitucional
Julgado diretamente relacionado ao tema do planejamento e das políticas públicas prisionais, a ADPF 347 (Rel. Min. Marco Aurélio, j. 09/09/2015) reconheceu a existência de um Estado de Coisas Inconstitucional (ECI) no sistema carcerário brasileiro. O ECI é reconhecido quando há: (a) violação massiva e generalizada de direitos fundamentais; (b) omissão reiterada e intransigente das autoridades públicas no dever de sanar a violação; e (c) necessidade de adoção de medidas estruturais que exijam a atuação de múltiplos órgãos. Na medida cautelar, o STF determinou, entre outras providências, que a União realizasse audiências de custódia e liberasse os recursos do Fundo Penitenciário Nacional (FUNPEN) bloqueados. A doutrina do ECI, de origem colombiana, representa o mais avançado instrumento de controle jurisdicional de políticas públicas e tem implicações diretas sobre o planejamento e a execução orçamentária.
Para a Prova — Síntese dos Pontos Mais Cobrados
Mintzberg e os 5 Ps: Plan (plano), Ploy (manobra), Pattern (padrão), Position (posição), Perspective (perspectiva). Publicados em artigo de 1987 na California Management Review.
Mintzberg — formas de estratégia: pretendida → deliberada + emergente → realizada. A estratégia realizada raramente é igual à pretendida.
10 escolas de Mintzberg: obra Strategy Safari (1998), com Ahlstrand e Lampel. Não confundir com o artigo dos 5 Ps (1987).
Três níveis de planejamento: estratégico (longo prazo, alta administração, o quê e por quê), tático (médio prazo, áreas, como), operacional (curto prazo, execução, quem, quando, com quê).
Identidade organizacional: Missão = presente (razão de ser); Visão = futuro (onde quer chegar); Valores = princípios éticos; Negócio = escopo de atuação.
BSC de Kaplan e Norton (HBR, 1992): quatro perspectivas integradas por relação de causa e efeito: financeira, cliente, processos internos, aprendizado e crescimento. Para cada objetivo: indicador, meta, iniciativa e responsável.
Indicadores: lagging (resultado, olham o passado) vs. leading (tendência, antecipam o futuro).
Mapa Estratégico: representação gráfica dos objetivos conectados por relações de causa e efeito — livro Strategy Maps (Kaplan e Norton, 2004).
Adaptação do BSC ao setor público: sociedade/cidadão no topo, financeira na base (meio, não fim). Foco em valor público (Decreto 9.203/2017, art. 2º, II).
Cinco princípios da organização orientada à estratégia: traduzir, alinhar, tornar tarefa de todos, processo contínuo, liderança executiva.
PDCA no planejamento: Plan-Do-Check-Act; a ausência de Check e Act é a causa do planejamento ritualístico.
Eficiência (processo/recursos) × Eficácia (meta/produto) × Efetividade (impacto/outcome na sociedade).
PPA (estratégico, 4 anos), LDO (tático, anual), LOA (operacional, anual): art. 165 da CF/88. PPA 2024–2027 (Lei 14.802/2024): estrutura em Dimensão Estratégica, Tática e Operacional.
Decreto nº 9.203/2017: governança pública = mecanismos de liderança, estratégia e controle (art. 2º, I). Art. 5º: liderança (I), estratégia (II) e controle (III).
RE 592.581/RS (Tema 220, STF, 2015, DJe 01/02/2016): Judiciário pode impor obrigações de fazer à Administração para garantir direitos fundamentais de presos; não é oponível o argumento da reserva do possível nem o princípio da separação dos poderes.
ADPF 347 (STF, 2015): reconheceu o Estado de Coisas Inconstitucional no sistema prisional brasileiro.
OKR (Objectives and Key Results): metodologia de ciclos curtos (trimestrais), metas ambiciosas, crescentemente adotada no setor público. Difere do BSC na amplitude e na frequência de revisão.
Exercícios:
No contexto do planejamento estratégico no setor público, qual é o principal objetivo do nível institucional?
Qual das seguintes alternativas melhor descreve a função do Balanced Scorecard (BSC) no setor público?
No Mapa Estratégico, qual é a função das relações de causa e efeito entre os objetivos?
De acordo com a aula, qual é a função principal do PPA (Plano Plurianual) no contexto do planejamento estratégico federal?
Quais são os cinco princípios da organização orientada à estratégia mencionados na aula?
Qual dos seguintes elementos compõe a identidade organizacional segundo o conteúdo apresentado na aula?
[SIRGH 19 2025] Qual das alternativas compõe o processo de planejamento público?
Complete a frase: Na concepção de Henry Mintzberg sobre estratégia, a noção de estratégia como _____ refere-se à localização de determinados produtos em determinados mercados.
Complete a frase: De acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, o argumento da _____ não pode ser invocado para obstaculizar a efetivação de direitos fundamentais em condições de completo abandono pelo Poder Executivo no sistema prisional.
Complete a frase: Na adaptação do Balanced Scorecard para o setor público, a perspectiva _____ é reposicionada para atuar como um habilitador, fornecendo os meios necessários para o alcance dos objetivos institucionais.
Complete a frase: O padrão de comportamento estratégico que se consolida na prática da organização a partir da adaptação cotidiana, sem ter sido previamente formulado pela alta gestão, é denominado estratégia _____.
Complete a frase: Os indicadores de _____, essenciais no Balanced Scorecard, caracterizam-se por medir fatores que antecipam resultados futuros e permitem a adoção de ações corretivas tempestivas.
Complete a frase: O conceito de _____, fundamental na avaliação de políticas públicas e na gestão por resultados, diz respeito ao impacto real e duradouro gerado na sociedade pelos produtos entregues pelo Estado.
Complete a frase: A _____ de uma organização atua como um farol orientador de médio e longo prazo, descrevendo a posição futura que a instituição ambiciona ocupar em determinado horizonte temporal.
Complete a frase: No ciclo orçamentário brasileiro, a _____ exerce a função de ponte tática entre o planejamento estratégico de longo prazo e a execução orçamentária de curto prazo.
Complete a frase: O nível de planejamento _____ caracteriza-se pelo foco no médio prazo e por traduzir as diretrizes amplas da alta administração em metas específicas para as diferentes unidades organizacionais.
Complete a frase: Consoante o Decreto nº 9.203/2017, a governança pública baseia-se em um conjunto de mecanismos que englobam liderança, _____ e controle, estruturados para avaliar, direcionar e monitorar a gestão.