O Contexto Histórico de Thomas Hobbes: O Medo e a Guerra – Filosofia | Tuco-Tuco
Para entender a filosofia política de Hobbes, é indispensável analisar o conturbado panorama histórico da Inglaterra do século XVII
O Conturbado Contexto Histórico de Thomas Hobbes
Bem-vindos a esta aula sobre o contexto histórico e biográfico que moldou a mente de Thomas Hobbes (1588–1679).
Não é possível entender a defesa contundente que Hobbes faz de um Estado absoluto sem compreender o cenário de guerra, medo e instabilidade em que ele viveu. A trajetória de Hobbes cruza com alguns dos eventos mais dramáticos da Idade Moderna, desde ameaças de invasão estrangeira até uma sangrenta guerra civil na Inglaterra.
Vamos dividir a sua vida e o seu tempo em seis momentos fundamentais.
O Berço do Medo: A Ameaça da Armada Espanhola (1588)
Thomas Hobbes nasceu em 5 de abril de 1588, na pequena cidade de Westport, na Inglaterra. O ano do seu nascimento foi marcado por um imenso terror nacional: a aproximação da Invencível Armada espanhola, enviada pelo rei Filipe II para invadir a Inglaterra.
O clima de pânico perante o ataque inimigo foi tão grande que afetou a sua própria família. Anos mais tarde, refletindo sobre as circunstâncias do seu nascimento, Hobbes escreveu uma frase que se tornou célebre: "Minha mãe deu à luz gêmeos: eu mesmo e o medo". Filho de um clérigo pouco instruído e tendo sido abandonado pelo pai, Hobbes acabou sendo criado pelo tio, que lhe proporcionou uma sólida formação clássica. Aos 14 anos já traduzia a tragédia grega Medeia para o latim e, aos 15, ingressou na Universidade de Oxford, onde teve contato com a lógica escolástica e aristotélica dominante — teorias contra as quais ele se rebelaria pelo resto da vida.
A Formação Intelectual e os Contatos Científicos (Início do Séc. XVII)
A virada na vida de Hobbes ocorreu em 1608, quando, recém-formado, ele se tornou tutor de William Cavendish (Lord Hardwick e futuro Conde de Devonshire). Essa duradoura ligação com uma rica família aristocrática permitiu-lhe viajar pela Europa Continental a partir de 1610.
Essas viagens inseriram Hobbes no epicentro da Revolução Científica. Ele travou amizade e debateu com as mentes mais brilhantes da época:
Em 1618, conheceu Francis Bacon, com quem partilhou a dura crítica à escolástica e à submissão da filosofia à teologia.
Em Paris, relacionou-se com o círculo de Marin Mersenne, Gassendi e René Descartes (cujas teses metafísicas ele refutaria).
Em 1636, em Arcetri (perto de Florencia), Hobbes visitou Galileu Galilei, que na época cumpria condena sob as ordens da Igreja Católica. O encontro com Galileu foi decisivo: inspirou Hobbes a aplicar o raciocínio da física mecanicista e geométrica (os corpos em movimento) ao estudo da política e da sociedade.
Tensão Política e Radicalização na Inglaterra (Anos 1630)
Hobbes regressou à Inglaterra em 1637 e deparou-se com um clima político altamente inflamável. A nação vivia uma escalada de tensões entre a monarquia absolutista da dinastia Stuart, representada pelo rei Carlos I, e o Parlamento, que exigia maiores poderes políticos e limites para a atuação do monarca. Essa disputa de poder secular somava-se a intensos conflitos de cunho religioso na época.
Hobbes era um firme defensor da centralização do poder nas mãos do Rei para garantir a ordem pública. A situação se deteriorou gravemente em 1640 quando os principais conselheiros e aliados do rei — o Arcebispo William Laud e o Conde de Strafford — foram acusados de conspiração pelo Parlamento e aprisionados na famosa Torre de Londres. Temendo que as suas ideias políticas o tornassem um alvo de perseguições, Hobbes fugiu para a França.
A Guerra Civil Inglesa e o Exílio Francês (1640–1651)
O exílio voluntário de Hobbes em Paris duraria 11 anos. Durante esse período, a Inglaterra explodiu na destrutiva Guerra Civil Inglesa (1642–1651). De longe, Hobbes testemunhou a materialização dos seus piores receios: a ordem social inglesa ruiu por completo num banho de sangue provocado por disputas de poder.
Foi um período intenso para o filósofo. Na França continental, ele não apenas escreveu extensamente (publicando a obra De Cive em 1642), mas também foi contratado, entre 1646 e 1648, como professor de matemática do Príncipe de Gales, Carlos Estuardo (o futuro rei Carlos II), que também havia fugido para o exílio após o pai, Carlos I, ser deposto e executado pelos revolucionários.
O Retorno à Inglaterra sob o Regime de Cromwell (1651)
No último ano da Guerra Civil (1651), Hobbes publicou a sua obra-prima, O Leviatã. Ironicamente, o livro desagradou profundamente os monarquistas, o Governo Francês e a Igreja Católica. O motivo principal foi o teor extremamente laico e anticlerical da obra, além de Hobbes ter justificado o absolutismo por meio de um pacto social racional dos homens, e não pelo direito "divino" concedido por Deus aos reis.
Pressionado a abandonar a França, Hobbes voltou para Londres. A Inglaterra, agora, não era mais uma monarquia, e sim uma República sob o comando inflexível de Oliver Cromwell (Lord Protetor). Fiel ao seu pragmatismo filosófico — de que o fundamental é haver um governo capaz de garantir a paz e a segurança, não importando a sua forma —, Hobbes declarou a sua total submissão e lealdade ao novo regime de fato liderado por Cromwell.
A Restauração Monárquica e Anos Finais (1660–1679)
A República ruiu pouco depois da morte de Cromwell e a monarquia foi restaurada em 1660, sob a coroa de Carlos II (o antigo aluno de Hobbes no exílio francês). Hobbes reiniciou a sua amizade com o rei e foi recompensado com uma pensão real.
No entanto, a vida na Inglaterra ainda guardaria sobressaltos. Em 1666, ocorreu o trágico Grande Incêndio de Londres. No rescaldo da tragédia, buscando bodes expiatórios para a "ira divina", Hobbes foi perseguido pelas autoridades sob acusações de promover o ateísmo. A partir desse episódio, ele encontrou grandes dificuldades para publicar novos textos na Inglaterra.
Manteve-se ativo até os últimos dias da sua vida, escrevendo uma análise retrospectiva das causas da Guerra Civil Inglesa (o livro Behemoth, de 1668), redigindo sua autobiografia e traduzindo para o latim os versos da Ilíada e da Odisseia*. Thomas Hobbes faleceu em 4 de dezembro de 1679, aos 91 anos de idade, encerrando uma das trajetórias intelectuais mais longevas e fascinantes da Modernidade.
Síntese
Analisando este percurso, fica muito mais claro por que Hobbes via o "Estado de Natureza" como uma ameaça constante de guerra e extermínio. Ele cresceu sob a iminência de uma invasão marítima estrangeira, viveu a desestruturação do seu país numa sangrenta Guerra Civil e sofreu no exílio. Para Hobbes, o caos político e o derramamento de sangue não eram construções teóricas; eles foram a realidade assustadora da sua geração, levando-o a concluir que apenas um poder forte, secular e absoluto poderia evitar a autodestruição humana.